====== SER SINGULAR PLURAL ====== //NANCY, Jean-Luc. Être singulier pluriel. Paris: Galilée, 1996 / Being Singular Plural. Translated by Robert D. Richardson and Anne E. O’Byrne. Stanford: Stanford University Press, 2000:24// 1. Ser singular plural: essas três palavras justapostas, sem determinação sintática, marcam ao mesmo tempo uma equivalência absoluta e sua articulação aberta, impossível de encerrar numa identidade, sendo o ser singular e plural ao mesmo tempo, indistinta e distintamente, singularmente plural e pluralmente singular, não fornecendo isso um predicado particular do ser, formando antes o singular-plural a constituição de essência do ser, constituição que desfaz e desloca qualquer essência una e substancial do próprio ser, não havendo nenhuma substância preliminar que possa ser dissolvida, pois o ser não preexiste ao seu singular plural, não preexistindo nada de modo algum, existindo apenas o que existe. 2. Aquilo que existe, seja o que for, coexiste desde que existe, sendo a coimplicação do existir a partilha de um mundo, não sendo um mundo nada de exterior à existência nem adição extrínseca de outras existências, mas a coexistência que as dispõe juntas, podendo objetar-se que é sempre preciso que algo exista, tendo Kant afirmado que existe verdadeiramente algo dado que penso ao menos uma existência possível, bastando acrescentar que essa inferência conduz a provar um plural de existência: existe algo, ao menos eu, e algo mais, ao menos esse outro eu que se representa um possível e ao qual me dirijo. 3. Coexistem ao menos vários eus, e não apenas vários eus enquanto sujeitos de representação, pois com a diferença real entre dois eus é dada também a diferença entre as coisas em geral, sendo dado ao menos meu corpo e, por conseguinte, diversos corpos, servindo essa variante apenas para mostrar isto: que jamais houve nem haverá solipsismo filosófico, e num certo sentido jamais houve nem haverá filosofia do sujeito entendida como fechamento infinito em si de um por-si. 4. Houve, contudo, para toda filosofia, o problema colocado exemplarmente pela frase de Hegel segundo a qual o Eu é o universal em si e por si, e o comum é também uma forma, ainda que exterior, da universalidade, sabendo-se bem que a lógica dialética exige a passagem pela exterioridade, mas mesmo assim é sempre na forma interior e subjetiva do Eu que deve acabar por encontrar-se a verdade do universal e de sua comunidade, cabendo-nos, portanto, reter o momento da exterioridade como válido de maneira essencial, tão essencial que já não se refira mais a nenhum eu, individual ou coletivo. * O Eu é o universal em si e por si, e o comum é também uma forma, ainda que exterior, da universalidade. 5. Ser singular plural quer dizer: a essência do ser é, e é apenas, uma co-essência, mas uma co-essência, ou o ser-com, designa por sua vez a essência do co-, ou melhor ainda o próprio co-, o cum, em posição ou à guisa de essência, não podendo uma co-essencialidade consistir na montagem de diversas essências na qual restaria determinar a essência da montagem enquanto tal, significando antes a co-essencialidade a partilha essencial da essencialidade, a partilha à guisa de montagem, podendo dizer-se que, se o ser é ser-com, no ser-com é o com que faz o ser, não se acrescentando ao ser, como num poder colegial: o poder não é externo aos membros do colégio nem interno a cada um deles, mas consiste na própria colegialidade enquanto tal. 6. Não se trata, portanto, do ser em primeira instância, ao qual se acrescentaria o com, mas do com no coração do ser, sendo absolutamente necessário inverter ao menos a ordem da exposição filosófica, segundo a qual o com, e o outro que o acompanha, vem sempre depois, sendo essa sucessão desmentida pela lógica profunda em jogo, ordem conservada até mesmo, embora de maneira original, por Heidegger, que introduz a co-originariedade do Mitsein apenas depois de fixar a originariedade do Dasein, podendo fazer-se a mesma observação a propósito da constituição husserliana do alter-ego, que na realidade também é, à sua maneira, contemporâneo, ainda o cum, do ego na comunidade universal única. 7. Pode-se mostrar igualmente, e ao contrário, que quando Hegel começa a fenomenologia do espírito pela fase da certeza sensível, na qual, ao que parece, a consciência ainda não entrou em relação com a outra consciência, essa fase é contudo caracterizada pela linguagem com a qual a consciência se apropria da verdade da imediatidade sensível, o célebre agora é noite, estando assim sub-repticiamente pressuposta a relação com a outra consciência, sendo fácil multiplicar observações desse tipo, remetendo constitutiva e co-originariamente a evidência do ego sum à sua possibilidade em cada um dos leitores de Descartes, sendo a essa co-possibilidade que a evidência deve sua consistência e sua força de verdade: ego sum = ego cum. 8. Poderia assim tornar-se manifesto que, para toda filosofia, a sequência necessária da exposição não impede que a ordem profunda das razões seja regulada por uma co-originariedade, propondo-se ao inverter a ordem da exposição ontológica apenas trazer à luz uma evidência presente de maneira mais ou menos obscura em toda a história da filosofia, tanto mais presente quanto se pensa que ela responde à situação descrita: a filosofia começa com e na coexistência concidadã enquanto tal, fazendo surgir de repente, e diferenciando-se assim da forma império, o poder como problema, não sendo a cidade primeiramente uma forma de instituição política, mas o próprio ser-com como tal, sendo a filosofia, portanto, o pensamento do ser-com, e por isso também o pensar-com como tal. 9. Não se trata de esclarecer simplesmente uma exposição ainda defeituosa, mas de compreender por quais razões essenciais, através de toda a história da filosofia, o ser-com foi subordinado ao ser, sem deixar, ao mesmo tempo e em medida diretamente proporcional a essa subordinação, de fazer valer seu problema como o próprio problema do ser: em suma, o ser-com é o problema mais próprio do ser, cabendo-nos compreender por que e como isso é assim. 10. Retomemos então: não primeiro o ser do ente e depois o próprio ente enquanto ente um-com-o-outro, mas o ente, e cada ente, determinado em seu próprio ser como ente um-com-o-outro, singular plural, de modo que a singularidade de cada um é indissociável de seu ser-com-muitos, sendo em geral uma singularidade indissociável de uma pluralidade, não se tratando aqui de propriedade suplementar, implicando o conceito de singular sua singularização e, portanto, sua distinção em relação a outras singularidades, ao contrário do conceito de indivíduo ou de particular. 11. Singuli em latim só se diz no plural, pois designa o um do um a um, sendo o singular desde logo cada um, e portanto também cada com e entre todos os outros, sendo o singular um plural, oferecendo sem dúvida também a propriedade individual da indivisibilidade, mas não sendo indivisível como uma substância, sendo antes indivisível cada vez, no evento de sua singularização, indivisível como o instante, isto é, infinitamente divisível, ou pontualmente indivisível, sendo também sob forma de particular, mas à condição de considerá-lo como pars pro toto: o singular é cada vez pelo todo, no lugar e em vista do todo. 12. Uma singularidade não se recorta sobre o fundo do ser, mas é, quando é, o próprio ser ou sua origem, sendo fácil compreender como essas características correspondem às do ego sum cartesiano, sendo o singular um ego que não é um sujeito no sentido de uma relação entre si e si, sendo uma ipseidade que não é uma relação entre um eu e um si, não sendo nem mim nem ti, sendo apenas o distinto da distinção, o discreto da discrição, sendo o ser-à-parte do próprio ser e no próprio ser, sendo o ser de cada vez que atesta que o ser só tem lugar de cada vez. 13. A essência do ser é o golpe, significando ser sempre, cada vez, um golpe de ser, sendo também sempre, por conseguinte, um golpe de com: singulares singularmente juntos, cujo conjunto não é a soma, nem o agregado, nem a sociedade, nem a comunidade, sendo o conjunto dos singulares a própria singularidade, que reúne os singulares apenas na medida em que os espaça, que os liga apenas na medida em que não os unifica. 14. Nessa situação, o ser enquanto ser-com já não deveria mais dizer-se na terceira pessoa do é ou do há, não se dispondo mais de um ponto de vista externo ao ser-junto a partir do qual se poderia enunciar que há ente e há um ser-com dos entes uns com os outros, não havendo mais é, e portanto não havendo mais eu sou subjacente a toda enunciação do é, devendo antes conceber-se a terceira pessoa do singular como primeira pessoa, tornando-se então essa a primeira pessoa do plural, só podendo o ser dizer-se assim, singularmente: nós somos. 15. A verdade do ego sum é um nos sumus, e esse nós se enuncia a propósito dos homens, mas por conta de todos os entes com os quais nós somos, por conta de toda a existência enquanto ser-essencialmente-com, enquanto ser cuja essência é o com. * Quem, se? Nós falaremos, mas quem é esse nós? Como posso dizer nós por vocês, que me leem, e por mim? Como conseguimos pensar juntos aquilo que estamos, no entanto, fazendo, estejamos ou não de acordo? Como fazemos nós para sermos uns, ou umas, com os outros? 16. Aquilo que se define como sociedade, no sentido mais amplo e difuso da palavra, é a cifra de uma ontologia que ainda resta trazer à luz, tendo Rousseau intuído isso ao fazer do mal definido contrato não um acomodamento entre indivíduos, mas o próprio evento que fez de um animal estúpido e limitado um ser inteligente e um homem, confirmando Nietzsche essa intuição de maneira paradoxal ao fazer Zaratustra gritar que a sociedade humana é uma tentativa, e não um contrato. * O contrato fez de um animal estúpido e limitado um ser inteligente e um homem. * A sociedade humana é uma tentativa, e não um contrato. 17. Também Marx o havia compreendido, ao definir o homem como um ser social por proveniência, produção e destinação, e ao vislumbrar tendencialmente, como provam o movimento e a atitude de conjunto de seu pensamento, nesse ser social o próprio ser, tendo Heidegger chegado a dizê-lo, tornando o ser-com constitutivo do ser-aí, mas ninguém tendo tematizado até o fim o com como traço essencial do ser, como sua própria essência singular plural, tendo-nos contudo conduzido, juntos e um a um, até o ponto em que já não podemos mais eludir este fato, testemunhado por toda a experiência contemporânea: a aposta é agora não pensar mais nem a partir do um, nem a partir do outro, nem a partir do conjunto dos dois, entendido ora como o Um ora como o Outro, mas pensar absolutamente e sem reservas a partir do com, enquanto propriedade de essência de um ser que não é senão o um-com-o-outro. 18. O um / o outro: nem de, nem por, nem em, nem apesar de, mas com, ao mesmo tempo mais e menos que a relação e o laço, sobretudo se estes pressupõem cada um a preexistência dos termos que ligam, pois o com é ao contrário perfeitamente contemporâneo de seus termos, sendo sua própria contemporaneidade, sendo com a partilha do espaço-tempo, um ao-mesmo-tempo-no-mesmo-lugar enquanto ele mesmo, em si mesmo, desviado, um princípio de identidade instantaneamente desmultiplicado: o ser está ao mesmo tempo no mesmo lugar, no espaçamento de uma pluralidade indefinida de singularidades. 19. O ser está com o ser, não se recolhendo sobre si mesmo, mas estando ao lado de si, próximo de si, colado a si, até tocar-se, no paradoxo de uma proximidade em que vêm à luz o distanciamento e a estranheza, sendo nós cada vez um outro, cada vez com outros, não definindo com a partilha de uma situação comum nem a justaposição de simples exterioridades. 20. A questão do ser e do sentido do ser tornou-se a questão do ser-com e do ser-junto, do sentido do mundo, sendo esse o significado da inquietação moderna, que tem pouco a ver com uma crise da sociedade, mas muito mais com uma espécie de intimação que a socialidade ou a socialização dos homens dirige a si mesma, ou que recebe do mundo: dever ser apenas o que é, mas dever afinal ser ela mesma o ser enquanto tal, sendo essa fórmula à primeira vista uma abstração tautológica desanimadora, mas sendo nossa tarefa romper a casca dura dessa tautologia: o que é o ser-com do ser? 21. Num certo sentido, é sempre a situação ocidental dos inícios que se repete, é sempre o problema da cidade, cuja repetição já marcou os melhores e os piores momentos de nossa história, reproduzindo-se hoje essa repetição numa situação cujos dois dados principais formam uma espécie de antinomia: de um lado o desdobramento de um mundo, de outro o desaparecimento das representações do mundo, implicando isso nada menos que uma mudança nas relações filosofia-política, não se tratando mais de uma única comunidade, de sua essência, de seu fechamento e de sua soberania, mas tampouco de subordinar a comunidade aos decretos de uma soberania Outra, nem aos fins da história, e tampouco de considerar a socialidade como um acidente desagradável mas inevitável. 22. A comunidade está nua, mas é imperativa, refratando-se de um lado o próprio conceito de comunidade ou de cidade em todo sentido, brotando de maneira multiforme e caótica o infranacional, o supranacional, o paranacional e as diversas deslocações do nacional em geral, enquanto de outro lado o conceito de comunidade parece perder todo conteúdo exceto o de seu próprio prefixo, o cum, o com desprovido de substância ou de laço, despojado de interioridade, subjetividade e personalidade, não sendo, de um modo ou de outro, a soberania nada, não sendo senão o com-, como tal sempre por completar. 23. Não se trata tanto de teorizar um aniquilamento da soberania, mas de refletir sobre a seguinte questão: se a soberania foi o grande termo político para definir a comunidade, sem nada além dela, sem outro fim ou fundamento fora de si mesma, o que acontece quando essa soberania já não se lembra de nada, apenas de um espaçamento singularmente plural? Como pensar a soberania como o nada do com posto enfim a nu? E, se ao mesmo tempo a soberania política sempre significou a recusa da dominação, como pensar a soberania nua do com contra a dominação, contra o domínio do ser-junto por outra instância ou do conjunto por si mesmo? 24. Pôde-se começar a descrever a transformação atual do espaço político como uma passagem ao império, sendo o império precisamente o domínio sem soberania e ao mesmo tempo um desdobramento, um espaçamento, uma pluralidade inversa àquela concentração em interioridade que exige a soberania política, cabendo então pensar o espaçamento do império contra seu domínio, pressupondo, de um modo ou de outro, a soberania nua, se é possível transcrever assim a soberania de Bataille, um afastamento em relação à ordem filosófico-política e à filosofia política, não para favorecer um pensamento despolitizado, mas um pensamento que reponha em obra a constituição, a imaginação e o próprio significado do político. 25. O retraimento do político não significa seu desaparecimento, significando antes o desaparecimento do pressuposto filosófico de toda política-filosófica, que é sempre um pressuposto ontológico, podendo esse pressuposto tomar formas diversas, consistindo em pensar o ser como comunidade e a comunidade como destinação, ou em pensar o ser como anterior e exterior à ordem da sociedade, não se tornando assim o ser-junto verdadeiramente tema e problema da ontologia, sendo o retraimento do político o desvelamento, o desnudamento ontológico do ser-com. 26. Ser singular plural: tudo de uma vez, sem pontuação, sem sinais de equivalência, implicação ou consecução, um único traço contínuo-descontínuo que traça o conjunto do domínio ontológico, o ser-com-si-mesmo designado como o com do ser, do singular e do plural, e que impõe de repente à ontologia não apenas outro significado, mas outra sintaxe, sendo o sentido do ser não apenas sentido do com, mas também, e sobretudo, o com do sentido, não precedendo nem fundando nenhum desses três termos os outros, designando cada um a co-essência dos outros. 27. A co-essência coloca a própria essência no traço, ser-singular-plural, num traço de união que é também um traço de divisão, um traço de partilha que se apaga, deixando cada termo em seu isolamento e em seu ser-com-os-outros, devendo doravante buscar-se a unidade de uma ontologia nessa tração, nesse estiramento, nesse desvio e nesse espaçamento, que é simultaneamente o do ser, do singular e do plural, distinta e indistintamente. 28. Numa ontologia dessas, que não é uma ontologia da sociedade no sentido de uma ontologia regional, mas a própria ontologia entendida como uma socialidade ou uma socialização mais originária que qualquer sociedade, individualidade ou essência do ser, o ser é com, é como com do próprio ser, o co-ser do ser, de modo que o ser não se identifica como tal, mas se põe, se dá ou chega, se dis-põe, faz evento, história e mundo, como seu próprio com singular plural, dito de outro modo: o ser não é sem ser, o que permanece mera tautologia até que se compreenda que o ser é co-originariamente sob a forma de ser-com-o-próprio-ser. 29. Nessa forma, o ser é simultâneo, assim como, para dizer o ser, é preciso repeti-lo e dizer que o ser é, do mesmo modo o ser é simultâneo a si mesmo, sendo o tempo do ser, o tempo que o ser é, essa simultaneidade, essa coincidência que pressupõe a incidência em geral, o movimento, o deslocamento ou o desdobramento, a derivada temporal originária do ser, seu espaçamento. 30. Pollakôs legomenon, o ser se diz de muitos modos, tratando-se, num certo sentido, de repetir o axioma aristotélico, sendo, mais uma vez, em obediência ao com, ao também, ao ainda de uma história que repete essa escavação e essa tração do ser, a singularidade do ser seu plural, não se dizendo mais o ser de muitos modos a partir de um único suposto núcleo de sentido, pertencendo-lhe a multiplicidade do dizer, isto é, dos dizentes, com o dizer cada vez singular, como sua própria constituição, e pertencendo-lhe, além do dizer, a multiplicidade do ente em sua totalidade. 31. O ser coincide consigo mesmo apenas na medida em que essa coincidência se destaca de imediato e essencialmente pela co-estrutura de seu evento, incidência, encontro, ângulo de inclinação, choque, acordo discordante, coincidindo o ser com o ser, em outras palavras, sendo o ser o espaçamento, o sobrevir, o espaçamento sobrevindo, do co-, singular plural. 32. Poder-se-ia perguntar por que ainda chamar de ser algo cuja essência se reduz a um prefixo do ser, a um co- fora do qual não há nada, nada além dos entes ou existentes, mas nenhuma substância ou consistência própria do ser enquanto tal, sendo precisamente disso que se trata: o ser consiste apenas na existência de todos os existentes, não se dissolvendo contudo essa consistência num pulvéreo de entes justapostos, sendo isso o que se procura assinalar falando de disposição, que não é uma mera posição nem uma simples justaposição, definindo bem o co- a unidade e a unicidade daquilo que em geral é, devendo captar-se precisamente a constituição dessa única unidade como co-: o singular plural. 33. Poder-se-ia mostrar facilmente que este é um problema já colocado e retomado por uma longa tradição, que remonta à monadologia de Leibniz mas também às diversas formas da divisão originária e, mais em geral, às diversas formas da diferença do um em si mesmo ou por si mesmo, sendo o aspecto mais importante precisamente a repetição: a concentração e o aprofundamento da questão, o que não significa necessariamente um progresso, ou talvez um empobrecimento, mas talvez um deslocamento, uma deriva, um arrastamento em direção a outra coisa, a outro tipo de postura filosófica. 34. Provisoriamente, poder-se-ia ao menos dizer isto: não se trata de uma unidade originária e de sua divisão, nem de uma multiplicidade originária e de sua correlação, sendo preciso pensar em ambos os casos uma anterioridade da origem sobre qualquer evento que lhe sobrevenha, devendo então pensar-se uma unidade originariamente plural, sendo isso o que significa pensar o plural como tal. 35. Plus em latim é o comparativo de multus, não significando numerosos, mas mais, sendo um acréscimo ou um excesso de origem, na origem, sendo, para retomar os modelos evocados, o Um mais que um, não porque se divida, mas porque um = mais que um, pois não se pode contar um sem contar mais que um, ou, no modelo atomista, há os átomos mais o clinamen, não sendo o clinamen um elemento externo aos átomos, algo a mais em relação a eles, mas o mais de sua exposição: sendo vários, eles só podem pender ou inclinar-se uns em relação aos outros. 36. A imobilidade ou a queda paralela eliminariam a exposição, equivalendo a uma pura posição, fazendo-nos precipitar enfim no Um-puramente-um, ou, dito de outro modo, no Outro, sendo porém o Um puramente um menos que o um, não podendo ser posto nem contado, sendo ao contrário o um propriamente um sempre mais que o um, em excesso de unidade, sendo o um-com-o-um: seu próprio ser em si co-presente. 37. O próprio co-, e enquanto tal, a co-presença do ser, não é apresentável como o ser que ele mesmo é, pois só o é enquanto desvia o ser, sendo impresentável não por ocupar a região mais distante e misteriosa do ser, a do nada, mas por não estar submetido, simplesmente, à lógica da apresentação, sendo o com, nem presente nem a apresentar, nem, por conseguinte, impresentável em sentido estrito, a condição, singular plural, da presença em geral como co-presença. 38. A co-presença não é uma presença que se retrai em ausência, nem uma presença em si ou uma presença para si, nem sequer uma pura presença a, seja a si, a outros ou ao mundo, não podendo verdadeiramente nenhuma dessas formas de presença ter lugar, na medida em que têm lugar, se não tiver lugar, antes, a co-presença, não podendo um sujeito único sequer designar-se e referir-se a si como sujeito. 39. Um sujeito, no sentido mais clássico do termo, não pressupõe apenas sua distinção em relação ao objeto de sua representação ou domínio, pressupondo ao menos igualmente sua distinção em relação a outros sujeitos, dos quais possa distinguir a específica ipseidade em relação ao seu próprio núcleo de representações, sendo o com, portanto, o pressuposto do si em geral, mas não mais uma pressuposição subjacente sob a forma de autopressuposição infinita da substância subjetiva, sendo com, como assinala sua função sintática, a pré-posição da posição em geral, que assim lhe dá sua disposição. 40. O si, do si em geral, tem lugar com antes de ter lugar a si e/ou ao outro, sendo essa aseidade do si anterior ao mesmo e ao outro, e portanto anterior à distinção de uma consciência e de seu mundo, havendo, antes da intencionalidade fenomenológica e antes da constituição egológica, mas também antes da consistência coisal enquanto tal, a co-originariedade do com, não havendo portanto anterioridade em sentido próprio, sendo a co-originariedade a estrutura mais geral de toda con-sistência, de toda co-constituição e de toda co-consciência. 41. Presença-com: o com enquanto forma exclusiva do ser-presente, de modo que o ser-presente, e o presente do ser, só coincide em si, isto é, consigo, na medida em que co-incide, isto é, na medida em que cai com a outra presença, que por sua vez obedece à mesma lei, sendo o ser-em-vários-junto a situação originária, podendo até dizer-se que é o que define a própria situação em geral, sendo por isso um com originário ou transcendental que exige, com sensível urgência, ser demarcado ou articulado, tratando-se de um dos conceitos mais difíceis, pois a esse originário ou transcendental não se remonta, sendo ele estritamente contemporâneo de toda existência e de todo pensamento. {{tag>Nancy Sein Dasein Mitsein}}