====== 4.3 "Ser-para-a-morte", resolução e temporalidade ====== //FABRIS, Adriano. Essere e tempo di Heidegger: introduzione alla lettura. Roma: Carocci, 2004.// **A conexão entre "ser-para-a-morte" e resolução** * 4.3.1. O [[obra:etem:et61|§ 61]], que inaugura o capítulo, prefigura as questões a serem enfrentadas e anuncia a passagem do âmbito da resolução e do precorrimento da morte, considerados em seu vínculo recíproco, ao da temporalidade como sentido do cuidado, distinguindo-se três núcleos temáticos: a conexão entre resolução e precorrimento, voltada à mais concreta atuação do próprio ser autêntico ([[obra:etem:et62|§ 62]]); reflexão metodológica sobre as possibilidades e limites da analítica existencial e a determinação originária do autêntico si mesmo do ser-aí (§§ [[obra:etem:et63|63]]-[[obra:etem:et64|64]]); e a elaboração temática da temporalidade como sentido ontológico do cuidado ([[obra:etem:et65|§ 65]]), da qual decorre a exigência de retomar e repetir a análise da existência do ser-aí a partir do resultado alcançado ([[obra:etem:et66|§ 66]]). * Pensar a resolução até o fim significa rastrear o modo pelo qual através dela se realiza, na escolha que o ser-aí concretamente pode assumir, num terreno existentivo, a possibilidade da existência autêntica, isto é, identificar no [[lx>termos:s:ser-para-a-morte|ser-para-a-morte]] a modalização privilegiada do ser resoluto, em virtude da qual o ser-aí é capaz de compreender-se originariamente. * Mediante a atuação do precorrimento, a resolução converte-se de possibilidade abstrata em concreto poder-ser existentivo, do qual esse ente oferece testemunho, havendo ainda motivo mais subterrâneo: apenas no precorrimento da morte a resolução torna-se autenticamente aquilo que é, assumindo o ser-aí, ao realizar a resolução como horizonte de autocompreensão, ao escolher escolher, sua própria finitude, tornando explícito e reafirmando o caráter situado próprio do ser resoluto. * Introduz-se assim a expressão vorlaufende [[lx>termos:e:entschlossenheit|Entschlossenheit]] (decisão antecipadora), dando-se solução definitiva à questão da possibilidade de o ser-aí assumir-se em sua inteireza: no concreto resolver-se que precorre a morte exibem-se as condições existentivas a partir das quais pode emergir e ser tematicamente assumido o poder-ser-um-todo do ser-aí, afirmando-se que, se a resolução, em seu precorrer, incluiu a possibilidade da morte em seu poder-ser, a existência autêntica do ser-aí não pode mais ser superada por nada. **A filosofia e o problema do si mesmo** * 4.3.2. O segundo núcleo temático apresenta-se como espécie de parêntese metodológico em que se examina o caminho até aqui percorrido e se retomam as análises do cuidado como ser do ser-aí, mostrando-se, no [[obra:etem:et63|§ 63]], que a análise da existência do ser-aí assume constantemente caráter de violência, decorrente daquele movimento que impele o ser-aí, do qual a própria analítica existencial é testemunho, a distanciar-se da autocompreensão cotidiana e a contrariar sua tendência ao ocultamento do si mesmo autêntico, devendo o ser-aí resolver-se pela autointerpretação, nisso consistindo, em primeiro lugar, a possibilidade de filosofar. * Deve haver sempre alguma compreensão ôntica da existência, variável de situação a situação, a partir da qual, tematizada adequadamente, torna-se possível remontar às condições ontológicas subjacentes a essa e a outras interpretações possíveis, constituindo o plano existentivo, assim tematizado, o acesso ao nível existencial, o que vale também para Ser e Tempo, não sendo tal procedimento arbitrário nem vinculado à relatividade de seu ponto de partida, por ser o resultado da investigação a autocompreensão ontológica do ser-aí em sua inteireza, resultado ao qual o próprio ser-aí se resolve e que a cada vez atua. * No vínculo funcional entre existentivo e existencial, e no fato de a passagem de um nível a outro não ser inevitável, mas fruto de explícita escolha de si na qual a existência filosófica encontra sua realização, anuncia-se último tema do [[obra:etem:et63|§ 63]]: a constitutiva circularidade de toda a investigação, aprofundada aqui em chave existencial mediante esclarecimento do sentido existencial da situação hermenêutica de uma analítica originária do ser-aí, emergindo novamente o motivo da escolha, pois na pré-compreensão que tem de si mesmo o ser-aí é chamado a decidir ([[lx>termos:e:entscheiden|entscheiden]]) se ela é ou não adequada à própria estrutura ontológica. * No § 64, retoma-se o problema do si mesmo (Selbst) como fenômeno do cuidado, tão intrínseco a este que a expressão cuidado de si resulta tautológica, desenvolvendo-se a investigação em confronto crítico com a doutrina kantiana dos Paralogismos da razão pura: tendo razão Kant ao mostrar que o eu, como eu penso, é irredutível ao eu empírico, mas entendendo ainda o si mesmo de modo inadequado, à maneira da [[lx>termos:r:res-cogitans|res cogitans]] cartesiana, como algo constantemente presente apesar da mudança das representações. * Para Heidegger, dizer eu significa, da parte do ser-aí, exprimir seu ser-no-mundo, tanto na inautenticidade das relações cotidianas quanto como possibilidade de ganhar seu si mesmo autêntico, não sendo o ser-si-mesmo dado de fato nem expressão de substancialidade, mas fenômeno do cuidado configurado como poder-ser-si-mesmo, esclarecendo-se assim o sentido peculiar de consistência e estabilidade do si mesmo ([[lx>termos:s:standigkeit|Ständigkeit]] des [[lx>termos:s:selbst|Selbst]]), não como permanência de sujeito que acompanha toda representação, mas como movimento da resolução que, em seu precorrimento da morte, contrasta a instabilidade inscrita na tendência à decadência, delineando-se consistência paradoxal devida não ao alcance definitivo de um estado, mas à atuação, a cada vez, de disposição e escolha. **A temporalidade como sentido do cuidado** * 4.3.3. Chega-se, no [[obra:etem:et65|§ 65]], ao terceiro núcleo temático: a individuação e aprofundamento do sentido temporal próprio do ser do ser-aí em sua intrínseca dinamicidade, definindo-se sentido como o pano de fundo em que se mantém a compreensibilidade de algo, sem ser explicitamente tematizado, o aquilo-em-vista-de-que (das [[lx>termos:w:woraufhin|Woraufhin]]) do projeto primário, aquilo a partir do qual algo pode ser concebido em sua possibilidade naquilo que é. * Tendo sido analisado o ser-aí em suas diferentes modalidades ontológicas unitariamente conectadas, emergindo aquilo que dá sentido a esse ente — seu ser como existir, poder-ser no qual, em virtude da resolução como escolha da escolha, suas possibilidades situadas são mantidas e assumidas enquanto possibilidades —, resta perguntar com base em que se realizou tal compreensão do existir, respondendo-se com a elaboração do conceito de temporalidade ([[lx>termos:z:zeitlichkeit|Zeitlichkeit]]) como sentido do ser do ser-aí, sentido do sentido. * Mostra-se, nos parágrafos [[obra:etem:et7|7]] a [[obra:etem:et9|9]] do [[obra:etem:et65|§ 65]], a partir da análise da resolução, do ser-culpado e da situação, o pano de fundo temporal em que tais fenômenos já sempre estão pensados, e, nos parágrafos 13 a 15, o pressuposto temporal articulado subjacente aos três momentos constitutivos do cuidado — o ser-adiante-de-si, o ser-já-em-um-mundo e o ser-junto aos entes utilizáveis —, podendo afirmar-se que a unidade originária da estrutura do cuidado consiste na temporalidade. * Impõe-se libertar-se da concepção cotidiana do tempo, divisível, escandido, medido por instrumentos e imaginado escoar do passado ao futuro, dispondo-se a acolher outra ideia de tempo, não aquele de que o ser-aí cuida ou que submete à medição, mas a temporalidade que esse próprio ente é, que se desdobra, realiza e amadurece com seu existir, tempo originário estruturalmente em jogo nas dinâmicas com que o ser-aí se relaciona consigo e com os demais entes. * O primeiro aspecto em que a temporalidade se anuncia, com primazia sobre os demais, é o porvir ([[lx>termos:z:zukunft|Zukunft]]): na resolução e no precorrimento da morte está inscrito um deixar-vir-a-si (auf sich Zukommen-lassen) desse ente, em virtude do qual ele chega a si mesmo fazendo com que suas possibilidades se conservem enquanto possibilidades, sendo isso possível apenas a partir daquela abertura para além de si, daquela excedência originária própria do porvir, fundando-se nele o próprio caráter do adiante-de-si, momento constitutivo do cuidado. * O ser-culpado do ser-aí, que o revela tal como já sempre era, em seu ser-lançado, torna-se compreensível e pode atuar-se apenas com base na modalidade temporal do ser-já-sido ([[lx>termos:g:gewesenheit|Gewesenheit]]), remetendo o ser-aí a condição sobre a qual não tem poder e que só pode assumir, tornando-se o que já é, em virtude da resolução, desvelando-se assim, apenas na perspectiva da resolução, o verdadeiro sentido do ser-lançado, emergindo em contraste com a concepção ordinária o específico primado do porvir, do qual brota, de certo modo, o ser-já-sido. * O relacionar-se com os entes intramundanos qualifica-se como um ser-junto que exige, para ser compreendido e atuado, o emergir de outro caráter temporal, o presentificar ([[lx>termos:g:gegenwartigen|Gegenwärtigen]]), pano de fundo que permite ao ser-aí entrar ativamente em relação, deixando-os ser, com os entes intramundanos, que se manifestam em sua presença ([[lx>termos:a:anwesenheit|Anwesenheit]]), possuindo o presentificar particular vínculo com a decadência, o que solicitará, no § 68a, investigação sobre a forma autêntica que o presente pode assumir, o instante ([[lx>termos:a:augenblick|Augenblick]]). * Porvir, ser-já-sido e presentificar são assim os aspectos, unitariamente conectados, do fenômeno da temporalidade como sentido do cuidado, sendo o porvir primário, determinante para o acesso e articulação dos outros dois momentos, configurando-se o tempo, originariamente entendido, como temporalização ([[lx>termos:z:zeitigung|Zeitigung]]) da temporalidade, que não é, mas se temporaliza, isto é, se desdobra e explica como estrutura dinâmica da existência. * A temporalidade, tempo originário, mostra estrutura paradoxal em seus três momentos, pondo em obra a excedência originária própria das estruturas do ser-aí, remetido sempre além de si — adiante de si, em virtude do porvir; para aquilo a partir de que é lançado, no horizonte do ser-já-sido; voltado para o que presentifica, em seu estar junto às coisas —, caracterizando-se a temporalidade, ao possibilitar essa excentricidade, como um fora-de-si, revelando-se como puro e simples ekstatikon, podendo por isso suas articulações — porvir, ser-já-sido e presente — ser chamadas as três êxtases da temporalidade. * Contrastando também com a imagem comum, para a qual o tempo é infinito, a temporalidade é originariamente finita, não significando isso que o escoar do tempo cesse em certo ponto, mas que a temporalidade se constitui de modo a fechar-se sobre si mesma, expressando-se isso no ser-para-a-morte em seu vínculo com a resolução, fenômenos assumíveis e compreensíveis apenas no horizonte do porvir originário, definindo-se o ser-aí, no precorrimento de sua morte, em sua inteireza, do mesmo modo que o porvir, condição de possibilidade dessa dinâmica, resulta encerrado e recolhido sobre si, sendo a temporalidade do ser-aí, por ser concebida como estrutura fundante da finitude do existir, originariamente finita. * Restam, a partir desses resultados, três tarefas indicadas no § 66: retomar as análises anteriores para evidenciar os elementos temporais das estruturas da cotidianidade até então deixados em segundo plano; tematizar a historicidade do ser-aí e aprofundar seu vínculo com a temporalidade originária; e discutir a ideia cotidiana e tradicional do tempo, mensurável e calculável, fundando-a na perspectiva da temporalidade autêntica, tarefas a serem enfrentadas, nessa ordem, nos capítulos quarto, quinto e sexto da segunda seção de Ser e Tempo. {{tag>Fabris SZ ser-para-a-morte temporalidade resolução}}