====== Corpo Físico Objetivo (1993) ====== //RICHIR, Marc. Le corps: essai sur l’intériorité. Paris: Hatier, 1993.// * O corpo físico, estalado em seu exterior, aparece como um dispositivo orgânico extremamente complexo, um sistema em equilíbrio de órgãos ligados uns aos outros. * Este equilíbrio é ao mesmo tempo próprio a cada órgão e um sistema de equilíbrios com os outros órgãos. * Estes equilíbrios são mais ou menos autorreguladores, mas também precários, sujeitos a disfunções por agressões externas ou desregulamentos internos. * Desde o século XVII, o corpo físico é objeto da ciência positiva, ou seja, de observações e experimentações suficientemente definidas para serem reproduzíveis. * Estas observações e experimentações consistem em intervir no sistema introduzindo elementos para ver seu efeito ou reação. * Elas permitem estabelecer regularidades objetivas e reprodutíveis, inclusive no campo da psicologia experimental, sobre as reações do sistema a estímulos externos precisos. * A organização dessas regularidades em regularidades mais amplas constitui o conhecimento objetivo do corpo físico. * Entre os desenvolvimentos mais recentes, destacam-se os espetaculares da biologia molecular, que exploram os processos de trocas físico-químicas intercelulares e intracelulares, particularmente na genética molecular. * Este conhecimento objetivo não é puramente especulativo. * Ele só tem sentido articulado a técnicas de intervenção sobre e dentro do sistema, ou seja, às práticas médicas. * Estas práticas visam controlar e manipular o sistema e seus processos complexos para, em caso de disfunção, trazê-lo o mais próximo possível do equilíbrio global. * Esta metodologia científica, que articula conhecimento objetivo e técnica controlada de intervenção, comporta o perigo da compartimentação em especialidades. * Este perigo ocorre em detrimento da arte médica tradicional – a do diagnóstico –, que é a apreensão do equilíbrio (ou desequilíbrio) do sistema em seu estado global. * O próprio do conhecimento objetivo, articulado à técnica de intervenção pela experimentação, é destacar regularidades objetivas cada vez mais finas, mas perdendo o sentido do que faz o corpo se manter unido como organismo. * Mesmo integradas em um conjunto por meio de teorias, as regularidades mantêm o caráter enigmático do que é factual, da ordem do fato observável. * A exploração do corpo como sistema físico-químico não deve dar a ilusão de compreender o que é um organismo. * É característico que as regularidades só se destaquem e sejam objeto de investigação em relação ao que vem perturbá-las. * Pode-se detalhar com extrema fineza as trocas físico-químicas dentro da célula viva (ex.: fabricação de proteínas a partir do DNA) sem saber o que é uma célula viva, como ela se constituiu na evolução, ou como o reino animal se dissociou do vegetal. * Como em toda teoria científica, o conhecimento objetivo do corpo físico só pôde se desdobrar evacuando a questão do que é um organismo vivo, um órgão vivo, uma célula viva. * A chamada explicação científica é geralmente apenas a intricação de regularidades objetivas observadas (mas incompreensíveis em si) com teorias cuja operatividade só funciona distribuindo seus elementos em sequências também incompreensíveis. * Estamos no caso de circularidade encontrado anteriormente a propósito do pensamento: só há problemas a resolver, e estes não devem ser transbordados pelo excesso infinito de uma questão. * É verdade que o conhecimento objetivo só se coloca problemas que pode resolver. * A elaboração deste conhecimento e a organização daquilo que nele não vai de si (as doenças, no caso do corpo físico) posicionam desde o início o problema a resolver nos termos de um sistema autônomo que reage constantemente a sinais endógenos e exógenos. * Mesmo o cérebro, nas neurociências e ciências "cognitivas", é concebido como um sistema complexo interconectado. * Há uma ilusão perigosa em acreditar que trocas de sinais, por mais complexas, possam dar origem ao conhecimento ("cognição") e, sobretudo, ao pensamento. * Neste caso, seríamos nosso corpo como dispositivo, e teríamos conhecimento e pensamento de maneira cega, mecânica, ao acaso do acaso nas trocas de sinais. * As próprias neurociências e ciências cognitivas não seriam possíveis, exceto numa caricatura dogmática. * Não haveria mais aquele excesso do viver encarnado sobre o corpo de que falávamos, nem a possibilidade do excesso da questão sobre o problema. * Pensar este excesso requer pensar o corpo "por dentro". * A consideração do corpo físico e de seu conhecimento objetivo mostrou que sua exteriorização como sistema objetivo equivale a instituir o corpo como uma "totalidade" sem interior – ou com um "interior" que é apenas o interior empírico de um saco que se pode abrir cirurgicamente. * Este interior pode sempre ser convertido em exterior; é um falso interior. * Este corpo físico, não podemos ser, pela razão indicada, mas também não podemos tê-lo, a menos que suponhamos uma alma desencarnada que o habite como um piloto seu navio. * Este é o peso do dualismo de origem cartesiana (que separa a alma imaterial do corpo material) sobre a concepção da ciência objetiva. * Na medida em que este corpo é instituído como o único real do corpo, esta instituição é simbólica. * Tudo o que não entra nela é declarado insignificante, não pertinente. * Esta situação não pode senão gerar, nos seres humanos vivos e encarnados que somos, um profundo mal-estar. {{tag>Richir corpo}}