====== 1 Preliminares ====== //VAN REETH, Adèle; NANCY, Jean-Luc. La Jouissance. Québec: Librairie Plon, 2014.// * Dificuldade conceitual e desconforto com o termo gozo * A palavra apresenta manejo espinhoso por suscitar ambiguidades entre satisfação legítima e excesso desmedido, oscilando entre a acusação de obscenidade e a ideia de dominação ávida. * O incômodo atual decorre do temor ante a exigência desmedida que o gozo impõe, ao mesmo tempo em que a experiência contemporânea tende a circunscrevê-lo quase exclusivamente à esfera da sexualidade. * Deslocamentos históricos do conceito: do direito ao consumo * O termo descende etimologicamente do latim gaudere, não guardando em sua origem relação restrita ou privilegiada com a sexualidade. * Historicamente, o gozo possuiu acepção estritamente jurídica, definindo o direito pleno de uso, usufruto e eventual destruição de um bem pelo seu legítimo proprietário. * Ocorreu uma dupla mutação histórica do conceito: primeiramente migrou do âmbito patrimonial para o campo sensual e sexual; em seguida, expandiu-se contemporaneamente para o universo do consumo de mercadorias. * A identificação moderna do gozo com o consumo desenfreado culmina no esquecimento de que o ápice do consumo é a consumação ou destruição do objeto, evento que assinala o próprio término do gozo. * O campo lexical: distinções entre alegria, regozijo e gozo * A alegria e o regozijo pertencem à mesma linhagem semântica, guardando historicamente aproximações como no conceito provençal de amor cortês, no qual a exaltação amorosa prescindia deliberadamente da consumação orgástica. * Na sensibilidade contemporânea, estabeleceu-se uma oposição entre alegria e gozo, na qual a primeira é concebida como espiritual e desprovida de gênero, enquanto o segundo é associado ao peso corporal, terrestre e sexuado. * O regozijo preserva uma dimensão pública e coletiva de celebração festiva, caracterizada pela suspensão do trabalho cotidiano, da utilidade imediata e das finalidades produtivas, aproximando-se da aclamação jubilosa. * Diferenciações conceituais: prazer, alegria e beatitude * O prazer corresponde ao domínio kantiano do agradável, possuindo natureza centrípeta e subjetiva, na qual o objeto simplesmente convém ou satisfaz uma carência interna do indivíduo. * A alegria manifesta caráter centrífugo e desapropriador, operando um movimento de arrebatamento para fora de si e orientando o vivente em direção ao mundo exterior. * Sob a ótica de Espinosa, a beatitude representa o exercício ativo da força afirmativa do ser e a participação no amor à natureza ou a Deus, e não uma recompensa exterior conferida à moralidade. * O gozo se alinha fundamentalmente à dinâmica móvel e apetitiva da alegria, mantendo vivo o impulso de perseverança no ser, o qual carrega uma intensidade intrinsecamente análoga à energia sexual. * A tensão irresolúvel entre apropriação e desapropriação * Revela-se um paradoxo insolúvel no estatuto da posse: o domínio jurídico exige a titularidade da propriedade sobre o objeto fruído, enquanto a experiência erótica e existencial aponta com frequência para a perda de controle e para a desapropriação de si. * A linguagem erótica da posse, do pertencimento mútuo e do apelo à entrega não se reduz necessariamente a uma coisificação alienada, expressando antes modos de exposição, de dádiva e de abandono ao outro. * A apropriação fundada na primazia do sujeito moderno entra em crise porque o próprio eu íntimo não constitui uma substância estável, consistindo em uma relação reflexiva infinita e esquiva. * Quando as relações eróticas decaem no mero modelo dominador da apropriação proprietária, tanto o indivíduo que pretende possuir quanto aquele que é possuído acabam convertidos em meros objetos. {{tag>Nancy gozo}}