====== Chaves de Verdade e Método ====== //Gadamer. Comprender la verdad de la experiencia.// **As chaves de Verdade e Método: aproximação à hermenêutica filosófica** * 1. A publicação de Verdade e Método abriu caminho à hermenêutica filosófica como corrente consolidada do pensamento na segunda metade do século XX, não constituindo a obra, dada a própria natureza de seu tema — a conexão de todo pensamento com sua tradição —, obra de ruptura como as iniciais de Husserl e Heidegger, embora só se compreenda situando-a no contexto ante o qual reage criticamente, mostrando a própria obra que todo pensamento é sempre antecedido por perguntas às quais se esforça por responder, suscitando ao fazê-lo novas perguntas, cabendo neste capítulo expor algumas das chaves que permitem acessar com garantia de compreensão a leitura de sua obra maior. **O problema das "ciências do espírito"** * 1. Verdade e Método inscreve-se, desde seu prólogo, na tradição alemã das ciências do espírito, expressão de sabor hegeliano sob a qual se agrupavam no século XIX as disciplinas dedicadas a estudar a vida humana em sociedade, a realidade histórico-social, abrangendo saberes cujo objeto é a ação humana e seus resultados objetivados na linguagem, nas leis, no Estado, na arte, na religião e na produção e intercâmbio de bens, tendo a enorme variedade de temas suposto sempre problema quanto à denominação adequada — ciências do espírito na Alemanha, ciências da cultura no neokantismo, moral sciences no mundo anglo-saxão, ciências morais e políticas na França, Humanidades na proposta de Ortega y Gasset —, considerando-se a história, no ambiente alemão, eixo fundamental de todas. * 2. O problema das ciências do espírito reside, em primeiro lugar, em sua unidade, e, em segundo, em seu método, sendo sua unidade mais negativa que positiva, consistindo o que têm em comum em não serem ciências da natureza, coube a Wilhelm Dilthey (1833-1911) fazer da fundamentação das ciências do espírito a tarefa de sua vida, percebendo que o êxito das ciências naturais e sua reflexão positivista colocavam o saber histórico em posição insustentável, tornando-se necessária justificação do valor de seu conhecimento, concebida como programa denominado, inspirado em Kant, Crítica da razão histórica, destinado a investigar a dimensão da vida humana histórica deixada de fora por Kant. * 3. Nesse contexto, Dilthey estabelece a célebre distinção entre explicação e compreensão: as ciências naturais explicam os fenômenos relacionando-os causalmente entre si para estabelecer regularidades preditivas, ao passo que as ciências históricas buscam compreender ações humanas e seus produtos, dotados de sentido, sendo significado, fim e valor conceitos fundamentais para a compreensão da vida, fundando-se tal compreensão na vivência que o indivíduo tem de sua própria experiência no mundo, na qual capta imediatamente o sentido de sua ação e, sobre essa base, compreende o mundo social. * 4. Quando Gadamer publica Verdade e Método em 1960, a problemática tradicional das ciências do espírito já estava fora do debate filosófico, tendo a fenomenologia de Husserl e Heidegger levado o pensamento a níveis mais radicais que superavam a contraposição explicação-compreensão, situando a Escola de Frankfurt e a reflexão francesa sobre as ciências humanas o problema em âmbito bem distinto do estabelecido por Dilthey, reconhecendo o próprio Gadamer que seu livro, de certo modo, chegava tarde, embora assumisse a tradição alemã justamente para assinalar sua limitação e a necessidade de repensar de modo novo o tipo de conhecimento que Dilthey chamava compreensão, renovação que implicará transbordar por completo o compreender diltheyano. * 5. Dois reproches dirige Gadamer a Dilthey e à tradição das ciências do espírito: ter permanecido ancorado no ideal de ciência representado pelas ciências da natureza, e ter pretendido fundar o conhecimento das ciências históricas no âmbito psicológico das vivências do indivíduo, terreno insuficiente para alcançar a compreensão das grandes formações históricas, tendo a primeira limitação impedido Dilthey de olhar diretamente para a experiência real do compreender que opera nas ciências do espírito, e a segunda cingido seu pensamento à ideia moderna de sujeito. **Condicionamento histórico** * 1. À variabilidade das formas humanas de existência corresponde a multiplicidade de modos de pensar, sistemas religiosos, ideias morais e sistemas metafísicos, realidade histórica que faz os sistemas filosóficos mudarem como os costumes, revelando-se produtos condicionados historicamente e, portanto, relativos em seu valor, malgrado constituir objeto da metafísica o conhecimento objetivo da realidade, único capaz de oferecer ao homem posição firme e meta objetiva à sua ação. **O desafio da consciência histórica** * 1. A problemática epistemológica das ciências do espírito decorre de algo mais profundo, um estado de espírito difundido desde meados do século XIX: a consciência histórica, entendida, inspirando-se em Dilthey, como a consciência de que os produtos do espírito guardam correspondência com as demais formas históricas de existência e estão, como elas, submetidos a condições históricas de surgimento e desenvolvimento, vendo Dilthey nela verdade definitivamente adquirida, ante a qual se impõe enfrentar o desafio do historicismo, a ideia da relatividade absoluta de todo saber à época de seu surgimento. * 2. Dilthey esforçou-se por lutar contra o relativismo sem renunciar à consciência histórica, apoiando-se nela para fundar, paradoxalmente, saber objetivo, centrando-se esse esforço nas ciências do espírito, sobretudo na filosofia, propondo que a reflexão histórica abandonasse a pretensão de verdade dos diversos sistemas para contemplá-los objetivamente, sem comprometer-se com sua verdade possível, denominando tal reflexão Teoria das concepções de mundo, na qual as três grandes concepções — filosófica, artística e religiosa — brotam da vida psíquica e social humana. * 3. Malgrado sempre apreciar a obra de Dilthey e seu enorme avanço na tomada de consciência da tarefa hermenêutica implícita no conhecimento histórico, percebe-se claramente que o ideal epistemológico da objetividade pesava tanto em seu pensamento que o levava, paradoxalmente, a situar a consciência histórica, que vê a relatividade de todo saber, em lugar não relativo, panorâmico, colocando a consciência histórica no lugar da metafísica, inconsequência da qual é necessário não incorrer, partindo daí o pensamento próprio de Gadamer: a necessidade de que toda reflexão histórica verdadeira seja consciente de sua própria historicidade, implicando isso que a compreensão não pode adotar de antemão nenhum ideal normativo de objetividade científica. **A ideia de hermenêutica** * 1. A hermenêutica filosófica introduzida por Gadamer não constitui pensamento que brota subitamente do desconhecido, mas antes prossegue tradição levada às últimas consequências, sendo por isso a publicação de Verdade e Método inicialmente vista apenas como contribuição séria de um discípulo de Heidegger ao problema tradicional das ciências do espírito, abrindo-se apenas aos poucos caminho a consciência de sua real importância filosófica. * 2. O termo hermenêutica, cuja etimologia duvidosa remete a Hermes, mensageiro dos deuses, designa o intérprete que transmite mensagem facilitando sua compreensão, ganhando presença cultural sobretudo pela tradição exegética ligada às religiões do livro, judaica e cristã, necessitadas de interpretar corretamente seus textos sagrados, servindo também aos humanistas renascentistas e aos juristas na interpretação equitativa das leis, configurando-se assim a hermenêutica como instrumento técnico de interpretação de textos canônicos. * 3. Através da obra de Friedrich Schleiermacher (1768-1834), mas sobretudo de Dilthey, a hermenêutica independentiza-se de seu caráter subordinado e instrumental, convertendo-se em fundamento das ciências do espírito, definindo Dilthey o compreender como o processo em que, a partir de sinais dados sensivelmente, conhecemos algo psíquico do qual são manifestação, significando compreender assuntos humanos passar da percepção de sinais externos ao sentido que possuem, tarefa das ciências do espírito consistindo na compreensão desse sentido fixado, desprendido da subjetividade de seus autores, chamado por Hegel espírito objetivo, denominando Dilthey interpretação o compreender técnico de manifestações da vida fixadas duradouramente. * 4. Gadamer prossegue claramente o caminho de Dilthey ao ver na hermenêutica o conceito central das ciências históricas e sociais, mas, através do ensino de Heidegger, radicaliza-o e leva-o ao extremo, mostrando este, em Ser e Tempo, que o compreender não é conceito epistemológico contraposto à explicação causal, mas o modo primário de nosso estar no mundo, sempre exercício de possibilidades de ação, denominando Heidegger compreender esse poder-fazer algo, tomando-o como estrutura básica da existência humana, forma de ser da qual emerge toda forma de conhecimento, inclusive o saber objetivo da ciência. * 5. Aproveita Gadamer essa radicação do compreender no próprio ser da existência humana para extrair dela universalidade da hermenêutica e da interpretação que supera o campo limitado das ciências do espírito, atuando em toda práxis humana e estendendo-se também às ciências duras, convertendo-se assim a hermenêutica em conceito filosófico central, teoria filosófica que pretende mostrar os caracteres fundamentais da experiência humana do mundo, experiência que Gadamer sempre qualificará de hermenêutica. **Experiência de verdade e verificação** * 1. Compreender a tradição implica não apenas compreender textos, mas adquirir evidências e conhecer verdades, questionando-se que tipo de conhecimento e de verdade seja este, questão que, apesar da primazia detida pela ciência moderna na justificação filosófica dos conceitos de conhecimento e verdade, não deixa de ser legítima, resistindo o fenômeno da compreensão, presente em toda referência humana ao mundo e válido também dentro da ciência, a qualquer tentativa de transformação em método científico, confluindo assim as ciências do espírito com formas de experiência externas à ciência — a filosofia, a arte, a própria história —, todas anunciando verdade não verificável pelos instrumentos metódicos da ciência. **A experiência hermenêutica e a metodologia da ciência** * 1. Esse giro do compreender, da epistemologia das ciências históricas e sociais para a experiência geral do mundo, implica mudança do olhar filosófico: já não se trata de buscar o rigor das ciências da natureza para o conhecimento dos assuntos humanos, mas de compreender o compreender, saber o que realmente ocorre ao compreendermos algo de nosso mundo, tratando-se de forma elementar e habitual de estar no mundo que se deve antes descrever em seus caracteres básicos que normatizar. * 2. Gadamer tentará assim fenomenologia da experiência hermenêutica, atendo-se ao fenômeno da compreensão sem projetar sobre ele ideal ou norma prévios, levando, diferentemente de Heidegger, sua concepção do compreender como forma originária de ser a três formas de experiência típicas das ciências do espírito — a arte, a história e a filosofia —, buscando evidenciar a validade dessas formas de conhecimento a partir de sua própria capacidade, legitimando assim a pretensão das ciências do espírito sem necessidade de medi-las pelo rasero da metodologia científica. * 3. A verdadeira questão que impulsiona a escrita de Verdade e Método é impedir que a preponderância cada vez mais ilimitada da ciência moderna expulse do âmbito do conhecimento a legítima experiência de verdade presente em campos do viver humano não compreensíveis a partir de seus cânones, parecendo a Gadamer a condenação do saber científico à irracionalidade da arte e de certas formas de pensamento filosófico expressão da unilateralidade do olhar científico, devendo a filosofia expor essa experiência, esclarecer seu sentido e justificar seu valor, revelando tal análise a universalidade do fenômeno hermenêutico, presente inclusive na ciência. * 4. O esforço por legitimar a experiência hermenêutica, comportando clara crítica ao imperialismo da metodologia científica, fez muitos críticos pensar ser consubstancial à hermenêutica filosófica certo desprezo pela própria ideia de método, tendo Paul Ricoeur dito com graça que o livro deveria intitular-se Verdade ou Método, dando a entender que nele a experiência de verdade excluiria a preocupação pelo método, havendo, contudo, de entender-se antes o inverso: não é que a experiência hermenêutica não se deixe exprimir em passos metódicos, mas que nenhum método, nem mesmo suposto método hermenêutico, garante por si só alcançar a verdade que essa experiência ensina, sendo a preocupação pelo método algo que chega depois, com a busca do saber absoluto da ciência. {{tag>García Gadamer hermenêutica}}