====== História simbólica do corpo: Nietzsche (1993) ====== //RICHIR, Marc. Le corps: essai sur l’intériorité. Paris: Hatier, 1993.// * Nietzsche foi o primeiro na tradição moderna a se esforçar para pensar, no corpo, o excesso do corpo sobre si mesmo. * Uma dimensão fundamental de seu pensamento é tomar o corpo como "fio condutor" para pensar as pensamentos, as culturas e toda instituição simbólica. * Este excesso do corpo sobre si mesmo é o que ele chama de "vontade de poder". * A vontade de poder, conforme M. Haar, possui uma reflexividade fundamental: é sempre autossuperação, na ação ou na reação. * Ela se apresenta originariamente como a diversidade caótica e contraditória das pulsões elementares: é a //afetividade primitiva//. * Todo indivíduo, cultura ou civilização se apresenta segundo uma certa //idiossincrasia// (disposição particular) das pulsões, uma ordenação quase espontânea de sua diversidade originalmente caótica. * Esta ordenação não exclui necessariamente os conflitos entre pulsões. * Distinguem-se assim duas idiossincrasias: * As que //afirmam ativamente a vida//: evocam a "harmonia" grega, visando ao crescimento do ser que se joga no excesso do corpo sobre o corpo, aumentando esse excesso sem perder de vista sua fonte corpórea e afetiva. * As que //negam reativamente a vida//: nelas, o excesso se toma como objeto quase intemporal, descola-se do corpo, reage contra ele, exteriorizando-o como corpo físico (obstáculo desprezível) e tomando-se como fio condutor para interpretar a vida (o corpo vivo). * Nietzsche rejeita esta segunda forma como //platonismo// ou //cristianismo// (para ele, "platonismo do povo"). * As primeiras constituem a //saúde//; as segundas, a //doença// e a //decadência// (metafísicas e religiões que "depreciam" a vida em favor de um "além-mundo"). * A força subversiva da suspeita nietzschiana está numa dialética sutil entre: * A //afetividade// – onde o corpo vive encarnado. * A //paixão// – onde o corpo é depreciado em prol de uma transcendência exclusiva que o desencarna. * E na denúncia do //excesso paradoxal// em que a paixão se carrega de um interesse próprio, de sua própria dominação exclusiva: uma vontade de poder pervertida, voltada para um ser em detrimento dos outros. * Este é o //ressentimento// da paixão que se toma por objeto exclusivo de seu desejo, diante do que a transborda no corpo – e que ela só pode negar ativamente ou renegar reativamente. * Na obra explosiva e complexa de Nietzsche, sua "psicologia" atinge um refinamento inaudito. * Em todos os assuntos humanos, a passagem entre o que afirma ativamente a vida e o que a nega reativamente é //intrinsecamente instável// e sem referências fixas. * Dada a diversidade original das forças (pulsões) em jogo, a "psicologia" deve ser sempre uma //interpretação multiplamente articulada// da complexidade móvel da facticidade humana. * Nada é unívoco, tudo é plurívoco. As astúcias do corpo inteligente (e da inteligência do corpo) são infinitas, exigindo ainda mais astúcia para desarmá-las. * O //Gênio Maligno// cartesiano está como que difundido por todo o ser observado por Nietzsche. * Se há um //cogito// em seu pensamento, é o do corpo e de seus excessos multiformes: um ser situado no lugar dos enredamentos complexos da certeza //fática// de existir, que já é em si "vontade de poder". * O corpo e seus excessos, na afetividade, são o //lugar por excelência da passagem à vida//, em seu livre jogo de si mesma como crescimento infinito. * Este jogo é o //inocente do devir// e do //eterno retorno//. * Ressituar o pensamento neste lugar é efetuar a "transmutação de todos os valores" e praticar uma //medicina da alma e da civilização//, para livrá-la do niilismo como esgotamento da vida numa paixão exclusiva. * O anti-platonismo nietzschiano significa a vontade de //reverter a filosofia// (de "exercício de morte" em Platão e no estoicismo) em //filosofia como "exercício de vida"//. * Mas esta //vontade// não garante a coerência ou o êxito do projeto nietzschiano, embora seu //suspeito// tenha abalado certezas estabelecidas. * Toda ambiguidade permanece sobre a "vontade de poder": * Trata-se ainda de uma //"vontade"//? A vontade não implica já, como pensavam os gregos, uma deliberação e uma pré-apreensão dos possíveis, a elaboração do que surge como questão em termos de problema a resolver? * Esta vontade é já uma vontade //"de poder"//? A afirmação da vida é a de uma //potência//? Esta não é uma mera possibilidade, mas um crescimento ou uma perseveração no ser. * Esta perseveração não é já a do //excesso// que se toma por objeto exclusivo e imperioso de seu desejo? Não haveria aqui uma //sobredeterminação simbólica// do corpo? * A //inocência do devir// não estaria além da vontade e do poder? E o //poder// (o fantasma do poder) não foi um dos fantasmas mais invasivos e destrutivos, niilistas, da modernidade? * Estas questões mostram o que favoreceu a degeneração rápida do nietzschianismo em ideologias aristocráticas e totalitárias. * A própria noção de //"vida"// é de difícil definição, especialmente a vida humana (distinta do processo cego estudado pelas ciências). * Portanto, a obra de Nietzsche deve ser tomada como //questão//, como uma das formas mais agudas das questões que se colocam a nós, modernos. {{tag>Richir corpo Nietzsche}}