====== Corpo (1993) ====== //RICHIR, Marc. Le corps: essai sur l’intériorité. Paris: Hatier, 1993.// * Propõe-se uma reflexão sobre o corpo além das dicotomias ser e ter. * A evidência fundamental é que o corpo é "nosso" corpo, com o qual nascemos, vivemos e morremos. * Esta co-apartenência levanta questões metafísicas sobre vida, nascimento, morte e diferença sexual. * O problema central é: temos (avons) ou somos (sommes) nosso corpo? * A pergunta metafísica é posta por nós, em nossa humanidade, que não se identifica simplesmente com o corpo. * No entanto, sem nosso corpo, não colocaríamos essas mesmas questões. * A questão do corpo é imediatamente a do corpo do ser humano e implica a diferença entre homem e animal. * A articulação do problema do corpo nos eixos do ser e do ter parece forçada e insuficiente. * Fica dividida entre um corpo positivo (que se possui como instrumento) e um corpo insensível/transparente. * Essa divisão deixa escapar o essencial: a experiência do corpo se movendo entre esses dois polos. * A questão é saber "quem" tem ou é o corpo. * Esse "quem" somos "nós mesmos". * Se esse "quem" fosse o próprio corpo, não poderíamos falar de "nosso" corpo; seria invisível para si. * Para que haja corpo, é necessário também o polo do "ter", não apenas na doença, mas como traço de sua espessura na experiência corrente. * Esta espessura, lugar do "viver encarnado", só é pensável se houver no corpo algo que o excede. * Este excesso no corpo é tradicionalmente nomeado como "psique" ou "alma". * Este excesso se manifesta nas sensações, afecções, afetividade, paixões e pensamentos. * Classicamente, este excesso é pré-identificado como "psíquico", como o "quem" que tem o corpo como instrumento. * O sentido identificado do "psíquico" (excesso) é imediatamente coextensivo ao sentido identificado do "físico" (instrumento adaptado ou deficiente). * As duas identificações se sustentam circularmente. * Não se deve partir precipitadamente deste sistema circular de identificações simbólicas. * O risco é dissolver o excesso na representação da alma ou dividi-lo infinitamente entre os polos do ter e do ser. * É necessário evitar pensar sensações, afecções, etc., como pertencentes a uma psique sem corpo. * Isso nos tornaria prisioneiros de uma interpretação restritiva do corpo (corpo físico vs. corpo psíquico). * Isso também nos incapacitaria de retomar a questão em sua enigma massiva. * Para abrir-se a essa enigma, é preciso suspender toda predeterminação não refletida do excesso. * É preciso praticar a "mise hors circuit" fenomenológica de todo "preconceito" sobre a alma e o corpo. * Seguindo Husserl e Merleau-Ponty, é preciso se esforçar para pensar o "corpo vivido", o "viver encarnado", intrinsecamente, de dentro. * O objetivo é pensar o excesso no próprio "viver encarnado". * Isto é: o excesso na sensação mesma, na afecção mesma, na afetividade mesma, nas paixões ou pensamentos mesmos. * Este pensamento deve proceder sem referência ao ter ou ao ser, mas não sem referência ao "quem". {{tag>Richir corpo}}