====== 10: 13/12/2005 ====== //FRANCK, Didier. Heidegger, Ser e Tempo. Aula de 2005// 1. Recapitulada a estrutura do Dasein sob o conceito de cuidado, articulação de três momentos cujo sentido temporal será destacado, e observado o estatuto flutuante do discurso, recorda-se que o objetivo não é fundar uma antropologia existencial, contrassenso cometido por muitos, como Sartre, mas a ontologia fundamental, cuja questão, até aqui na sombra, retorna com o § 43, que, pela crítica da refutação kantiana do idealismo, visa de fato Husserl e o conflito entre realismo e idealismo, mostrando que a exigência de uma prova da existência do mundo exterior repousa em fundamentos ontológicos obscuros e não tem sentido para um Dasein que é ser-no-mundo, pois só se coloca a partir de um sujeito isolado e subsistente, embora se reconheça a legitimidade do idealismo quando este reconduz a realidade das coisas a ideias, recusando explicar o ente por outro ente do mesmo tipo, mas não quando dissolve as coisas em dados de sensação. * Em 1945, segundo Dominique Desanti, Heidegger, ao ouvir falar do existencialismo, levou as mãos à cabeça e disse nunca ter querido aquilo, embora ele próprio tenha falado de antropologia filosófica no final do Kantbuch. * É duvidoso que Heidegger tenha compreendido o que se passou em Husserl entre as Investigações lógicas, metafisicamente neutras, e as Ideias I, que trouxeram uma nova solução a partir de 1913. * A questão entre realismo e idealismo não tem sentido enquanto não se precisar o modo de ser da realidade e da consciência, cuja análise Husserl renovou profundamente com a intencionalidade. * Heidegger não rejeita a tradição, mas a critica, fazendo sempre justiça ao que ela viu. 2. Para que o sujeito se relacione com um objeto, a dimensão prévia dessa relação, o mundo, deve estar aberta, o que em certo sentido é a intencionalidade e não atinge Husserl, com quem Heidegger concorda que o ente que não somos só se compreende passando pelo ente que somos, pois filosofar é explicar o ente pelo ser e não contar histórias, explicando o ente pelo ente, residindo a diferença em que para Husserl a consciência, conscience do mundo, está fora do mundo, recebendo um sentido ontológico tomado de empréstimo ao mundo, preço de seu tradicionalismo ontológico, enquanto para Heidegger o Dasein está no mundo com um modo de ser inteiramente diferente. * A redução transcendental não tem o mesmo sentido que em Kant, pois significa fora do mundo, e Husserl deu ao problema soluções não inconsistentes. * É mais fácil teologizar Husserl, que sai do mundo, do que a analítica existencial, pois Heidegger jamais sai do mundo. 3. No final do § 43, após o exame da tese de Dilthey, mostra-se que o sentido ontológico da realidade, isto é, de tudo o que não é Dasein, está fundado no próprio Dasein, no cuidado, recuperando todo ser não dasênico e recapitulando tudo sobre o Dasein, o que retoma a linha moderna, iniciada por Descartes, de fazer da análise do nosso ser o lugar da análise do ser em geral, aquilo que Nietzsche chamou humanização do ente, cuja dificuldade é não humanizar o ente, o que Heidegger evita porque o Dasein não é humano. 4. O § 44, último da seção e gonzo das duas seções, contém uma das descobertas mais essenciais de Heidegger num projeto de conhecimento em sentido amplo, o sentido originário da verdade, pois a definição tradicional da verdade como adequação não é originária, sendo precedida pelo descobrimento, experiência originária dos gregos, os primeiros e melhores fenomenólogos, e Heidegger verá depois que a aletheia é a dimensão única em que se desdobrou tudo o que é grego, assim como a aliança entre Israel e Deus unifica os conteúdos diversos do Antigo Testamento, dos pré-socráticos e trágicos ao estoicismo, reconduzindo a ela Édipo rei, o coro de Antígona, Homero e Píndaro, alcance que na época de Sein und Zeit ainda não mediu. * Pode-se criticar essa interpretação o quanto se quiser, mas é preciso ser capaz de lançar tanta luz quanto ela. 5. O § 44, dividido em três seções, começa lembrando que a filosofia sempre aproximou ser e verdade, como no fragmento de Parmênides segundo o qual o mesmo é pensar e ser, cujo "mesmo" sempre se buscou compreender, e em Aristóteles, para quem ciência da verdade e ciência do ser são o mesmo, colocando-se a questão da relação entre o sentido do ser buscado e a verdade, que terminologicamente equivale a ente e ser. 6. O conceito tradicional de verdade reúne-se em três teses: o lugar da verdade é o enunciado ou juízo; sua essência reside na adequação entre o juízo e seu objeto; e Aristóteles, pai da lógica, assinalou o juízo como seu lugar de origem, teses que se encontram, por exemplo, em Kant e que Heidegger examina lembrando que Aristóteles afirma que as afecções da alma são semelhantes às coisas, raiz da definição da verdade como adequação, pressuposta como definição nominal num célebre passo da Crítica da razão pura. 7. A adequação é uma relação, mas nem toda relação é adequação, e toda adequação, como a igualdade 6 = 16 - 10 sob a perspectiva do quanto, se estabelece sob certo "a respeito de", sendo o problema compreender em que perspectiva intellectus e res, de ordens de ser diferentes, se adequam, relação que se funda no "tal como" (so... wie), pois o enunciado dá a coisa tal como ela é, e, retendo a lição de Husserl de que na percepção se dão as próprias coisas em carne e osso, Heidegger mostra (p. 217) que o enunciado visa o próprio ente e não uma representação, cabendo-lhe a função apofântica de mostrar a coisa em sua identidade, que é uma prestação de sentido do próprio enunciado, de modo que não há experiência muda nem percepção originária, pois percebe-se o já dito, e o enunciado é verdadeiro por ser mostrativo e descobridor. * A tradução de Martineau contém erros nas pp. 215-216: trata-se de "co-posto" e não de "co-pressuposto", "semelhante" traduz ähnlich, e "coisa" traduz Sache, mais vaga que Ding, coisa espaçotemporal que traduz res. * Na construção de Heidegger da época, nada se passa entre Aristóteles e Kant, pois o conceito é sempre um abreviador, e Nietzsche mostra que a velocidade, não a precipitação, é essencial ao conhecimento. * Pensando nos ausentes ou vendo uma foto da torre Eiffel, é a eles e a ela que se visa, não a uma imagem, contra o artefato representacional em que se instalam os adeptos das ciências cognitivas. * Martineau traduz sempre zu por "pour", mas aqui convém falar do ser enunciante relativamente à coisa enunciada. * Todo fenômeno é já fenomenologia, pois a identidade não cai do céu, mas vem do enunciado, função constituinte da linguagem que Husserl viu e não viu, sendo a experiência muda a "loucura husserliana". * Na Cartuxa de Parma, Mosca teme que a palavra amor seja pronunciada entre Fabrício e a Sanseverina, pois então veriam a situação em que se encontram, exemplo da função mostrativa da fala que os filósofos analíticos não compreendem bem. * Ao dizer que o logos é logos tinos, Platão compreendeu tudo, e não há fenômeno mudo senão por mutação de uma fala anterior. 8. No final de A origem da geometria, Husserl apresenta a incorporação linguística como etapa necessária e última da objetivação, não havendo objetividade sem linguagem, assim como nos Prolegômenos a ciência está nos tratados, e o termo Meinen, traduzido por visada, significa também pensar, crer, querer-dizer, dimensão intelectual perdida na tradução, de modo que Heidegger repete Aristóteles, que toma o logos por fio condutor por haver uma relação essencial entre o que se mostra e o que se diz. * Não se pode mostrar a luz aos cegos, e a filosofia não é, por essência, democrática. 9. Reconquistada a função descobridora do enunciado, ser verdadeiro significa ser descobridor, tese que não é arbitrária, embora Kant não tenha tocado no conceito de verdade e Heidegger sustente que Nietzsche também permaneceu no quadro da adequação, interpretação interessada, pois quer fazer de Nietzsche o último metafísico, quando este, ao tomar a consistência das coisas e do intelecto como produtos, atacou ambos os termos da adequação. 10. O comentário da Ética a Nicômaco mostra os diversos modos de descobrimento em Aristóteles, a techne, a poiesis e a physis, e confirma que os gregos são fenomenólogos em estado puro, mais livres que Husserl, cuja fenomenologia permitiu o retorno à grega, compreendendo a aletheia, de prefixo privativo, como vir ao aparecer em sentido verbal, surgir no campo do visível a partir do não-aparecer, a lethe, mais essencial que o visível, relação que os gregos, comovidos pelo que aparecia, não pensaram e que será a tarefa posterior de Heidegger, sendo ser, para o ente, vir do retiro ao desvelamento (aus der Verborgenheit in die Unverborgenheit kommen), movimento incessante, de modo que o Dasein, abertura e poder de revelação, é a própria verdade, sendo o aí o fenômeno originário da verdade, co-originária ao Dasein, que, estando de início no modo impróprio, está tanto na verdade quanto na não-verdade, devendo a verdade ser arrancada à não-verdade, sentido dado ao privativo na época de Sein und Zeit. * Heidegger sofreu, como ele mesmo diz, um "enxerto ocular" husserliano. * Metaforicamente, as bordas não visíveis do campo do visível são mais essenciais que o próprio campo. * Nicolai Hartmann já traduzira aletheia por Unverborgenheit sem ver o que lhe passava pelas mãos, e o grego de Heidegger é uma construção tanto alemã quanto grega, seu "lado Joyce", em que as línguas passam umas nas outras, o que torna absurda a acusação de nacionalismo linguístico, embora Heidegger tenha dito tolices. * A essência grega da verdade é explicada a partir da guarda (Wahrheit). * O percurso mostrou o poder mostrativo do enunciado, a verdade como descobrimento anterior ao juízo e a atestação disso em Aristóteles, com quem, talvez salvo Hegel, ninguém rompeu. * A não-verdade será chamada errância em A essência da verdade. 11. O novo conceito de verdade, muito distante do conceito tradicional, só se justifica se permitir reconstruir o antigo e explicar por que o originário foi sempre falhado, ainda que Aristóteles o tenha visto contra o recobrimento operado por sua própria ontologia, e a gênese da adequação (p. 225), apoiada na fórmula husserliana de que a tradição é esquecimento das origens, repousa no fato de que o enunciado, mostração que pode ser reefetuada na situação originária, pode ser transmitido e desligado dela, funcionando como utensílio, informação, e depois como subsistente armazenado em documento, de modo que o conteúdo de sentido e a coisa visada se tornam subsistentes, basculamento ontológico sob efeito de um desenraizamento fenomenal que explica a fixação tradicional da verdade como adequação, dotada de legitimidade própria, e define o trabalho da filosofia como reabrir as situações a partir das quais foram proferidas as falas mais elementares do Dasein (p. 220). * "O quadro é branco" pode ser verificado nesta sala, mas não em outra. * O Fedro de Platão mostra que um texto incompreendido é puro subsistente, e Jean Paulhan ironizava que, na Libertação, O ser e o nada, com exatamente um quilo, servia para pesar recém-nascidos, exemplo divertido de uma modificação ontológica séria. * Aprender teoremas sem suas demonstrações e aplicá-los como receitas, ou guardar citações para encaixá-las numa dissertação, modifica o sentido original dos enunciados. * Na p. 220 deve-se traduzir "força das palavras" por "força das falas". * Segundo uma bela imagem talmúdica, a palavra do Talmude é como cinzas adormecidas que só se tornam brasas se nelas se sopra, e toda grande interpretação é recriação, luta contra a inércia, antes de tudo a própria. 12. A interpretação tradicional que o Dasein tem de si, por exemplo como sujeito, recobre o conceito originário de verdade, e só uma analítica existencial podia vencer esse esquecimento, entendido a partir do retiro, sendo o modo de ser da verdade o do próprio Dasein, pois só há verdade enquanto há Dasein, existencial que abre todos os outros, tese ontológica e não ôntica que não implica relativismo nem ceticismo, pois não afirma que a verdade seja relativa a tal homem, ao passo que a afirmação de verdades eternas supõe um sujeito fantasticamente idealizado, sem facticidade nem historicidade, e um resíduo de teologia cristã, preço que Heidegger se recusa a pagar, restando a questão de se o Dasein foi tomado em sua totalidade, já que, sendo ser-adiante-de-si, comporta sempre um ainda-não, o que conduzirá à análise do poder-morrer. * Leo Strauss, adversário feroz de Heidegger mas não um imbecil, interpretava a tese como relativista. * Husserl é parcialmente atingido, pois seu sujeito é o das verdades eternas, embora conceba a eternidade como onitemporalidade. * As verdades científicas têm historicidade própria, e já nenhum físico considera que haja leis da natureza em sentido absoluto, enquanto em Newton o sujeito é idealizado, sem corpo nem facticidade, um anjo, como diz Schopenhauer, e os neotomistas censuraram Descartes por atribuir ao conhecimento humano as propriedades do conhecimento angélico. {{tag>Franck SZ}}