===== GA65 e SZ (2019:2) ===== //HERRMANN, Friedrich-Wilhelm von. Transzendenz und Ereignis: Heideggers “Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis)” ein Kommentar. Würzburg: Königshausen & Neumann, 2019.// **Segundo capítulo** **Ser e tempo em retrospectiva a partir de Contribuições à filosofia (Do acontecimento apropriador)** 1. A transcendência designa a via de visão e de questionamento da primeira elaboração da questão do ser, sistematicamente desenvolvida em Ser e tempo, enquanto o acontecimento apropriador ([[lx>termos:e:ereignis|Ereignis]]) designa sua segunda via, inicialmente configurada em Contribuições à filosofia (Do acontecimento apropriador) (GA65), sem que a passagem entre ambas elimine a importância do primeiro caminho. * Ser e tempo permanece a obra fundamental na qual a primeira via da questão do ser foi elaborada sistematicamente. * Contribuições à filosofia apresenta a primeira configuração sistematicamente pensada da segunda via. * A retrospectiva realizada a partir do “Olhar preliminar” ([[lx>termos:v:vorblick|Vorblick]]) situa Ser e tempo em relação interna com o caminho histórico do Ser desenvolvido nas Contribuições, impedindo que a segunda via seja interpretada como simples abandono da primeira. 2. A pergunta pelo sentido do ser formulada em Ser e tempo permanece a única pergunta condutora das Contribuições, porque interrogar o sentido significa buscar o domínio de projeção ([[lx>termos:e:entwurfsbereich|Entwurfsbereich]]) no qual o ser se abre, isto é, a verdade do Ser ([[lx>termos:s:seyn|Seyn]]) como abertura temporalmente constituída. * O “sentido” não significa uma definição conceitual ou uma significação verbal, mas o horizonte a partir do qual o ser-aí ([[lx>termos:d:dasein|Dasein]]), enquanto compreende o ser, pode compreender o ser dos entes. * Compreender possui o sentido ontológico de projetar, abrir e desvelar, não o sentido cotidiano de planejar alguma coisa. * O domínio de projeção é o âmbito horizontal mantido aberto pelo projeto compreensivo e no qual o ser pode ser encontrado. * A abertura ([[lx>termos:e:erschlossenheit|Erschlossenheit]]) do ser possui constituição temporal, mas sua temporalidade não corresponde à sucessão ordinária dos “agoras”; deriva da temporalidade originária da qual a concepção vulgar do tempo é um modo derivado. * O ser aberto numa abertura temporal recebe caráter temporal ou temporal-ontológico, de modo que o título Ser e tempo indica a busca do sentido do ser em geral a partir do tempo originário. 3. A abertura como âmbito mais próprio no qual o ser se mantém aberto já recebe em Ser e tempo e nos Problemas fundamentais da fenomenologia a determinação de verdade do ser, compreendendo-se “verdade” a partir de [[lx>termos:a:aletheia|aletheia]] como desvelamento, desocultamento e abertura, e não primariamente como concordância de uma proposição com um objeto. 4. A pergunta pelo sentido do ser, pelo domínio de sua projeção e pela verdade do Ser (Seyn) constitui a mesma pergunta fundamental em Ser e tempo e nas Contribuições, demonstrando a copertença entre as duas vias de elaboração apesar da transformação de sua perspectiva condutora. 5. O tempo originário de Ser e tempo funciona como indicação e ressonância antecipadora daquilo que nas Contribuições será pensado como verdade da essenciação ([[lx>termos:w:wesung|Wesung]]) do Ser na unicidade da apropriação ([[lx>termos:e:er-eignung|Er-eignung]]), de modo que a constituição temporal-ekstática da abertura constitui uma figura preparatória da verdade do Ser como acontecimento apropriador. * A temporalidade originária caracteriza a abertura ou verdade do ser na primeira via transcendental-horizontal. * Nessa temporalidade já ressoa aquilo que a segunda via explicitará como essenciação apropriadora do Ser. * A via das Contribuições não pode ser percorrida independentemente da preparação realizada por Ser e tempo, pois a formulação acontecimental da verdade do Ser emerge da transformação de sua figura temporal-ekstática. 6. Ser e tempo não pertence à metafísica nem já realiza plenamente o pensamento historial do Ser ([[lx>termos:s:seynsgeschichtliches-denken|seynsgeschichtliches Denken]]), mas ocupa a passagem da pergunta diretriz ([[lx>termos:l:leitfrage|Leitfrage]]) pelo ente em seu ser para a pergunta fundamental ([[lx>termos:g:grundfrage|Grundfrage]]) pela verdade do próprio Ser, razão pela qual sua analítica existencial não pode ser reduzida à ontologia tradicional ou a uma doutrina das categorias. * A via transcendental-horizontal de Ser e tempo já abandona a orientação metafísica centrada exclusivamente no ente enquanto ente. * A explicitação do ser-aí realizada pela analítica existencial constitui um caminho de acesso à abertura ou verdade do ser. * A ontologia e a doutrina categorial tradicionais não oferecem o solo adequado para interpretar essa passagem, pois reconduziriam a analítica do ser-aí às determinações metafísicas que ela procura superar. * O caráter transitório de Ser e tempo permite distingui-lo simultaneamente da metafísica precedente e da elaboração acontecimental posterior. 7. A superação desenvolvida da pergunta diretriz deve preparar a passagem para o outro início, tornando-o visível e pressentível, e Ser e tempo cumpre essa preparação ao situar-se já na pergunta fundamental sem ainda desenvolvê-la originariamente a partir de si mesma. * O primeiro início compreende inicialmente a experiência pré-metafísica de [[lx>termos:a:aletheia|aletheia]], [[lx>termos:p:physis|physis]] e [[lx>termos:l:logos|logos]] entre Anaximandro, Heráclito e Parmênides. * A passagem do pensamento grego mais antigo para Platão e Aristóteles constitui um afastamento ([[lx>termos:f:fortgang|Fort-gang]]) da experiência pré-metafísica e inaugura a elaboração metafísica da questão do ente. * A história do primeiro início desenvolve-se como história da metafísica e da pergunta diretriz até sua consumação. * O outro início não repete nem elimina o primeiro, mas pergunta de maneira originária pela verdade do Ser que permaneceu impensada em sua história. * A história da essenciação do Ser reúne o início pré-metafísico, o afastamento que conduz à metafísica e o começo não metafísico do outro início. 8. O outro início distingue-se do primeiro por ser conduzido pela pergunta fundamental acerca da verdade ou desvelamento do Ser, e Ser e tempo pertence à sua preparação porque torna inicialmente visível e pressentível essa possibilidade mediante a passagem para além da pergunta metafísica pelo ente. 9. A meditação ontológico-fundamental de Ser e tempo constitui a passagem do fim do primeiro início para o outro início e, ao fundamentar a ontologia com vistas à sua superação, funciona como impulso preparatório para o salto mediante o qual o outro início pode propriamente começar. * A ontologia fundamental ([[lx>termos:f:fundamentalontologie|Fundamentalontologie]]) designa a elaboração da pergunta pelo sentido do ser em geral. * A superação da ontologia não significa sua simples rejeição, mas o desenvolvimento de seu fundamento até que se torne possível ultrapassar a orientação metafísica. * A passagem parte do encerramento do primeiro início e prepara uma relação originária com a verdade do Ser. 10. A pergunta ontológico-fundamental realiza-se na perspectiva da transcendência e do horizonte, constituindo a passagem do término metafísico do primeiro início, especialmente representado pela posição fundamental de Nietzsche, para o outro início. 11. A ontologia fundamental constitui apenas o impulso para o salto e não o salto consumado, pois Ser e tempo ainda pensa a verdade do ser transcendental e horizontalmente, enquanto o pensamento historial do Ser salta para a pertença ao Ser em sua essenciação plena como acontecimento apropriador. * O salto não significa uma descontinuidade arbitrária do pensamento ou uma mudança súbita de opinião filosófica. * Aquilo que salta é o pensamento historial do Ser, ao ingressar na pertença à essenciação do Ser como acontecimento apropriador. * Ser e tempo prepara esse salto mediante a determinação transcendental-horizontal da verdade do ser, mas ainda não explicita seu caráter acontecimental. * A articulação denominada “O salto” nas Contribuições realiza a possibilidade preparada pela primeira via. 12. Ser e tempo é a passagem para o salto mediante o questionamento da pergunta fundamental, não podendo ser interpretado como filosofia da existência sem que permaneçam incompreendidos tanto sua função transitória quanto seu direcionamento para a verdade do Ser. 13. O impulso inicial para o outro início ([[lx>termos:a:ansprung|Ansprung]]) tentado em Ser e tempo ainda não constitui o próprio salto, mas pertence a ele como movimento preparatório que reúne o impulso de aproximação e o salto futuro numa única orientação. 14. Ser e tempo não apresenta um ideal nem um programa filosófico a ser executado, mas o início em preparação da própria essenciação do Ser, isto é, a preparação daquele acontecer que nas Contribuições será pensado como acontecimento apropriador ([[lx>termos:e:ereignis|Ereignis]]). 15. A passagem da perspectiva transcendental-horizontal para o pensamento historial do Ser não implica o abandono da analítica existencial do ser-aí, porque as análises ontológico-existenciais conservam sua importância para o pensamento do acontecimento apropriador mesmo quando se transforma a perspectiva na qual foram inicialmente realizadas. * A via de Ser e tempo desenvolve a pergunta pelo sentido do ser mediante a explicitação analítica do ser-aí. * A analítica do ser-aí e a perspectiva transcendental-horizontal não são simplesmente idênticas, embora a primeira tenha sido inicialmente conduzida pela segunda. * O abandono da perspectiva transcendental-horizontal não torna dispensáveis as descobertas essenciais da analítica existencial. * A aproximação do pensamento do acontecimento apropriador exige conservar e transformar as determinações alcançadas no percurso de Ser e tempo. 16. A analítica do ser-aí constitui a primeira indicação do ser-aí como fundação da verdade do Ser, pois atravessa a pergunta pelo ser humano para compreendê-lo não antropologicamente, mas como aquele que projeta o ser e mantém aberta sua verdade. * O ser humano é retirado do horizonte da antropologia ao ser compreendido a partir de sua relação constitutiva com a abertura do ser. * O projeto do ser não representa uma produção subjetiva, mas o modo de abertura no qual o ser pode tornar-se compreensível. * A função preparatória da analítica do ser-aí somente se esclarece mediante a reconstrução dos passos sistemáticos de Ser e tempo. 17. A palavra ser-aí ([[lx>termos:d:da-sein|Da-sein]]) recebe em Ser e tempo sua primeira determinação essencial e resiste à tradução para os esquemas da tradição ocidental porque sua significação não é estabelecida por uma definição isolada, mas conquistada ao longo da analítica ontológico-existencial e preservada como essencial para o pensamento historial do Ser. * A intraduzibilidade do termo indica sua resistência às perspectivas consolidadas da metafísica e às maneiras tradicionais de pensar e dizer. * A significação integral de ser-aí somente se constitui mediante as análises concretas de sua estrutura existencial. * A separação entre o termo e o caminho analítico que lhe confere sentido esvaziaria justamente a determinação que permanece válida nas Contribuições. * O pensamento do acontecimento apropriador conserva o ser-aí não como conceito herdado sem transformação, mas como aquisição essencial da análise fenomenológica. 18. A analítica do ser-aí deve ser conservada no interior do pensamento do acontecimento apropriador mediante a distinção entre suas descobertas ontológico-existenciais e a perspectiva transcendental-horizontal que inicialmente as orienta, permitindo libertar essas descobertas de sua primeira via de exposição e reinscrevê-las no campo transformado do acontecimento apropriador. * A identificação integral entre a analítica e a perspectiva transcendental-horizontal levaria à conclusão equivocada de que ambas foram abandonadas conjuntamente. * As intuições essenciais acerca da constituição do ser-aí não dependem de maneira inseparável da estrutura transcendental-horizontal. * A transformação exigida não suprime as análises, mas desloca sua compreensão para a relação acontecimental entre ser-aí e Ser. * O pensamento historial do Ser torna-se compreensível ao se preservar a analítica hermenêutica e transformar a perspectiva que a conduzia. 19. O ser-aí não pode ser demonstrado ou descrito como algo simplesmente dado ([[lx>termos:v:vorhanden|Vorhandenes]]), mas somente conquistado hermeneuticamente no projeto lançado ([[lx>termos:g:geworfener-entwurf|geworfener Entwurf]]), mediante um acompanhamento fenomenológico que participa explicitamente da realização da vida fática sem convertê-la em objeto de reflexão. * A fenomenologia formal deixa ver aquilo que se mostra tal como se mostra a partir de si mesmo; aplicada ao ser-aí, transforma-se metodicamente em hermenêutica no sentido de interpretação. * A interpretação hermenêutica não assume a estrutura reflexiva pela qual vivências seriam colocadas diante de um observador e examinadas como objetos. * A fenomenologia hermenêutica das primeiras preleções de Friburgo distingue-se da fenomenologia reflexiva de Husserl por acompanhar expressamente a realização da vida fática, compreendida como ser-aí e não como consciência. * O acompanhamento ([[lx>termos:m:mitgehen|Mitgehen]]) impede que as vivências sejam postas a desfilar diante de um olhar reflexivo e mantém o pensamento junto ao movimento próprio da existência. * O projeto lançado não é apenas uma estrutura fundamental do ser-aí investigado, mas determina também o próprio pensamento fenomenológico que o interpreta. * A interpretação abre projetivamente aquilo que se mostra no acompanhamento hermenêutico, realizando-se como projeto lançado que explicita outro projeto lançado. * O ser-aí existe pré-científica e pré-filosoficamente como projeto lançado, e a existência que fenomenologicamente interpreta também pensa segundo essa mesma estrutura. * A hermenêutica do ser-aí conserva sua validade no caminho historial do Ser porque somente ela permite conquistar o ser-aí a partir de seu próprio modo de existir. 20. A indicação de que o ser-aí somente pode ser conquistado hermeneuticamente exige conservar a hermenêutica do ser-aí como condição indispensável para a apropriação do pensamento do acontecimento apropriador. 21. O ingresso no pensamento do acontecimento apropriador requer a mediação de Ser e tempo, pois as Contribuições preservam a hermenêutica do ser-aí e pressupõem o domínio da perspectiva transcendental-horizontal para que se compreenda sua transformação imanente na perspectiva do acontecimento apropriador. * A primeira configuração do pensamento do acontecimento apropriador mantém expressamente as conquistas essenciais de Ser e tempo. * A hermenêutica do ser-aí permanece indispensável ao pensamento historial do Ser. * A perspectiva acontecimental não surge mediante um salto despreparado, mas da transformação interna da transcendência e do horizonte. * O ser-aí hermeneuticamente conquistado é conservado na nova perspectiva, embora sua relação com a verdade do Ser passe a ser pensada a partir do acontecimento apropriador. {{tag>Herrmann GA65 SZ}}