====== Mentira e Verdade ====== //MARION, Jean-Luc. Le phénomène érotique: six méditations. Paris: Librairie générale française, 2003.// ** DA MENTIRA E DA VERACIDADE ** ** § 29. A pessoa naturalizada ** * A erotização das carnes obedece a uma finitude radical que contradiz o desejo de infinito do amante, gerando a suspeita de que nada de fato aconteceu entre ele e o outro. * Essa suspeita agrava-se porque o orgasmo, fenômeno rasurado e anônimo, não prova nem que o outro goza comigo, nem que esse compartilhamento, ainda que real, bastasse para nos revelar um ao outro em pessoa. * O automatismo da carne erotizada, podendo excitar-se sem ou contra a vontade, mostra que a erotização jamais atinge propriamente a pessoa, o que torna os parceiros mutuamente substituíveis e anônimos. * A finitude temporal, seguida da suspeita formal, faz assim a erotização naufragar antes de alcançar a pessoa, naturalizando-a como um cadáver embalsamado que apenas simula permanecer presente. ** § 30. O desvio e a decepção ** * Esse desastre não resulta de má vontade, mas de um desvio mais originário: a própria carne erotizada, automática e finita, mantém-me afastado de minha própria pessoa antes mesmo de me afastar de outrem. * Não se trata propriamente de mentira moral, mas de uma inautenticidade extra-moral inevitável, de modo que a mentira precede logicamente a veracidade, e não o inverso. * A verdadeira veracidade não consistiria em afirmar sinceramente "Eu te amo", mas em reconhecer honestamente que, eroticamente, nunca me manifesto de fato em pessoa. * Examinando a mentira moral propriamente dita, distinguem-se a paquera anônima, o blefe sedutor de má-fé compartilhada, e a infidelidade dupla, forma mais radical, que não apenas dissimula a pessoa, mas a mata sob a máscara. * Confessar publicamente o fim da relação não resgata a veracidade perdida, pois o mentiroso permanece infectado por seu próprio passado, incapaz de assegurar hoje uma sinceridade nova. ** § 31. O rapto e a perversão ** * Nenhum amante tolera a mentira alheia, pois ela não rouba apenas o outro, mas a própria carne recebida dele, anulando retroativamente toda a carne já vivida. * Diante disso, o amante pode delirar de sinceridade, pretendendo que sua própria carne manifeste diretamente sua pessoa, o que apenas aprofunda a mentira ao presumir realizado o que ela mesma impede. * Uma segunda tática, o rapto, tenta capturar a pessoa através da carne de outrem, seja pela violência sobre sua vontade automática, seja pela violência física, que reduz tudo a um simples cadáver ou objeto. * A perversão, via mais sutil, força a carne a permanecer carne por artifícios e transgressões extremas, mas fracassa igualmente, pois nenhum objeto manipulado jamais fenomenaliza uma pessoa. ** § 32. A rua dos rostos obscuros ** * Não se pode recuar da erotização em nome do rosto, pois foi ela que abriu de fato o acesso a outrem; resta perguntar se o rosto ainda pode, dentro da erotização, garantir uma veracidade. * Em regime erótico, o rosto não exige mais universalmente "Não matarás", mas particularmente "Ama-me!", exigência que exige individuação e por isso expõe o rosto à possibilidade da mentira moral propriamente dita. * Nem a sinceridade nem a inocência garantem a veracidade do rosto, pois sedutores e algozes frequentemente exibem os traços mais convincentes de honestidade e bondade. * Duas figuras do mentir se repetem em amor — o rosto que se abre e é traído, e o rosto que se fecha para trair, sedução e sadismo espelhados — ambas destruindo reciprocamente a dignidade do visado e do próprio visante. * Nem a carne erotizada nem o rosto sincero conseguem fenomenalizar a mentira e a veracidade, o que sugere que a pessoa, que as pressupõe, permaneceria inacessível à redução erótica — até que a intervenção do ciúme contesta essa conclusão. ** § 33. A honra do ciúme ** * O ciúme, apesar de suas figuras contraditórias e ridículas quando reclama reciprocidade indevida, merece ser ouvido, pois só ele enfrenta sem eufemismo a aporia da impossibilidade da pessoa aparecer. * Certas contradições do ciumento — amar quem não ama, ou amar quem alterna amor e rejeição — revelam apenas regressão aquém da redução erótica e desconhecimento do paradoxo do avanço sem reciprocidade. * Compreendido em seu sentido mais radical, porém, o ciúme não exige que outrem me ame, mas que ele permaneça fiel a si mesmo como amante sincero, defendendo assim a honra do próprio amor. * O ciumento exige, em suma, que outrem apareça verdadeiramente como pessoa, exigência propriamente fenomenológica que a razão de seu fracasso não invalida. ** § 34. Do lado do ódio ** * Assim como o ciúme, o ódio também individualiza intensamente tanto quem odeia quanto quem é odiado, unindo-os por vezes mais duradouramente do que o amor aparente. * O ódio, contudo, dispensa a carne: em vez de se deixar afetar pela não resistência de outrem, endurece-se contra ele, visando-o como objeto a abater, o que arruína também a própria carne de quem odeia. * Apesar disso, o ódio prova que outrem ainda me atinge mesmo quando a carne erotizada desaparece, revelando que ele subsiste sempre como pessoa, mesmo — e sobretudo — quando essa pessoa falta ou é destruída. * O ciúme e o ódio, os dois viúvos do amor, atestam assim que a pessoa permanece no horizonte da erotização precisamente como uma falta que não deixa de se impor. ** § 35. A erotização livre ** * Contra a alternativa exclusiva entre carne erotizada e pessoa, é preciso conceber, dentro do próprio campo da erotização, um modo de acesso que não obscureça mais os rostos. * A finitude não afeta a croisée des chairs enquanto tal, mas apenas sua modalidade automática, que começa e termina sem que a vontade a controle, distinta assim de uma possível erotização livre. * Tal erotização livre torna-se efetiva sobretudo pela palavra, que pode dar a outrem sua carne sem contato físico, falando dele mesmo e do entre-nós, permanecendo inteiramente sob minha responsabilidade. * Essa palavra amorosa jamais pode mentir, pois nada descreve e sua verdade se verifica diretamente na expansão real da carne de quem a escuta, tornando-a necessariamente verídica. * A erotização livre estende-se muito além do exercício sexual, aplicando-se também às relações de pais e filhos, de amigos e de homem a Deus, reconhecendo nela a virtude erótica por excelência, a castidade. {{tag>Marion}}