====== OBJETO PERCEPTUAL DA FENOMENOLOGIA E BESTAND (2015:40-41) ====== //MITCHELL, Andrew J. The fourfold: reading the late Heidegger. Evanston (Ill.): Northwestern university press, 2015// [...] a Bestand também mostra um contraste marcante com o objeto perceptual da fenomenologia. Parte da concepção husserliana do objeto — de fato, um princípio básico da própria fenomenologia — é que o objeto não é dado de uma só vez, mas sim em perfis e perspectivas. Husserl é sempre muito claro ao dizer que “a percepção de um todo não implica a percepção de suas partes e determinações”.((Husserl, Ding, 49–50/Thing, 42.)) É verdade que o “resto” do objeto é pretendido nesses perfis, seja como retido na memória ou obtido na expectativa, mas em cada caso o que é dado diretamente é apenas um perfil. Nas palestras Thing and Space (Coisa e Espaço) de 1907, Husserl faz uma distinção meticulosa entre esses modos de aparição “próprios” (eigentliche) e “impróprios” (uneigentliche): “A apreensão total e a aparência total da percepção se dividem em aparência própria, cujo correlato é o lado do objeto que é percebido no sentido próprio e que de fato é apresentado, e a aparência imprópria, o apêndice da aparência própria, que tem seu correlato no resto do objeto.”((Husserl, Ding, 50/Thing, 43, em.)) O que Husserl deixa claro nas palestras //Coisa//, no entanto, é que sem a impropriedade das percepções anexas, não haveria sequer uma percepção própria. O próprio depende desse horizonte. De fato, quando falamos em perceber apenas um lado de algo, isso só é possível graças a essas aparências impróprias de não apresentação: “As determinações objetivas de aparência imprópria são co-apreendidas, mas não são 'sensibilizadas', não são apresentadas por meio do que é sensível, ou seja, por meio do material da sensação. É evidente que são co-apreendidas, pois, de outra forma, não teríamos nenhum objeto diante de nossos olhos, nem mesmo um lado, uma vez que esse lado só pode ser de fato um lado por meio do objeto.”((Husserl, Ding, 55/Thing, 46, em.)) O perfil que vemos é apenas um perfil em sua conexão com um todo não presente da coisa. Em outras palavras, a coisa nos é dada precisamente por não nos ser dada de uma forma “adequada”. Mas com a Bestand não há mais nenhuma impropriedade de aparecer. A obscenidade da Bestand acaba com isso em uma disponibilidade absoluta. Não há perfil nem parte, oculto ou não. Assim interpretada, a Bestand em sua disponibilidade exigiria que refletíssemos mais sobre algumas das pressuposições mais básicas da fenomenologia, em particular, aquelas que envolvem a natureza dos objetos, do todo, do dado e até mesmo da própria propriedade. Quando “aquilo que é” está em reserva, a própria fenomenologia sofre uma perda de seu controle sobre o mundo. O desafio que a requisição representa para a coisificação da coisa é, portanto, peculiar. Não visa nada que possa se mostrar. A coisa não é ameaçada com a contenção dentro de si mesma (objetificação), mas com a total disponibilidade externalizada de si mesma (mercantilização). Em ambos os casos (sufocamento ou evisceração), a coisa deixa de ser coisa. Mas onde o objeto era discreto, a Bestand é tudo menos isso. Sua disponibilidade acaba por levá-lo a cadeias de substituibilidade e destruição, como veremos. A requisição vira a coisa do avesso a fim de torná-la disponível para entrega imediata. {{tag>Mitchell Husserl Bestand}}