====== HUSSERL E A HERMENÊUTICA (2003) ====== //GRONDIN, Jean. Le tournant herméneutique de la phénoménologie. Paris: PUF, 2003.// * A resistência de Edmund Husserl à hermenêutica e à historicidade coexiste com o uso instrumental de variações interpretativas visando a intuição das essências universais e o expurgo das teorias deformantes. * Debates com Wilhelm Dilthey e Martin Heidegger. * Análise de Paul Ricœur sobre os termos Deutung e Auslegung. * Função das variações ou Abschattungen para atingir o essencial. * Primazia do fenômeno sobre a singularidade da interpretação. * A paradoxal evolução da fenomenologia de uma prática de pesquisa avessa a livros para uma tradição filosófica continental livresca contrasta com a escassa produção editorial de Edmund Husserl e seu equívoco inicial sobre o projeto de Martin Heidegger. * Citação de Hans-Georg Gadamer sobre a impossibilidade de aprender o método em livros. * Caráter provisório das Ideen publicadas no Jahrbuch. * Crença na capacidade de escrita técnica dos alunos. * Publicação de Ser e Tempo sem leitura prévia pelo mestre. * Diferença entre a fenomenologia pura e a hermenêutica destrutiva. * A reticência platônica em relação à publicação estendeu-se aos discípulos de Edmund Husserl e à primeira geração de fenomenólogos, resultando em obras fundamentais editadas apenas sob pressão externa ou tardiamente. * Modéstia editorial do Jahrbuch ao longo de duas décadas. * Circunstâncias da publicação de Ser e Tempo por Martin Heidegger. * Edição de Verdade e Método por Hans-Georg Gadamer aos 60 anos. * Influência decisiva dos alunos na divulgação das obras. * A liberalidade de Edmund Husserl permitiu que seus alunos assumissem a tarefa de editar e publicar cursos e manuscritos, conferindo-lhes autoridade para organizar e até complementar a obra do mestre. * Edição das lições sobre a consciência do tempo por Martin Heidegger. * Colaboração de Ludwig Landgrebe em Logística formal e transcendental e Experiência e julgamento. * Redação da sexta meditação cartesiana por Eugen Fink. * Foco na pesquisa a partir das coisas mesmas. * O impacto do sucesso editorial de Ser e Tempo levou Edmund Husserl a reconhecer a eficácia da escrita filosófica e a tentar reafirmar a fenomenologia autêntica através de novas publicações, esforço frustrado pela ascensão do nazismo. * Origem das Meditações Cartesianas e da Krisis em conferências. * Tentativa de contrabalançar a influência supostamente deletéria de Martin Heidegger. * Publicação da Krisis em Belgrado em 1936. * Silenciamento da voz husserliana na Alemanha. * A interpretação hermenêutica da máxima fenomenológica de retorno às coisas mesmas revela uma busca pelas intenções de sentido subjacentes às palavras, configurando a investigação da intencionalidade oculta como uma tarefa eminentemente interpretativa. * Superação da barreira verbal ou bloße Worte. * Natureza das coisas como intenções constituintes e não objetos físicos. * Papel da consciência intencional na gênese do real. * Caracterização da interrogação da intencionalidade como hermenêutica. * A apropriação do modelo husserliano de compreensão pelos discípulos hermeneutas fundamenta a crítica de Martin Heidegger ao falatório impessoal e define a autenticidade como um retorno à confrontação direta com as coisas e consigo mesmo. * Alinhamento de Paul Ricœur e Hans-Georg Gadamer. * Movimento do discurso exterior para a questão motivadora. * Função do Dasein como ser capaz de ver por si mesmo. * Oposição entre a visão direta e os lugares comuns do on. * A desconstrução do discurso proposicional em Ser e Tempo obedece ao imperativo de recuperar a dimensão antepredicativa da compreensão e combater a tendência do Dasein à decadência na segurança das opiniões recebidas. * Referência ao curso de 1924 sobre o Sofista. * Conceito de queda nos logoi. * Necessidade de inserção no diálogo anterior ao enunciado. * Indagação sobre a possibilidade de pensamento sem linguagem. * O retorno às coisas mesmas em Edmund Husserl constitui um movimento de recusa das teorias científicas abstratas e da história da filosofia não verificadas, exigindo uma conversão total do olhar filosófico para a evidência direta do mundo vivido. * Lógica da pergunta e resposta no método fenomenológico. * Crítica à autonomia da teorização sem legitimação no mundo da vida. * Indiferença à erudição histórica em favor da visão direta. * Interpretação da redução como reeducação da visão. * A radicalização existencial do imperativo fenomenológico por Martin Heidegger redireciona o combate à teoria abstrata para a crítica da inautenticidade e do domínio do falatório público sobre a capacidade de visão própria do Dasein. * Definição de Dasein como abertura ocular autônoma. * Fenômeno da decadência ou Verfallen e do palavrório ou Gerede. * Primazia da elaboração temática a partir das coisas sobre conceitos populares. * Continuidade essencial entre a crítica husserliana e a heideggeriana. * A primazia da intuição doadora originária sobre a linguagem técnica e a escrita estabelece o fundamento da fenomenologia e serviu de instrumento para a libertação de Martin Heidegger do vocabulário neokantiano. * Inteligência medida pela penetração além do discurso exterior. * Citação dos Ideen sobre o fim das teorias absurdas. * Valor fundacional da partícula Doch ou entretanto. * Justificativa da recondução de todo dizer à visão. * A exigência de probidade hermenêutica define a filosofia como uma exploração rigorosa baseada na legitimação direta dos fenômenos pela intuição, rejeitando construções metafísicas e preparando o terreno para sua superação posterior. * Estatuto da filosofia como ciência primeira. * Sentido pleno de pesquisa ou Forschung. * Abandono de argumentos puramente formais. * Contribuição involuntária para a desconstrução da metafísica. * A operacionalização do retorno às coisas exige a suspensão da ingenuidade da atitude natural através de uma redução que deve ser compreendida etimologicamente como um redirecionamento do olhar para a constituição intencional do mundo. * Crítica à trivialidade aparente do lema fenomenológico. * Distinção entre redução positivista e re-ductio husserliana. * Conversão da visão para o fenômeno intencional. * Exploração da intencionalidade como campo de pesquisa. * A natureza secretamente hermenêutica da redução manifesta-se no abismo entre o discurso exterior e a intenção interior, revelando a tensão constitutiva entre a visada da consciência e o sentido visado que a transcende. * Necessidade de distanciamento do dito para alcançar o querer-dizer. * Dificuldade de visar a própria visada intencional. * Caráter centrífugo da intencionalidade como abertura ao outro. * Irredutibilidade do noema à noese egológica. * O conceito de constituição de sentido na fenomenologia husserliana não implica uma criação subjetiva idealista, mas indica a participação do sujeito na emergência de um sentido que ele testemunha presencialmente. * Esclarecimento sobre o papel do sujeito transcendental na Sinnkonstitution. * Rejeição da genealogia criacionista. * Analogia com o conceito heideggeriano de Da-sein. * Co-constituição como acompanhamento do advento do sentido. * O mérito hermenêutico de Edmund Husserl reside na recusa em reduzir o sentido à visada subjetiva, mantendo o ego em diálogo constante com horizontes de significado que exigem uma reconstrução arqueológica das camadas intencionais. * Interpretação de Hans-Georg Gadamer sobre a constituição como movimento reconstrutivo. * Existência de etapas de constituição fora da consciência imediata. * Função da exploração das camadas profundas da intencionalidade. * Reconstituição do horizonte de sentido. * A interdependência entre intenção e intuição confere caráter hermenêutico à visada de sentido e autoriza a utilização do método fenomenológico para criticar os pressupostos metafísicos remanescentes na própria obra de Edmund Husserl. * Adaptação da máxima kantiana sobre conceitos e intuições. * Abertura para a desconstrução da metafísica. * Incentivo aos estudantes para a crítica de teorias não fundadas. * Autossuperação da fenomenologia. * O desdobramento hermenêutico da fenomenologia origina-se das tensões internas do projeto husserliano e culmina na redefinição heideggeriana do ego como ser-no-mundo e cuidado, impulsionando o renascimento da filosofia prática contemporânea. * Mencão a Paul Ricœur, Hans-Georg Gadamer e Jacques Derrida. * Radicalização da intencionalidade no curso de 1927. * Transformação da presença a si em tarefa existencial de autenticidade. * Influência em Hannah Arendt, Leo Strauss, Jean-Paul Sartre, Jan Patočka, Emmanuel Levinas, Hans Jonas, Gerhard Krüger, Herbert Marcuse, Karl-Otto Apel e Jürgen Habermas. * Erro da filosofia política francesa ao associar ontologia à cegueira ética. * A concepção hermenêutica do Dasein como projeto arremessado encontra precedentes na noção husserliana de mundo da vida, cuja presença precoce nas pesquisas inéditas de Edmund Husserl antecipa o reconhecimento da finitude do ego e a precedência dos horizontes de sentido. * Paralelismo entre a facticidade heideggeriana e a Lebenswelt. * Correção cronológica baseada na publicação póstuma dos Husserliana. * Uso do termo por Martin Heidegger em 1919. * Derivação do conceito da própria estrutura da intencionalidade. * A descoberta da inserção constitutiva do ego na intencionalidade e no mundo vivido problematiza a viabilidade do projeto husserliano de estabelecer uma filosofia como ciência rigorosa e fundação última de caráter cartesiano. * Persistência do ideal de ciência apodítica em Edmund Husserl. * Modéstia expressa no posfácio das Ideen. * Conflito entre a historicidade da linguagem e a fundação absoluta. * Questionamento sobre a transcendência do fundamento ou Letztbegründung. * A orientação hermenêutica de Martin Heidegger revela a incompatibilidade entre a finitude do Dasein e o sonho cartesiano de um fundamento inabalável, demonstrando que a busca por uma base absoluta é sintoma da própria fragilidade temporal da existência. * Citação da Krisis sobre o fim do sonho da ciência rigorosa. * Fidelidade às intenções originárias do ser. * Análise dos pressupostos ontológicos da fundação última. * Jogo de palavras entre fundamentum inconcussum e a condição de abalo ou concussum do sujeito. * A consumação da virada hermenêutica abandona a pretensão de um fundamento transcendental atemporal para abraçar a finitude universal e a lógica dialógica da pergunta e resposta, mantendo a aspiração à universalidade através da condição comum da facticidade. * Crítica de Martin Heidegger à noção de fundamento no Princípio da Razão. * Libertação da filosofia de ideais cognitivos inatingíveis. * Contribuição de Hans-Georg Gadamer sobre a inexistência de ponto zero. * Universalidade derivada da estrutura finita da intencionalidade. {{tag>Grondin Husserl}}