====== Nova estética ====== //FABRIS, Adriano; CIMINO, Antonio. Heidegger. Roma: Carocci, 2009.// * 1. O termo estética (Ästhetik) em Heidegger não remete primeiramente a uma teoria da arte e do espaço da arte, mas aproxima-se antes daquilo que a filosofia precedente entendeu como reflexão sobre a experiência ([[lx>termos:e:erfahrung|Erfahrung]]), em conformidade com a referência ao [[lx>termos:a:aisthesis|aisthesis]], ao mundo da sensibilidade, ainda presente no Kant da Crítica da razão pura, malgrado a polêmica heideggeriana contra a interpretação neokantiana da experiência, que separa sensibilidade e intelecto como faculdades distintas e interpreta os processos experienciais nos termos de uma relação entre sujeito e objeto. * Um repensamento da experiência e uma redeterminação do problema do que é a coisa constituem, na perspectiva heideggeriana, a condição não apenas para redefinir o conhecer, mas também para enfrentar adequadamente o significado e a peculiaridade da obra de arte. * 2. Conforme demonstra Ser e Tempo (Sein und Zeit), diversos tipos de relação se realizam em nossa experiência, sendo a compreensão de nosso mundo sempre emocionalmente caracterizada, o que já nos anos vinte resulta num alargamento específico das formas de relação para além do âmbito restrito da relação entre sujeito e objeto, mediante a substituição do conhecimento e de sua estruturação lógica própria pela compreensão ([[lx>termos:v:verstehen|Verstehen]]), entendida como processo sempre já mediado e orientado por uma pré-compreensão capaz de guiar a investigação. * 3. Tal abordagem comporta, todavia, o risco de perda daquela experiência entendida como intuição, como relação imediata com as coisas e com os demais entes semelhantes a nós, configurando-se a experiência, também em Heidegger, à maneira do projeto crítico kantiano, como construção que põe em obra estruturas já dadas a priori, denominadas em Ser e Tempo existenciais ([[lx>termos:e:existenzialien|Existenzialien]]), de modo que o vínculo imediato com aquilo que é outro, estranho, inquietante, resulta sempre já de algum modo orientado e assegurado no horizonte da compreensão. * 4. A mesma estrutura reaparece no tratamento heideggeriano dos sentimentos, das emoções e dos estados de ânimo, uma vez que Heidegger, em Ser e Tempo, libera a disposição afetiva ([[lx>termos:b:befindlichkeit|Befindlichkeit]]) de uma interpretação puramente irracional e lhe reivindica a capacidade de abertura de mundo e de horizontes de sentido, sendo, no entanto, essa disposição afetiva cooriginária à compreensão e ao discurso (Rede), tornando possível, juntamente com eles, a abertura e a articulação do ser-no-mundo por parte do ser-aí ([[lx>termos:d:dasein|Dasein]]), sem contudo fornecer um encontro imediato com o outro, na medida em que se configura como espécie de horizonte transcendental, permanecendo assim mero pressuposto capaz de fornecer apenas processos de mediação. * 5. A imediatidade revela-se, na hermenêutica heideggeriana, inatingível, o que suscita a questão do que se desvela de modo inesperado, antes que possa ser capturado e definido no interior de nossas categorias de compreensão, questão que constitui a preocupação central da investigação heideggeriana a partir dos anos trinta: a tentativa de captar o evento ([[lx>termos:e:ereignis|Ereignis]]) em sua verdade, de pensar aquilo que é anterior ao próprio pensamento, situando-se nessa perspectiva a reflexão dedicada à obra de arte, agora entendida não mais como teoria da experiência perceptiva, mas em sentido mais próximo ao consolidado na história da filosofia desde a segunda metade do século XVIII. * 6. Na conferência de 1935, intitulada A origem da obra de arte (Der Ursprung des Kunstwerkes), repetida em 1936 e ampliada no mesmo ano, publicada em versão estendida em 1950 como primeiro ensaio de Sentieri interrotti (Holzwege) e, por fim, em volume à parte em 1960, sustenta-se que as obras de arte, em sua multiplicidade de realizações, tornam-se compreensíveis e reconhecíveis apenas a partir de uma adequada compreensão daquilo que a arte é, isto é, de sua origem ([[lx>termos:u:ursprung|Ursprung]]), devendo ser entendidas de modo bem diverso dos objetos ou produtos da técnica, porquanto a arte constitui atuação da verdade: instituição, desvelamento, abertura de um contexto determinado no qual nos encontramos a viver. * 7. A obra de arte não é simplesmente algo verdadeiro, algo manifesto como tal, mas nela se manifesta a própria verdade, o próprio processo pelo qual um contexto particular vem a se abrir, distinguindo-se assim dos demais entes — uma coisa, um instrumento de uso, um ser vivo — pela emergência, na obra de arte, do pano de fundo em que essa manifestação ocorre, configurando-se como pôr em obra da verdade como tal. * 8. As obras de arte não se limitam a fazer conhecer algo, nem sequer fazem conhecer coisa alguma acerca dos entes considerados em sua individualidade e singularidade, historicizando antes o não-velamento ([[lx>termos:u:unverborgenheit|Unverborgenheit]]) e anunciando o evento como tal, aquilo que envolve o ente em seu conjunto, em sua totalidade, de modo que a obra de arte abre um mundo. * 9. No exemplo do quadro de Van Gogh que retrata um par de sapatos de camponês, aquilo que aparentemente se mostra como mero instrumento utilizável revela, num exame mais atento, a pesantezza da vida camponesa, o cansaço impregnado no couro, a solidão da vereda entre os campos, o silencioso apelo da terra e seu tácito dom de messes maduras, o temor pela segurança do pão, a alegria da sobrevivência à necessidade, o anúncio de um nascimento e a angústia da morte, abrindo assim a quem o contempla o mundo próprio do camponês em seus vários aspectos, o que torna o quadro de Van Gogh, precisamente por essa capacidade revelatória, uma obra de arte. * 10. Distancia-se, nessa leitura, da teorização estética dominante segundo a qual a obra de arte é considerada objeto para um sujeito que a contempla mediante a percepção, o aisthesis, sendo assim concebida como evento cultural no qual se exprime a vida do artista e que se insere na história da cultura, concepção em que ressoam ecos românticos segundo os quais o objeto estético adquire valor em virtude do gosto do público e do sentimento que veicula e é capaz de suscitar naqueles que o contemplam. * Dessa concepção da arte propõe-se explicitamente o superamento ([[lx>termos:ü:uberwindung|Überwindung]]), de modo que a questão sobre a obra não verse sobre o objeto para o sujeito, mas sobre o acontecimento de verdade ([[lx>termos:w:wahrheitsgeschehen|Wahrheitsgeschehen]]) através do qual os próprios sujeitos são transformados. * A questão a ser colocada permanece, assim, a da origem, de modo que a obra de arte deva ser concebida não apenas em seu manifestar-se como obra, mas sobretudo em seu configurar-se como lugar privilegiado em que emerge o horizonte no qual se cumpre a experiência do homem. * 11. Aquilo que permanece inatingível à filosofia tradicional, e que mesmo Ser e Tempo não conseguia captar — a verdade do ser antes de sua inserção nos processos de compreensão e mediação próprios do ser-aí — expõe-se, portanto, na obra de arte, não apenas nas obras plásticas ou figurativas, mas também, e sobretudo, na poesia, como evidenciado no caso de Hölderlin. * 12. Delineia-se, a partir dessas reflexões, o percurso seguido a partir dos anos trinta, aprofundando-se, a partir de perspectivas diversas, os modos pelos quais o originário — o ser como tal — encontra sua manifestação na experiência artística, distinguindo-se três direções privilegiadas pela investigação heideggeriana: a interpretação dos poetas capazes de custodiar em suas obras os segredos que a linguagem lhes dita, sobretudo Hölderlin, Rilke, George, Trakl e Hebel; o aprofundamento da relação entre manifestação e ocultamento do ser enquanto origem, pensada metaforicamente como a contenda ([[lx>termos:s:streit|Streit]]) entre mundo ([[lx>termos:w:welt|Welt]]) e terra ([[lx>termos:e:erde|Erde]]); e a redefinição do conceito de espaço em polêmica com a abordagem quantitativa própria da física moderna, sendo a escultura vista, nesse sentido, como o corporificar-se da verdade do ser. * 13. O propósito da investigação heideggeriana permanece o de captar a experiência humana em sua origem, o que suscita a questão da palavra mais adequada para dizer essa origem e do discurso capaz de evocá-la e exprimi-la, questionando-se, antes de tudo, o que significam aqui discurso, palavra e logos, exigindo as novas perspectivas da experiência, voltadas a captar o evento do ser em sua verdade, a elaboração de uma nova lógica. {{tag>Fabris estética}}