====== Experiência do Pensar (1996) ====== //RICHIR, Marc. L’Expérience du penser. Phénoménologie, philosophie, mythologie. Grenoble: Jérôme Millon, 1996// * Projeto e metodologia do livro após as [[meditacoes-fenomenologicas|Meditações Fenomenológicas]] * Objetivo: compreender o pensamento mitológico como pensamento autônomo, em outro sistema simbólico. * Abertura de duas frentes de trabalho a partir das V e VI Meditações: * Estudo da mitologia através da última filosofia de Schelling. * Releitura dos manuscritos de pesquisa de Husserl. * Caracterização da fenomenologia praticada * Ligada à fenomenalização, ou clignotement phénoménologique (piscar fenomenológico). * Encontrado em Merleau-Ponty ("bougé", "tremblé"), Husserl (insaisissabilidade do "vivido"), Heidegger e Fink (Schwingung, "oscilação"). * Os fenômenos da fenomenologia não são os de Kant, do positivismo ou da tradição filosófica. * Não trata do aparecer como tal, mas do que "treme", "pisca" entre aparecimento e desaparecimento, autonomizando-se. * O clignotement fenomenológico é o esquema mais simples da fenomenalização, sem archè e sem telos. * Relação da filosofia com o fenômeno e a ilusão transcendental * A filosofia encontrou o fenômeno quando não tinha topos arquitetônico para ele, quando a ilusão transcendental começava a "tremer". * Kant converteu a dimensão fenomenológica da ilusão em dimensão simbólica de ideia reguladora da Razão. * Em Platão, Aristóteles, Husserl, Heidegger: momentos cruciais onde o pensamento está no limite de seus poderes simbólicos. * O equívoco filosófico: tomar a ilusão transcendental como a figura única e matricial do fenômeno (simulacro ontológico). * A tarefa da fenomenologia: estudar as aparências da ilusão transcendental e remontar, pelo clignotement, ao fenômeno. * Conceito de Instituição Simbólica * Termo proposto para substituir "cultura", evitando a oposição clássica cultura/natureza. * Conjunto coerente de sistemas simbólicos (línguas, práticas, técnicas, representações) que codificam o ser, o agir e o pensar. * Paradoxo fundamental: parece sempre já constituída, sem origem, mas é objeto de múltiplos aprendizados. * Não é um sistema fechado (como pensava o estruturalismo), é uma "totalidade sem exterior". * O homem é um ser de sentido; a instituição simbólica é sua facticidade. * Progresso, complexidade e degeneração da instituição simbólica * Não há progresso simbólico de uma instituição para outra (ex: mitologia para filosofia). * Há progresso simbólico //dentro// de uma mesma instituição, no refinamento de seu sentido. * Toda instituição cobre todo o vivível, pensável, imaginável. * Pode degenerar em um Gestell simbólico: torna-se maquinal, patológica, vazia de conteúdo vivo, levando à barbárie. * A "crise atual" pode ser lida como essa degeneração (Gestell) ou como um desafio a ser conjurado. * A relação do homem com a instituição simbólica * Os homens não são distintos dela, nem seus arquissujeitos (ilusão da ideologia liberal). * A instituição simbólica é o que, no homem, ultrapassa o homem. * A "transcendentalidade" do simbólico foi, em certas tradições, identificada com Deus. * O homem tem "tomadas" (prises) sobre sua vida, dadas pela própria instituição, que ele deve elaborar. * O humano está na elaboração pensante, na hominização infinita do inumano. * Tarefa da fenomenologia em relação à instituição simbólica * A fenomenologia pode analisar a elaboração simbólica ao desprender-se da ingenuidade transcendental da língua filosófica. * A análise genética se concentra na transposição das entre-apercepções de linguagem em apercepções de língua. * Este é o "evento transcendental do pensar". * Conceitos operatórios: apercepção e entre-apercepção * Apercepção: percepção "de uma vez", já simbolicamente codificada, pertence à língua. * Entre-apercepção: ocorre nos "vazios" entre as apercepções, pertence ao *linguagem* (processo de busca do sentido). * O movimento do sentido se faz na transposição da entre-apercepção (linguagem) para a apercepção (língua). * A nihiliade fenomenológica do signo: ao buscar um sentido, usamos signos sem tematizá-los como signos. * A não-homogeneidade e complexidade da instituição simbólica * É complexa, com coesão sem conceitos diretores. Tem o estilo de uma Weltansicht (Humboldt). * É eclatada em "blocos" ou "estratos" (língua, práticas, mitos) que fazem eco sem se relacionar sistematicamente. * Este éclatement oferece "tomadas" para a iniciativa individual. * Não é dedutível de uma soma de iniciativas individuais (crítica ao liberalismo). * Sua origem é enigmática; a língua, por exemplo, institui-se "de uma vez", por uma espécie de "inspiração divina". * Consciente, inconsciente e Stiftung * A instituição simbólica atravessa o clivagem consciente/inconsciente. * É preciso conceber Stiftung (instituição/fundação) sem Urstiftung (instituição originária). * O inconsciente simbólico (psicanálise) tem uma dinâmica temporal mais lenta, onde se codificam outras apercepções. * Estrutura e método do livro * Seção 1: "Aberturas" - Multiplica os ângulos de ataque, esboça a problemática. * Seção 2: Diálogo com Schelling - Atravessa a estrutura arquitetônica da língua filosófica e define o método da redução arquitetônica. * Seção 3: Aborda o continente do pensamento mítico, da mitologia (familiar) ao mito (estrangeiro). * Seção 4: Retorno à fenomenologia stricto sensu para articular redução arquitetônica e fenomenologia genética. {{tag>Richir pensar "instituição simbólica" mitologia psicanálise}}