====== História simbólica do corpo: Aristóteles (1993) ====== //RICHIR, Marc. Le corps: essai sur l’intériorité. Paris: Hatier, 1993.// * A obra de Aristóteles aparece como a segunda grande obra filosófica grega, em um clima já diferente, mais fortemente ligada à argumentação e à história da filosofia. * Seu pensamento apresenta uma certa fixação de termos e conceitos filosóficos e um "espírito de sistema". * Nele, a conversão das questões em problemas a resolver se torna mais marcada, conferindo à filosofia uma autonomia estrita em relação a seu contexto de origem. * Aristóteles não precisou, como Platão, desgarrar a língua filosófica da língua comum, sendo considerado mais "moderado". * Por outro lado, é mais radical que Platão ao encontrar apenas a necessidade da conversão coerente de todo o pensamento em termos filosóficos. * Discípulo de Platão e dissidente da Academia, pode ser considerado o "segundo pai" da filosofia. * A análise da questão da alma e do corpo em Aristóteles toma como base o capítulo primeiro do livro II do //Tratado da Alma// (Péri psychés). * Aristóteles começa por distinções que servirão para colocar a questão da alma como problema. * A "realidade" (ousia) pode ser: a //matéria// (hyle) – o que, por si, não é uma coisa determinada; a //forma// (morphe) e a //figura// (eidos) – aquilo segundo o qual a matéria é dita uma coisa determinada; ou o //composto concreto// de matéria e forma – caso do corpo vivo. * A matéria é //potência// (dynamis) e a figura é //enteléquia// (entelecheia), termo com dois sentidos: como ciência possuída mas não exercida, e como ciência em exercício ativo. * A matéria é pré-determinada como um ser que, por si, escapa a toda singularização; a ela só vem a determinação pela forma. * Este ser retraído da determinação é o //ser-em-potência//. A forma, em oposição, é "enteléquia" – termo cunhado por Aristóteles que significa a "posse de algo em sua finalidade" (telos). * A matéria é, portanto, sem fim (ateles) ou "imperfeita", enquanto a "perfeição" (enteléquia) é a posse do fim. * A passagem à enteléquia pode se dar, no exemplo da ciência, da ignorância à ciência (aprendizado) ou da ciência possuída (em repouso) à ciência em exercício. * Aristóteles parte da opinião comum, que reconhece como "realidades" sobretudo os //corpos// (sômata), em particular os corpos naturais (physika). * Considera os corpos vivos, entendendo por //vida// (zoe) "o que se nutre, cresce e decai por si mesmo". * Se os corpos vivos são realidades, não o são no sentido da matéria (indeterminada) nem no sentido da forma pura (que exclui a corporalidade). * A realidade do corpo animado é uma realidade //composta// de matéria e forma, um //sinol// (synolon) – o que constitui o //hilemorfismo// aristotélico. * Aristóteles introduz uma distinção sutil: o corpo animado não é a vida ou a alma, mas a //possui//. * O corpo físico //não é// um corpo inanimado habitado pela alma; ele é //em si// corpo animado, tendo a vida //em potência//. * Com isso, Aristóteles corta todo dualismo metafísico entre alma e corpo. * A divisão não passa mais entre um "corpo de terra" mortal e uma alma imortal (como em Platão), mas entre o //ser-em-potência// da vida no corpo físico animado e seu //ser-em-enteléquia//. * A realidade formal do corpo nada mais é que a alma, e a alma é //enteléquia//. * A alma é, de certo modo, a própria vida, na medida em que nela a vida se cumpre possuindo a si mesma em sua finalidade (eidos). Mas esta vida não é outra coisa senão a vida do corpo que a possui em potência. * Com isso, Aristóteles está próximo da maneira como caracterizamos o //excesso do corpo sobre o corpo no próprio corpo//. * Resta saber como Aristóteles, com seu conceito de //enteléquia//, trata daquilo que chamamos de //excesso//. * A alma é enteléquia primeiro no sentido da ciência possuída (não é porque dormimos que não temos alma). * Mas a alma é também enteléquia no segundo sentido, da ciência em exercício (no estado de vigília). * Assim, a alma é //"uma enteléquia primeira de um corpo físico tendo a vida em potência"//, isto é, de um corpo //"orgânico"//. * O corpo vivo, orgânico, se cumpre na alma; este cumprimento é seu sentido fundamental, ontológico, e primeiro na ordem da geração. * A alma constitui propriamente o //ser// do ente-corpo. Ela é a enteléquia primeira do que caracteriza um corpo físico com princípio interno de movimento e repouso. * Os órgãos corporais (olhos, ouvidos) são partes do corpo físico; a eles correspondem, na enteléquia primeira, partes da alma (visão, audição). * No entanto, "o que a parte da alma é à parte do corpo, a sensibilidade inteira o é ao corpo inteiro sentiente, como tal". * Isso indica que as sensações não podem ser isoladas abstratamente e se misturam num //senso comum//, onde se originam a imaginação e a pensamento (livro III). * Restam as enteléquias que //não// o são de nenhum corpo, que são //separadas// dele, como em Platão: é o caso do //intelecto// (noûs), paciente (pathetikos) e agente (poietikos), órgão da conhecimento inteligível suprema. * Não sendo enteléquia de um corpo físico, independente da individuação em uma coisa singular (tode ti), o intelecto – e a conhecimento da qual é sede – é //anônimo//. * Aqui, na pura pensamento, o excesso é levado ao máximo e se toma a si mesmo como "objeto". * Em suma, na doutrina aristotélica: * O indeterminado de princípio (que para nós remete ao fenomenológico) é pré-determinado pelo determinante metafísico da //matéria// (hyle). Isto é típico do pensamento aristotélico: a posição filosófica dos problemas é coextensiva a uma pré-determinação de seus termos, referindo-os ao real, ao ontológico. * Isso significa a //instituição simbólica// da língua filosófica em si mesma, como língua autônoma que concerne ao ser do que é. * A filosofia aristotélica tende a reduzir as questões em problemas a resolver, resolvendo-os de modo estritamente filosófico. * Os termos desses problemas parecem irredutíveis, como únicos capazes de disciplinar o excesso da questão sobre o problema, criando uma impressão de //fixismo// ontológico e metafísico, onde os termos quase não "tremem" ou "se movem". * No problema alma-corpo, embora o dualismo seja "resolvido" na unidade do composto, a pensamento se dá, sob a forma da //enteléquia//, o excesso sobre o corpo. * Em Aristóteles, não se encontra uma gênese do excesso a partir de algo onde ele não estivesse já dado. * Ao descobrir os termos nos quais as questões filosóficas são tratáveis como problemas (em todo o campo do pensável), Aristóteles levou a filosofia ao ápice de sua instituição simbólica – razão de ser chamado "o Filósofo" na Idade Média. * Seu corpus tem a aparência de ser //inteiramente razoável//. Doravante, dar vida ao excesso da questão sobre o problema só poderá ser feito //contra// Aristóteles – como no neoplatonismo antigo. Pensar contra ele será sempre atravessá-lo, fazendo o excesso das questões atuar nos problemas por ele postos, o que parecerá excessivo frente à serenidade aristotélica da práxis filosófica, voltada para o equilíbrio da conhecimento do que é. {{tag>Richir corpo Aristóteles}}