====== 0.3 Atenção e juízo ====== //MERLEAU-PONTY, Maurice. Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard, 1945. (Bibliothèque des Idées).// 1. O intelectualismo, antítese do empirismo, situa-se no mesmo terreno que ele: ambos tomam por objeto de análise o mundo objetivo, que não é primeiro nem no tempo nem no sentido, e ambos são incapazes de exprimir o modo próprio pelo qual a consciência perceptiva constitui seu objeto, mantendo distância da percepção em vez de aderir a ela. 2. A história do conceito de atenção mostra que empirismo e intelectualismo fazem dela um poder geral, vazio e incondicionado que nada cria: para o primeiro, ela revela sensações já dadas num mundo em si; para o segundo, esclarece uma estrutura inteligível que a consciência já possui. Nenhum dos dois apreende a consciência no ato de aprender, essa ignorância circunscrita e essa intenção ainda vazia, mas já determinada, que é a própria atenção. * No empirismo, derivada da "hipótese de constância", a atenção funciona como um projetor que ilumina objetos preexistentes na sombra, idêntico em todos os atos, sem conexão interna com as percepções que a despertam. * No intelectualismo, a atenção é fecunda porque o objeto já contém a estrutura que ela desvela, como a cera que é desde sempre extensão flexível e mutável; a percepção distraída nada contém a mais nem de outro que a atenta, e a lua no horizonte não seria nem pareceria maior que no zênite. * Ao empirismo falta a conexão interna entre o objeto e o ato que ele desencadeia, ao intelectualismo falta a contingência das ocasiões de pensar: o primeiro não vê que é preciso saber o que se procura para procurá-lo, e o segundo não vê que é preciso ignorá-lo. 3. Contra essa concepção de um sujeito ocioso, a análise psicológica mostra que a atenção é a constituição ativa de um objeto novo, que explicita e tematiza o que era oferecido apenas como horizonte indeterminado. Ela cria um campo que se pode dominar e realiza nos dados uma articulação nova, reconstituindo a unidade do objeto numa dimensão nova no momento mesmo em que a rompe. * Nos distúrbios de localização tátil, a desagregação de um campo sensorial que não se mantém fixo revela um espaço pré-objetivo, com extensão, mas sem posição unívoca; a primeira operação da atenção é criar um campo a "dominar" (Ueberschauen). * A percepção infantil das cores, que passa do colorido e acromático para tons "quentes" e "frios" antes de distinguir as cores propriamente ditas, mostra que a primeira percepção da cor é uma mudança de estrutura da consciência, e não a simples nomeação de qualidades já vistas. * O objeto é o "motivo", e não a causa, do ato de atenção, pois só o suscita pelo sentido ambíguo que oferece a determinar; essa passagem do indeterminado ao determinado, que retoma a cada instante a própria história num sentido novo, é o próprio pensamento. * Na visão livre, as partes do campo motivam a enorme lua do horizonte, grandeza sem medida que ainda é grandeza, e cabe à reflexão filosófica despertar a consciência para essa vida irrefletida que ela esquecia. 4. A noção intelectualista de juízo, introduzida para suprir o que falta à sensação, permanece dominada pelo empirismo e recai numa atividade lógica de conclusão, que constrói a percepção em vez de revelá-la. Ela apaga a distinção entre sentir e julgar e torna incompreensíveis a percepção verdadeira e a ilusão. Perceber não é julgar, mas apreender um sentido imanente ao sensível, anterior a todo juízo, que cria de uma vez, com a constelação dos dados, o sentido que os liga. * A análise do pedaço de cera salta das qualidades sensíveis para a cera do físico, perdendo a cera percebida, com sua permanência própria, seu "horizonte interior" de variação e sua cor fosca que anuncia a moleza. * Se tudo o que excede a impressão é juízo, como no caso da caixa grande que parece mais pesada ou do cubo desenhado que muda de aspecto, as palavras "ver" e "sentir" perdem sentido, e já não se distingue "ver" de "crer que se vê". * Na ilusão de Zöllner, as linhas principais, ao receberem as linhas auxiliares, deixam de ser paralelas e adquirem uma significação nova que as torna inseparáveis do conjunto; essa transformação do fenômeno motiva o juízo falso, revelando uma sintaxe perceptiva anterior às relações objetivas. 5. Superada a sensação pela percepção entendida como interpretação, a reflexão intelectualista faz da percepção um pensamento de perceber e de sua finitude uma simples ignorância de si, mas continua presa à atitude natural. Ela aceita dogmaticamente as ideias do verdadeiro e do ser e usa tacitamente a "doxa originária" da percepção, em vez de tomá-la como tema, de modo que o mundo constituído e a consciência constituinte absoluta exprimem duas vezes o mesmo preconceito de um universo em si inteiramente explícito. * A sensação pura é o "efeito último" do conhecimento científico, projetado ilusoriamente no início, e pertence ao constituído, não ao espírito constituinte. * Para o intelectualismo, tudo existe como coisa ou como consciência, sem meio-termo, e a percepção, não estando em lugar algum, reduz-se a intelecção confusa, suprimindo todos os problemas exceto o de seu próprio começo; uma pensamento infinito imanente à percepção seria antes uma forma de inconsciência. * O "habemus ideam veram" pressupõe a memória e a palavra partilhada, isto é, a percepção; é a percepção, como conhecimento das existências, que atravessa de uma vez as dúvidas e reúne experiências dispersas no tempo e entre sujeitos, e a filosofia deve recolocá-la em seu campo de origem. * Daí uma filosofia em partida dupla, que salta de uma visão naturalista para uma dimensão transcendental sem jamais perguntar como o mesmo sujeito é parte e princípio do mundo; uma reflexão autêntica rejeita ambas as visões como falsas. 6. Uma leitura mais profunda de Descartes permite entender o "juízo natural" como constituição de um sentido do percebido não anterior à percepção, fenômeno da passividade que antecipa o juízo kantiano e reconhece a percepção como conhecimento originário. O cartesianismo, porém, não tomou por tema a existência, a individualidade e a facticidade, pois isso exigiria dar à finitude e ao tempo um significado positivo; ele apoia o pensamento humano numa pensamento que se possui absolutamente, e a análise reflexiva repousa assim numa ideia dogmática do ser. * A percepção seria um juízo que ignora suas razões, e a união da alma e do corpo, conhecida pela vida e não pelo entendimento, indica uma reflexão sobre um irrefletido que ela não reabsorve: a estrutura inteligível da cera é reconstituída, não constituída. * A reflexão nunca se retira de toda situação e surge sem saber de onde surge; o cogito constataria o fato de uma reflexão que domina e mantém a opacidade da percepção, identificando razão e condição humana. * Toda percepção, e não só a de espetáculos novos, recomeça o nascimento da inteligência: para reconhecer a árvore como árvore, o arranjo momentâneo do sensível precisa desenhar de novo, como no primeiro dia do mundo vegetal, a ideia individual daquela árvore. * A experiência do presente como ser que nada impedirá de ter sido, sugerida nas Meditações, não é desenvolvida numa intuição do tempo, e a ligação entre essência e existência é buscada na ideia de infinito, e não na experiência. 7. A crítica da "hipótese de constância", levada até o fim, revela que a percepção não é ato de entendimento e adquire o valor de uma verdadeira "redução fenomenológica", que condena todo realismo. A Gestalttheorie, presa ao naturalismo, só sabe escolher entre razão e causa, quando as relações perceptivas exigem o conceito fenomenológico de motivação: um fenômeno desencadeia outro não por eficácia objetiva, mas pelo sentido que oferece, numa espécie de razão operante. * Uma paisagem vista de cabeça para baixo ou um quadrado apoiado sobre um vértice tornam-se quase irreconhecíveis, embora para o entendimento "alto" e "baixo" sejam relativos, o que revela um ser perceptivo que ainda não é o ser determinado. * Os pretensos sinais da distância, como grandeza aparente, disparidade das imagens retinianas, acomodação e convergência, só são conhecidos numa percepção analítica, mas a Gestalttheorie conclui que seriam causas, restaurando a psicologia explicativa e traindo suas próprias descrições. * No sujeito com músculos oculomotores paralisados, a intenção de olhar para a esquerda e a aderência da paisagem ao olhar motivam o deslocamento aparente do objeto; da mesma forma, os objetos interpostos "querem dizer" maior distância, sem razão lógica, mas com motivo. * O corpo próprio e a percepção exterior oferecem o exemplo de uma consciência não tética, de uma lógica vivida e de uma significação imanente que não é clara para si; fazer-lhes plena justiça exige mostrar que a consciência nunca deixa de ser um fato, o que implica uma teoria da reflexão e um novo cogito. {{tag>Merleau-Ponty atenção juízo}}