====== Nova lógica ====== //FABRIS, Adriano; CIMINO, Antonio. Heidegger. Roma: Carocci, 2009.// * 1. O interesse pela lógica caracteriza a totalidade da reflexão heideggeriana desde os anos juvenis, manifestando-se não apenas na abordagem crítica em relação ao neokantismo e, em parte, à fenomenologia, mas sobretudo na tentativa de desenvolver positivamente uma doutrina capaz de superar a impostação objetivante que predomina também na abordagem das ciências. * 2. Em Ser e Tempo (Sein und Zeit), elabora-se uma verdadeira lógica hermenêutica, correspondente à lógica produtiva (produktive [[lx>termos:l:logik|Logik]]) referida no § 3 da obra, entendida não como investigação que persegue as ciências para tomar como objeto o método de uma delas num estágio momentâneo de seu desenvolvimento, mas como lógica que se instala antecipadamente num determinado âmbito do ser, começa por abri-lo em sua constituição ontológica e disponibiliza às ciências positivas, como regras seguras de investigação, as estruturas assim obtidas, configurando-se, portanto, como lógica do sentido, e não como lógica daquilo que, como os entes, necessita do sentido para ser compreendido e enunciado. * 3. Tal lógica é desenvolvida mediante discussão crítica da relação diádica entre sujeito e objeto que predomina na abordagem científica e que vincula tanto o neokantismo quanto a fenomenologia, pressuposto cuja assunção legitima uma concepção da lógica como estudo dos possíveis enunciados referentes aos objetos, quando, na verdade, três são os termos envolvidos nessa relação, porquanto o vínculo entre conhecente e conhecido encontra-se sempre já assegurado numa perspectiva de compreensão preliminar do próprio conhecido, herança que Heidegger recebe de Schleiermacher e de Dilthey e que permite falar, a esse respeito, de uma lógica hermenêutica. * 4. Em Ser e Tempo, prossegue-se ainda o confronto crítico com a doutrina que identifica o logos com o enunciado ([[lx>termos:a:aussage|Aussage]]), que interpreta a verdade em termos de correspondência e que concebe as coisas primariamente a partir de seu ser-presente, movimento de destruição ([[lx>termos:d:destruktion|Destruktion]]), ou seja, de desconstrução crítica das posições filosóficas anteriores, mostrando-se, no [[sz>33|§ 33]] da obra de 1927, que o enunciado não é senão modo derivado da atividade interpretativa, radicada, por sua vez, na capacidade de compreensão que caracteriza o ser-aí ([[lx>termos:d:dasein|Dasein]]) em seu concreto existir, liberando-se assim a lógica de seu vínculo privilegiado com o enunciado. * 5. Ao longo dos anos trinta, amplia-se o âmbito da lógica na medida em que se toma como tema o caráter de evento ([[lx>termos:e:ereignis|Ereignis]]) do ser, sua dinâmica veritativa específica e o modo pelo qual, através dela, se realiza a relação entre ser e homem, de sorte que a questão da lógica deixa de referir-se apenas ao modo como o homem pensa, compreende e se relaciona com os demais entes, passando a caracterizar antes o manifestar-se e o expor-se do próprio ser, configurando-se assim uma lógica própria das coisas mesmas, de seu vir à experiência e de seu desvelar-se fenomênico, e uma lógica própria do ser como tal, isto é, uma lógica da própria verdade, entendendo-se por essa expressão o ritmo, a estrutura segundo a qual ocorre o desvelamento. * 6. Entre as configurações assumidas por essa estrutura dinâmica, própria tanto dos entes quanto do ser, a primeira forma explicitamente tematizada é a do linguagem, tema do curso universitário do semestre de verão de 1934, intitulado Logik als Frage nach dem Wesen der Sprache (Lógica como pergunta pela essência da linguagem), ministrado pouco depois da malograda experiência do reitorado. * 7. Interrogando-se sobre a configuração grega do logos, termo que designa primariamente a palavra e o discurso, descobre-se na origem da lógica a questão da linguagem, não se tratando de estudar a linguagem em suas formas enunciativas, mas de compreender a dimensão mesma da palavra como lugar em que o ser em geral vem a se manifestar, sendo a linguagem o modo pelo qual se articulam as estruturas de inteligibilidade previamente dadas graças às quais nos orientamos no mundo, razão pela qual a linguagem nos interpela e nos chama (ruft), modo pelo qual o ser, sempre anterior a toda nossa compreensão, vem ao nosso encontro em sua abertura de sentido estruturada em forma de palavras. * Recorre-se, nesse contexto, aos poetas, custódios da pureza da língua e capazes de fazê-la ainda ressoar, conforme o verso de Stefan George comentado longamente por Heidegger: nenhuma coisa é onde a palavra falta. * 8. A ideia de uma lógica das coisas encontra-se também na reflexão mística que vai de Mestre Eckhart a Jacob Böhme, até os últimos desdobramentos da cabala hebraica, contrapondo-se explicitamente às reflexões conduzidas no mesmo período pelos filósofos do Círculo de Viena, que formalizavam o discurso apofântico e reconduziam as expressões das línguas naturais à dimensão do cálculo próprio da lógica formal, tendo Rudolf Carnap proposto, no início dos anos trinta, o superamento da metafísica mediante a análise lógica da linguagem, discutindo explicitamente a posição heideggeriana exposta na preleção Que é metafísica?, ao passo que Heidegger, nas lições de 1935, discute, sem nomeá-la, a concepção carnapiana, sancionando um distanciamento que se ampliará ulteriormente entre as impostações analítica e continental da investigação filosófica. * 9. Não se trata, contudo, de deriva mística, mas da tentativa de remontar à origem daquilo que a filosofia precedente havia pensado sob o nome de lógica, entendendo Heidegger a questão da lógica de modo mais amplo e articulado do que ocorre na tradição aristotélica e nos desenvolvimentos formalísticos do século XX, atestando-se tal tentativa pela investigação sobre o uso da palavra logos no pensamento pré-socrático, sobretudo em Heráclito. * 10. Na interpretação dos fragmentos heraclíticos conduzida no texto preparado para as lições do semestre de verão de 1944, identificam-se dois sentidos de logos: aquele próprio do homem e aquele que exprime o manifestar-se daquele Uno que tudo liga e recolhe, o próprio ser, distinção grafada, respectivamente, com inicial minúscula e maiúscula. * 11. Ao lado da crítica dirigida a uma concepção tecnicizante da lógica — concebida como reflexão sobre a reflexão, destituída de vínculo verdadeiro com as coisas —, emerge a tentativa de pensar positivamente o Logos originário e as condições de acesso a ele, remetendo tal Logos, etimologicamente, ao ato de reunir e recolher (legein), configurando-se como presença originariamente unificante capaz de envolver o homem, ao qual resta apenas predispor-se à escuta e à correspondência ([[lx>termos:e:entsprechung|Entsprechung]]), sendo o caráter originário do humano, sua profunda estrutura psíquica, precisamente o ser chamado a tal correspondência, a disposição a deixar-se conduzir à unificação preliminar que o ser promove. * 12. Emerge assim uma ideia de lógica que já não diz respeito primariamente ao pensamento, mas à relação que liga o próprio pensamento àquilo que permite pensar, denominação que se poderia chamar lógica do ser ou lógica do evento, a partir da qual se torna possível o confronto com momentos decisivos da história da lógica — de Leibniz, com sua teorização do princípio de razão suficiente, a Kant, com sua guinada transcendental e sua interpretação específica da coisa; de Hegel, com sua elaboração dialética do pensamento, a toda a tradição que, de Parmênides às formalizações do século XX, assume e desenvolve o chamado princípio de identidade — de modo que os critérios fundamentais do pensar, em sua fixidez e aparente incontrovertibilidade, possam ser compreendidos e redefinidos em seu caráter intrinsecamente dinâmico. {{tag>Fabris lógica}}