====== Extensão da alma ====== //NANCY, Jean-Luc. Corpus. Edition revue et complétée. Paris: Métailié, 2006.// **Resumo** A união da alma e do corpo encontra sua formulação decisiva na carta de Descartes a Elisabeth, de 28 de junho de 1643, na qual se distinguem três registros de exercício das faculdades: os pensamentos metafísicos, que exercitam o entendimento puro e familiarizam com a noção de alma; as matemáticas, que exercitam sobretudo a imaginação mediante figuras e movimentos e formam noções distintas do corpo; e a vida e as conversações ordinárias, nas quais, suspendendo a meditação e os estudos que exercitam a imaginação, aprende-se a conceber a própria união da alma e do corpo. * «Os pensamentos metafísicos que exercitam o entendimento puro servem para tornar familiar a noção de alma; e o estudo das matemáticas, que exercita principalmente a imaginação na consideração das figuras e dos movimentos, habitua a formar noções do corpo bem distintas; e, finalmente, valendo-se somente da vida e das conversações ordinárias, e abstendo-se de meditar e de estudar as coisas que exercitam a imaginação, aprende-se a conceber a união da alma e do corpo.» A seriedade dessa afirmação não contradiz a disciplina filosófica, pois a principal regra cartesiana consiste justamente em dedicar poucas horas aos pensamentos que ocupam a imaginação, pouquíssimas ao entendimento puro e todo o restante ao repouso dos sentidos e do espírito, evitando que a atenção contínua e as preocupações da vida impeçam o uso fecundo dessas faculdades e reconhecendo, ao mesmo tempo, a excepcional capacidade de Elisabeth para dedicar-se, em meio às suas obrigações, às meditações necessárias à distinção entre alma e corpo. As próprias meditações que permitem distinguir alma e corpo tornam obscura sua união, porque o espírito humano não pode conceber clara e simultaneamente a distinção e a união: seria preciso conceber alma e corpo como uma única coisa e, ao mesmo tempo, como duas, enquanto a experiência ordinária, sem filosofar, apresenta imediatamente uma única pessoa que possui conjuntamente corpo e pensamento, de tal modo que o pensamento pode mover o corpo e sentir aquilo que lhe acontece. * A comparação cartesiana com a gravidade e outras qualidades imaginadas como unidas aos corpos procura oferecer uma figura dessa união sem comprometer a distinção substancial entre alma e corpo. Se é mais fácil atribuir matéria e extensão à alma do que compreender como algo imaterial poderia mover o corpo ou ser movido por ele, pode-se atribuir livremente essa matéria e essa extensão à alma, pois isso significa concebê-la justamente enquanto unida ao corpo; uma vez experimentada essa união, torna-se novamente possível distinguir a matéria corporal, determinada em lugar e excludente de outra extensão, da extensão própria atribuída ao pensamento, que não possui essa mesma estrutura espacial. * «Atribuir essa matéria e essa extensão à alma» não elimina a distinção entre alma e corpo, mas corresponde ao modo de conceber sua união. Os princípios metafísicos precisam ser compreendidos profundamente ao menos uma vez, porque deles provém o conhecimento de Deus e da alma, mas seria prejudicial ocupar frequentemente o entendimento com essas meditações, pois isso impediria sua colaboração adequada com a imaginação e os sentidos; adquiridas e conservadas suas conclusões, deve-se retornar aos pensamentos e atividades em que entendimento, imaginação e sentidos operam conjuntamente. A união da alma e do corpo é concebida pela atividade da vida ordinária e não pelo pensamento ou pela imaginação tomados isoladamente, podendo ser concebida «sem filosofar» por qualquer pessoa e possuindo uma evidência comparável à do ego sum, embora segundo uma modalidade própria: a união não é apenas existente, mas possui sua própria evidência, certeza e distinção, precisamente como distinção do indistinto. A estrutura dessa evidência conserva a relação em que conhecido e cognoscente coincidem ou se distinguem como relação do mesmo consigo mesmo: o pensamento pensa-se pensante, a imaginação imagina figuras extensas e a união experimenta-se na desatenção da atividade em que se sente agir e padecer sem pensar reflexivamente, de modo que metafísica e matemática, uma vez adquiridas, devem ceder lugar a um saber no qual os três registros do conhecimento cooperem na atividade da vida ordinária e no uso do mundo. * A evidência da união corresponde ao momento em que o espírito, já provido dos fundamentos certos da verdade, deixa de voltar-se exclusivamente sobre si e passa à ação. * A verdade deixa então de constituir um fim autônomo e torna-se meio para uma verdade mais ampla e móvel: o uso da vida e do mundo. A evidência da união apresenta simultaneamente duas faces correspondentes à própria natureza, una e dupla, de seu conteúdo: de um lado, pertence à obscuridade, à indistinção e à contrariedade interna de uma concepção antinômica; de outro, é absolutamente certa e clara porque consiste naquilo que se «experimenta em si mesmo», isto é, no si unido a si do mesmo modo que corpo e alma estão unidos em uma única pessoa que possui conjuntamente pensamento e corpo. * Nessa união, o corpo faz-se sentir no pensamento e o pensamento torna-se força motriz no corpo. Esse conjunto é simultaneamente claro e obscuro, passivo e ativo: constitui um si inteiramente consigo mesmo, presente em si e para si, mas também um si simultaneamente outro e mesmo, estendido para fora de si, sentindo o mundo e sentindo-se nele com uma evidência cuja segurança aumenta precisamente à medida que diminui a atenção reflexiva sobre si. Quando a união é concebida, aquilo que conhece não pode ser simplesmente identificado nem com o pensamento nem com o corpo: o pensamento conhece a si ou seus objetos, enquanto o corpo propriamente não conhece, mas sente; entretanto, sentir já constitui um modo do pensamento sempre que um ego se relaciona consigo, assim como ocorre ao conceber, imaginar ou querer, de modo que o corpo conhece enquanto é alma ou enquanto está intimamente unido a ela. A alma conhece-se como extensão não através de uma representação do corpo, mas segundo a própria extensão corporal, devendo-se reconhecer nela uma extensão que se mistura a toda a extensão do corpo sem possuir a impenetrabilidade nem a exclusão espacial próprias da matéria; a alma estende-se na extensão mesma não como conteúdo alojado em um continente ou como piloto em um navio, mas como extensão do próprio inextenso, mediante a qual o extenso é experimentado em sua união com o inextenso. Essa experiência não constitui propriamente um saber, mas uma evidência obscura cuja própria obscuridade constitui sua certeza: não se trata de pensar um «corpo próprio» como figura extensa pela qual uma alma isolada se conheceria, mas de reconhecer que a alma inextensa é entregue à extensão que lhe é imprópria e que sua união com essa impropriedade é aquilo que ela concebe sem conceber, concebendo-o precisamente como inconcebível. Ao sofrer, ofegar, digerir, cair, saltar, dormir, cantar, gesticular ou coçar-se, não se conhece primeiramente um ego distinto dessas ocorrências, mas simplesmente aquilo que sofre, canta, gesticula ou se coça, de modo que o «isso» e o «aquele» deixam de constituir polos separáveis: há um aquele que não é senão esse isso corporalmente experimentado. Aquilo que conhece não é diferente daquilo que é conhecido, mas o que é conhecido nessa identidade consiste precisamente em duas coisas distintas numa única indistinção; quanto mais efetiva se torna essa identidade, menos distinta ela é e menos resta propriamente a conhecer, fazendo desaparecer a instância de propriedade pela qual um «eu» poderia dizer «meu corpo» ou «eu sou meu corpo» sem, nesse mesmo gesto, manter o corpo à distância e enfraquecer a evidência da união. A evidência da união tampouco consiste numa imersão imediata em uma suposta espessura íntima onde matéria e espírito coincidiriam, pois isso reduziria a união à improvável penetração do impenetrável concebido como ser em si; a união não é uma coisa que resulte dessa penetração, mas o próprio fazer da penetração do impenetrável, cuja evidência é precisamente a penetração dessa penetração e, por isso mesmo, não pode constituir a concepção de uma presença em si. Toda presença substancial, qualquer que seja sua natureza, nega tanto a presença quanto o si quando pretende fixá-los numa pura presença em si e a si, pois presença significa já um pôr-se diante, uma praes-entia ou ex-posição, enquanto um si somente existe porque em seu próprio coração há separação, contato de si consigo e pulsação de si a si, mediante a qual o «mesmo» desfaz continuamente o «si» que se imaginava simplesmente posto e pressuposto. A evidência da união pertence, portanto, a uma ordem distinta tanto da evidência do espírito quanto daquela da extensão, não podendo ser compreendida como uma nova evidência «clara e distinta» nem como certeza autofundada por uma inspectio mentis; ela não resulta de uma inspeção, mas de um exercício e de uma prova, cuja modalidade corresponde diretamente ao conteúdo que nela se experimenta. A união substancial não constitui uma terceira substância, pois uma substância somente se relacionaria consigo mesma e, se a união fosse uma terceira res, não poderia estabelecer nenhuma relação efetiva entre alma e corpo; seu conteúdo consiste justamente na relação entre as duas substâncias. Por outro lado, a união também não relaciona as duas substâncias acidentalmente, pois é precisamente substancial e poderia ser compreendida paradoxalmente como aquilo que opera a substancialidade de um acidente. A união une substâncias sem ser ela própria substância ou acidente, coisa, qualidade ou propriedade de uma coisa, correspondendo antes à propriedade compartilhada das duas substâncias e pertencendo à ordem da relação, não da res; essa relação não se reduz a inclusão, inerência, dependência, causalidade, disjunção, exclusão, contiguidade ou proximidade, embora possa atravessar e incluir esses diversos modos. A relação entre alma e corpo constitui uma pertença recíproca que não implica absorção nem subsunção de uma substância pela outra, mas susceptibilidade mútua, de tal modo que a alma pode ser tocada pelo corpo e o corpo pode ser tocado pela alma. Entre uma e outra há toque: um contato que comunica preservando intactas as duas res, pois o tocar alcança precisamente aquilo que permanece impenetrável, fazendo com que espírito e corpo, justamente porque não penetram um no outro, possam tocar-se e unir-se como contato entre dois intactos. Aquilo que o toque comunica não é uma res, mas pertence à própria ordem do tocar: impulso, pulsão, pressão, impressão, expressão ou estremecimento, de modo que a união se realiza na ordem do movimento e se manifesta na transmissão de um movimento da alma ao corpo ou do corpo à alma. Os movimentos da alma pertencem à ordem do pensamento e da relação consigo, na qual um ego relaciona-se consigo sentindo, concebendo, imaginando ou querendo; entendidos amplamente no léxico do motum, esses movimentos podem ser chamados e-moções, pois a emoção é o estremecimento de um ego que se altera e se afeta por si mesmo, pressupondo a autoafecção egoica ou cogitatio como co-agitação do ego. * «Ego sum, ego existo» manifesta na própria duplicação da fórmula a co-agitação ou o quase gaguejar emocionado do ego. Os movimentos do corpo pertencem ao transporte local e passam de um lugar a outro, pois a extensão é em si mesma fora de si, distância entre lugares, partes extra partes, figuras e movimentos; todos os movimentos corporais podem assim ser compreendidos como extensões, colocações para fora de si da pura coincidência consigo que definiria abstratamente o ponto como negação da extensão. 1) A análise da união enquanto união dos movimentos — união motriz ou mobilizadora — confirma a independência recíproca das substâncias, pois toda cogitatio pressupõe cogito e toda extensio pressupõe extenditur: de um lado, pensa-se sempre segundo um «eu» e, de outro, a extensão é sempre ela própria extensa, permanecendo cada substância primeira e última para si. 2) A união é, portanto, união da emoção e da extensão enquanto pressuposições heterogêneas, constituindo o toque de duas mobilidades ou, mais precisamente, a mobilidade própria do tocar como contato entre intactos. No ponto figurado pela glândula pineal, foco de incessante agitação, os dois movimentos tocam-se em um mesmo movimento no qual o incorporal se torna corporal e o corporal incorporal, não por transubstanciação, mas por comunicação, de modo que a extensão é emocionada e a emoção é estendida; essa duplicidade corresponde à identidade do mesmo prefixo e/ex na e-moção e na ex-tensão, fazendo da união uma operação simultaneamente única e dupla de ex-posição, uma re-união que pode ser compreendida como ex-união ou união intrinsecamente exógena. A evidência assim experimentada constitui um conhecimento que não se distingue de seu objeto e que, exatamente por isso, se in-distingue segundo sua própria prova, sendo simultaneamente e indistintamente emotiva e extensiva: conhecer-se dessa maneira significa ser comovido pelo próprio conhecimento e estendê-lo às coisas nas quais ele se investe, como os batimentos do coração, a raiz de uma unha, uma cor ou a granulação da superfície sobre a qual repousa a mão. Conhecer-se como batimento, unha, cor e superfície significa conhecer as extensões nas quais o ego se emociona e, reciprocamente, conhecer a egoidade dessas extensões, constituindo aquilo que se pode chamar mundo: uma totalidade de extensão emocionante e emoção extensa, isto é, uma totalidade de ex-posição que também pode receber o nome de sentido, entendido como partilha do ex pela qual aquilo que está em si remete simultaneamente a si e ao fora de si. O fora de si não permanece exterior ao mundo, pois constitui precisamente o dentro do mundo, cuja realidade consiste nessa ex-posição compreendida indistintamente como movimento corporal e incorporal daquilo que se estende em dois sentidos inseparáveis: distribuindo-se indefinidamente em partes extra partes impenetráveis e, ao mesmo tempo, penetrando e penetrando-se indefinidamente como extra-posição; assim, o extra das partes impenetráveis coincide com o existo, pois ex-istir e ser ex significam estar exposto segundo a exterioridade corporal, estar no mundo e, radicalmente, ser mundo. Ser mundo não significa ser imanente a si, mas estar fora de si como sentido extenso, de modo que o sentido do mundo coincide com sua extensão sem recurso a outro mundo ou a um além-mundo e, simultaneamente, encontra-se fora do mundo; essa identidade indistinta entre fora e dentro constitui precisamente aquilo que a evidência experimenta em sua prova confusa. A identidade do fora e do dentro não reabsorve uma substância na outra, mas expõe uma à outra como exposição do mundo a si mesmo, exigindo que sentido e verdade sejam compreendidos como essa própria exposição, que nem sequer pode ser designada simplesmente como «a mesma», pois é em si diferente de si e distinta de si justamente em sua indistinção. Aquilo que habitualmente recebe o nome de dualismo cartesiano pode ser compreendido não como simples corte ontológico entre corpo e espírito, mas como uma ontologia do «entre», da distância ou da ex-posição mediante a qual algo como um sujeito pode advir. Esse sujeito caracteriza-se fundamentalmente por não ser substância e por estar exposto aos outros sujeitos, sendo ambos os caracteres modalidades da divisão interna do ex que produz a motricidade e a mobilidade da união; um mundo de sujeitos é, assim, um mundo em expansão interna segundo essa dupla ex-posição, comum precisamente por sua insubstancialidade e pela impossibilidade ontológica de uma substância comum, impossibilidade que abre a possibilidade, a ocasião e o risco de ser-no-mundo. Quando a extensão é vista — como a cera derretida e estendida diante dos olhos —, emoção e extensão entram em contato, pois sem esse toque a inspectio mentis nada veria e a extensão tampouco se estenderia diante da mens: o espírito move-se em sua própria inspeção até a extensão, enquanto a extensão se prolonga até o espírito através dos canais e fibras do corpo nos quais o espírito se expõe ao inspecionar. A alma é então tocada, isto é, simultaneamente comovida e impressionada pelos «vestígios impressos» no corpo, pelas marcas extensas da extensão do mundo, expondo-se segundo uma modalidade própria da extensão e moldando-se à oscilação corporal: quando se caminha, é uma alma que caminha; quando se dorme, uma alma que dorme; quando se come, uma alma que come; e quando uma folha ou lasca corta a pele, a alma é cortada segundo a profundidade, a força e a forma da própria ferida, até que, na morte, ela se torne a própria morte. A alma não experimenta o corpo nem o corpo experimenta a alma como duas instâncias separadas, mas alguém se experimenta, e o «um» desse alguém é justamente o movimento indistinto desse experimentar-se: sente-se sem necessariamente distinguir-se como «si mesmo» substancial, pois o si se in-distingue precisamente à medida que se ex-põe a si e, nessa exposição, distingue-se como distinto do distinto em geral e portanto como in-distinto. Essa in-distinção não constitui fraqueza nem confusão de um objeto mal determinado, mas a própria força e movimento da caducidade do sujeito, enquanto este incessantemente cai para fora de si. «Psyche é extensa, nada sabe disso»: enquanto extensão, Psyche não sabe que é extensa, porque a extensão em geral não existe para ser sabida, mas para mover e e-mocionar. No emocionar-se ou expor-se da união, inseparavelmente una e dupla, dois em um e um em dois, sabe-se o não-saber de si que constitui o próprio si, emociona o sentido e faz de todo sentido — inclusive do sentido do saber — uma emoção exposta da alma ao corpo inteiro e até os limites do mundo. O corpo é a extensão da alma até as extremidades do mundo e até os confins do si, mundo e si intrincados um no outro e indistintamente distintos, numa extensão tensionada até o ponto de ruptura. {{tag>Nancy corpo alma}}