====== História simbólica do corpo: Descartes (1993) ====== //RICHIR, Marc. Le corps: essai sur l’intériorité. Paris: Hatier, 1993.// * A passagem para a modernidade filosófica se dá com Descartes, cujo trabalho constitui uma verdadeira revolução e nova fundação da filosofia. * Sua importância é tal que ainda hoje somos, muitas vezes inconscientemente, "cartesianos". * A forma moderna do dualismo alma-corpo, com suas variantes, é de origem cartesiana. * Este dualismo parece irredutível e renasce incessantemente, estando ligado à instituição da ciência objetiva moderna, da qual Descartes foi um artífice. * O espírito da obra cartesiana contém toda a modernidade, mas de forma singular, marcada por dois elementos explosivos: * Descartes fala em primeira pessoa e visa fundar uma ciência segura pela clareza e distinção. * Ele desdobra simultaneamente uma espécie de //fábula autobiográfica// e a colocação metódica dos termos para converter a questão do conhecimento em problemas a resolver. * Esta é uma figura histórica do discurso científico no início da era barroca (como em Kepler e Harvey), mas em Descartes trata-se de conhecimento e metafísica, fundados na //observação interior// metodicamente formalizada. * Isto lhe permitiu descobrir novos campos para o pensamento, embora o "tremor" da descoberta tenda a se apagar atrás dos determinantes metafísicos de um problema resolvido em direito. * Este processo é característico nas //Meditações// (sua obra-prima). * Nas três primeiras meditações, o método não é prejudicado por nenhuma pré-determinação metafísica dos termos que gradualmente emergem. * Escolhas importantes são feitas, possibilitando, nas três últimas meditações, a determinação em linguagem metafísica desses termos. * Há uma certa circularidade que cegou muitos comentadores. * Se Descartes organizou seu texto como um relato fabulado a posteriori, não foi por pura astúcia, mas porque não há ciência sem um //caminho (methodos)// para ela. * Este caminho, eco do cristianismo agostiniano, só pode ser percorrido por um sujeito em primeira pessoa, um indivíduo que o encontra em si mesmo. * Reexaminando o argumento das três primeiras meditações (pelo ângulo da relação alma-corpo): * O objetivo é "estabelecer algo de firme e constante nas ciências". * A démarche converte a questão nos termos de um problema a resolver, passando em revista as fontes clássicas do conhecimento sob o critério de firmeza e constância. * Esta revisão é uma empresa de //dúvida// metodicamente organizada, que atinge tudo o que é de origem sensível e corpórea (considerado inconsistente para a conhecimento). * Restam apenas as matemáticas, por parecerem a priori firmes e constantes. * O que é profundamente revolucionário em Descartes é a articulação metódica entre: * A dúvida //metódica// (sobre o sensível e corpóreo). * A dúvida //hiperbólica// mais radical: o que garante que não sou enganado mesmo sobre as matemáticas por um //Grande Enganador//? * Esta questão abissal leva Descartes a //fingir// que todos seus pensamentos são falsos e imaginários. * Aqui entra em cena o //sujeito moderno// como sujeito de uma liberdade: a liberdade de fingir que não há nada verdadeiro ou real e de suspender todo assentimento (uma //epoché//). * A hipótese especulativa se transforma na experiência concreta do sujeito filosofante. * Na experiência concreta da dúvida hiperbólica universal, realizada ativamente por mim, surge a experiência igualmente concreta do //cogito//. * Se posso suspender todo assentimento e me colocar à altura da astúcia universal do Grande Enganador, esta astúcia não pode atingir a certeza //fática// de que existo quando duvido. * "Eu sou, eu existo": uma facticidade que não é a factualidade de um fato bruto (sujeito à dúvida), mas a //contingência irredutível// do meu ser, onde me reconheço existir cada vez que, no fundo da dúvida, me penso e me sinto existir. * Sem esta certeza, eu seria inteiramente o joguete de um Outro, louco ou psicótico (embora a psicose nunca atinja este limite metafísico). * O notável neste movimento é que o //cogito// não tem conteúdo determinado. * Seu único conteúdo é a certeza //fática// de existir, que é //minha// e ocorre "cada vez", pois é impossível instalar-se duravelmente na dúvida hiperbólica. * Quando Descartes responde "Quem sou eu?" dizendo que sou uma "coisa que pensa" (//res cogitans//), é preciso entender: * "Coisa" não no sentido de coisa determinada, mas no sentido indeterminado de "coisa pública" (//res publica//). * Nesta etapa, o pensamento inclui também o querer, o desejo, a imaginação e o sentir. * Na experiência do //cogito//, o pensamento é tudo isso junto, em estado nascente, na indiscernibilidade entre realidade e aparência, entre o que depois será atribuído à alma ou ao corpo. * Este pensamento é "confuso", mas esta confusão é a //fusão da alma e do corpo// na experiência íntima da certeza fática de existir. * Neste nível enigmático, há ao mesmo tempo o encontro da //união íntima// (que nos constitui) entre alma e corpo, e o encontro filosófico – pela primeira vez com tal força – da //aparição confusa, profusa e enredada// do que faz nossa existência e nosso ser em sua contingência. * Neste sentido, Husserl viu em Descartes um autêntico ancestral da fenomenologia, pois sobre nossa existência e ser ele não projeta nenhuma predeterminação metafísica ancorada em uma instituição simbólica determinada. * É em vista do //problema da conhecimento objetiva// que Descartes engaja, na segunda parte da segunda meditação, a famosa análise do pedaço de cera. * Os únicos conteúdos de pensamento claros e distintos (firmes e constantes, próprios para orientar a conhecimento) são os de nosso espírito. * Para colocar corretamente o problema da conhecimento (e resolvê-lo), é preciso partir deles. * Neste movimento, Descartes redescobre a evidência dos termos da instituição simbólica na qual a filosofia se elaborou como conhecimento. * Resta mostrar que esta instituição também pode assegurar a conhecimento objetiva (novidade moderna em relação aos gregos, para quem o exterior do pensamento não se instituíra como "objetos"). * Esta demonstração se realiza na ideia da //infinitude de Deus// como um excesso que excede originariamente toda representação que dele posso fazer. * Este excesso não só constitui a existência divina, mas também se desprende como a matriz da //objetividade// de nossos conceitos claros e distintos, especialmente os matemáticos, que são divinos neste sentido. * Toda a ambiguidade do projeto cartesiano vem do fato de que os conceitos claros e distintos da conhecimento concernem ao //que é//. * Pode-se pensar que esta reconquista do que é pela filosofia é o todo de Descartes, mas isso supõe que o abismo da dúvida hiperbólica era apenas uma astúcia retórica, evacuando a questão em favor do problema. * No quadro da conhecimento objetiva, o dualismo cartesiano é integral: a alma (//res cogitans//, inextensa) versus o corpo (coisa material e espacial). * Descartes pensou resolver o problema enigmático de sua união situando seu ponto de contato no espaço ambíguo da "glândula pineal". * Será sempre o problema de qualquer teoria dualista buscar em vão este ponto de contato ou tentar dissolver esta "glândula pineal". {{tag>Richir corpo Descartes}}