====== TEMPORALIDADE DA COMPREENSÃO ====== //KING, Magda; LLEWELYN, John. A guide to Heidegger’s Being and time. New York, NY: State Univ. of New York Press, 2001.// * A compreensão como estrutura existencial do ser-do-Da-sein * A compreensão é introduzida não como faculdade cognitiva, mas como modo fundamental de ser do Da-sein, no qual o seu próprio ser se abre como possibilidade. * O ser-do-Da-sein manifesta-se originariamente como projeto lançado, isto é, como unidade dinâmica de lançamento e projeção. * Lançado no seu aqui fático, o Da-sein projeta-se essencialmente para diante, antecipando-se a si mesmo na sua possibilidade de ser-aqui. * Esse projetar-se para diante constitui aquilo que Heidegger denomina compreensão existencial. * A estrutura futural da compreensão * A compreensão desvela o ser-aqui do Da-sein como possibilidade, e não como estado dado ou propriedade subsistente. * O modo temporal primário no qual a compreensão está enraizada é o futuro originário. * O futuro do Da-sein não é um ainda-não cronológico, mas o vir-a-si-mesmo enquanto adiantamento para a própria possibilidade de ser. * O Da-sein mantém diante de si a sua possibilidade como fim antecipadamente visado, orientando para ela o seu vir. * O cuidado como formalização ontológica do caráter futural * O caráter essencialmente futural do Da-sein é formalmente expresso no primeiro momento constitutivo do cuidado, o ser-adiante-de-si. * O cuidado autêntico é ser-adiante-de-si no correr-para a possibilidade mais própria, extrema e intransponível do ser-aqui. * A antecipação resoluta da morte torna possível uma compreensão resoluta da existência como um todo. * O futuro autêntico funda a possibilidade de uma compreensão que assume a existência até o seu fim. * A compreensão irresoluta e o futuro inautêntico * Na maior parte das vezes, o Da-sein existe de modo irresoluto, fechado à sua possibilidade extrema. * Essa compreensão irresoluta está enraizada num futuro inautêntico. * O Da-sein compreende-se primariamente a partir do que dele cuida no mundo cotidiano. * O projeto compreensivo perde-se nas ocupações urgentes e necessárias da vida diária. * O caráter do aguardar no futuro inautêntico * No modo inautêntico de existir, o Da-sein vem a si mesmo aguardando aquilo que o seu cuidar produz ou impede. * O futuro inautêntico tem o caráter do aguardar preparado, no qual o Da-sein conta com algo que pode ocorrer. * O aguardar não se dirige primariamente a acontecimentos intramundanos, mas ao próprio ser-aqui do Da-sein em sua possibilidade cotidiana. * O Da-sein aproxima-se de si mesmo de maneira indireta, mediada pelo êxito ou fracasso das suas ocupações. * A prioridade ontológica do aguardar * Mesmo no futuro inautêntico, o Da-sein permanece essencialmente futural. * O aguardar forma antecipadamente um horizonte de previsibilidade no qual algo pode aproximar-se. * Esse horizonte não é derivado de acontecimentos, mas é condição para que algo possa ser esperado. * O aguardar funda o esperar, e este permanece ontologicamente subordinado à estrutura mais originária do futuro. * A relação entre aguardar e antecipação * O esperar é um modo do futuro fundado no aguardar. * A antecipação autêntica possui uma prioridade ontológica sobre o esperar atento, inclusive no que diz respeito à morte. * O ser-para-a-morte é mais originário na antecipação do que no esperar calculador. * A diferença entre os dois modos de futuro exprime-se na diferença entre propriedade e impropriedade. * Síntese provisória sobre a compreensão * Toda compreensão está primariamente fundada no futuro. * A compreensão resoluta funda-se no correr-para a possibilidade extrema do não-mais-ser-aqui. * A compreensão irresoluta funda-se num aguardar que se orienta pelas possibilidades mundanas. * Ambos os modos pertencem à unidade extática da temporalidade originária do cuidado. * A cooriginariedade de passado e presente * A compreensão não pode ser exclusivamente futural, mas é cooriginariamente constituída por passado e presente. * O presente inautêntico constitui o sentido primário do modo decaído de existir. * Nesse presente, o Da-sein perde-se nos entes que se tornam presentes para ele. * A unidade entre passado e futuro deixa o presente emergir a partir de si. * O presente como Gegenwart * O presente é caracterizado como um olhar-para um diante-de-si. * O Da-sein volta-se para algo que lhe faz face como um outro. * O apresentar é um afastar-se de si em direção a um vis-a-vis. * Essa estrutura levanta o problema da possibilidade a priori do apresentar. * O horizonte do nada como condição do apresentar * O Da-sein não produz os entes nem pode comandar a sua presença. * O vis-a-vis originário do apresentar não é um ente determinado, mas um nada. * Esse nada não é absoluto, mas um horizonte puro de presentidade. * O Da-sein dá a si mesmo o seu próprio diante-de-si ao formar esse horizonte. * O presente autêntico como Augenblick * O presente autêntico pertence ao futuro resoluto. * Ele traz o Da-sein face a face com a sua situação fática. * O Augenblick é um lançar de olhar que desvela a situação sem perda de si. * O instante é um estar-em que é sustentado pelo futuro e pelo passado autênticos. * Diferença entre instante e agora * O agora pertence ao tempo vulgar da intratemporalidade. * No instante, nada acontece como evento intramundano. * O instante possibilita o encontro com o que pode estar no tempo. * Ele funda a possibilidade da presença dos entes à mão e subsistentes. * O passado autêntico como retomada * A antecipação traz consigo um retorno à condição de lançado. * O passado autêntico é um recolher-se do Da-sein na sua facticidade. * Heidegger denomina esse passado retomada. * A retomada reúne a lançadidade e a projeta para a possibilidade extrema. * A consciência e a temporalidade autêntica * O chamado da consciência manifesta-se como um recordar-antecipador. * Ele chama do fundo da lançadidade para a possibilidade extrema. * O chamado convoca o Da-sein a assumir a sua temporalidade própria. * A consciência reflete a estrutura extática da temporalidade do cuidado. * A unidade extática como movimento circular * O Da-sein só pode vir a si porque já está lançado. * Ele só se manifesta plenamente ao antecipar-se a si mesmo. * O limite intransponível da morte reconduz o Da-sein a si. * A temporalidade mostra-se como um movimento de recolher e projetar. * A compreensão resoluta como estrutura temporal plena * A compreensão resoluta é um correr-para recolhedor e instantâneo. * O fenômeno existencial indica sempre o modo temporal primário em que se funda. * No caso da compreensão, esse modo é o futuro. * O futuro autêntico articula passado e presente numa unidade própria. * O passado inautêntico como esquecimento * A compreensão inautêntica funda-se num esquecimento positivo. * Esse esquecimento é um afastar-se extático do próprio ter-sido. * O afastamento fecha tanto o passado quanto o próprio afastar-se. * O esquecimento pertence estruturalmente ao modo decaído de existir. * A memória no modo inautêntico * O esquecimento não elimina toda relação com o passado. * Ele abre um horizonte derivado do antes das ocupações. * A memória retém o que aconteceu no cuidar cotidiano. * Esse antes difere radicalmente do passado retomado da existência própria. * Contraste final entre os dois modos de compreensão * A compreensão autêntica recolhe a lançadidade e a projeta para o extremo. * A compreensão inautêntica retém acontecimentos do mundo. * Ambas são modos temporais do cuidado. * A diferença reside no modo como o Da-sein se apropria do seu tempo. {{tag>"Magda King" compreensão temporalidade}}