====== Vida da experiência ====== //MONTAVONT, Anne. De la passivité dans la phénoménologie de Husserl. 1re éd ed. Paris: PUF, 1999.// * A análise parte da distinção entre diferentes tipos de intencionalidade, destacando aquela que possui o privilégio da doação da coisa enquanto coisa. * Entre os modos intencionais, a percepção é caracterizada como aquele que conduz à Selbstgegebenheit da coisa. * A percepção é entendida em sentido amplo como visão doadora, evidência ou experiência. * Esse privilégio não é acidental, mas define o estatuto originário da experiência em relação às demais modalidades intencionais. * A diferença fundamental entre percepção, expectativa e rememoração é estabelecida a partir dos modos de doação do objeto. * A percepção apresenta a coisa ela mesma. * A expectativa e a rememoração apenas a presentificam por meio de uma imagem. * A apresentação é definida como modo originário ao qual toda presentificação remete enquanto modificação intencional. * A doação em pessoa da coisa é descrita como um modo de consciência corporal. * A coisa se apresenta em carne e osso, isto é, em sua corporeidade viva. * A evidência é compreendida como uma operação vivente da consciência. * Esse modo originário é oposto à obscuridade própria das modificações retencionais. * A percepção introduz a noção de Leibhaftigkeit do noema. * O objeto percebido acede à consciência de modo corporal e imediato. * A vida da experiência é definida como um certo modo de doação, a saber, a doação em carne e osso. * O que confere vida à experiência é a presença efetiva da coisa. * Vida e intencionalidade são pensadas em estreita proximidade conceitual. * A qualificação de um ato como vivo ou não decorre da teoria geral da intencionalidade. * A vivacidade do ato depende de seu modo de doação. * Essa proximidade antecipa o deslocamento da consciência de ato para a vida intencional. * Do ponto de vista estático, estabelece-se uma hierarquia entre modo originário e modos derivados. * O modo originário é caracterizado pela vivacidade. * Os modos derivados se definem por uma perda progressiva dessa vivacidade. * A experiência ou evidência é privilegiada como centro e telos da consciência. * A experiência originária é definida como o aparecer da coisa em sua verdade viva. * A coisa é dada em pessoa, em carne e osso. * A evidência coincide com a presença original da coisa. * A verdade viva da coisa se identifica com seu modo de aparecer originário. * A questão da presença viva da coisa é reconduzida à estrutura da percepção. * A coisa é dada porque o olhar se dirige explicitamente a ela. * Mais precisamente, é o eu que dirige seu olhar para o objeto. * A presença da coisa depende da orientação intencional do eu. * O cogito é definido como o modo intencional em que o eu está explicitamente presente. * No cogito, o sujeito se dirige ao objeto intencional. * O olhar sobre o objeto é imanente ao cogito e irrompe a partir do eu. * A presença do eu não pode faltar nesse modo de consciência. * O que distingue o cogito dos demais modos intencionais é a animação do ato pela presença do eu. * O cogito é um ato no qual o eu está intencionalmente engajado. * O eu vive atualmente o ato, seja na ação, no sofrer, na espontaneidade ou na receptividade. * Essa vivência atual confere ao ato seu caráter vivo. * Torna-se necessária a distinção entre atos operados e atos não operados. * Os atos operados correspondem ao cogito propriamente dito. * Os atos evanescentes e os inícios de ações não são vividos pelo eu enquanto sujeito operante. * Apenas os vividos puramente atuais determinam o sentido forte de cogito e de consciência. * A vida é situada do lado da consciência atual e explícita. * O cogito é definido como intencionalidade explícita. * Ele supõe um eu vigilante, atento ou desperto. * O eu vigilante é aquele que realiza continuamente a consciência sob a forma do cogito no fluxo dos vividos. * A presença da coisa em carne e osso depende do polo egóico. * O eu é capaz de lançar um raio em direção à coisa. * O eu funciona como centro de referência do ato. * O centro orienta o ato e lhe fornece uma fonte originária. * A vitalidade do ato depende da existência dessa fonte egóica. * O ato é vivo quando emana de um polo a partir do qual pode nascer. * O objeto constitui o polo complementar da relação intencional. * A experiência viva é aquela que se origina de um eu que se projeta no mundo. * A dispersão da experiência se recentra em torno do núcleo vital representado pelo eu. * A presença da coisa depende da centração do ato. * Essa centração implica uma presença a si, ainda que implícita. * A presença transforma-se assim em presente. * A evidência é qualificada como viva em virtude de sua presença a si mesma. * A presença original do objeto remete à presença do eu. * Essa presença não é temática, mas imanente ao ato. * A vida da experiência encontra seu fundamento último no agora vivo da consciência. * A presença viva do objeto reconduz finalmente ao agora vivo da consciência. * O lebendige Jetzt é o ponto de ancoragem da evidência. * A vida da experiência coincide com esse agora originário. * A intencionalidade viva é, em última instância, temporalmente fundada no presente vivo. {{tag>Montavont Husserl vida experiência}}