====== Crítica da razão cínica ====== //SLOTERDIJK, Peter. Kritik der zynischen Vernunft. 2 Bde. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1983.// 1. Há um século a filosofia agoniza sem poder morrer, por não ter ainda cumprido sua missão, e nessa agonia brilhante, quando não se converte em mera administração de pensamentos, acaba por confessar seu último segredo: os grandes temas, como Deus, universo, teoria, práxis, sujeito, objeto, corpo, espírito, sentido e o nada, não passaram de fugas e meias verdades, substantivos destinados a jovens, marginalizados, clérigos e sociólogos. 2. As palavras, meros substantivos, carregam um poder de evocação tão vasto que basta abrirem as asas para que milênios inteiros desabem de seu voo, como expressa o verso de Gottfried Benn. 3. A filosofia tardia, disposta à confissão, relega os grandes temas à rubrica histórica como pecados de juventude, pois no pensamento contemporâneo, esclarecido e apático, não resta centelha alguma do impulso dos conceitos nem do êxtase da compreensão, e diante do que se sabe já não se cogita amá-lo, mas apenas descobrir como conviver com esse saber sem se petrificar. 4. A máxima "saber é poder", que no século XIX se tornou a coveira da filosofia, resume ao mesmo tempo toda a tradição filosófica e inaugura sua agonia secular, encerrando o saber como teoria erótica, amor à verdade e verdade do amor, e fazendo surgir do cadáver da filosofia as ciências modernas e as teorias do poder armadas até os dentes, de modo que quem a pronuncia diz a verdade, mas quer com ela algo mais: ingressar no jogo do poder. 5. Na época em que Nietzsche desentranhava sob cada vontade de saber uma vontade de poder, a antiga social-democracia alemã convocava seus membros à competição pelo poder que é saber, de modo que ambos falavam de poder por vias opostas: Nietzsche minando de forma vitalista o idealismo burguês e ensinando à burguesia um realismo sem ideal, a social-democracia buscando, por meio da formação, conectar-se ao idealismo que até então portara as esperanças de poder da burguesia. 6. Por volta de 1900 a ala radical da esquerda já havia alcançado o cinismo senhorial da direita, e da competição entre a consciência cinicamente defensiva dos antigos detentores do poder e a consciência utopicamente ofensiva dos novos nasceu o drama político-moral do século XX, com sua penumbra característica de espreita mútua das ideologias, assimilação dos contrários e modernização do engano, situação em que o mendaz chama o mendaz de mendaz. 7. Uma segunda atualidade de Nietzsche se manifesta depois que a primeira onda nietzschiana, a fascista, se acalmou, revelando o desgaste da roupagem cristã da civilização ocidental e a perda repentina de um impulso ingênuo após décadas de reconstrução e de utopias, enquanto os novos valores, procurados como analgésicos, são recebidos por uma época cínica que sabe que têm pernas curtas e aguarda, agachada, que passe a onda de palavrório, duvidando de viver numa história coerente. 8. O eterno retorno do idêntico, pensamento mais subversivo de Nietzsche, insustentável cosmologicamente mas fecundo do ponto de vista morfológico-cultural, encontra-se com um novo avanço de motivos cínicos já desenvolvidos na Roma imperial e no Renascimento, traduzidos numa vida voltada ao prazer, disposta a tudo, que vive apesar da história, opõe ironia à política, desconfia dos projetos e, como cultura neopagã sem crença no além, busca a vida antes da morte. 9. A autodesignação decisiva de Nietzsche como "cínico", frequentemente ignorada, fez dele, ao lado de Marx, o pensador mais influente do século, pois em seu cinismo se apresenta uma relação modificada com o ato de dizer a verdade, convertida em estratégia e tática, suspeita e desinibição, pragmatismo e instrumentalismo, sob a manobra de um eu político que pensa sobretudo em si mesmo, transige por dentro e se encouraça por fora. 10. O forte impulso antirracionalista nos países ocidentais reage a um estado espiritual em que todo pensamento se tornou estratégia, testemunhando uma náusea diante de certa forma de autoconservação e um sensível dar de ombros perante o hálito gélido de uma realidade em que saber é poder e poder é saber, sendo justamente a leitores que sentem dessa maneira que esta crítica se dirige. 11. A antiga social-democracia anunciava "saber é poder" como receita racional movida por uma confiança pequeno-burguesa na escola, confiança hoje em decomposição, já que, salvo para estudantes de medicina, quase todos correm o risco de aprender para o vazio, e cresce entre muitos a intuição do antigo quinismo de que primeiro é preciso ter a vida mais fácil para depois aprender algo racional, inversão da relação entre vida e aprendizado que anuncia o fim da confiança na educação e da escolástica europeia, aterrorizando conservadores e pragmáticos, pois ninguém crê que o aprender atual resolva os problemas de amanhã, antes os provoca. **O neo-"cínico" Nietzsche, pensador da ambivalência** 1. A justificativa de uma Crítica da razão cínica, obra volumosa escrita numa época em que até livros menores soam como arrogância, exige distinguir cuidadosamente entre a ocasião, a razão e o motivo que a sustentam. **A ocasião** 1. O bicentenário da Crítica da Razão Pura de Kant, acontecimento de transcendência histórica, transcorre de modo particularmente árido, como celebração sóbria em que os eruditos não saem da corporação e seiscentos pesquisadores reunidos em Mainz produzem uma serpentina infinita, sendo útil por isso imaginar o que aconteceria se o homenageado aparecesse em pessoa entre os contemporâneos. 2. Tristes são as festas em que os convidados esperam secretamente que o homenageado esteja impedido de comparecer, porque aqueles que o invocam se envergonhariam em sua presença diante de seu olhar penetrantemente humano. 3. Ninguém ousaria oferecer a Kant uma visão da história posterior a 1795, ano de A paz perpétua, nem informá-lo sobre o estado do Esclarecimento que ele definira como saída da menoridade autoculpada, nem explicar-lhe as teses de Marx sobre Feuerbach, embora seu belo humor de homem do fim do século XVIII, menos rígido que muitos supostamente informais de hoje, provavelmente ajudasse a superar o espanto. 4. A fisionomia de Kant constitui um enigma que o princípio do mens sana in corpore sano não explica, pois, se o espírito busca o corpo correspondente, tratou-se de um espírito que se comprazia em ironias fisionômicas e paradoxos psicossomáticos, escondendo uma grande alma num corpo pequeno e seco, um andar ereto sob as costas curvadas e um humor social e cordial num ânimo hipocondríaco, como zombaria antecipada dos futuros adoradores do vital e do atlético. 5. O enigma fisionômico de Kant resolve-se menos em sua pessoa do que em sua posição na história do espírito, pois o Esclarecimento leva a dialética entre entendimento e sensibilidade até o dilaceramento, e a violência que o pensar impõe ao sensível marca a linguagem de suas obras, a ponto de Gottfried Benn chamá-lo de "violentador do espírito", sinal de que o cinismo moderno ressoa como lucidez sobre a relação quebrada entre entendimento e sensibilidade, vivência que Musil capta na leitura de Kant pelo jovem Törless. 6. Törless, tendo comprado na mesma manhã um exemplar da obra na edição Reclam que vira na casa de seu professor, começa a lê-la no primeiro recreio, mas, entre tantas notas de rodapé e parênteses, nada compreende e sente que uma velha mão ossuda lhe extrai o cérebro da cabeça com movimentos de parafuso. 7. Após meia hora, totalmente esgotado, Törless percebe que chegou apenas à segunda página e que o suor lhe escorre pela testa. 8. Apesar de tudo, cerrando os dentes, Törless consegue ler mais uma página até o fim do recreio. 9. À tarde, Törless já não ousa aproximar-se do livro, tomado por algo entre medo e repugnância, e atormenta-o ardentemente a constatação de que o professor, homem de aparência tão insignificante, mantinha a obra aberta em seu quarto como passatempo cotidiano. 10. O esboço de Musil revela tanto o fascínio do livro quanto a dor que impõe a jovens leitores sensíveis, levantando a suspeita de que o contato desprevenido com o pensamento filosófico expõe a consciência jovem a um envelhecimento violento e repentino, e perguntando o que resta da vontade juvenil de saber nessa filosofia de aparafusamentos ósseos e se o fato de homens para os quais Kant é passatempo parecerem tão insignificantes significa que a filosofia deixou de marcar a vida. 11. Do estilo dos filósofos compõem-se quadros fisionômicos em que a razão ocultou aspectos de sua própria essência, já que ser racional implica uma relação dificilmente feliz com o sensível, traduzida em desconfiar dos impulsos e dominar o corpo, embora entendimento e sensibilidade sejam inseparáveis, de modo que a transpiração de Törless encerra tanta verdade quanto todo o kantismo e, no futuro próximo, só um fisionomista poderá ser um filósofo que não mente, o que torna uma nova crítica da razão também uma fisionomia filosófica, teoria da consciência com todos os pelos e dentes. 12. Nas condições atuais não há motivo para um escrito comemorativo, mas sim para um jubileu literário que, por simpatia com o homenageado, alcance ao menos a dimensão de um caderno, mostrando, como em Erich Kästner, não como as coisas estão, mas como surge a questão. **A razão** 1. Se o mal-estar na cultura provocasse a crítica, nenhuma época estaria tão disposta a ela quanto a presente, mas nunca o impulso crítico se deixou dominar tanto por estados surdos de desânimo, pois a distância entre a pretensão crítica e o criticável torna o pensamento mais rabugento que preciso, nenhuma capacidade acompanha o problemático, e a indiferença resultante, em que tudo dá no mesmo porque tudo se tornou problemático, é o rastro que conduz ao cinismo e à razão cínica. 2. Falar de cinismo significa expor à crítica um escândalo espiritual e moral e desdobrar as condições de possibilidade do escandaloso, num movimento que esgota primeiro seus interesses na coisa para enfim colidir com as estruturas elementares da consciência moral, forçadas a falar além do bem e do mal, numa época cínica em todos os extremos que deve esclarecer o nexo entre cinismo e realismo, como sugerem Oscar Wilde ao identificar cinismo e experiência e Tchekhov ao afirmar que nenhum cinismo supera a vida. 3. O conceito de crítica revela sua duplicidade conhecida, significando por um lado julgar, fundamentar e condenar, oferecendo uma investigação dos fundamentos das formações do juízo, e por outro, quando se fala em razão cínica, colocando a própria fórmula inteiramente sob a proteção da ironia. 4. A pergunta pelos serviços que uma crítica ainda pode prestar numa época tão cansada de teoria encontra resposta em Walter Benjamin. 5. Insensatos são os que lamentam a decadência da crítica, cuja hora já passou, pois ela depende da distância correta e se sentia à vontade num mundo de perspectivas e cenários em que ainda era possível adotar um ponto de vista, enquanto agora as coisas se aproximaram corrosivamente da sociedade humana e a ingenuidade do olhar livre tornou-se mentira ou expressão de incompetência declarada. 6. Num sistema que se percebe como híbrido de prisão e caos não haverá ponto de vista descritivo nem perspectiva central de crítica inescapável. 7. Num mundo estilhaçado em infinitas perspectivas, os grandes olhares cabem mais aos ânimos discretos do que aos esclarecidos, educados pelo dado, pois nenhum Esclarecimento ocorre sem destruir o pensamento do ponto de vista e dissolver as morais perspectivas convencionais, o que corresponde psicologicamente à dispersão do eu e, literária e filosoficamente, à decadência da crítica. 8. A contradição de que o maior renascimento da crítica no século XX esteja ligado a Benjamin, que declarou passada a hora da crítica e ao mesmo tempo inspirou a Teoria Crítica, explica-se pelo fato de que, a partir da própria ausência de ponto de vista, a crítica realizou progressos impressionantes, o que obriga a perguntar de onde fala, com que perspectiva e em nome de quem. 9. A Teoria Crítica encontrou um eu provisório da crítica e um ponto de situação desconhecido da teoria do conhecimento tradicional, que pode ser chamado de a priori da dor, não base de uma crítica elevada e distanciada voltada a grandes panoramas, mas atitude da mais extrema aproximação: micrologia. 10. Se as coisas se aproximaram a ponto de queimar, deve surgir uma crítica que exprima essa queimadura, questão menos de distância correta que de proximidade correta, solo sobre o qual cresce o êxito da palavra "implicação", semente da Teoria Crítica que reaparece sob novas formas até entre quem mal a conhece, embora o maneirismo do estar implicado deixe ver as carências da fonte esquecida. 11. Como a soberania das cabeças sempre se revela falsa, a nova crítica desce da cabeça a todo o corpo, e o Esclarecimento pretende ir de cima para baixo, tanto em política formativa quanto psicossomaticamente, pois descobrir o corpo vivo como sensor cósmico garante ao conhecimento filosófico do cosmos uma base realista, tarefa que a Teoria Crítica iniciou de modo hesitante, esteticamente cifrado e oculto em complicações. 12. A Teoria Crítica pressupunha que no sofrimento cósmico se toma consciência a priori do mundo, ordenado num sistema psicossomático de coordenadas de dor e prazer, de modo que a crítica é possível na medida em que a dor indica o verdadeiro e o falso, mas esse pressuposto elitista de uma sensibilidade não destruída constitui ao mesmo tempo sua força e sua fraqueza, pois onde a capacidade de razão não se baseia numa autorreflexão sensível nem a argumentação mais sólida da teoria da comunicação poderá produzi-la. 13. Com os lógicos, entre todos os seus inimigos, a Teoria Crítica nunca se entendeu nesse ponto conflituoso, já que para cabeças enérgicas e nervos endurecidos toda teoria sensível parece suspeita, mas também seus fundadores, sobretudo Adorno, tinham um conceito exclusivo do sensível, baseado numa excitabilidade anímica e num treino estético tão altos que beiravam a náusea diante de tudo, tomando todo prazer e desacordo como engano e falsa distensão, o que fez Adorno sentir o rebote de seus exageros, enquanto a encarnação da razão sensível ultrapassou os limites traçados por seus iniciadores. 14. Adorno figura entre os pioneiros de uma crítica do conhecimento renovada que conta com um a priori emocional, animada por motivos de espírito criptobudista segundo os quais quem sofre sem endurecer compreende e quem ouve música penetra o outro lado do mundo, filosofia marcada pela certeza de que o real está escrito em dor, frieza e dureza, que mal acreditava na mudança para melhor mas recusava habituar-se ao dado, fazendo da sensibilidade preservada uma atitude quase utópica que protege das grosserias mais cruas. 15. Política e neurologicamente, a teoria estética fundamenta-se numa atitude de censura que mistura sofrimento, desprezo e ira contra tudo o que tem poder, estilizando-se como espelho da maldade do mundo, da frieza burguesa e do motivo do lucro, e recusando categoricamente o mundo masculino dos pais, legisladores e negociantes, preconceito em que reside o estancamento da Teoria Crítica, cujo efeito ofensivo de objeção de consciência se esgotou e cujo elemento masoquista superou o criativo, embora, numa geração que descobria o que seus pais haviam feito ou permitido, muitos partilhassem desse a priori da dor, reavivando na Alemanha, desde meados dos anos sessenta, uma tênue cultura política da disputa pública sobre a vida autêntica. 16. A revitalização do grande impulso depende de uma autorreflexão da inteligência por ele inspirada, que reconheça na crítica sensível um ressentimento mutilador alimentado pela raiva contra a masculinidade, o cínico senso dos fatos dos positivistas, contra o qual a teoria de Adorno tentou construir um saber que não fosse poder, refugiando-se no reino da mãe, nas artes e nas nostalgias cifradas, num pensar defensivo que associava as lembranças de felicidade a uma utopia do feminino, como revela seu escrito juvenil sobre o pranto ao ouvir Schubert, música perfeita que remete à doçura perdida da vida como citação distante. 17. A felicidade é pensada sempre como perda e bela distância, mero pressentimento ao qual se reage com lágrimas sem jamais alcançá-lo, enquanto tudo o mais pertence à falsa vida dominada pelo mundo dos pais, horrivelmente de acordo com o granito das abstrações sistematizadas, negação do masculino que em Adorno chegou a reduzir o sobrenome paterno à letra W, embora o caminho ao Wiesengrund não precise ser necessariamente um caminho perdido. 18. Desde a dissolução do movimento estudantil assiste-se a um estancamento da teoria, com mais erudição e nível, porém inspirações surdas, pois morreu o otimismo de que os esforços da teoria social mediariam interesses vitais, a sociologia revela seu tédio e, após o fracasso do acionismo de esquerda, do terror e do antiterror, o projeto de um trabalho de luto sobre a história alemã terminou em melancolia própria, recolhendo-se a crítica numa pequena floricultura filológica de lírios benjaminianos, flores do mal pasolinianas e cerejas silvestres freudianas. 19. A crítica atravessa dias cinzentos em todos os sentidos, numa nova época da crítica como traje em que as atitudes críticas se subordinam aos papéis profissionais, criticismo de responsabilidade limitada e esclarecimento como fator de sucesso, no encontro entre novos conformismos e velhas ambições, vazio já perceptível em Tucholsky, que continuava escrevendo brilhantemente sabendo que não surtia efeito, experiência quase generalizada que alimenta os cinismos latentes dos esclarecidos atuais. 20. Pasolini temperou essa crítica adormecida ao desenhar o traje do corsário, imagem do intelectual que salta como Douglas Fairbanks pelo cordame cultural, sabre em punho, ora vencedor ora vencido, impelido pelos ventos sem rumo da alienação social, sem pontos de vista sólidos por estar sempre entre frentes mutáveis, traje amoral que por isso mesmo assenta moralmente sob medida e que talvez se possa projetar retroativamente sobre o Brecht jovem e perverso, não sobre o que julgou dever dar lições na galera comunista. 21. No mito do corsário é louvável o elemento ofensivo, mas suspeita a ilusão de que a inteligência tem fundamento na disputa como tal, pois Pasolini é um vencido como Adorno, a quem o a priori da dor abre criticamente os olhos, e não há grande crítica sem grandes defeitos, já que são os gravemente feridos da cultura, das feridas Rousseau, Heine, Marx, Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger, Freud e Adorno, que, ao curar-se, produzem críticas que servem às épocas como pontos de reunião da autovivência, sendo toda crítica trabalho pioneiro na dor epocal e peça de cura exemplar. 22. Não se pretende ampliar esse digno hospital de campanha das teorias críticas, pois chegou o tempo de uma nova crítica dos temperamentos, já que, onde o Esclarecimento aparece como ciência triste, provoca a contragosto uma petrificação melancólica, razão pela qual a crítica da razão cínica espera mais de um trabalho de animação que consista menos em trabalho do que em relaxamento dele. **O motivo** 1. A fundamentação apresentada é reflexiva demais para ser inteiramente verdadeira, e a impressão de tratar-se de uma tentativa de salvar o Esclarecimento e a Teoria Crítica é aceita de antemão, garantindo os paradoxos do método salvador que não se trata apenas de uma primeira impressão. 2. Se de início o Esclarecimento parece desembocar necessariamente na desilusão cínica, logo a investigação do cinismo se converte na fundamentação de uma boa ausência de ilusões, pois o Esclarecimento sempre foi desilusão em sentido positivo e, quanto mais avança, mais próximo está o momento em que a razão convida a ensaiar uma afirmação, uma filosofia do sim que inclui o sim ao não, sem positivismo cínico nem atitude afirmativa de derrotado, contendo apenas a única obediência cabível ao esclarecido: a obediência à própria experiência. 3. A neurose europeia concebe a felicidade como meta e o esforço racional como caminho até ela, necessidade que precisa ser rompida dissolvendo-se o vício crítico do melhor por amor ao bem, de modo que, ironicamente, a meta do esforço mais crítico é o deixar-se levar da maneira mais ingênua. 4. Pouco antes da morte de Adorno, numa sala da Universidade de Frankfurt, por volta de 1969, um grupo de manifestantes impediu o filósofo de iniciar sua aula, e entre eles algumas estudantes desnudaram os seios em protesto, cena que serve de chave explicativa do cinismo, pois ali a carne nua exercia a crítica contra o homem amargamente decepcionado sem o qual os presentes nem saberiam o que ela significa, emudecendo-o não o poder nu, mas a violência do nu, numa mistura inseparável de justiça e injustiça, verdade e mentira, típica de todos os cinismos, que ousam expor verdades nuas de modo a conter algo de irreal. 5. Onde os encobrimentos são constitutivos de uma cultura e a vida social está submetida a uma coação de mentira, a expressão real da verdade adquire um momento agressivo e um desnudamento indesejado, mas o impulso ao desvelamento acaba sendo o mais forte, pois só a nudez radical das coisas liberta da suspeita desconfiada, e alcançar a verdade nua é motivo da sensibilidade desesperada que quer rasgar o véu das convenções, mentiras e abstrações, num ambiente ocidental de cinismo, sexismo, objetividade e psicologismo que constitui a decadência, propícia a extravagantes e à filosofia. 6. Na base desse impulso encontra-se um respeito infantil por tudo o que, em sentido grego, se chamou filosofia, reforçado por uma tradição familiar de reverência encarnada numa avó, filha de mestre-escola de cunho idealista, que repetia com orgulho que Kant escrevera a Crítica da Razão Pura e Schopenhauer O mundo como vontade e representação, livros mágicos, difíceis demais para serem lidos, mas dignos de admiração à distância como algo de grandeza total. 7. Ao perguntar se não haveria uma filosofia em que a velha mão ossuda desparafusasse o cérebro, emerge o sonho de ver reflorescer a árvore agonizante da filosofia, sem desencantos, coberta de estranhas flores de pensamento vermelhas, azuis e brancas, nas cores do princípio, como quando, na luz grega primordial, nasceu a theoria e a compreensão encontrou subitamente o caminho para sua linguagem, restando saber se a cultura é antiga o bastante para repetir tais experiências. 8. O leitor é convidado a sentar-se por um momento sob essa árvore que na realidade não pode existir, com a promessa de nada prometer, sobretudo nenhum valor novo, pois a crítica da razão cínica pretende seguir, nas palavras de Heine sobre as comédias de Aristófanes, a profunda ideia da aniquilação do mundo na qual repousa a gaia ciência, fazendo brotar nela, como numa árvore maravilhosa e fantasticamente irônica, ninhos de rouxinóis cantores e macacos trepadores entre os adornos florais dos pensamentos. {{tag>Sloterdijk razão cinismo}}