====== Lugar metafísico ====== (MATTÉI, Jean-François. Heidegger et Hölderlin. Le Quadriparti. Paris: PUF, 2001:95) 1. O primeiro curso dedicado a Hölderlin, na Universidade de Friburgo no semestre de inverno de 1934-1935, versa sobre os dois grandes hinos em honra da Germânia e do Reno, poemas aproximados não apenas pela data comum de composição, 1801, mas pela unidade de inspiração manifesta no duplo canto dirigido à pátria do poeta e a seu rio, integrando o que Heidegger chama de "ciclo das poesias fluviais" em torno do ponto médio de A Germânia. 2. O texto do curso, originalmente contínuo, foi ordenado em duas partes — A Germânia e O Reno — compostas respectivamente de dois e três capítulos, articulados em vinte e quatro parágrafos, distribuição que apresenta forma equilibrada entre a leitura heideggeriana de cada poema, obedecendo a uma "linha arquitetônica unitária" (einheitliche Baulinie) que revela a arquitetura secreta dos dois poemas, um em relação ao outro, culminando no desvelamento do "sítio metafísico da poesia hölderliniana". 3. Já na primeira frase da introdução instala-se dupla sintonia entre a poesia de Hölderlin e a interpretação de Heidegger, ao afirmar-se que Hölderlin "dá o tom" ([[lx>termos:b:bestimmt|bestimmt]]) ao trabalho, questão que se resolve na hipótese de que é o próprio Ser que impõe essa tonalidade inicial à linguagem, tanto de Heidegger quanto de Hölderlin, acordando-as numa harmonia fundamental voltada para a origem que se dissimula sob o início do poema A Germânia. 4. Um lugar não nomeado neste texto já era evocado num fragmento tardio de Hölderlin, citado por Heidegger no parágrafo 1 e novamente ao final do parágrafo 24, conferindo ao percurso do pensamento uma figura circular — a que se referirá mais tarde O Caminho de Campo —, versos que funcionam como abertura e final da sinfonia do ser orquestrada por Heidegger ao afinar as quatro notas da tonalidade fundamental ([[lx>termos:g:grundstimmung|Grundstimmung]]). 5. Heidegger propõe-se dizer "o mais alto" — o ser, ou o mundo, em seu surgimento — afrontando não a poesia de Hölderlin por prazer estético, mas aquilo em que ela encontra sua fonte, encerrando a introdução, antes da leitura de A Germânia, com as reflexões de Hölderlin, numa carta ao irmão no dia de Ano Novo de 1799, sobre a verdadeira natureza da poesia como recolhimento e repouso vivo dos homens numa comunidade originária, distinta do jogo em que cada um se esquece de si. 6. A leitura de A Germânia revela que esse poema de sete estrofes de dezesseis versos segue uma "configuração rítmica" primeira, um "élan originário" que comanda a escolha e o encadeamento das palavras, configuração que depende da "tonalidade fundamental" da poesia, a qual provém, por sua vez, do "lugar metafísico próprio" onde cada poesia vem a nascer, exigindo o rompimento com a tendência de ver no poema um objeto neutro, pois "não somos nós que possuímos a linguagem, é a linguagem que nos possui, para o bem e para o mal". 7. No parágrafo 4, dedicado ao "espaço da poesia", Heidegger rejeita a ideia corrente de que o ato poético ([[lx>termos:d:dichten|dichten]]) seja o meio de expressão de uma experiência vivida ([[lx>termos:e:erlebnis|Erlebnis]]) do poeta, concepção que reduz a poesia à expressão de uma alma singular ou coletiva — como em Spengler, para quem a poesia expressava a alma de uma cultura, e em Kolbenheyer, que via nela função biológica de um povo —, hipóteses diretrizes igualmente rejeitadas por reduzirem a poesia a expressão sublimada da vida. 8. Tais concepções redutoras, que interpretam poesia, língua e mundo como expressões da força vital de um sujeito, são recusadas sem apelo, e ainda que a "ideologia do sujeito" disponha espontaneamente ao "fascismo" ao se afirmar como "sujeito absoluto" num "Estado total", nada está mais distante dessa ideologia subjetivista do que a interpretação hölderliniana de Heidegger, para quem o poema não é mais objeto de linguagem do que a poesia é produção de versos ou expressão do vivido do poeta. 9. Interrogando o sentido de poetizar (dichten), Heidegger remonta à etimologia da palavra alemã, que provém, via a antiga forma tihtôn, do latim dictare, frequentativo de dicere ("dizer"), aparentado ao grego δείκνυμι, "mostrar" e "tornar manifesto", de modo que o dichten é um dizer sob a forma de um signo que torna manifesta a coisa dita, sendo o poema, em sua dicção essencial, a manifestação mesma daquilo que aparece como sendo, isto é, a manifestação incansável e repetida do Ser. 10. A poesia é assim a pura manifestação do ato poético que foi a única preocupação de Hölderlin, sendo este chamado pela primeira vez "o poeta do poeta" (der [[lx>termos:d:dichter|Dichter]] des Dichters), expressão retomada dois anos depois na conferência de Roma, paralelo ao penseiro que quer pensar o que é o pensamento e quem é o pensador, ilustrado pela citação do poema Como em Dia de Festa, no qual o poetizar torna manifesto o signo do deus sob o véu do canto. 11. Que Hölderlin seja chamado poeta do poeta não deve surpreender, pois a expressão já qualificava Homero em fragmento hölderliniano sobre Aquiles, definindo-se o poeta como aquele cuja criação não provém de experiência interior ou perturbação da alma, mas se mantém sob as tempestades do deus, "de cabeça descoberta", captando o raio do pai para introduzi-lo na alma de seu povo — o que Heidegger traduz, em linguagem ainda metafísica, como a exposição do [[lx>termos:d:dasein|Dasein]] à sobrepotência do Ser (Ausgesetzheit in die Übermacht des Seyns). 12. Retomando a dupla imagem, visual e acústica, do trovão e do relâmpago que unem céu e terra, Heidegger vê nelas a língua dos deuses que o poeta deve recolher, tal como Hölderlin evoca em sua Ode a Rousseau os "raios jorrados de uma era mais bela" e a "língua desconhecida" dos signos que desde a aurora dos tempos foram a linguagem dos deuses, destacando-se a importância da "tempestade e do relâmpago" (Gewitter und Blitz) como língua dos deuses da qual toda verdadeira poesia procede, sendo a poesia o eco desses signos repercutidos no povo. 13. O ato de "fazer sinal" ([[lx>termos:w:winken|Winken]]) não consiste em mostrar algo, mas em fazer aparecer o sentido do gesto no próprio signo — sempre o sentido do Ser —, bastando aos deuses ser o que são para fazer sinal por sua simples presença, citando-se com aprovação o verso final do poema Lembrança ([[lx>termos:a:andenken|Andenken]]): "Was bleibet aber, stiften die Dichter" — "Mas o que permanece, os poetas o instauram". 14. Se a poesia é a instauração do que permanece através da fuga dos dias, o poeta é o fundador do Ser (der Begründer des Seyns), aquele que assegura na língua de um povo, sem que este o perceba, a presença dos signos dos deuses, evocando-se a carta de Hölderlin à mãe que justifica sua escolha tranquila da poesia como "essa ocupação inocente entre todas", paradoxo entre a aparência de doce ócio cotidiano e o fato de que, referida às tempestades do deus, a poesia atravessa as aparências da vida para instaurar o próprio Ser na potência ofuscante do relâmpago que fulminará Hölderlin. 15. A poesia não se reduz a um modo de linguagem paralelo à prosa nem a uma performance cultural meritória do homem, citando-se os versos "Voll Verdienst, doch dichterisch wohnet / Der Mensch auf dieser Erde" ("Rico de méritos, mas poeticamente habita / O homem sobre esta terra"), pois, por maiores que sejam os méritos que o homem se atribui ao assegurar sua morada e subsistência, eles não bastam para assegurar o ser próprio do homem, seu Dasein, que consiste em habitar poeticamente a terra. 16. Nada no texto de Heidegger evoca a "hipóstase ontológica da fundação poética" denunciada por Adorno como idealismo que recobriria a verdade do poema; não se está mais no campo da metafísica nem no terreno da subjetividade, sendo a própria ordem poética que articula o ser do homem ao ente inteiro a partir da medida diametral do Céu e da Terra, esboçada por Heidegger ao dar a palavra ao poema Em Azul Adorável..., no qual Hölderlin associa a habitação poética na terra à "medida dos homens" (der Menschen Maas), medida que, embora o poeta pareça desmenti-la ao afirmar que sobre a terra não há medida alguma, se revela nem humana nem terrestre, nem divina nem celeste, mas medida mais vasta ainda, fora da subjetividade metafísica, que ajunta o Ser à totalidade do ente num quadripartido que é, de ponta a ponta, a medida do mundo. {{tag>Mattéi Geviert metafísica Hölderlin}}