====== Negatividade ====== //MERLEAU-PONTY, Maurice. [[https://classiques.uqam.ca/classiques/merleau_ponty_maurice/visible_et_invisible/visible_et_invisible.html|Le visible et l'invisible: suivi de notes de travail.]] Texte établi par Claude Lefort. Paris: Gallimard, 1964. (Bibliothèque des Idées).// **A fé perceptiva e a negatividade** 1. A filosofia julgou superar as contradições da fé perceptiva suspendendo-a para desvelar seus motivos, mas com isso a transformou numa crença entre outras, fundada em razões, quando na percepção a conclusão vem antes das razões, que só surgem quando a evidência é abalada. Confundir a fé perceptiva com essas razões é postular que ela sempre foi resistência à dúvida, o positivo como negação da negação; a reflexão converte a fé no mundo em enunciados, mas repousa nela, pois é por crer no mundo que creio na ordem de meus pensamentos. É preciso buscar, sob a própria reflexão, as razões de crer que o filósofo procura em si. 2. Essa crítica vale não só para a reflexão psicológica que se volta para os estados de consciência, mas também para uma reflexão depurada que os trata como unidades diante de um sujeito absoluto: ambas convertem a abertura ao mundo em consentimento de si a si e a fé perceptiva em atos de um sujeito sem parte no mundo. Para evitar essa primeira mentira, é preciso repensar, com e através da reflexão, o Ser-sujeito e o próprio Ser, atentando para o horizonte do Mundo que a guia secretamente, positividade primeira que nenhuma negação de dúvidas iguala. 3. Dir-se-á que antes da reflexão é preciso uma frequentação ingênua do mundo e um Si alienado ou em êxtase ([[lx>termos:e:ek-stase|ek-stase]]) no Ser. A coisa seria o que repousa em si, inteira em ato, transcendente, na noite da identidade, e, correlativamente, para que nada se interponha, o sujeito deveria ser esvaziado de representações, imagens e até da qualificação de "sujeito", "espírito" ou "Ego", que o faria voltar a ser coisa pensante ([[lx>termos:r:res-cogitans|res cogitans]]). A consciência seria sem "habitante", o "nada", o "vazio" capaz da plenitude do mundo, ou que dela precisa para sustentar sua inanidade. 4. Com essa intuição do Ser como plenitude e positividade absolutas e do nada purificado, Sartre explica o acesso primordial às coisas: entre o Ser e o nada que sou não há interação, e somos opostos e confundidos por não sermos da mesma ordem, intuição do ser solidária de uma "negintuição" do nada. O negativo só é pensado como negativo se não é, como borda do ser que o chama para não ser nada, falta que se constitui como falta e se cava na medida em que se preenche: o "isto" presente só determina meu vazio por ser efêmero, negação redobrada. Uma filosofia da negação é também filosofia do Ser, para além do monismo e do dualismo, e dissolve os problemas de "mistura" e "união": o conhecimento, nadificação, nada acrescenta ao Ser e, no entanto, lhe dá ser "tal como é"; o cogito é pré-reflexivo, sou em êxtase nas coisas, sou o mundo, e o idealismo e a "cãibra reflexiva" desaparecem porque a relação de conhecimento se apoia numa "relação de ser". * Segundo Sartre, "o fundamento da negação é negação da negação", e o surgimento do [[lx>termos:p:para-si|Para-si]] é "a única aventura possível do [[lx>termos:e:em-si|Em-si]]", como uma "Paixão do Para-si que se perde para que a afirmação 'mundo' chegue ao Em-si"; "esse ser que me investe por todos os lados, é precisamente nada que me separa dele, e esse nada é intransponível". 5. Nessa filosofia, o que vejo não é mundo privado: perspectivas e até cores de um daltônico pertencem ao ser, e só as lacunas são minhas. O olhar de outrem sobre a mesa não é um nada como sou para mim nem tem meu poder de levar as coisas à verdade; ele me parece palpação cega, e minha percepção, vivida de dentro, tem um poder incomparável de ontogênese que me reconduz a um solipsismo transcendental. Contudo, o espectador estranho põe à prova minha dedicação ao ser e me lembra que o ipse é um nada que faz o espetáculo para X, desde que os outros possam apresentar-se como outros focos de negatividade. 6. Os outros não aparecem nas coisas nem em seus corpos, mas nascem de meu lado, como Eva de Adão, e a questão não é distinguir dois nadas, mas saber se pode haver mais de um corpo e de uma situação. Minha situação, região do ser que assumo primeiro, restringe meu olhar e é opaca para mim, e um olhar exterior, se possível, a envolveria e envolveria meu nada: daí a experiência não de outrem, mas de minha passividade no ser, atestada pela vergonha. Outrem é um olhar vindo de lugar nenhum que me envolve, e minha negação fundamental só se completa quando negada de fora; mas, como não há graus no nada, ele nada me ensina que eu ignorasse. A filosofia do negativo ratifica a pretensão da fé perceptiva a um mundo numericamente único, pois o solus ipse é aberto a um além de suas perspectivas, e o que era obstáculo para a filosofia reflexiva torna-se princípio de solução. 7. A filosofia do negativo satisfaz também a terceira exigência da fé perceptiva, a de uma totalidade confusa de corpos e espíritos: as consciências pertencem a um Ser de que nenhuma tem a cifra e se experimentam misturadas, inscritas no mundo, e até sonhos e ilusões são do ser e têm sentido. O negativismo rigoroso é uma espécie de positivismo, toda negação é determinação, e a pergunta "por que há algo em vez de nada" desaparece, pois o nada inexiste e o ser é, num ajuste exato. * Negação e posição afrontam-se "num tumulto semelhante ao silêncio", e o mundo é como a faixa de espuma vista de avião, imóvel de longe e, de perto, escoamento e vida, sem que a amplitude do ser jamais ultrapasse a do nada. 8. Em certo sentido, essa filosofia leva a filosofia ao ponto morto, pondo reflexão e espontaneidade em equivalência: como negatividade, estou sempre atrás das coisas, capaz de suspender minha adesão, mas esse pensamento do mundo é nada, e a evidência do mundo é premissa, e minha consciência, consequência. Não há dois movimentos, abandono ao mundo e retomada reflexiva, mas percepção do ser e impercepção do nada coextensivas: negativismo e positivismo absolutos são sinônimos, o nada só aparece como "lagos de não ser" e está em toda a extensão do visível, e esse pensamento é invulnerável por conter tudo o que se lhe oporia. 9. Mas talvez seja inapreensível: começa opondo absolutamente ser e nada e termina mostrando o nada interior ao ser. Há diferença entre o Ser restrito do início e o Ser amplo do fim, e os dois movimentos se cruzam sem se confundir: num, o ser é negação da negação e o conhecimento seu atributo; noutro, o nada é posição redobrada, e o conhecimento, atributo do ser. 10. Pensando a partir do negativo puro, fixa-se uma antinatureza, o nada que sou, e com isso o ser é definido como plenitude equidistante, sem graus: a negintuição já é presença ao ser, e há uma armadilha, pois dizer que o nada é o destrói, e dizer que não é lhe confere uma espécie de ser. O pensamento negativista ignora a espessura, a profundidade e os planos, compensando uma abstração por outra, e reconcilia apenas em aparência imanência e transcendência: não é o ser que é transcendente, sou eu que o carrego por abnegação. Não há progresso nem síntese, mas a mesma antítese inicial, e o cogito pré-reflexivo permanece ambíguo, pois o nada não pode encontrar inércia em si; um espectador único, não tomado no movimento, assiste ao percurso, como na filosofia reflexiva. 11. O pensamento negativista estabelece entre nada e ser uma coesão rígida e frágil, lábil, o que se vê na encarnação, na visão que outrem tem de mim e no pertencimento comum ao mundo. Outrem é compreendido pela pureza negativa do Para-si, como alienação que assumo por ter de ser minha situação: não há atividade e presença de outrem, mas um não eu neutro, e o olhar alheio só tem força porque me alieno. Filosoficamente, não há experiência de outrem, apenas a força do fato, e essa relação ambivalente é uma variante empírica, e não a forma canônica. 12. Mesmo que outrem seja o titular X do olhar que me paralisa, dizer que o preparei ao assumir minha situação nada esclarece, pois o olhar de outrem me envolve inteiro, ser e nada, e por isso é fato puro. Esse fato tem sentido: sou petrificado por um olhar de alguém, e um animal só produziria eco enfraquecido, de modo que algo no olhar o anuncia como de outrem e me mostra percebido alma e corpo. A negação da negação cristaliza-se na simplicidade de um "isto": há uma coisa, eis alguém, e a existência de outrem é a verdade de minha vergonha; quanto ao mundo comum, o pensamento negativista oscila entre um ser puro sem nada e um ser que incorpora atributos negativos, pensamento "ventríloquo" de que fala Platão. 13. A filosofia reflexiva, dominada pelos conceitos de sujeito e consciência, só concebe o irrefletido como reflexão antes da reflexão, e a filosofia do negativo parecia restituir o ser bruto, mas, se ser e nada são opostos absolutos, fundem-se num Sobre-ser mítico. Essas definições são, porém, retrato abstrato de uma experiência, a da visão como panorama, em que vou ao mundo e, no entanto, suas partes não coexistem sem mim. Tomadas ao pé da letra, tornariam a visão impossível: tenho um nada preenchido de ser e um ser esvaziado de nada, e, se a visão separa do ser, já não é puro não ser, e o ser não é puro Em Si; o olhar acaricia as coisas, e as negações e perspectivas devem ser reintegradas ao Ser, escalonado em profundidade, abismo e não plenitude. A analítica do Ser e do Nada é o vidente que esquece seu corpo, e não há coisa plenamente observável: é seu aspecto de coisa que convence de que seria observável. 14. Para uma filosofia da visão pura, não há encontro com outrem, pois o olhar que domina transforma os homens em manequins, como do alto das torres de Notre-Dame; a visão só deixa de ser solipsista de perto, quando o outro volta contra mim o feixe em que o captava. Fazer de outrem um X inacessível e invisível parece garantir sua alteridade, mas, formulado em tese, esse agnosticismo fala por todos e usurpa-a, e surge um sistema de quatro termos: meu ser para mim, para outrem, o para-si de outrem e seu ser para mim. A dissimetria eu-outrem é real, mas é preciso haver passagem de um ao outro: outrem não é flagelo nem juiz sem rosto, basta que tenha o poder de descentrar-me, porque somos duas entradas para o mesmo Ser, e seu corpo e sua fala me apresentam uma certa ausência segundo dimensões comuns, numa única imagem em que ambos estamos implicados. O mundo é principalmente visual, mas a visão tem campo e alcance, e só as estrelas distantes são puras coisas. 15. A questão é saber se a vida se passa entre um nada e um ser absolutos, com a tarefa impossível de devolver ao Ser tudo o que dele tomamos, ou se toda relação com o Ser, até na visão e na fala, é carnal, com a carne do mundo, em que o ser "puro" só transparece no horizonte. O ser integral está na interseção de minhas visões e das dos outros, de meus atos e dos deles, e o mundo sensível e o histórico são intermundos, registros onde o que vemos e fazemos se torna coisa, mundo e história; nossa vida tem atmosfera, envolta nas brumas do mundo sensível e da história, promiscuidade coesa de corpos e espíritos. Não se deve negar essa implicação por poder ser rompida pela morte, nem torná-la transcendental: é nossa implicação no Ser, e o Em-si-para-si sartriano tem a solidez de um mito, imaginário operante indispensável à definição do Ser. 16. A filosofia da negatividade é lógica e experiência ao mesmo tempo: a dialética do ser e do nada prepara a descrição do nada enterrado no ser, e ambas são formas de pensamento imediato, fixação de essências e coincidência com o vivido. Ela aceita tudo o que se lhe opõe, identificando-o aos princípios contrários, e deixa a impressão de sobrevoar a situação que descreve, pois omite a situação do filósofo que fala e o desvio entre as essências e o vivido. O ponto de partida deve ser não "o ser é, o nada não é", mas "há ser, há mundo, há algo", no sentido forte do dizer grego (τὸ λέγειν), coesão e sentido: um campo de aparências de que cada uma pode ser riscada e substituída por sua verdade, um relevo ontológico em que o fundo nunca é nada. Como a filosofia reflexiva, a do nada torna impossível a abertura ao ser, pois nela o ser nunca está verdadeiramente a distância. * Ser e nada são apenas ditos (λεκτά) que trabalham um contra o outro num meio comum; a objeção de que sem negatividade absoluta haveria apenas imagens flutuantes supõe as dicotomias reflexivas. 17. A dicotomia do Ser e do Nada não subsiste nas descrições do nada enterrado no ser, e seria o caso de substituir intuição e negintuição por uma dialética. A dialética admite interações e relações múltiplas e opostas num mesmo todo, cada uma levando a seu contrário, faz do Ser um sistema de várias entradas a percorrer, em que as etapas passadas permanecem e são modificadas, e é um pensamento que faz seu caminho, implicado no movimento, em que o sentido de cada enunciado depende de seu lugar no todo e da presença do filósofo que enuncia. Ela é o pensamento do Ser-visto, manifestação de si em curso, capaz de integrar sentidos múltiplos, como o movimento circular de Heráclito. 18. Essa é a dialética buscada, mas ela é instável e nunca se formulou em tese sem desnaturar-se, pois seu gênero de ser não admite designação positiva e deve ser autocrítica, esquecendo-o ao tornar-se filosofia. Quando se enuncia como doutrina, a negação vai ao absoluto, o ser recai no positivo puro e o movimento vira ambivalência, como em Hegel, em que Deus se nega para que o mundo seja, e em Sartre, com o sacrifício do Para-si. A dialética, que é epíteto, torna-se potência de ser, "Ó Dialética", astúcia que ri de nossas expectativas: a má dialética impõe uma lei exterior ao conteúdo e autoriza o inelutável, e só é boa a "hiperdialética", que se critica como enunciado separado e sabe que toda tese é idealização. Essa dialética sem síntese não é ceticismo nem relativismo: recusa apenas que a superação produza um novo positivo, admitindo superações concretas e parciais, e busca uma definição dialética do ser, anterior à cisão reflexiva, onde os movimentos se cruzam e "há" algo. {{tag>Merleau-Ponty visão percepção negatividade}}