====== §§ 1-3 Valores ====== //FRINGS, Manfred S. Person und Dasein: Zur Frage der Ontologie des Wertseins. Den Haag: Martinus Nijhoff, 1969.// **Seção I Os valores relativos à vida e a realidade das coisas** **§ 1. Generalidades sobre a questão do valor em Ser e Tempo e em O formalismo na ética e a ética material dos valores de Scheler** 1. Como Ser e Tempo não trata dos valores materiais e, quando os menciona, os entende como valores subsistentes, a determinação dos valores materiais deve recortar-se pela relação entre valor, subsistência (Vorhandenheit) e manualidade (Zuhandenheit), pois o Dasein se detém de início e na maior parte das vezes junto ao utensílio de que se ocupa no interior do mundo, razão pela qual Heidegger situa os valores na temática da subsistência, sem considerá-los na esfera da manualidade nem no ser-com que o Dasein é, chegando a afirmar que os valores são determinações subsistentes de uma coisa, cuja origem ontológica reside unicamente na posição prévia da realidade das coisas como camada fundamental. 2. Com isso todos os valores passam a ser determinações ônticas na subsistência (existentia), pensadas como acréscimos ou predicados de coisas subsistentes, concepção partilhada por Husserl, para quem o valor só é o que é como valor de um objeto, ao passo que o objeto é o que é independentemente de seu valor, de modo que os predicados axiológicos pressupõem os predicados lógicos. 3. Husserl e Heidegger parecem concordar em que os valores pertencem à coisidade, e subjaz a seu conceito de valor a convicção de que o primado dos atos dóxico-teoréticos sobre os atos emotivos dificilmente pode ser abalado pelo ser-valor. 4. No terreno da ética material dos valores, tal concepção só pode ser aceita de modo muito condicionado, como já evidencia a crítica de Scheler a Kant, que ataca frontalmente não apenas o a priori formal kantiano, mas também a tese de que os valores seriam forças e efeitos de algo, ataque dirigido simultaneamente contra Nietzsche, já que todos os valores, inclusive bom e mau, são qualidades materiais ordenadas entre si segundo alto e baixo, independentemente da forma de ser em que ingressam, seja como qualidades objetivas puras, membros de estados de valor, momentos parciais em bens ou valor que uma coisa possui, o que estabelece uma independência última do ser dos valores em relação a coisas, bens e estados de coisas. 5. Determinar os valores como qualidades das coisas implica pressupor um sujeito que os põe, no sentido de Kant ou de Nietzsche, mas a ética material dos valores recusa todo e qualquer instituidor de valores, pois a pessoa é exclusivamente o portador último de valor e de modo algum aquele que estabelece valores. 6. Por vincular os valores à subsistência, Heidegger precisa fazer da ontologia do Dasein o pressuposto de toda doutrina formal e material do valor, já que a subsistência, esfera em que todos os valores supostamente se encontram, não convém ao ser do Dasein, de modo que a questão do valor em Ser e Tempo só pode surgir em conexão com a subsistência, e por isso, mesmo ao tratar da temática scheleriana da pessoa, ao delimitar a ontologia do Dasein frente à antropologia filosófica, Heidegger se limita a dizer, inteiramente no sentido de Scheler, que a pessoa não é coisa, substância nem objeto e só pode ser apreendida na própria realização dos atos e na unidade do vivenciar, caracterização tão certeira quanto breve, que no entanto deve ser recusada do ponto de vista ético-valorativo por não conceber a pessoa como pessoa-valor nem levar em conta seu ser-valor, deixando inteiramente de lado a diferença, decisiva para a ontologia do ser-pessoa, entre pessoa-valor e valor da pessoa, uma vez que é precisamente pelo ser da pessoa-valor que valores não relativos à vida, isto é, valores ab-solutos, podem ser, pertençam ou não à subsistência. **§ 2. Valor, coisa e a visão natural de mundo** 1. A afirmação scheleriana de certa independência dos valores em relação às coisas exige esclarecer o que significa valor e, intimamente ligado a isso, o que é um valor relativo à vida e um valor não relativo à vida, questões a tratar primeiro dentro do quadro da ética material dos valores, para só então ultrapassá-la sem abandonar seu solo e colocar pela primeira vez a questão da ontologia do ser-valor, ultrapassagem legítima porque o próprio Scheler concebia o Formalismo apenas como fundamentação de pontos de partida elementares, que pretendia desenvolver numa obra posterior. 2. Scheler distingue três espécies de atos com seus correlatos, os atos de pensamento, cujos correlatos são os conceitos, os atos de vontade, cujos correlatos são os projetos, e os atos emotivos, cujos correlatos são os valores, e, ao contrário de Husserl, demonstra que os atos emotivos e seus correlatos valorativos são primários na ordem de fundação de todas as espécies de atos, primado que não reside na ordem temporal, mas na ordem do modo de doação, e como qualquer fundamentação dessa tese se moveria no âmbito dos atos de pensamento e encobriria o primado dos atos emotivos, sobretudo do amar e do odiar, os exemplos das relações de fundação dos atos são extraídos da amplitude da visão natural de mundo. 3. A chamada visão natural de mundo nada tem a ver com uma cosmovisão, correspondendo, mutatis mutandis, ao mundo da vida de Husserl e à cotidianidade de Heidegger, e já no escrito Doutrina dos três fatos, de cerca de 1911/12, Scheler distingue nitidamente os fatos da visão natural de mundo, os fatos fenomenológicos e os fatos da ciência, caracterizando a visão natural como um mundo sem átomos, moléculas e massas, sem tentativa de substituir cores e sons por vibrações e sem o espaço e o tempo da geometria e da cronometria, mas como um mundo pelo menos em parte intuitivo, colorido e sonoro, articulado em unidades de coisas e de processos, cuja destruição é o ponto de partida do trabalho científico. 4. No escrito Fenomenologia e teoria do conhecimento, de 1913/14, as unidades de coisa da visão natural de mundo aparecem como unidades de certa usabilidade ou de significação prática, como sino e levantar-se, de modo que a coisidade como essência não aparece na coisa da percepção natural, mas é nela absorvida pelo ato de caracterizar isto ou aquilo como coisa. 5. Contra a produção do fato científico tal como concebida pela Escola de Marburgo, Scheler observa que se ignora que todas as formas e estruturas aderentes ao domínio de objetos da visão natural de mundo, independentes do pensar judicativo e dos objetos e princípios da lógica pura, e inteiramente contingentes em relação a eles, ingressam do mesmo modo no mundo objetivo da ciência sem perder nenhum traço de sua essência. 6. Se na estrutura da visão natural de mundo a coisidade é absorvida pelas unidades de usabilidades, Scheler já se aproxima sensivelmente do estado de coisas que Heidegger exprime na serventia e na empregabilidade constitutivas da totalidade instrumental, chegando a ver na visão natural de mundo uma criptomecânica que precisa ser quebrada para que se alcance o ser fenomenal. 7. Situada entre a experiência fenomenológica e a científica, a visão natural de mundo constitui o meio em que se vive e se conduzem os afazeres, no qual o sol ainda nasce e se põe, ora vermelho, ora branco, a terra, apesar de Copérnico, permanece como solo firme e imóvel, superfície de múltiplas curvaturas limitada por um horizonte, e à noite brilham as estrelas e a lua aparece ora cheia, ora em foice. 8. É nesse meio do mundo imediatamente vivido da visão natural que se situa a percepção primária de valor, como mostra o encontro com uma pessoa desconhecida que de imediato se revela atraente, repulsiva, simpática, inacessível ou insignificante sem que, nesse nível, se saiba a que isso se deve ou qual é o portador dessas experiências de valor, fato evidente no caso extremo do amor à primeira vista, cujo impulso amoroso não pode situar-se do lado dos atos de pensamento e de vontade nem ser causado por eles, e cuja pessoa amada é contingente, pois jamais era conhecida antes do primeiro olhar, embora tal contingência seja, para Scheler, vitalmente condicionada por margens hereditárias de escolha para o eros e por esquemas de destinos eróticos que regem através das gerações as colocações recíprocas do convívio masculino e feminino, permanecendo em aberto, mas devendo antes ser afirmado que negado, que esses destinos se fundem nas espécies de tipos de pessoa-valor e, assim, nos tipos fáticos de valor pessoal de predominância epocalmente variável, já que o tipo erótico secretamente carregado por cada um se dá na consciência de satisfação ou de conflito com que outra pessoa dele se aproxima ou a ele se opõe. 9. Do mesmo modo, uma obra de arte, como uma pintura, é apreendida há muito tempo como bela ou não sem que se saiba em que propriedades isso reside, pois o vivido na experiência de valor não é a técnica de distribuição das cores nem a coisa-quadro, mas o belo, e todo juízo ou fundamentação sobre o que a obra representa ou se é bela pode oscilar à vontade sem que oscile o valor prévio a que se referem, assim como, ao entrar num quarto estranho, este se mostra hostil, acolhedor ou desconfortável sem que se tenha consciência dos portadores desses valores, ainda que estes possam posteriormente ser responsabilizados pela experiência e introduzidos na apreensão do valor, casos que revelam claramente quão independentes em seu ser os valores são de seus portadores. **§ 3. Ilusão de valor e portadores de valores sensíveis** 1. Como Scheler, nesses e noutros exemplos, fala de portadores e valores e ao mesmo tempo afirma a independência dos valores em relação aos portadores, os exemplos não são de início plenamente convincentes, impondo-se a pergunta sobre o que é um portador de valor, e não sobre o que é portador de propriedades de valor, formulação que já pressuporia serem os valores propriedades subsistentes das coisas ou acidentes no sentido aristotélico, quando a ética fenomenológica dos valores procura mostrar que certos valores não o são, por terem seu lugar num ser não coisal, de sorte que, ignorando-se os diversos sentidos que o termo portador assume em Scheler e não se considerando o conjunto de seus escritos acessíveis, chega-se a conceber os valores em geral como qualidades das coisas e a falsificar o conceito scheleriano de valor, sobretudo porque no Formalismo a relação entre valor e coisa permanece obscura, vista em conexão com os bens e quase não posta como questão propriamente dita, embora noutros lugares Scheler se tenha pronunciado mais claramente. 2. No ensaio Os ídolos do autoconhecimento, de 1911, cuja compreensão o Formalismo, de 1913, sem dúvida pressupõe, uma fonte essencial de ilusão da experiência natural reside na tendência a transferir para o mundo psíquico fatos, relações e formas pertencentes à existência material. 3. A realidade física salta aos olhos, enquanto o psíquico, que não existe menos originariamente, é contraposto ao mundo exterior, e essa ilusão da direção da atenção atinge também a experiência de valor, pois o sentir humano está de início inteira e completamente dirigido para os valores aderentes às coisas. 4. Uma fonte e direção de ilusão quanto à experiência de valor consiste em deslocar de fora para dentro, para a esfera afetiva dos próprios estados do eu, as qualidades de valor sentidas nas coisas e situações, como quando alguém se alegra diante de uma comida cara ou se entristece ao acompanhar um cortejo fúnebre, alegria e tristeza inautênticas, meras sombras do sentimento autêntico, como a verdadeira tristeza pela morte de alguém próximo, transferidas das coisas ou da situação, bastando então um pequeno passo para considerar a coisa como portadora de valor e a própria aderência como subsistente, ignorando-se que o sentimento e o sentir de um sentimento são fatos autênticos do psíquico, que existe. 5. Tais ilusões da direção da atenção não podem ser tidas como irrelevantes para a percepção de valor na estrutura da visão natural de mundo, pois no comportamento natural essas qualidades de valor se tornam sinal determinante para fins e ações práticas no mundo circundante, convertendo-se os valores, quanto a seus portadores, em meros meios de distinção, sobretudo os valores de utilidade, segunda modalidade, que na forma social artificial da sociedade, em contraste com a comunidade de vida orgânica, se expressam na etiqueta de preço e no valor simbólico do dinheiro, avaliação em que se pode abstrair do valor para trazer à vista uma coisa valiosa; o martelo de que fala Heidegger, cuja manejabilidade é descoberta no martelar, cai inteiramente na série dos valores de utilidade, ficando por examinar se essa série precede e circunscreve o trato com o utensílio, o que de todo modo nada diria sobre os valores pessoais superiores aos de utilidade, já que é justamente o abismo entre todos os valores relativos à vida, incluídos os de utilidade, e os valores pessoais ab-solutos em relação à essência da vida e da sensibilidade que distingue essencialmente o homem do animal, ao qual se deve atribuir pelo menos uma apreensão instintiva ou de inteligência prática dos valores de utilidade e dos valores do agradável e do desagradável. 6. Uma fonte da direção de ilusão de valor estaria, portanto, na percepção das coisas, no sentir inteiramente voltado para os valores aderentes às coisas, cuja matéria se situa no âmbito das séries do agradável e do desagradável, do útil e do inútil, isto é, do que é vitalmente relativo ao mundo circundante do ser vivo humano, sendo legítimo chamar a coisa de portadora de valor quando os valores são entendidos no ídolo da direção de ilusão como matérias sentidas de fora para dentro, mas não quando o valor é tomado como dado do sentir sensível, pois, por mais que valores sensíveis se deixem calcular e contabilizar, só são dados como fatos do sentir sensível, e a série inferior do agradável e do desagradável é de início simbólica dos estados corporais sensíveis, e não acréscimo intelectual à coisa, como mostra o fato de que, com memória e expectativa inibidas, a qualidade de valor de um conteúdo aparece primeiro, sabendo-se ainda que algo de ontem ou de amanhã foi ou será agradável, penoso, importante, indiferente, sujo ou nobre sem que se saiba o que é, de modo que os valores das vivências, ao serem sentidos, penetram sempre na zona clara da consciência sem que seus portadores estejam presentes. 7. Os valores, contudo, não pairam no ar, mesmo admitida sua doação primária na esfera afetiva sensível, pois o fato de algo ter sido agradável não é pensável sem aquilo que foi, ainda que este seja emotivamente posterior na ordem de doação, de modo que a predoação de valores sensíveis como agradável e desagradável reside menos nas próprias qualidades de valor que no âmbito firmemente delimitado de toda a modalidade sensível de valor, cuja série, com sua direção de preferência do desagradável para o agradável, é um esquema ajustado à organização da espécie humana, na medida em que nele se apresenta e se realiza um recorte da realidade; cada espécie tem seu recorte de dados sensíveis do mundo circundante, e um alimento útil a um animal pode ser veneno para o homem, mas confundir isso com relatividade do valor seria erro ético-valorativo, pois a ordem de preferência emocional-apriorística já contida nos valores sensíveis inferiores abrange toda espécie, permanece constante em todas as variações ambientais e também no homem, sendo a priori impossível pospor o agradável ao desagradável, de modo que o esquema constante dessa série, com sua direção de preferência para o valor positivo, constitui um fato de valor indiferente ao mundo circundante e às coisas, já antes de seu conhecimento e manejo, e mesmo esses valores materiais mais baixos funcionam como uma janela que deixa perceber exatamente tanta realidade quanto seu âmbito permite. 8. Como todos os estados afetivos sensíveis, sentimentos de sensação e funções do sentir se realizam no âmbito sensível de valor que vai do desagradável ao agradável, não apenas tudo o que é estado corporal e sensação, mas também a própria doação de valor do sensível, com sua ordem de preferência para o agradável, constitui um destino inescapável de todo vivente, restando examinar se esse âmbito de valor e sua ordem de preferência pertencem também à esfera da pessoa de modo a constituir eticamente o destino da pessoa. 9. Na ilusão identificada por Scheler, os valores, aqui os valores sensíveis, são transferidos de fora para dentro na visão natural de mundo, e o valor sensível pode ser falsamente deslocado para as próprias coisas, de modo que a poltrona, quando se diz que é agradável, propriamente não é agradável, devendo a frase, excluída a ilusão, dizer que o corpo vivo torna agradável a poltrona, já que o valor agradável é antes de tudo um dado do sentir sensível, razão pela qual o portador próprio do valor sensível é o corpo vivo. 10. Já nos valores sensíveis mais baixos há uma indiferença em relação às coisas, situada na ordem de preferência do desagradável para o agradável, pois, embora cada espécie tenha coisas e recortes sensíveis de realidade diversamente agradáveis e desagradáveis, o âmbito da série de valor é fixo e constante pela espécie e altura das próprias matérias sensíveis de valor, sendo o corpo vivo o portador próprio dos valores sensíveis e a coisa, pela direção de ilusão, seu portador impróprio, ficando em aberto se a criptomecânica da visão natural de mundo, com suas unidades de usabilidades em que as coisas são absorvidas, é guiada por valores de utilidade, e constatada uma conexão formal entre a serventia e a empregabilidade heideggerianas constitutivas da totalidade instrumental e a visão natural de mundo scheleriana, o que se confirma na passagem do Formalismo segundo a qual, assim como os nomes das cores não designam meras propriedades de corpos, ainda que na visão natural as cores sejam observadas sobretudo como meios de distinção de unidades corpóreas, os nomes dos valores tampouco designam meras propriedades das unidades coisais chamadas bens, podendo um vermelho ser dado como pura qualidade extensiva numa cor espectral sem ser apreendido como revestimento de superfície ou algo espacial, e podendo valores como agradável, encantador, gracioso, amável, distinto e nobre ser em princípio acessíveis sem que sejam representados como propriedades de coisas ou de pessoas. {{tag>Scheler Frings Dasein pessoa ontologia-fundamental valor}}