====== VIRAGEM NO SER (1987) ====== //GRONDIN, J. Le Tournant dans la pensée de Martin Heidegger. Paris: PUF, 1987// * A gênese do pensamento da virada reside na constatação de que a ontologia fundamental, ao projetar o ser no horizonte da compreensibilidade, arriscava objetivá-lo e reduzi-lo à esfera ôntica, o que implica compreender o retraimento não como evolução autoral, mas como evento do próprio ser. * Crítica à projeção do ser sob a ótica da inteligibilidade. * Risco de perda da dimensão de recusa inerente ao ser. * Definição do tournant como um acontecimento na história do ser. * Caráter não subjetivo da mudança de perspectiva filosófica. * O diagnóstico da era contemporânea revela que o ser nada significa para a atualidade, cedendo lugar à primazia absoluta do ente manipulável e mensurável, o que caracteriza o niilismo como a redução da realidade àquilo que pode ser submetido à vontade de poder. * Predomínio do cálculo e da disponibilidade técnica. * Subjugação do ente à vontade do sujeito. * Indisponibilidade do ser como sinal de finitude da vontade de domínio. * Identificação do niilismo com a redução do ser ao nada. * A época do Gestell define-se pelo rassemblement indiferenciado e pela matematização dos entes visando sua disponibilidade total, operando sob a ameaça de um perigo supremo que consiste no próprio esquecimento da retração do ser. * Conceito de Gestell como estrutura de imposição técnica. * Definição do perigo como o esquecimento do esquecimento. * Inabilidade de perceber a privação como tal. * Ausência de angústia diante da retirada do ser. * O fenômeno do retraimento constitui a figura inicial da virada e manifesta-se historicamente como epochè, termo que deve ser entendido não em sentido cronológico, mas como a suspensão ou abstenção do ser em favor da manifestação dos entes. * Identificação do se-retirar com o desvio ou Abkehr. * Apropriação etimológica do termo grego epochè. * Compreensão das épocas históricas como modalidades de retração. * Natureza fundadora de história do conceito de época. * A interpretação da história do ser como destino implica que o ato de destinar envolve necessariamente uma retenção da fonte, onde a doação do ente ocorre mediante a abstenção daquele que doa. * Definição de história como destino do ser. * Caráter de halte ou parada na dinâmica da doação. * Recebimento do dom condicionado pela retenção da origem. * Fundamentação do ente na abstenção do ser. * O Gestell representa a consumação da metafísica ao encarnar uma época de retenção absoluta onde o ser se apresenta como ausente, exigindo um pensamento que busque o fundamento da metafísica no próprio esquecimento que a constitui. * Dupla acepção de época como retenção e período histórico. * Caráter teleológico do desvio da metafísica. * Experiência do ser como aquilo que escapa à preensão. * Projeto de superação da metafísica através da análise do esquecimento. * O esquecimento do ser não deve ser concebido como uma falha cognitiva ou negligência dos filósofos, mas como uma manifestação autêntica do próprio ser que se apresenta sob o modo da lethe e do refúgio. * Recusa da interpretação do esquecimento como erro ou pecado. * Pertencimento intrínseco da lethe à aletheia. * Valorização da metafísica como testemunho do ser via ausência. * Rejeição da correção do esquecimento como tarefa do pensamento. * A tarefa em relação à metafísica desloca-se da ideia de superação para a de Verwindung, um processo intraduzível de apropriação, resistência e torção que visa assumir o destino metafísico para libertar sua essência própria. * Insuficiência do conceito de Überwindung ou superação. * Analogia com a cura de uma dor ou aceitação de um destino. * Proximidade estrutural com a Aufhebung hegeliana. * Objetivo de despertar o ser que se desvia no interior da metafísica. * A intensificação do esquecimento na era técnica levanta o paradoxo de saber se o reconhecimento desse retraimento como vontade do ser não implicaria, por si só, uma suspensão ou superação desse mesmo esquecimento. * Gestell como agravamento do esquecimento metafísico. * Atribuição do esquecimento à vontade do ser. * Questionamento sobre a eficácia da reflexão em reverter o processo. * Possibilidade de um retorno do desvio. * A ambiguidade fundamental do Gestell reside em sua dupla potencialidade de perpetuar a cegueira da vontade de poder ou de, através da suprema desolação, instigar uma meditação que questione os fundamentos da metafísica. * Metáfora da cabeça de Janus aplicada ao dispositivo técnico. * Risco da consumação total do ente e da noite do ser. * Esperança de que a violência técnica provoque uma ruptura no esquecimento. * Bifurcação histórica entre a vontade de vontade e um novo início. * A essência do perigo abriga em si a possibilidade da virada, onde o esquecimento da essência do ser pode transmutar-se na entrada da verdade do ser no próprio ente. * Citação do opúsculo sobre a virada. * Identificação do perigo como o reino do se-desviar. * Coexistência do perigo e da possibilidade de salvação. * Natureza fenomenológica da reversão do esquecimento em verdade. * A concretização do potencial salvífico depende da percepção humana do perigo como perigo e exige uma mutação radical na relação do homem com o ser, superando a passividade sem cair na ilusão de controle. * Necessidade de apreensão do perigo como traço inicial do ser. * Caráter de parusia ou revelação da verdade do ser. * Urgência de um retorno fundamental na correspondência humana. * Complementaridade entre o desvio (Abkehr) e a virada (Kehre). * A distinção analítica entre os dois movimentos da virada, o desvio do esquecimento e o retorno à verdade, não deve obscurecer a unidade do fenômeno, embora a terminologia heideggeriana tenda a reservar a palavra Kehre para o evento positivo da verdade. * Análise das interpretações que separam dois virages. * Evidência filológica do uso singular do termo. * Especialização do vocabulário para o momento da salvaguarda. * Identificação do Abkehr como o movimento de recusa. * A significação unitária da virada revela-se como o relâmpago ou apelo do ser que atinge a essência humana, operando a transição do esquecimento para a salvaguarda através de um favor ou graça ontológica. * Metáfora do Blitz ou relâmpago para descrever o evento. * Caracterização dos homens como os atingidos pelo apelo. * Papel da Gunst ou favor na instauração da verdade. * Definição de Wahrnis como salvaguarda da essência. * A resolução do dilema entre a virada como retraimento ou como reversão encontra-se na tese de que o próprio se-recusar constitui a revelação suprema da essência do ser na era da técnica. * Hipótese da identidade entre o primeiro e o segundo aspecto da virada. * Manifestação da verdade através do modo da recusa. * Primazia da ontologia negativa e do silêncio. * Revelação do ser sob o véu do esquecimento. * A unidade entre o perigo e o que salva justifica-se fenomenologicamente na medida em que a salvação consiste precisamente no reconhecimento do perigo como a mensagem de recusa do ser. * Interpretação da sentença de Hölderlin. * Rejeição do otimismo ingênuo ou providencialismo. * Condição de que o perigo seja experimentado como tal. * Crescimento da salvação a partir da desolação extrema. * A cristalização da modernidade em autoevidência inquestionável constitui a pré-condição paradoxal para que o questionamento originário do ser possa emergir da dissolução das certezas técnicas. * Fusão da essência da modernidade com o óbvio. * Necessidade de saturação das visões de mundo. * Surgimento do questionamento sobre a divindade e a verdade. * Abertura de uma dimensão decisiva para a essência humana. * A urgência da situação histórica sugere que a pressão extrema do Gestell pode forçar uma ruptura na autointerpretação da técnica, revelando a co-pertenca entre o perigo compreendido e a virada salvadora. * Paralelo e distinção com a lógica histórica marxista. * Sentido de necessidade como urgência (Not-wendigkeit). * Transparência do ser através da opacidade do dispositivo. * Identidade final entre os dois rostos da virada. * A ambiguidade temporal sobre se a virada já ocorreu no pensamento ou se é um evento futuro reflete a tensão entre a realização do pensamento do recusa e a imprevisibilidade do advento destinal. * Dúvida sobre o status ontológico e cronológico do evento. * Caráter secreto da recusa na dominação atual. * Indeterminação do "quando" e "como" da virada. * Paralelismo com a estrutura escatológica da revelação. * As hesitações de Martin Heidegger denotam uma prudência metodológica que limita o pensamento a uma função preparatória e protréptica, evitando que a formulação proposicional viole a indisponibilidade do evento. * Papel indicativo e não administrativo da filosofia. * Risco de tornar disponível o que é por essência indisponível. * Limitação da linguagem predicativa diante do acontecimento. * Respeito ao mistério da aparição do ser. * A escatologia heideggeriana não remete a um futuro distante, mas visa abrir o acesso a um domínio de vigência que já é habitado pelos mortais, transformando a espera em uma entrada na própria origem. * Interpretação da salvação por um deus fora da chave profética. * Proximidade com a retrospectiva da coruja de Minerva. * Conceito de Einkehr como entrada no lugar de estadia. * Presença atual do Ereignis sob o véu do esquecimento. * A meditação tardia opera uma metamorfose nos conceitos de verdade e essência, deslocando a verdade da adequação cognitiva para o evento de abrigo iluminador que brota do próprio retraimento. * Transição da essência da verdade para a verdade da essência. * Superação da concepção de verdade como quidditas. * Papel constitutivo da obnubilação na revelação. * Definição de verdade como lichtendes Bergen. * O conceito de essência sofre uma temporalização radical, passando de substantivo atemporal a verbo que designa o vigorar ou durar temporal do ser e do homem na proximidade das coisas. * Abandono da essência como ideia eterna ou eidos. * Recuperação do sentido verbal de Wesen. * Caracterização da essência humana como habitar. * Interpretação da presença (Anwesen) como apelo (An-gehen). * A co-pertenca entre ser e nada fundamenta-se na finitude essencial que vincula a revelação do ser à transcendência do Dasein, estabelecendo uma continuidade com a análise da morte em Ser e Tempo. * Fusão do ser e do nada na base da finitude. * Dependência da revelação do ser em relação ao homem. * Conexão entre ser-para-a-morte e abertura do ser. * Resistência de ambos os fenômenos à objetivação. * A primazia ontológica da possibilidade sobre a realidade efetiva determina que o ser só se manifesta para um ente cujo próprio ser está em jogo, definindo o circuito hermenêutico da filosofia. * Superioridade do possível sobre o real. * Impossibilidade de definição do homem por seus haveres. * Localização do ponto de partida e chegada no Dasein. * Natureza da relação de interesse e risco na existência. * A filosofia tardia reinterpreta a finitude não mais como antecipação resoluta, mas como capacidade de acolhimento do recusa, designando o Dasein pelo nome essencial de mortal. * Identificação da primeira luz do ser no recusa. * Passagem da iniciativa heroica para a receptividade. * Crítica implícita à disponibilidade fenomenal em Ser e Tempo. * Preparação para a experiência da morte como horizonte. * A definição dos mortais baseia-se na capacidade de experimentar a morte como o cofre do nada que abriga o vigorar do ser, constituindo o homem como o lugar de guarda dessa relação. * Distinção entre perecer biológico e capacidade de morrer. * Morte como o abrigo do ser sob a forma do nada. * Função dos mortais de habitar esse abrigo. * Identidade entre ser mortal e ser a relação com o ser. * A radicalização da finitude conduz à compreensão de que o nada, longe de ser vazio, é a manifestação do recusa que abre o espaço de possibilidade para a experiência temporal do ser. * Reavaliação do papel da lethe na aletheia. * Revelação do espaço de jogo através do nada. * Conclusão do pensamento sob a égide de Tempo e Ser. * Atualização da experiência essencial da temporalidade. {{tag>Gadamer Kehre ser Gestell Ereignis aletheia}}