====== Viver encarnado: paixões (1993) ====== //RICHIR, Marc. Le corps: essai sur l’intériorité. Paris: Hatier, 1993.// * Os sentimentos se misturam frequentemente ao que a literatura francesa clássica chamou de paixões, a ponto de ser difícil distingui-los na prática. * A distinção entre sentimentos e paixões é por si só uma questão filosófica. * De certo modo, a paixão é sem dúvida o excesso do sentimento no próprio sentimento, que se condensa em um núcleo duro e se toma a si mesmo por objeto. * O sentimento de amor por uma pessoa amada é amor por essa pessoa em si, insubstituível, e que transfigura os seres e coisas. * A paixão amorosa, ao contrário, é pelo menos tanto paixão por esse sentimento (a paixão amorosa ama o amor) quanto pela pessoa, que tende a se tornar seu pretexto. * Enquanto o sentimento está entregue às vicissitudes do tempo e parece precário, a paixão é tomada pelo desejo de dominar o sentimento através do tempo e pelo ser quase-intemporal do sentimento condensado em "estado". * Este estado comanda todo o ser, e o corpo, por suas exigências imperativas. * A paixão é, nesse sentido, sentimento endurecido, e se agarra a essa intemporalidade que é a do desejo (insaciável, sempre renascente, desejo de apropriar-se do outro e de si mesmo). * Como disse Marivaux, a paixão nos faz ser em detrimento do viver. * Sua ilusão é nos fazer ser apenas em um "lugar" que parece nosso só por ser, ao mesmo tempo, o dos outros. * A paixão nos cega e nos possui muito mais do que a possuímos. * As artimanhas da paixão com o sentimento são múltiplas e inextricáveis. * Estamos sempre ilusoriamente ligados às paixões porque elas são o excesso cegamente condensado dos sentimentos, condensação que parece nos libertar do próprio tempo. * Há quase tantas paixões possíveis quanto sentimentos possíveis, o que coloca as paixões em situação de conflito (conflito consigo mesmo e com os outros). * A obscuridade das paixões em sua origem, o enigma de um excesso que se condensa e se enquista a ponto de parecer persistente e imperioso, fez com que fossem atribuídas ao inconsciente na psicanálise. * Elas também foram atribuídas ao corpo em sua parte rebelde e obscura, mas a um corpo "psíquico" que se é cegamente, e que apresenta distorções consideráveis em relação ao corpo anatômico objetivo. * Este corpo "psíquico" é o equivalente transposto do corpo obscuro e rebelde, suposto sujeito das afecções. * Este paralelo, paradoxal, tornou possível a concepção da psicanálise como uma "medicina da psique", da alma. * As culturas humanas oferecem outra interpretação possível para as paixões, mais geral: a interpretação de sua origem como origem divina, no politeísmo mitológico. * O relato mitológico é elaborado para ordenar as paixões, que são estados fora do tempo, distribuídos entre os deuses e seus conflitos, para fornecer uma ordem que faça sentido para os homens. * Pode-se dizer que a psicanálise é a mitologia de nosso tempo, pelo menos do ponto de vista de sua função. {{tag>Richir corpo paixões}}