====== Dúvida ====== //FLUSSER, Vilém. Da dúvida. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia / Conselho Estadual de Cultura, 1965. (Reedições: São Paulo: Duas Cidades, 1969; São Paulo: Annablume, 2011).// 1. A dúvida é um estado de espírito ambivalente: pode encerrar uma fé ou inaugurar outra, estimula o pensamento em dose moderada e o paralisa em excesso, oferece um prazer puro como exercício intelectual e uma tortura como experiência moral, e, aliada à curiosidade, é o berço de todo conhecimento sistemático, ao passo que, em estado destilado, mata a curiosidade e põe fim a todo conhecimento. 2. Toda dúvida parte de uma fé primordial, ingênua e inocente, que ela dissolve de modo irreversível, de maneira que as novas certezas, mais refinadas e sofisticadas, produzidas pela dúvida metódica jamais recuperam a autenticidade perdida e conservam para sempre a marca da dúvida que lhes serviu de parteira, tornando vãs as nostalgias de reconquistar o paraíso da boa-fé original. 3. Concebida como busca de certeza que começa destruindo a certeza autêntica para produzir uma certeza inautêntica, a dúvida revela-se absurda e impõe a pergunta mais fundamental "Por que duvido?", que antecede "De que duvido?" e conduz ao último passo do método cartesiano, isto é, duvidar da própria dúvida e indagar se de fato se duvida. 4. Descartes e todo o pensamento moderno deixam de dar esse último passo ao aceitar a dúvida como indubitável, de modo que o "Penso, portanto sou" equivale a "Duvido, portanto sou" e exprime uma fé autêntica, ingênua e inocente na dúvida, fé que caracteriza toda a Idade Moderna, cujos últimos instantes se presenciam agora. 5. A fé na dúvida explica o caráter científico e desesperadamente otimista da Idade Moderna, bem como seu ceticismo inacabado, ao qual falta o passo derradeiro, e desempenha nessa época o mesmo papel que a fé em Deus desempenhou durante a Idade Média. 6. A dúvida da dúvida é um estado fugaz que, embora possa ser experimentado, não pode ser mantido, pois oscila sem ponto de apoio entre o ceticismo radical e o positivismo ingênuo, impedindo até o descanso que Kant atribuía ao ceticismo, e lança o espírito num vaivém mais extremo que o do Sísifo de Camus, já que esse espírito é frustrado por si mesmo e nem o suicídio resolve sua situação, enquanto Camus ainda nutre, embora vacilante, a fé na dúvida. 7. Reinterpretado como corrente de pensamentos em que cada pensamento exige o seguinte para certificar-se de si mesmo, o cogito revela que o ser se constitui pela dúvida, mas a dúvida da dúvida leva a conclusões simultâneas e contraditórias, a de que se confirma o ser, a de que se duvida do ser e a de que se é independentemente de qualquer duvidar, desembocando no beco sem saída que os antigos reservaram a Sísifo. 8. A mesma situação aparece por outro ângulo na corrente de pensamentos segundo a qual se duvida porque se é, e portanto se duvida de que se é e, por conseguinte, se duvida de que se duvida, o que reconduz ao mesmo beco. 9. Esse lado teórico da dúvida radical, durante muito tempo desprezado com razão como jogo fútil de palavras pensável mas não existencialmente vivível, e cuja vivência autêntica valia a seus raros portadores a pecha de loucura, transborda hoje do intelecto para todas as camadas da mente e ameaça solapar o senso de realidade, expressão cujos significados de fé, sanidade mental e capacidade de escolha se revelam fundamentalmente idênticos, de modo que a dúvida da dúvida ameaça destruir a fé, a sanidade e a liberdade ao tornar vazio e não vivível o conceito de realidade. 10. O esvaziamento do conceito de realidade é um processo histórico no plano coletivo e psicológico no plano individual, consistente numa intelectualização progressiva em que o intelecto invade e desautentica as demais regiões mentais, inclusive a realidade material, até refluir sobre si mesmo e cometer suicídio, destruindo o refúgio idealista que a dúvida cartesiana incompleta da Idade Moderna oferecera à realidade dentro do intelecto e resolvendo as frases contraditórias da dúvida da dúvida na fórmula "Tudo é nada", com a qual o idealismo radical desemboca no niilismo. 11. A geração atual é a primeira ou a segunda a experimentar o niilismo como situação existencial e não como passatempo teórico, enfrentando a clara noite do nada de que fala Heidegger, e, por isso, constitui ao mesmo tempo o produto perfeito e consequente da Idade Moderna, que nela alcança sua meta, e a superação dessa época, que nela se reduz ao absurdo, já que a perda total da fé, a loucura do nada envolvente e a absurdidade da escolha no nada são insustentáveis. 12. O suicídio do intelecto, fruto de sua própria intelectualização, manifesta-se em todos os terrenos e, na filosofia, produz o existencialismo e a lógica formal, duas abdicações do intelecto em favor de uma vivência bruta e inarticulada que equivalem ao fim da filosofia. 13. Na ciência pura, esse processo gera a manipulação de conceitos conscientemente divorciados de toda realidade, aproximando-a da arte abstrata, na ciência aplicada gera instrumentos autodestruidores destinados a aniquilar a humanidade e seus próprios instrumentos, e na arte gera uma arte que significa a si mesma e, portanto, carece de significado. 14. No domínio da razão prática, instala-se um clima de oportunismo imediatista, um aproveitar o dia tanto individual quanto coletivo, acompanhado do esvaziamento de todos os valores. 15. As reações contra esse avanço rumo ao nada são reacionárias e desesperadas, pois buscam a realidade em níveis já esvaziados pelo intelecto, seja nas filosofias marcadas pelo prefixo "neo", na reformulação modesta das premissas científicas, na esperança inautêntica de uma nova revolução industrial paradisíaca, no realismo patético dito socialista, no ressurgimento de religiões tradicionais e seitas improvisadas ou exóticas, seja na política e na economia com a ressurreição de conceitos superados como a soberania, o sangue, a classe ou a liberdade de empreendimento, todas condenadas ao malogro por quererem ressuscitar fés mortas ou inautênticas desde o início. 16. Apesar de existencialmente insustentável, o niilismo precisa ser tomado como ponto de partida de toda tentativa de superação. 17. A inautenticidade dessas reações reside na ignorância, autêntica ou fingida, de que em todos os terrenos já altamente intelectualizados a dúvida desalojou a fé e se perdeu o senso de realidade, fato que deve ser aceito, ainda que não totalmente consumado, pois os resíduos de fé que restam estão condenados e a saída, se houver, virá do próprio niilismo, na busca de um novo senso de realidade para a qual este livro pretende oferecer uma modesta contribuição no campo da filosofia. 18. Visto coletivamente, o progresso da intelectualização e da dúvida, com o consequente esvaziamento da realidade, é um processo histórico que, por sua natureza, se manifesta primeiro na filosofia, embora acompanhado surdamente por desenvolvimentos paralelos em todos os demais campos da situação humana. 19. Por isso a vinda do niilismo foi prevista pelos filósofos antes de qualquer outra camada, sobretudo por Nietzsche, e a busca filosófica de um novo senso de realidade, embora tenha introduzido novas categorias como vontade e vivência, deslocado a especulação para a ontologia e aprofundado a lógica até invadir esse mesmo campo, não conseguiu gerar uma nova fé e, sendo ainda intelectualização mesmo quando anti-intelectual, contribuiu para alastrar o niilismo que pretendia combater, intelectualizando camadas até então intocadas, embora talvez tenha favorecido negativamente o surgimento de uma nova realidade ao destruir a antiga. 20. Visto individualmente, o progresso da intelectualização é vivido de início como libertação exuberante dos preconceitos, mas vem acompanhado desde o começo de um sentimento inconsciente de culpa, compensado pelas fés melhores que o intelecto cria para si, até que, quando o intelecto se volta contra si mesmo, a culpa se torna consciente e domina a cena junto com a hesitação, ou com seu avesso, o engajamento sem escrúpulo e o fanatismo, atitudes igualmente desesperadas que atestam a perda da fé no intelecto sem contribuir para superar a situação niilista da filosofia atual. 21. Nascido da perda de fé no intelecto e sem a ilusão de produzir uma fé autêntica nova, este livro tem a vantagem de vir mais tarde e de ter perdido os restos de ingenuidade quanto ao alcance do intelecto que marcam seus antecessores, pois, embora o caráter puramente formal do intelecto já tenha sido compreendido, sua esterilidade nunca foi saboreada vivencialmente pelo próprio intelecto, vivência intelectual da futilidade do intelecto que nada tem a ver com o desprezo fácil dos sentimentais e místicos e que pode significar não o abandono, mas a superação do intelecto por si mesmo. 22. O anti-intelectualismo de grande parte da filosofia atual é um erro, por confundir a fé no intelecto, corretamente abandonada, com o enquadramento do intelecto numa fé em uma realidade nova a ser encontrada, e um perigo, por aprofundar o niilismo que pretende combater, ao passo que quem experimenta autenticamente em seu intelecto a futilidade do intelecto passa a ter para com ele uma atitude positiva, comparável à de quem, desencantado do poder salvador de uma grande fortuna, ainda a mantém disponível para servir a uma nova fé quando encontrada, revelando-se o anti-intelectualismo mero resto de fé no intelecto. 23. A vivência da esterilidade do intelecto torna experimentáveis, embora não compreensíveis, os fundamentos extraintelectuais dos quais o intelecto brota, fundamentos que por definição escapam à filosofia como disciplina intelectual, de modo que filosofar sobre eles é outro erro da filosofia atual, e precisamente sua eliminação do campo filosófico, tarefa assumida aqui, abre a possibilidade de incluí-los num campo mais apropriado. 24. Sem pretender superar a situação existencial absurda nem ultrapassar o niilismo em que se mergulhou, esta corrente de pensamentos busca iluminar alguns de seus aspectos para tornar viável uma superação futura, intuito que já revela algo remotamente semelhante a uma fé, a saber, uma esperança precária na possibilidade dessa superação e na sobrevivência da chamada civilização ocidental, esperança à qual todo este esforço é dedicado. {{tag>Flusser dúvida}}