====== O “viver” em sua dimensão passiva e ativa ====== * A análise do viver introduz a necessidade de pensar conjuntamente passividade e atividade como dimensões cooriginárias da vida da consciência. * O viver não se deixa reduzir nem à pura espontaneidade do eu nem à simples receptividade do dado. * Ele designa o modo de ser da consciência enquanto processo efetivo que se desenrola antes de toda tematização. * A vida é, desde o início, atravessada por uma duplicidade estrutural que impede sua compreensão unilateral. * A dimensão passiva do viver manifesta-se na afecção originária da consciência. * A consciência é primeiramente afetada antes de agir. * Algo se impõe a ela sem ser resultado de uma iniciativa egoica explícita. * Essa passividade não é ausência de intencionalidade, mas modo originário de sua efetivação. * A afecção inaugura um rapport à soi pré-reflexivo. * A consciência se sente a si mesma ao ser afetada. * Esse sentir não é um ato de conhecimento. * Ele constitui a auto-presença mínima que torna possível toda atividade ulterior. * A passividade do viver não deve ser interpretada em sentido naturalista. * Ela não corresponde a um impacto exterior vindo de um mundo já constituído. * Ela pertence à própria imanência da vida consciente. * O que é recebido é já vivido como significativo, ainda que não objetivado. * A dimensão ativa do viver emerge no prolongamento da passividade. * A consciência não se limita a sofrer as afecções. * Ela as retoma, as desenvolve e as orienta. * A atividade aparece como resposta imanente ao que a afeta. * A espontaneidade do eu não inaugura a vida, mas se grava sobre ela. * O eu age a partir de um fundo já-aí de vividos. * A atividade supõe sempre um solo passivo prévio. * O viver ativo é, assim, derivado sem ser secundário. * A unidade do viver reside na inseparabilidade entre sofrer e agir. * Toda atividade conserva um momento de receptividade. * Toda passividade implica uma mínima auto-implicação da consciência. * A oposição clássica entre atividade e passividade é, nesse nível, inadequada. * O viver passivo constitui o fundo operatório da consciência. * Ele sustenta silenciosamente os atos explícitos. * Ele não se oferece como objeto de tematização imediata. * A reflexão só pode alcançá-lo de modo indireto e retrospectivo. * O viver ativo corresponde à explicitação parcial desse fundo. * Nos atos do eu, a vida se torna mais visível. * A intencionalidade explícita é uma forma intensificada do viver. * Contudo, ela não esgota a vida que a sustenta. * A temporalidade interna articula passividade e atividade. * A retenção conserva o que foi vivido passivamente. * A protensão orienta a atividade futura. * O presente vivo é o lugar de sua copertença. * O viver é, assim, essencialmente processual. * Ele não se fixa em estados. * Ele se define como movimento contínuo. * Esse movimento é simultaneamente sofrido e produzido. * A análise do viver revela uma concepção não dualista da vida da consciência. * A consciência não alterna entre passividade e atividade. * Ela vive sempre sob o modo de sua imbricação. * A vida consciente é unidade dinâmica de recepção e espontaneidade. * A fenomenologia é levada, desse modo, a repensar o estatuto do sujeito. * O sujeito não é puro agente. * Ele não é tampouco puro paciente. * Ele é vida que se vive e se desdobra no meio-termo entre o afeto e a iniciativa. {{tag>Montavont Husserl vida}}