====== LITERATURA (VM) ====== //GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método I. Flávio Paulo Meurer. Petrópolis: Vozes, 1999.// ==== Verdade e Método ==== === A posição-limite da literatura === * Extensão do aspecto ontológico elaborado até aqui ao modo de ser da literatura, considerando-se que nela não parece haver representação com valência ôntica própria, sendo a leitura compreendida como processo de pura interioridade liberado de ocasião e contingência, restando como condição apenas a transmissão linguística e seu cumprimento na leitura, o que suscita a questão acerca da legitimação da diferenciação estética pela autonomia da consciência ontológica e permite afirmar, de qualquer livro, que é para todos e para ninguém. * Ausência aparente de representação com valência ôntica própria. * Leitura entendida como interioridade pura. * Liberação em relação à conferência pública e à encenação. * Centralidade da transmissão linguística e de seu cumprimento na leitura. * Possível legitimação estética pela autonomia da consciência ontológica. * A concepção apresentada acerca da literatura pode proceder de uma retroprojeção romântica derivada de uma consciência de formação alienada, uma vez que, embora a literatura como objeto de leitura seja fenômeno tardio, o caráter escrito pertence originariamente ao grande fazer poético, como indica o abandono da ideia romântica da originalidade da poesia épica, por exemplo a de Homero, evidenciando-se que a escrita é mais antiga do que se supunha e que a poesia já existe como literatura mesmo antes de ser consumida como leitura, não representando novidade essencial o predomínio posterior da leitura face à conferência, como no caso da repulsa aristotélica ao teatro. * Crítica à retroprojeção romântica. * Caráter escrito como dado originário do fazer poético. * Superação da ideia romântica sobre Homero. * Antiguidade da escrita no elemento espiritual da poesia. * Predomínio da leitura não configura inovação essencial. * Especialmente na leitura em voz alta torna-se patente que não se pode traçar distinção nítida entre leitura silenciosa e leitura sonora, pois toda leitura compreensiva constitui forma de reprodução e interpretação, na qual entonação e articulação rítmica pertencem também ao silêncio, dado que o significativo e sua compreensão estão intrinsecamente vinculados ao linguístico-corporal, implicando sempre um falar interior. * Leitura como reprodução e interpretação. * Presença de entonação e ritmo também no silêncio. * Vinculação do significativo ao linguístico-corporal. * Compreensão como falar interior. * A literatura, por exemplo na forma peculiar do romance, possui na leitura uma existência tão originária quanto a épica na declamação do rapsodo ou o quadro na contemplação do observador, permanecendo a leitura ocorrência em que o conteúdo se torna representação, ainda que marcada por grau máximo de desvinculação e mobilidade, como se evidencia na possibilidade de interromper e retomar o livro, o que revela que a leitura corresponde à unidade do texto. * Existência originária da literatura na leitura. * Paralelo com rapsodo e contemplação pictórica. * Leitura como representação do conteúdo. * Mobilidade e possibilidade de interrupção. * Correspondência entre leitura e unidade textual. * A forma de arte que é a literatura só pode ser concebida a partir da ontologia da obra de arte e não das vivências estéticas sucessivas da leitura, pertencendo a leitura essencialmente à obra literária tanto quanto declamação ou execução, todos graus do que se costuma chamar de reprodução, a qual constitui na realidade o modo de ser original das artes transitórias e modelo para a determinação do ser da arte em geral. * Primado da ontologia da obra de arte. * Leitura como elemento essencial da obra literária. * Reprodução como modo de ser originário. * Exemplificação para o ser da arte em geral. * O conceito de literatura encontra-se vinculado ao seu receptor não como sobrevivência morta de um ser alienado, mas como função de preservação e transmissão espiritual que traz a cada presente a história oculta, sendo a tradição dos clássicos, desde os filólogos alexandrinos até a disputa entre anciens et modernes, uma tradição cultural viva que reconhece o exemplar e o transmite como modelo permanente. * Literatura como preservação e transmissão espiritual. * Formação dos cânones pelos filólogos alexandrinos. * Tradição viva dos clássicos. * Referência à disputa entre anciens et modernes. * O desenvolvimento da consciência histórica transforma a unidade viva da literatura universal em questionamento histórico da história da literatura, processo provavelmente inconcluso, tendo sido Goethe o primeiro a cunhar o conceito na língua alemã com sentido normativo ainda evidente, sentido que persiste quando se atribui a uma obra significado duradouro como pertencente à literatura universal. * Transformação pela consciência histórica. * Processo inacabado. * Cunhagem do conceito por Goethe. * Persistência do sentido normativo. * O pertencimento à literatura universal implica ocupar lugar na consciência de todos e pertencer ao mundo, ainda que o mundo atual esteja distante do mundo originário da obra, pois o sentido normativo indica que tais obras continuam falando mesmo em contexto diverso, como comprova a literatura traduzida, sendo o modo de ser histórico da literatura que possibilita tal pertença. * Distância entre mundos históricos. * Continuidade da fala das obras. * Prova pela literatura traduzida. * Historicidade como condição de universalidade. * A pertença normativa à literatura universal amplia o conceito de literatura para além da obra de arte literária, abrangendo toda tradição linguística, textos religiosos, jurídicos, econômicos, públicos e privados, escritos científicos e o conjunto das ciências do espírito, bem como toda investigação vinculada essencialmente à linguagem, sendo a capacidade de escrever o que delimita o sentido mais amplo de literatura. * Inclusão de textos não artísticos. * Abrangência das ciências do espírito. * Literatura como tradição linguística. * Escrita como critério delimitador. * A aplicabilidade ao amplo sentido de literatura do que foi afirmado sobre o modo de ser da arte torna-se problemática, pois o sentido normativo desenvolvido pode parecer reservado às obras literárias consideradas como arte, levantando-se a questão acerca da participação fundamental das demais formas de ser literário na valência de ser da arte. * Reserva possível do sentido normativo. * Problema da participação das demais formas literárias. * Ampliação ou restrição da valência artística. * Obras científicas podem alcançar reconhecimento como arte literária em razão de sua qualidade de formulação, mas a crítica à consciência estética torna duvidoso o critério que separa arte literária e literatura, pois nem mesmo a obra poética se compreende pela mera formulação, mas pelo significado de conteúdo que nos fala, o qual compartilha com outros textos literários. * Exemplos de obras científicas com qualidade literária. * Limitação da consciência estética. * Centralidade do significado do conteúdo. * Comunhão entre poesia e demais textos. * A diferença entre obra de arte literária e outros textos literários deixa de ser fundamental quando se considera que, embora haja distinções de linguagem entre poesia, prosa poética e prosa científica, a diferença essencial reside na diversidade da reivindicação de verdade que cada uma levanta, havendo profunda comunhão no fato de que a formulação linguística torna operante o significado, aproximando a compreensão historiográfica da experiência da arte. * Diferenças linguísticas não decisivas. * Diversidade de reivindicações de verdade. * Operatividade do significado pela linguagem. * Aproximação entre historiador e experiência artística. * No fenômeno da literatura encontra-se o ponto de passagem entre arte e ciência, pois a escrita constitui a compreensibilidade do espírito tornada estranha e exige tarefa específica de compreensão, realizando no deciframento a transformação do estranho em familiar, diferentemente das relíquias materiais do passado, sendo a leitura como arte secreta que suspende espaço e tempo e atualiza o passado. * Literatura como passagem entre arte e ciência. * Escrita como estranhamento máximo. * Deciframento como transformação espiritual. * Suspensão de espaço e tempo na leitura. * O conceito mais amplo de literatura torna-se válido porque, assim como o ser da obra de arte é jogo que se cumpre na recepção pelo espectador, também os textos somente na compreensão retransformam o rastro de sentido morto em sentido vivo, impondo a pergunta acerca de saber se o compreender pertence ao acontecer de sentido de todo texto, inclusive dos que não são obras de arte, tal como na música o fazer-com-que-se-torne-audível pertence ao seu ser. * Paralelo entre arte e textos em geral. * Compreensão como reativação do sentido. * Realização do sentido na recepção. * Problema da liberdade interpretativa. {{tag>Gadamer literatura}}