====== Ciência, modelos ====== //Capítulo "Ciência" resumido em alguns de seus tópicos essenciais do livro "Os desafios da racionalidade". Trabalho desenvolvido por solicitação da UNESCO em 1977 e publicado pela Ed. Vozes// * Necessidade do modelo como mediação entre percepção e construção teórico-experimental * A realidade não se presta imediatamente à apreensão operatória, exigindo intermediário * O modelo é definido como construção abstrata que fornece aproximação esquemática e idealizada do domínio concreto, com estrutura simples o suficiente para descrição conceitual * O sistema é apresentado como tipo paradigmático de modelo * Ele se presta à análise matemática e pode possuir estrutura interna ou ser tratado globalmente * O estado do sistema é caracterizado por propriedades em fases ou por valores, e, se há subsistemas, por seus estados e pelas interações que compõem a estrutura * O objetivo do estudo é determinar a evolução temporal mediante lei de evolução frequentemente diferencial * Com lei diferencial, pode-se predizer e retrodizer estados a partir de um estado dado, obtendo história acessível do sistema * Exemplificação do modelo e idealização: corpo suspenso numa mola * O modelo é descrito como ponto material de massa constante submetido a força proporcional à distância ao referencial * O estado é definido por posição e velocidade * A lei de evolução deriva da dinâmica: força igual a massa vezes aceleração, expressa por lei diferencial * A solução conduz à periodicidade e ao movimento oscilatório * Reconhece-se, porém, o caráter idealizado do modelo, pois o movimento real é amortecido * A aproximação pode ser refinada por introdução de dissipação, mostrando possibilidade de complicação progressiva do modelo * Relação entre teoria, modelo e experiência e a redução operada sobre o mundo vivido * A teoria é definida como descrição do modelo * Hipóteses caracterizam estrutura ou fornecem lei de evolução * Termos teóricos são interpretados em função das características do modelo * A hipótese envolve simultaneamente proposições de partida e o modelo associado, ainda que uma teoria possa associar-se a vários modelos * A referência da teoria à experiência ocorre por intermédio do modelo * A experiência se realiza na realidade concreta, mas a realidade é tratada apenas nos aspectos que se prestam à interpretação pelo modelo * Disso resulta uma redução do mundo perceptivo e dos comportamentos vividos * A redução se efetua concretamente pela preparação experimental * Experiência como ação construída, guiada por modelização e teoria, e reajuste por resistência do real * A experiência é ação, mas não natural, pois não é comandada por fins vitais nem por montagens sensório-motrizes * Ela é construída e guiada por modelização prévia e por indicações teóricas * A resistência do real pode frustrar expectativas e impedir continuidade do experimento * Essa resistência indica inadequação do modelo * O modelo deve ser modificado parcial ou totalmente, geralmente por maior complexificação * Primado da modelização e pré-compreensão ontológica subjacente * A abordagem científica é dita comandada pelo processo de modelização * O modelo medeia a direção teoria-experiência, sugerindo intervenções úteis e orientando a eliminação ou manutenção de hipóteses * O modelo medeia também a direção experiência-teoria, permitindo interpretação dos resultados nos termos teóricos * A construção do modelo é guiada por pré-compreensão da realidade estudada * Essa pré-compreensão atua na escolha de propriedades, descrição de estrutura, concepção de interações e ideia de lei de evolução * Ela supõe um tipo a priori de inteligibilidade que orienta a própria démarche de modelização * No caso do sistema, explicita-se a ontologia implicada * Analítica, ao decompor e isolar propriedades distintas * Funcionalista, ao descrever ligações como interações e dependências funcionais * Determinista, ao ligar estados no tempo de modo determinado, inclusive quando a descrição é qualitativa ou estatística * No caso estatístico, o estado é redefinido como conjunto máximo de informações acessíveis, com valores possíveis e probabilidades * Ontologia subjacente e inspiração por ontologias formais * A pré-compreensão modelizante envolve uma ontologia subjacente, isto é, um sistema interpretativo que explica a realidade por entidades com propriedades intrínsecas e inter-relações * Sustenta-se que essa ontologia é inspirada por ontologias formais presentes na base de teorias matemáticas e de modelos lógicos metateóricos * A teoria dos conjuntos é apresentada como ontologia formal corrente * Conjunto é coleção de objetos definida por relação de pertença * Propriedades são assimiladas a subconjuntos e relações a subconjuntos de enuplas * A teoria dos conjuntos especifica procedimentos de construção ou axiomas de um universo conjuntista * Ontologias mais complexas podem ser construídas por estruturas formais como ordem, vizinhança e combinação * Outras linhas abstratas são mencionadas * Teoria das categorias, centrada em correspondência * Teoria dos combinadores, centrada em operador * Nessas concepções, tende-se a substituir domínio circunscrito de entidades por noção francamente operatória, na qual os objetos perdem importância real * Hipótese de coadaptação entre representação formal e sistema de ação experimental * Propõe-se a hipótese de que a modelização se presta à representação matemática na medida em que se inspira em ontologias formais * Propõe-se também que a experimentação se sistematiza em modelos na medida em que as ações construídas se organizam segundo prescrições de ontologia formal * Afirma-se que quanto mais operatória a ontologia subjacente, mais eficaz o quadro de esquematização da ação * Num sentido, a ação científica é ditada pelos modelos e por sua ontologia, reencontrando no procedimento efetivo o que já estava implicitamente no modelo * Em outro sentido, a própria ação pode tornar possível a modelização e sugerir sua ontologia * O traço característico da démarche científica é formulado como coadaptação extraordinária * Entre sistema de representação fundado em ontologia interpretativa formalista * E sistema de ação construído segundo sequências operatórias controláveis e organizáveis com precisão {{tag>Ladrière ciência modelo}}