====== Linguagem ====== //FABRIS, Adriano; CIMINO, Antonio. Heidegger. Roma: Carocci, 2009.// * 1. Além do problema do existencialismo e da metafísica, reconhece-se claramente na Carta sobre o humanismo (Brief über den Humanismus) outro tema importante, concernente à essência da linguagem e sua relevância para o problema da verdade do ser, tema presente desde os primórdios da atividade filosófica, como atesta a tese de habilitação sobre o problema das categorias e do significado no escrito atribuído a Duns Escoto, ou o relevo central da problemática hermenêutica na fenomenologia da faticidade e na analítica ontológica, assumindo, contudo, a partir dos anos trinta — sobretudo no rastro do confronto com Hölderlin e, mais amplamente, no contexto da atenção dedicada à experiência artística — centralidade e pregnância peculiares, constituindo aspecto-chave para a própria realização do pensamento do evento. * 2. Uma das perspectivas cardeais do pensamento do evento consiste na tentativa de reganhar dimensão de sentido que não se deixe capturar por modalidades de experiência que, embora se apresentem como instâncias últimas, revelam-se fundadas em pressupostos determinados, como a teoria correspondentista da verdade e as expressões típicas da metafísica e da tecnociência, repetindo-se o mesmo motivo no aprofundamento do problema da linguagem, ao colocar-se radicalmente em discussão concepções e práticas que, embora aparentemente óbvias, não constituem instâncias últimas para uma originária experiência filosófica da própria linguagem — valendo isso sobretudo para a lógica tradicional, em particular onde se afirma o primado de uma estrutura centrada na proposição, solidária, dentro de certos limites, com a teoria correspondentista da verdade, e para as concepções que veem na linguagem instrumento funcional aos fins da tecnociência ou mero meio de comunicar e exprimir estados de ânimo. * 3. Aspecto que aprofunda o anterior, vinculando-se a momento cardeal do pensamento do evento, é aquilo que se pode chamar, em primeira instância, a indisponibilidade da linguagem, sendo parcial e enganoso nivelar a experiência linguística sobre modalidades que impõem, mais ou menos implicitamente, objetivação ou reificação da linguagem, devendo isso ser reconduzido a estado de coisas mais decisivo, a saber, ao fato de que a linguagem não constitui propriedade de que o homem possa dispor de modo arbitrário, podendo dizer-se, de forma paradoxal mas eficaz, que não é o homem quem dispõe da linguagem, mas antes é a linguagem que dispõe do homem. * 4. Reapresenta-se aqui estado de coisas já constatado quanto ao evento de apropriação ([[lx>termos:e:ereignis|Ereignis]]), reconhecível nesse acontecer equilíbrio de fundo em que se substancia a co-pertença entre ser e homem: por um lado, o ser, em seu acontecer histórico-epocal, não pode ser reduzido a objeto ou produto de atividades humanas, evidenciando-se aí a finitude ou o ser-lançado ([[lx>termos:g:geworfenheit|Geworfenheit]]) próprio do homem; por outro, mantém-se, em seu acontecer histórico-temporal, referência estrutural ao homem, valendo o mesmo para a relação entre linguagem e homem — este não dispõe de modo absoluto ou arbitrário da linguagem, mas permanece o único ente que fala e mantém relação privilegiada com ela, como atesta exemplarmente a experiência da poesia, conceitualizando-se essa originária co-pertença mediante estrutura dialógica constituída entre um apelo ([[lx>termos:z:zuspruch|Zuspruch]]) da linguagem dirigido ao homem e um corresponder ([[lx>termos:e:entsprechen|Entsprechen]]) do homem à linguagem, remodulação linguística da co-pertença entre ser e homem. * 5. Decorre daí consequência hermenêutica concreta para a leitura dos escritos heideggerianos: não se trata de escritos que propõem filosofia da linguagem no sentido de reflexão que a descreve com a maior precisão possível ou que, em sentido amplo, a objetiva, mas antes de realizar experiência originária da linguagem no sentido de experiência a partir da linguagem, entendendo-se o genitivo não como objetivo, mas como subjetivo, no mesmo sentido em que o pensamento do evento não constitui reflexão sobre o evento, mas experiência filosofante que amadurece e se realiza a partir do evento, evidenciando-se assim que as consonâncias estruturais entre pensamento do evento e pensamento da linguagem excedem meras analogias formais, sendo a linguagem parte integrante do evento de apropriação que se cumpre entre ser e homem. * 6. A própria co-pertença de ser e homem no evento de apropriação apresenta-se fortemente conotada em sentido linguístico, reconhecendo-se na relação entre apelo e corresponder, própria da relação entre homem e linguagem, a mesma dinâmica presente no acontecer do ser como evento, pelo qual o ser se dá ao homem num apelo e o homem, por sua vez, é chamado a corresponder ao ser, estado de coisas que caracteriza desde sempre o dar-se do ser em sua historicidade e epocalidade. * 7. O dar-se histórico-epocal do ser e, portanto, a co-pertença entre ser e homem no evento de apropriação resultam intrinsecamente linguísticos, não podendo a linguagem ser considerada instrumento de comunicação ou propriedade do homem, seja no sentido de posse, seja no de qualidade característica, mas antes representando a própria dimensão do acontecer histórico-epocal do ser como evento, papel central exemplarmente verificável no caso da palavra poética, não podendo esta, sobretudo na obra de Hölderlin, ser reconduzida à mera expressão de vivências subjetivas do poeta, mas antes, em suas manifestações mais altas, à fundação ou abertura de um mundo histórico no qual o homem existe, tanto como indivíduo quanto como comunidade. * 8. À imagem dos nós de uma rede que tudo conecta, empregada para descrever os aspectos da reflexão heideggeriana, corresponde também o desenvolvimento do pensamento do evento mediante o entrelaçamento produtivo entre análise da linguagem, questão da técnica e problema do fundamento, temas dedicados aos dois próximos parágrafos, concluindo-se o capítulo com a análise de um dos últimos e significativos textos heideggerianos, aquele dedicado a O fim da filosofia e a tarefa do pensamento. {{tag>Fabris linguagem}}