====== Falibilidade ====== //P. Ricœur, Finitude et Culpabilité, I, L’homme faillible// * Quando se denomina o homem de falível, quer-se dizer essencialmente que a possibilidade do mal moral está inscrita na constituição do homem, sendo necessário esclarecer em quais traços dessa constituição reside essa possibilidade e qual é a natureza dessa própria possibilidade. **1. Limitação e falibilidade** * A tradição filosófica, de Leibniz a Descartes, afirma que a limitação das criaturas é a ocasião para o mal moral, mas essa ideia de limitação, como tal, é insuficiente, pois qualquer composição de ser e nada não é uma ocasião para falhar, sendo necessário um conceito de limitação humana específico, como o de "desproporção". * A ideia de desproporção satisfaz a exigência de uma ontologia da realidade humana, sendo necessário desvincular as categorias próprias da limitação humana da relação desproporcionada da finitude com a infinitude, o que se pode fazer mediante uma "dedução transcendental". * Essas categorias específicas da limitação humana podem ser desvinculadas mediante uma "dedução transcendental" que justifique os conceitos segundo sua capacidade de tornar possível um discurso sobre o homem, recuperando as noções de "mistura" e "intermediário" que o mito e a retórica já continham implicitamente. * As categorias da falibilidade podem ser deduzidas a partir da tríade kantiana das categorias da qualidade (realidade, negação, limitação), que, ao serem transpostas para a antropologia filosófica, se expressam como afirmação originária, diferença existencial e mediação humana. * O primeiro conceito reitor de uma antropologia filosófica não é a finitude, que é resultado e não origem, sendo necessário partir, como Kant, da ideia de um ser racional em geral para depois restringi-la pela diferença de uma sensibilidade. * A afirmação originária se enriquece e interioriza ao passar pelos momentos do Verbo, da totalidade prática e do Éros, sendo o momento transcendental necessário mas insuficiente, o prático fundando a pessoa pela ideia de humanidade, e o sentimento garantindo a pertença à abertura do pensar e do obrar. * O homem resulta inteligível por participar de uma certa ideia negativa da nada, mas o "para-si" não se resolve em sua oposição ao "em-si", pois o ser do homem é afirmação, sendo a negativa existencial a negação dessa afirmação originária. * A negativa existencial aparece, em primeiro lugar, como diferença entre eu e outro, e essa alteridade das consciências é relativa a uma identidade primordial que torna possível a compreensão, a comunicação e a comunhão entre as pessoas, sendo o homem essa unidade plural e comunitária. * Ao interiorizar-se, a diferença entre eu e outro se torna diferença de mim comigo mesmo, entre a exigência de totalidade da razão e a contingência de um caráter, que se manifesta como a não-necessidade de existir. * Essa não-necessidade de existir é vivida no modo afetivo da tristeza, que se alimenta de experiências de carência, perda, temor, e que expressa a diminuição do esforço para perseverar no ser, podendo a negativa falada exprimir essas tonalidades vividas. * A "limitação" é sinônimo da fragilidade humana, sendo o homem o "misto" da afirmação originária e da negação existencial, ou seja, a Alegria do Sim afirmativo na tristeza do finito. * O homem, que é uma frágil mediação para consigo mesmo, projeta essa mediação na síntese do objeto (a coisa) e nas obras (arte, instituições), mas, em si mesmo, permanece como desgarramento, e essa fissura é revelada pelo sentimento como conflito originário. **2. Falibilidade e possibilidade da culpa** * A fragilidade da mediação torna o mal possível em vários sentidos: como ocasião (ponto de menor resistência), como origem (a partir da qual o homem degenera) e como capacidade (poder de falhar), sendo que a questão central é saber em que sentido essa fragilidade é poder de falhar. * A distância entre a possibilidade e a realidade do mal se reflete na distância entre a antropologia da falibilidade e a ética, que pressupõe um homem que já errou e se propõe a educá-lo mediante uma metodologia científica, uma pedagogia moral e uma cultura do gosto. * A filosofia, como ética, encontra o homem no malogro da síntese, e é essa situação de erro que confere à falibilidade seu status de condição do mal, pois só se pode pensar o mal a partir daquilo de onde ele degenera, sendo o "a partir de" e o "através de" reciprocamente constitutivos. * A representação do originário, vislumbrada através da descrição do mal, pode ser isolada apenas de modo imaginário, e a imaginação da inocência é a variante imaginativa que faz brotar a essência da constituição originária, tornando a falibilidade uma possibilidade pura. * O mito da inocência proporciona um símbolo do originário que se transluz na degradação, e a bondade é mais originária que a maldade, sendo um mito de queda possível apenas no contexto de um mito de criação e inocência. * O conceito de falibilidade encerra a possibilidade do mal em um sentido mais positivo, como poder de falhar, e a "desproporção" expõe o homem a uma infinidade de faltas, sendo a fragilidade a capacidade do mal. * Os mitos de queda, ao mesmo tempo que insistem na ruptura e na posição abrupta do mal, contam também o deslizamento sutil, a obscura inclinação da inocência para o mal, e essa transição confere ao conceito de falibilidade sua equívoca profundidade. * A fragilidade não é apenas o lugar ou a origem do mal, mas a própria capacidade do mal, pois o mal procede dessa debilidade porque se põe, e esse último paradoxo aparece no centro da simbólica do mal.