====== COISAS (2015) ====== //MITCHELL, Andrew J. The fourfold: reading the late Heidegger. Evanston (Ill.): Northwestern university press, 2015// * O Geviert é o pensamento das coisas ao nomear a reunião de terra, céu, mortais e divindades que constitui a coisa, inaugurando no pós-guerra uma atenção às coisas simples como foco fenomenológico denso, relacional e mundano, contra o objeto autocontido da metafísica moderna, e oferecendo a chave para compreender uma relacionalidade finita mediada pelo mundo. * Geviert como reunião de terra, céu, mortais e divindades. * Anúncio no final dos anos 1940 como afirmação decisiva sob interdição de ensino. * Convergência entre interpretações de Hölderlin nos anos 1940 e cadernos dos anos 1930. * Coisa definida por relações que a vinculam ao mundo circundante. * Mundo como meio no qual correm as relações da coisa. * A nova orientação à coisa forjada nas conferências de Bremen de 1949 coloca Insight Into That Which Is ao lado de Sein und Zeit (1927) e de Beiträge zur Philosophie (1936–38) como terceiro marco decisivo, reforçado pela confissão de 1964 de que apenas a conferência sobre a coisa expôs o pensamento em termos próprios sem mediação provisória pela tradição. * Bremen 1949 como lugar de forja inicial do Geviert. * Sein und Zeit e Beiträge como marcos comparativos de período. * Carta de 1964 como confirmação da centralidade da conferência “The Thing”. * Exposição “em termos próprios” contraposta à inteligibilidade buscada “pela tradição”. * A investigação concentra-se no Geviert como traço distintivo da conferência “The Thing” e busca seguir seus termos de perto para contornar confusões que obscureceram a intuição sobre a coisa, evitando assimilações a quadros externos e privilegiando uma leitura palavra por palavra de “The Thing” (1949) e “Building Dwelling Thinking” (1951) para desdobrar mediação e relacionalidade no interior dos textos do período. * Confusão interpretativa como razão de negligência dos insights sobre a coisa. * Assimilações recorrentes a Platão, Aristóteles, gregos, tradições não europeias, Hölderlin, ou a Sein und Zeit. * Ênfase na proximidade ao vocabulário efetivo de Heidegger. * Método de exegese termo a termo e ressonâncias no entorno textual. * Mediação e relacionalidade como eixo conceitual resultante. * O pensamento do Geviert conduz a uma compreensão extrema da finitude ao tratar a limitação positivamente como superfície de exposição ao além e como irradiação relacional que exige um meio transmissivo, identificando esse meio como mundo e formulando assim a tese de que pensar a finitude das coisas é pensar a mediaticidade do mundo. * Limite como interface com o além. * Finitude como extensão para fora de si em múltiplas relações. * Além como não-vazio capaz de transmitir relações. * Mundo como meio da existência finita mediada. * Mediaticidade como categoria decisiva para finitude. * A noção de meio requer afastar o equívoco de um “entre” geométrico entre polos fixos, pois as coisas aparecem já em conjunção relacional e são hospitalares ao além que as atravessa, enquanto o meio não é terceiro objeto presente-à-mão, mas campo envolvente e imersivo de interação, recebendo múltiplos nomes em Heidegger e culminando na tese de que o Geviert fornece o mínimo estrutural da existência finita mediada. * Coisas não fixas nem autocontidas; aparecer como exposição e abertura. * Hospitalidade das coisas como acolhimento do além. * Meio como envolvimento e imersão, não como intermediário entre objetos. * Relações como correntes que fluem pelo campo do meio. * Nomes do meio: das Zwischen, das Heitere, das Heilige, der Äther, die Mitte, die Dimension, das Element, die Lichtung, der Tod. * Geviert como mínimos estruturais da mediação e relacionalidade. * Adota-se uma periodização tripartida do percurso de Heidegger, distinguindo um período inicial (1912–1932) culminando em Sein und Zeit (1927), um período médio (1933–1944) centrado em Beiträge (1936–38), e um período tardio pós-guerra (1945–1976) orientado por Insight Into That Which Is (1949), com reconhecimento de subdivisões possíveis e com foco no pós-guerra do Geviert. * Três períodos com datas aproximadas e obras-eixo. * Possíveis subdivisões internas em cada período. * Recorte privilegiado: anos 1950 como “tempo do Geviert”. * O “tempo do Geviert” é delimitado de modo amplo entre 1949 e 1960, com maior concentração e desenvolvimentos decisivos entre 1949 e 1955, sem reduzir o Geviert a fase passageira, já que ele permanece proeminente nos anos 1950 e acompanha o pensamento até o fim, com menções ainda em 1973–1975. * 1949–1960 como faixa principal de referências. * 1949–1955 como núcleo de desenvolvimentos. * Persistência do Geviert na totalidade dos anos 1950. * Continuidade até os últimos anos com textos tardios. * A leitura privilegia inicialmente os ensaios e conferências ao redor imediato dos textos do Geviert, recorrendo a escritos do início dos anos 1960 e do meio dos anos 1940 quando iluminam o tema, e retomando Beiträge e Sein und Zeit sobretudo por contraste para salientar deslocamentos, mantendo a cronologia para dar autonomia às obras tardias e evitando reduzir o Geviert a gênese ou reconfiguração de posições anteriores. * Prioridade aos textos contemporâneos ao Geviert. * Incursões seletivas a Hölderlin e Heráclito do meio dos anos 1940 e a textos dos anos 1960. * Retorno a Beiträge e Sein und Zeit como contraste, não como matriz explicativa. * Independência relativa do tardio frente ao inicial. * Recusa de anacronismo que lê o tardio apenas pelo inicial. * O núcleo do tardio é formulado como nova preocupação com a coisa e com a estrutura do Geviert que abre a coisa ao além e ao mundo, tornando-a também endereçável por um mundo dominado pela tecnologia, de modo que a apresentação do Geviert em Bremen coincide com a articulação máxima das exigências tecnológicas por Gestell e Bestand, entendidos como transformação do ser e como modo de existência sob posicionalidade. * Coisa como crux do pensamento tardio. * Geviert como estrutura de reunião que abre relações. * Abertura ao mundo como condição de ser endereçado por ele. * Domínio tecnológico como demanda originária sobre o relacional. * Gestell e Bestand como nomes do regime tecnológico. * O primeiro capítulo desenvolve tecnologia como impulso de substituibilidade e comodificação que transforma tudo em Bestand e ameaça singularidade, sem ser acidente externo às coisas por ser modo de ser, culminando na ameaça aniquilatória da bomba atômica como alteração ontológica na natureza das coisas, e sustentando a tese de que sem Bestand e sem Gestell não há coisas nem Geviert. * Tecnologia como substituibilidade e comodificação global. * Ameaça à singularidade e unicidade das coisas. * Tecnologia como modo de ser, não como fator exterior. * Bomba atômica como horizonte de destrutibilidade em princípio. * Tensão entre singular e substituível como eixo. * Dependência recíproca: sem standing-reserve e posicionalidade, sem coisa e sem Geviert. * Os quatro capítulos seguintes percorrem terra, céu, divindades e mortais como membros do Geviert, configurando terra como sensível não quantificável e radiante, céu como meio temporal e meteorológico que “intemperiza” o aparecer, divindades como mensageiros que inscrevem sentido numa hermenêutica da mensagem, e mortais como abertura comunitária ao mundo pela desapropriação constitutiva da morte. * Terra como sensível não substancial, não fundamento sólido. * Brilho e densidade qualitativa do aparecer. * Céu como meio atravessado por clima, luz, noite/dia e estações. * Aparecer como ser afetado pelo meio em que aparece. * Divindades como mensageiros e condição do sentido. * Exposição à graça e surpresa como condição do significativo. * Mortais como capazes de morte e, por isso, em mundo e em comunidade. * A sexta parte recompõe o “thinging” da coisa a partir do Geviert, examinando o pertencimento dos quatro como “jogo de espelhos” e traços das coisas como leveza, permanência e infinitude própria, enquanto a conclusão retorna à tese de que a ameaça tecnológica de substituibilidade é interna à singularidade e que o Geviert implica ruptura com a diferença ontológica, indicando o alcance de uma transformação do pensar das coisas. * “Mirror play” como modo de co-pertença dos quatro. * Coisas como “slight”, que “abide”, e como “in-finite” em sentido próprio. * Substituibilidade como condição interna da singularidade. * Abandono da diferença ontológica como consequência do tardio. * “Thinging” como foco do fechamento. * Uma objeção inicial sustenta que pensar coisas não seria novidade, pois Sein und Zeit distingue modos de ser dos entes próximos como Vorhandenheit e Zuhandenheit, mostrando a primazia de uma relação pragmática de concernimento e de um contexto de equipamento que funda a atitude teorética, com interrupções que fazem o instrumento saltar ao foco como presente-à-mão. * Vorhandenheit como correlato da objetividade teorética. * Zuhandenheit como modo primordial do equipamento no concernimento. * Contexto de uso e aplicação como organização pré-conceitual do mundo. * Interrupção do trabalho como passagem ao presente-à-mão. * Uma objeção reforçada apela à análise da mundanidade ao afirmar que iniciar por “coisas” já antecipa ontologicamente a res e leva a substancialidade e realidade, ocultando justamente os entes encontrados na preocupação cotidiana, e que designar “coisas” como proximamente dadas é desvio ontológico ainda que se queira apontar algo onticamente próximo. * “Coisa” (res) como antecipação ontológica do caráter do ente. * Substancialidade, materialidade e extensão como trilha inadequada. * Ocultação do que é encontrado na preocupação (concern). * Desvio ontológico apesar de intenção ôntica de proximidade. * A impossibilidade de falar de coisas em Sein und Zeit no sentido tardio decorre de que presença e utilidade permanecem subordinadas ao regime do servir como meio a fins, enquanto a coisa exige ser pensada como nó relacional que é e não serve, de modo que a análise do mundo como oficina do querer culmina em Nietzsche e em Ernst Jünger (Der Arbeiter) e torna tudo mobilizável e substituível, exigindo então uma transformação da coisa e do mundo para que a transformação do humano como ser-no-mundo não permaneça vazia, tarefa que o Geviert assume ao reconfigurar coisa e mundo e ao evitar reduzir o tardio a redundância do inicial. * Ferramenta como subordinação a fins externos e substituibilidade. * Metafísica do querer como horizonte que absorve a utilidade. * Nietzsche e Jünger como culminação no mundo-oficina. * Ausência de lugar para coisas no regime da mobilização. * Transformar sujeito sem transformar objeto como mudança nula. * Geviert como reconfiguração de coisa e mundo em continuidade exigente com ser-no-mundo. {{tag>Mitchell coisa}}