====== História simbólica do corpo: Platão (1993) ====== //RICHIR, Marc. Le corps: essai sur l’intériorité. Paris: Hatier, 1993.// * A análise da obra de Platão é tomada como linha de crista que liga contextos arcaicos e filosofias posteriores. * O texto central analisado é o "segundo discurso de Sócrates" no //Fédro// (244a-246d), até o início do mito da "carruagem alada". * Platão, através de Sócrates, começa afirmando que os maiores bens nos vêm por meio de um //delírio (mania)//, dotado como um dom divino. * O delírio divino é classificado e seu papel na instituição arcaica é descrito. * Classificação do //delírio//: divinações inspiradas (profetisas), rituais religiosos, e inspiração poética pelas Musas. * Sobre os rituais religiosos: doenças e provações cruéis, de origem desconhecida (antigos ressentimentos), encontram no //delírio// os meios de escape através de preces e ritos especiais. * Este //delírio "direito"//, inscrito na ordem religiosa instituída, é benéfico: restabelece um equilíbrio face a estados excessivos. * Na instituição arcaica, o excesso das doenças só pode ser compensado pelo excesso de um delírio divino, que converte questões em problemas a resolver. * Os rituais religiosos são a própria resolução deste problema, libertando o sujeito do malefício. * Platão mostra aqui a articulação entre o corpus mitológico e o corpus dos rituais religiosos. * A instituição aparece numa "loucura" (//mania//) divina, cuja inspiração converte questões dolorosas em problemas com resoluções precisas. * O mesmo vale para a inspiração poética, dada pelas Musas. * Estamos no quadro da instituição arcaica, onde o excesso da questão é retratado como problema, por determinação simbólica mitológico-religiosa. * Estes excessos podem ser "corporais", pois concernem doenças e provações de uma destinação nefasta. * O texto platônico introduz bruscamente a imortalidade da alma (//psyché//), marcando uma passagem para a filosofia. * Não é uma ruptura, mas uma passagem a um "patamar" superior que repensa a problemática. * Platão considera a alma "tanto divina quanto humana, em seus estados e atos". * A //mania// divina não é abandonada, mas reexaminada a partir da alma e de sua imortalidade. * Toda alma é imortal porque "tudo o que move a si mesmo é imortal". * Só o que se move a si mesmo nunca cessa de ser movido. * A alma é a fonte e o princípio do movimento para todas as outras coisas movidas, e este princípio é "ingerado". * Um corpo movido de fora é inanimado; um corpo movido por si mesmo, de dentro, é animado. * Nestes termos se distribui o excesso em geral e o excesso sobre o corpo. * O excesso está inteiramente no movimento de exceder que é auto-motriz e auto-móvel. * Este movimento não pode ter deficiência interna; é concebido como um movimento circular onde começo e fim coincidem. * Não é o excesso que se condensa e se toma por objeto, mas o próprio movimento de exceder. * Platão apresenta uma imagem ou alegoria para evitar separar totalmente alma e corpo: a alma como uma força com uma carruagem alada e seu cocheiro. * No caso dos deuses, cavalos e cocheiros são todos bons e feitos de bons elementos. Não há conflito interno; corpo e alma são harmoniosos e indiscerníveis, testemunhando a imortalidade divina. * Nos mortais, há mistura. Nos homens, o cocheiro (que dirige) conduz dois cavalos atrelados: um belo e bom, outro de natureza contrária. * Os cavalos representam o corpo animado, dividido em um corpo "psíquico" (bom cavalo) e um corpo "físico", obscuro e rebelde (mau cavalo). * A alma também fica dividida, em certo sentido, entre o cocheiro e o bom cavalo, porque o mau cavalo "puxa para um lado e para o outro". * Esta reversibilidade é a novidade da linha de crista platônica. * A distinção repercute sobre a distinção entre imortal e mortal. * Toda alma cuida do inanimado e circula pelo cosmos. Quando perfeita e alada, caminha nas alturas e administra a totalidade do mundo (caso da alma divina imortal). * A teologia politeísta da mitologia perde razão se a administração da totalidade for concebida como racional. O monoteísmo filosófico (com um deus único, artífice racional do mundo, como no //Timeu//) está próximo. * A alma anima um "vivente mortal" quando perde as penas das asas, precipita-se, agarra-se a algo sólido e instala sua residência em um "corpo de terra", dando a impressão de movimento próprio. * É o conjunto (alma + corpo) que se chama "vivente" e recebe o epíteto de "mortal". * A alma não é mortal, mas o composto é. O corpo de terra é opaco e rebelde; a alma está nele como que prisioneira, localizada. * O acesso à realidade verdadeira (as Ideias) é uma rememoração (reminiscência), que também procede de uma //mania// divina. * As Ideias são imortais, e é a elas que o Deus deve sua divindade, o que implica uma racionalização do panteão mitológico. * É por sua imortalidade que a alma acede às Ideias. Aqui embaixo, é pela reminiscência de uma proximidade passada e perdida com um deus. * Neste contexto de transposição da instituição simbólica arcaica para a instituição platônica da filosofia insere-se a doutrina do //Fédon// sobre a imortalidade da alma. * No //Fédon//, Sócrates apresenta o corpo como perturbador e obstáculo ao conhecimento verdadeiro: lugar de afecções, doenças, paixões, ilusões, desequilíbrio e conflito. * Para ter conhecimento puro, é preciso separar-se do corpo e contemplar com a alma as coisas em si mesmas. Isso só seria plenamente possível após a morte. * Enquanto vivemos, devemos ter o mínimo de comércio com o corpo e nos purificar dele. A filosofia é um exercício de morte (//melétè thanatou//), uma purgação que concentra a alma nela mesma para acessar o conhecimento puro. * Platão sabe que se junta a tradições religiosas e pitagóricas antigas. * Neste quadro, expõe novamente sua doutrina da reminiscência. * Na instituição platônica da filosofia, o corpo se institui simbolicamente de maneira diferente da instituição arcaica. * Primeiro traço: a instituição da filosofia como conhecimento do que é. Isto pode implicar práticas e técnicas para disciplinar o corpo (como no //Fédon//). O corpo também pode entrar no campo do conhecimento ao se determinar filosoficamente (como no //Timeu//). * Segundo traço: o que é (//to on//) revela-se mais fundamental que os próprios deuses, devendo ser definido independentemente de qualquer intriga simbólica (mito), por conexões lógicas e ontológicas. * Pelo adágio "o semelhante ama (e conhece) o semelhante", o órgão do conhecimento (a alma) deve ser tão imutável, ingerada e imortal quanto o que verdadeiramente é. * A alma é auto-motriz num movimento circular da pensamento, sempre dirigido ao seu centro, que é o Ser verdadeiro. * A alma não é essencialmente a alma de um indivíduo psicológico; pode ser alma dos deuses, do mundo, dos homens ou dos animais. Seu vínculo com o corpo é contingente e passageiro. * Na vida, é o corpo que está em falta perante a alma, não a alma em excesso perante o corpo. * O elemento essencial da instituição do corpo na filosofia platônica é sua associação ao instável, cambiante e conflitual. * O corpo, rebelde e opaco ao conhecimento do imutável, participa do terrestre e da //physis// em seu aspecto desordenado. * A hostilidade de Platão (na //República//) à educação pelos poetas (Homero, Hesíodo) vem do fato de considerá-la incitadora à "barbárie" ou "selvageria" do corpo e seus desordens. * É preciso disciplinar "racionalmente" pela filosofia, que é uma purgação do "mundo" da alma e dos deuses, através da descoberta da "boa" //mania// (a "má" //mania// sendo a do corpo). * A "racionalidade" é a reelaboração total da instituição da cultura grega pelo //logos// (//ratio//), e a crítica, pela "dialética", dos encadeamentos apenas lógicos na opinião (//doxa//) ou nos sofismas. * Platão é o "pai" da filosofia: com sua obra, a instituição da filosofia se elabora na ponta onde as questões jogam em seu excesso sobre o que se determina, nesta elaboração, como problema a resolver. {{tag>Richir corpo Platão}}