====== SER E TEMPO (I) ====== //MACQUARRIE, John. Heidegger and Christianity: the Hensley Henson Lectures 1993-94. New York: Continuum, 1994.// * Reivindicação da questão do Ser como tarefa fundamental da filosofia * A obra Ser e Tempo é apresentada como empreendimento ontológico fundamental e não como antropologia filosófica, apesar de a analítica existencial ocupar a maior parte do texto disponível. * A centralidade metodológica da analítica do Dasein é afirmada como etapa preliminar de uma ontologia geral cujo alvo é o sentido do Ser em sua máxima universalidade. * A interpretação segundo a qual a obra culminaria no subjetivismo moderno é recusada, uma vez que o Dasein não é tomado como medida de todas as coisas. * A retomada explícita da questão do Ser é articulada à determinação do tempo como horizonte de toda compreensão possível do Ser. * Diagnóstico do esquecimento da questão do Ser na tradição filosófica * A negligência moderna da questão do Ser é explicada por objeções tradicionais que o consideram conceito excessivamente geral, indefinível ou autoevidente. * A crítica à universalidade lógica do Ser esclarece que sua generalidade não é a de um gênero ou classe, mas de caráter transcendental. * A rejeição do Ser como predicado retoma implicitamente a crítica kantiana ao argumento ontológico, sem depender dela explicitamente. * A alegação de autoevidência é problematizada pela constatação de que o uso constante do verbo ser não implica clareza conceitual quanto ao seu significado. * Fundamentação do privilégio ontológico do Dasein * O esclarecimento do sentido do Ser exige a explicitação daquela compreensão prévia de Ser que já opera implicitamente em toda apreensão. * O Dasein é identificado como o ente no qual o Ser se manifesta, funcionando como clareira na qual o Ser vem à presença. * A referência a Parmênides sustenta a ligação originária entre pensar e Ser, estabelecendo a singularidade ontológica do Dasein. * A capacidade de colocar a questão do Ser confere ao Dasein um estatuto ontológico distinto de todos os demais entes intramundanos. * Caracterização existencial do Dasein * A essência do Dasein é determinada como existência, o que implica que ele não possui propriedades dadas, mas possibilidades a serem assumidas ou abandonadas. * A inadequação das categorias tradicionais para descrever o Dasein conduz à elaboração dos existenciais como estruturas próprias desse ente. * A individualidade irredutível do Dasein é afirmada pela tese de que ele é sempre em cada caso próprio e insubstituível. * A tendência do Dasein a compreender-se como simples coisa intramundana é apresentada como fuga da responsabilidade por seu próprio ser. * Autenticidade, inautenticidade e cotidianidade * O Dasein encontra-se sempre diante da possibilidade de ser autêntico ou inautêntico, sem que isso implique gradações ontológicas de valor. * A inautenticidade manifesta-se como conformismo às pressões sociais, às convenções e à impessoalidade da vida cotidiana. * A existência cotidiana é descrita como nivelamento e repetição, na qual o Dasein se perde na média do comportamento coletivo. * Alusão teológica e conceito de transcendência * A referência à doutrina cristã da imagem de Deus é retomada apenas para indicar a proveniência histórica da ideia de transcendência. * A transcendência é compreendida como ultrapassagem de si mesmo, desvinculada de qualquer fundamentação teológica explícita. * A concepção moderna de transcendência é reconhecida como secularização de um motivo originariamente teológico. * Ser-no-mundo como estrutura fundamental * O Dasein é definido originariamente como ser-no-mundo, rejeitando a separação entre sujeito interior e mundo exterior. * O estar-no-mundo não significa localização espacial, mas habitação e envolvimento prático com o mundo. * O mundo é compreendido primariamente como ambiente circundante no qual o Dasein vive, trabalha e cuida. * Mundo, coisa e instrumentalidade * As coisas são inicialmente compreendidas como pragmata, isto é, como aquilo com que se lida nas práticas cotidianas. * A objetividade teórica é interpretada como abstração derivada de uma compreensão prática mais originária. * O ser dos entes intramundanos é determinado prioritariamente como à-mão, em oposição ao simplesmente presente-à-mão. * A totalidade instrumental revela o mundo como sistema de remissões que se pressupõem mutuamente. * Mundo como estrutura a priori e ser-com * O mundo é afirmado como estrutura a priori implícita em toda compreensão pragmática dos entes. * O ser-no-mundo implica essencialmente o ser-com-outros, mesmo nos modos de existência solitária. * A impessoalidade do eles é descrita como forma dominante do ser-com inautêntico na vida social. * A comunicação cotidiana é marcada pela repetição impessoal de opiniões e discursos anônimos. * Cuidado como estrutura unificadora * O ser-no-mundo é articulado como cuidado, abrangendo o lidar com as coisas e a solicitude para com outros Daseins. * O cuidado não é um estado psicológico, mas a estrutura ontológica fundamental do Dasein. * A analítica existencial é reafirmada como ontologia fundamental a serviço da questão do Ser. * Disposição afetiva e compreensão * A disposição afetiva é apresentada como modo originário de desvelamento do Dasein a si mesmo. * As tonalidades afetivas iluminam a situação existencial do Dasein para além da percepção sensível. * O medo é analisado como exemplo de disposição afetiva que revela a vulnerabilidade do Dasein. * A compreensão é equiprimordial à disposição afetiva e projeta o Dasein em suas possibilidades futuras. * Projeto, interpretação e verdade * A compreensão é caracterizada como projeção de possibilidades, enraizada na prática cotidiana. * Toda compreensão inclui uma estrutura interpretativa e pressupõe um pré-entendimento. * A verdade é redefinida como desvelamento e não como propriedade de proposições. * A rejeição de verdades eternas decorre da compreensão da verdade como acontecimento ligado ao ser do Dasein. * Queda e esquecimento do Ser * A queda designa a absorção do Dasein na cotidianidade e na impessoalidade do eles. * A neutralidade fenomenológica impede a formulação de juízos éticos explícitos sobre a queda. * Fenômenos como falação, curiosidade e ambiguidade expressam modos de encobrimento do Ser. * A queda culmina no esquecimento do Ser e abre o caminho para o niilismo. * Unidade estrutural do Dasein e temporalidade * A multiplicidade dos existenciais exige uma recondução à unidade originária do Dasein. * A angústia é identificada como disposição afetiva que revela a totalidade estrutural do Dasein. * O cuidado reúne existencialidade, facticidade e queda numa unidade temporal. * O Dasein é determinado como estrutura temporal, projetada para o futuro, lançada a partir do passado e absorvida no presente. {{tag>Macquarrie SZ}}