====== 1.1 Corpo sob a lei ====== //FRANCK, Didier. Nietzsche et l’ombre de Dieu. Paris: PUF, 1998// * A pregação paulina funda-se na ressurreição de Cristo, pois sem ela vã seria a pregação e a fé, de modo que a ressurreição de Cristo, e a ressurreição em Cristo, constitui a crença própria dos cristãos, sendo Deus invocado como aquele cujo poder ressuscita os mortos. * A ressurreição, que marca a passagem da morte à vida após a passagem da vida à morte, é ressurreição do corpo, e por isso a elucidação dos conceitos de vida e morte, enquanto relacionados à ressurreição e à justificação, exige tomar o corpo como ponto de partida e tema principal. * Na comparação entre a unidade da Igreja e a do corpo, Paulo concebe o corpo como a unidade de membros múltiplos cujas funções diferem, unidade que não provém dos próprios membros, pois nenhum deles pode representar o corpo inteiro, mas origina-se em Deus que dispôs cada membro no corpo como lhe aprouve. * Se a unidade do corpo e a disposição de seus membros são obra da vontade divina, então a pertença dos membros do corpo funde-se com a pertença do nosso corpo a Deus, e o corpo é concebido no próprio sítio da nossa relação com Deus. * O corpo é o homem mesmo em sua abertura a Deus e, pelo mesmo ato, aos seus semelhantes no mundo, sendo o homem primeiramente corpóreo, um corpo, pois as expressões "nosso corpo" e "nossos membros" equivalem a pronomes pessoais. * A unidade do corpo é relacional, pois cada membro é necessário aos outros e está correlacionado com eles, de modo que a relação de um membro com outro é relação de um com todos os outros e, em última instância, relação do corpo consigo mesmo. * A relação consigo mesmo constitui o eu, e por isso é a partir do corpo, e não de uma alma, que se deve compreender aquele ser que, por ser um si mesmo, pode dizer "eu". * A unidade do corpo é o si mesmo, e se essa unidade pode ser quebrada, é porque o si mesmo pode ser dividido, sendo a divisão do si mesmo o sentido de uma ruptura entre o homem e Deus, um antagonismo entre os modos humano e divino de valorar os membros. * A fidelidade e a infidelidade a Deus, a obediência ou desobediência à sua palavra, são possibilidades do corpo, e quando Paulo afirma que "o corpo é para o Senhor, e o Senhor para o corpo", adverte imediatamente que "o corpo não é para a fornicação", o que implica que ele poderia muito bem ser. * O homem é um corpo, e por "corpo" deve-se entender uma abertura a si mesmo que, como tal, é abertura a Deus, ou, mais rigorosamente, a abertura a Deus que, como tal, é a abertura do si mesmo a si mesmo. * A unidade do corpo não pode ser natural, pois o corpo mesmo não é natural, mas é questão de criação, do vínculo entre o homem e Deus, isto é, da história sagrada, de modo que o corpo se une ou se divide, possuindo-se em si mesmo ou voltando-se contra si mesmo, conforme confie ou desconfie de Deus. * Paulo opõe dois propósitos, dois modos de ser para o corpo: ser para Deus ou para a fornicação, sendo a fornicação uma "obra da carne" e um "pecado contra o próprio corpo", de modo que a análise dos conceitos de carne e pecado deve permitir compreender por que e como o corpo se desmembra. * A carne designa, segundo o uso do Antigo Testamento, o homem frágil diante do Eterno, e a expressão "nenhuma carne" significa "quem quer que seja", tendo a palavra "carne" um sentido pessoal, de modo que a carne é o homem mesmo tal como se vê e aparece a si mesmo. * A carne é coextensiva à visibilidade natural, e a fenomenologia paulina faz da carne o próprio ser do visível, caracterizando o corpo não apenas tal como se vê, mas também como está no meio do que vê. * A carne é o corpo na medida em que se refere a si mesmo e ao mundo, voltando-se para longe de Deus, e a sabedoria do logos, buscada pelos gregos, é uma sabedoria "segundo a carne", oposta à graça de Deus. * A carne é aversão a Deus, e a distinção entre carnal e espiritual distingue dois tipos de relação do homem com Deus e dois modos de ser para o corpo, sendo o antagonismo entre carne de morte e espírito de vida tendo o corpo por sítio. * Os que são segundo a carne são primeiramente os gregos, que trocaram a glória do Deus incorruptível por uma imagem semelhante a homens corruptíveis, aves, quadrúpedes e répteis, e que não observam os mandamentos da lei inscrita em seus corações, atestada pelo fenômeno universal da consciência moral. * São também, e sobretudo, os judeus que, possuindo a lei como "guia para o conhecimento e a verdade", nunca a respeitam, de modo que os gregos são judeus inconscientes de si mesmos e os judeus ignoram a lei que receberam. * Estar segundo a carne é estar sob a lei, seja grego ou judeu, e é em relação à lei que a carne, o pecado e a morte devem ser compreendidos no sentido paulino. * Por lei, Paulo entende a letra da aliança, que ele será o primeiro a chamar "Antigo Testamento", e, mais estritamente, os estatutos revelados por Deus para conduzir o homem à justificação, sem a qual não há salvação nem vida eterna. * A lei tem um sentido essencialmente moral, pois "toda a lei se cumpre nesta única palavra: 'Amarás o teu próximo como a ti mesmo'", e essa moralidade não é a ciência regional dos estóicos, mas aquela da qual surge a economia da salvação, isto é, a história bíblica e a totalidade das relações entre os humanos e Deus. * A justificação pela lei é impossível porque ela compreende mal a justiça divina, pois querer obter a justiça pelas obras da lei é querer obtê-la por si mesmo, de si mesmo, e substituir a própria justiça pela de Deus, sendo essa substituição a essência do pecado, que é orgulho, afirmação incondicional e auto-glorificação, "confiança na carne". * Longe de nos libertar do pecado, a lei nos encerra nele irremediavelmente, e o que deveria nos vivificar nos condena a uma vida de morte, de modo que, sob a lei, os corpos permanecem corpos de carne, "cujo deus é o ventre", vivendo sob a ira de Deus. * A lei não é pecado, mas não se conhece o pecado senão pela lei, e a lei não é apenas ratio cognoscendi do pecado, mas, como ratio essendi, está em obra no próprio pecado, pois o pecado se apoia na lei apenas para transgredi-la, extraindo dela a força para voltar-se contra si mesma. * O pecado transforma um mandamento de vida em instrumento de morte, de modo que "o mandamento, que era para vida, levou-me à morte", e viver sob a lei, ou sob o pecado, é viver uma vida que traz consigo a morte e se mantém na morte, vivendo contra a vida. * "Eu estou morto" significa: sou um corpo dividido, separado de Deus, um corpo de carne, e a vida e a morte não devem ser entendidas em sentido biológico ou grego, mas em relação à palavra de Deus, que coloca cada um diante da escolha de uma ou de outra. * A descrição paulina da vida sob a lei pressupõe possível recapitular toda a história de Israel, antes e depois do Exílio, segundo uma lei cuja observação deveria conduzir à salvação, mas essa recapitulação sob "a lei" é tardia, e, longe de representar servidão, a lei é, para o judeu fiel e piedoso, objeto de amor e fonte de alegria. * Há na diatribe paulina um salto ilegítimo, uma modificação sorrateira de sentido, se não um verdadeiro sofisma, pois obter a justiça pelas próprias obras não equivale de modo algum a substituir a própria justiça pela de Deus, e Paulo não demonstra que a justificação pela lei compreende mal a justiça divina nem que ela seja perversa e pecaminosa em essência. * A rejeição da lei provém, em última instância, da fé em Jesus Cristo, enquanto ele cumpre a lei, e brota de uma nova teofania, mas admitir que somente uma teofania pode abolir outra leva a excluir uma solução de continuidade entre o Deus de Israel e aquele que ressuscita seu Filho, proibindo ver em Cristo o cumprimento da promessa feita a Abraão e quebrando a unidade da história sagrada. * A divisão do corpo sob a lei, descrita com máximo vigor no fim do capítulo 7 da Carta aos Romanos, é mostrada segundo um novo princípio de justificação, uma nova justiça, divisão perceptível apenas no fim da lei, a partir de Cristo, quando Paulo analisa o eu carnal afirmando que a lei é espiritual. * A lei é espiritual quando, reunida em torno do mandamento do amor, tornou-se caridade, e é segundo esse novo princípio que a divisão do corpo carnal sob a lei é mostrada, pois o eu da carne está dividido entre o que quer e o que faz, não compreendendo mais o que realiza. * A análise paulina implica que o corpo, vivendo segundo a carne ou segundo o espírito, é vontade, e que a vontade quer a vida, de modo que, querendo justificação e vida, obtenho pecado, e o paradoxo é que deixo de me compreender no momento em que minha vontade se afirma contra a de Deus, em vez de se entregar a ela. * O corpo que sou é constituído pela relação da minha vontade com a vontade de Deus, sendo o corpo uma relação entre vontades, e sob a lei o corpo de carne quer o contrário do que quer, pois não quer o que Deus quer, e a vontade se volta contra si mesma. * A disjunção entre o querer e o querido, a autonomia da minha vontade em relação ao que ela essencialmente quer, implica que a lei é compreendida como santa, e que não basta conhecer a lei para ser justificado, sendo o conhecimento segundo a carne impotente para governar a vontade. * Dividido entre o que quer e o que faz, entre a bondade da lei e a malignidade de seus atos, o eu carnal é despojado de si mesmo, e não é tanto o sujeito que é pecador quanto o pecado que é sujeito, pois na proposição "o bem que quero e o mal que faço" o primeiro eu não é idêntico ao segundo. * O eu que quer o bem é aquele cuja vontade pertence a Deus, o eu que faz o mal é aquele cuja vontade desobedece a Deus em benefício da carne, e como Paulo nunca concebe Deus fora de qualquer relação com o homem, essa relação, qualquer que seja, inscreve-se no antagonismo do bem e do mal. * A história sagrada é uma história moral, o Deus que julga o bem e o mal é um Deus moral, e tudo pode ser compreendido sob a oposição do bem e do mal, sendo o conhecimento do bem e do mal o conhecimento último da vida e da morte, do que vivifica e do que mortifica voltando a vida contra si mesma. * A carne e o espírito disputam o eu, isto é, o corpo, e o homem interior opõe-se ao homem exterior como o espírito à carne, sendo o homem interior equivalente à razão, e a razão à mente, no sentido da vontade enquanto conhece a alternativa diante da qual se encontra: bem ou mal, vida ou morte. * A razão é neutra, nem boa nem má, e Paulo pode fundir razão e espírito porque a vontade sempre implica conhecimento e porque ninguém deixa de reconhecer, como atesta a consciência moral, que a lei é boa, santa. * Se o homem interior em que sou se compraz na lei de Deus enquanto está preso ao pecado, a divisão do si mesmo e o voltar-se do corpo contra si mesmo surgem do choque entre carne e espírito pelo domínio de meus membros. * Meu corpo pode submeter-se à carne ou ao espírito, pode viver de e por si mesmo, ou de e por Deus, pode ser regido pelo bem ou pelo mal, mas para que essas duas possibilidades lhe sejam oferecidas e lhe sejam próprias, o corpo, como relação de vontades, deve ele mesmo ser um fenômeno moral cuja constituição como tal pertence ao pecado ou à justiça. * O corpo sob a lei conduz à morte, é o corpo de alguém morto; o corpo libertado da lei conduz à vida, é investido pelo espírito, santificado, de modo que o fim do reinado da lei abre a possibilidade de uma mudança na condição dos corpos, de uma nova qualificação ou determinação do corpo. * Centrada na obra salvífica de Cristo, a história sagrada, a história bíblica, é sempre também a história dos corpos. {{tag>Franck Nietzsche lei cristianismo corpo Paulo}}