====== 3.5 O ser-em como tal ====== //FABRIS, Adriano. Essere e tempo di Heidegger: introduzione alla lettura. Roma: Carocci, 2004.// **As estruturas do ser-em** * 3.5.1. Analisado o mundo enquanto contexto de uso próprio do ambiente circundante ([[lx>termos:u:umwelt|Umwelt]]) e articulados os modos de relação do ser-aí tanto no âmbito instrumental do cuidar-se ([[lx>termos:b:besorgen|Besorgen]]) quanto na direção do ser-com outros, do aver-cuidado ([[lx>termos:f:fursorge|Fürsorge]]), impõe-se ainda aprofundar o ser-no-mundo em seu caráter de abertura de todo rapporto do ser-aí, mostrando como este mesmo ente é o lugar em que tal abertura se realiza, denominado ser-em ([[lx>termos:i:in-sein|In-Sein]]) do ser-no-mundo, dedicando-se o capítulo quinto da primeira seção a essa análise. * Retomando o esboço já delineado nos §§ [[obra:etem:et12|12]] e [[obra:etem:et13|13]], cabe a este capítulo aprofundar tal impostação preparatória e preparar a subsequente determinação do ser do ser-aí como cuidado, no qual se recolhem os momentos do cuidar-se e do ter-cuidado. * Configura-se o ser-aí, no capítulo 5, como aquele ente que é a cada vez seu aí ([[lx>termos:d:das-da|Da]]), sendo, por ter sua essência caracterizada pelo ser-no-mundo, constitutivamente aberto, já sempre iluminado em relação a todos os relacionamentos em que pode envolver-se, sendo o ser-aí o lugar (o aí) em que o ser vem a descortinar-se, empregando-se aqui a imagem da clareira ([[lx>termos:l:lichtung|Lichtung]]), sendo o ser-aí ele mesmo a clareira em que o denso da floresta se dirime (sich lichten) e se abre à luz ([[lx>termos:l:licht|Licht]]). * Não sendo propriamente correto dizer que o ser-aí é seu próprio aí ou sua abertura, pois sua essência é sua existência, e ele não tanto é quanto pode ser, aquilo em relação a que o ser-aí pode ser é antes de tudo si mesmo, assumido de forma imprópria, inautêntica, achatada e achatante da esfera pública, ou própria, autêntica. * Aprofunda-se assim a estrutura do ser-em em dois momentos: a seção A, A constituição existencial do aí, examina a disposição afetiva ([[lx>termos:b:befindlichkeit|Befindlichkeit]], em geral e na modalidade particular do medo, §§ 29-30), a compreensão ([[lx>termos:v:verstehen|Verstehen]], também em seus vínculos com o interpretar e a asserção, §§ 31-33) e o discurso (Rede, articulação da compreensibilidade e estrutura de fundo da linguagem, [[obra:etem:et34|§ 34]]); a seção B, O ser cotidiano do aí e a decadência do ser-aí, investiga modalidades cotidianas de relação — a tagarelice, a curiosidade, a equivocidade (§§ 35-37) — e evidencia o movimento constitutivo de decadência do ser-aí ([[obra:etem:et38|§ 38]]). **A "disposição afetiva" em seus caracteres gerais e na modalidade particular do medo** * 3.5.2. Traduzimos Befindlichkeit por disposição afetiva, indicando o modo pelo qual o ser-aí se encontra aberto ao puro e simples fato de existir, ao nu que ele é, denominando Heidegger este fato da existência, distinto da mera factualidade das coisas simplesmente presentes ([[lx>termos:t:tatsachlichkeit|Tatsächlichkeit]]), de faticidade ([[lx>termos:f:faktizitat|Faktizität]]), manifestando a Befindlichkeit primariamente esse caráter do ser do ser-aí, deixando em segundo plano o de onde e o para onde de tal existir, pois o ser-aí se encontra simplesmente lançado ([[lx>termos:g:geworfen|geworfen]]) em determinada situação sem que lhe seja dado sentido de outro lugar, sendo essa condição chamada de ser-lançado ([[lx>termos:g:geworfenheit|Geworfenheit]]). * Não apenas percebe o ser-aí tal situação — sentindo-se, por exemplo, peso a si mesmo, na expressão agostiniana retomada por Heidegger —, como também advirte esse próprio perceber, havendo particular reflexividade no próprio sentir, sendo sentir sempre também sentir-de-sentir, sem que isso constitua autoconsciência teorética, readquirindo assim os estados de ânimo, as emoções, as paixões, dignidade filosófica perdida desde Aristóteles. * Três caracteres fundamentais constituem essa modalidade de abertura: a individuação daquilo que a disposição afetiva abre (o ser-lançado, a faticidade do ser-aí) e o como isso é descortinado (via desvio, evasão); a impossibilidade de subordiná-la a modalidades cognitivas ulteriores, possuindo antes função abridora cooriginária à da compreensão; e o fato de a própria avisadeza do ser-aí em seu ambiente estar atravessada por afetividade radicada na disposição afetiva, podendo assim o ser-aí ser tocado, afetado, por aquilo que encontra. * No [[obra:etem:et30|§ 30]], analisa-se o medo em seus três momentos constitutivos: o diante-de-que do medo, o ter-medo como tal, e o por-que (ou por quem) o medo se dá, introduzindo-se ainda modalidades emocionais conexas — susto, horror, terror —, indicando todas elas que o ser-aí, enquanto ser-no-mundo, encontra-se na condição existencial de ser assustadiço. **O compreender como modalidade da abertura. A distinção entre interpretar e asseverar** * 3.5.3. O compreender (Verstehen), diversamente de sua contraposição tradicional ao explicar ([[lx>termos:e:erklaren|Erklären]]), típica de Dilthey, não é forma de conhecimento paralela ao explicar, mas modo fundamental do ser do ser-aí pelo qual o ser-no-mundo e a própria existência resultam abertos como tais, devendo a própria explicação ser reconduzida ao compreender em seu sentido originário. * Compreender remete, na linguagem cotidiana, ao saber-fazer, ao poder-lidar-com (etwas können), designando o ser-aí como aquele ente capaz de realizar possibilidades e, ao fazê-lo, de realizar-se a si mesmo, caracterizado por seu poder-ser (Sein-können). * Distingue-se o âmbito do possível — as possibilidades ([[lx>termos:m:moglichkeit|Möglichkeiten]]) que o ser-aí pode realizar, sendo por isso chamado ser-possível ([[lx>termos:m:moglichsein|Möglichsein]]) — da esfera do poder próprio do ser-aí, seja como potencialidade intrínseca ativável, seja como condição de possibilidade de todo relacionamento, constituindo ambos, juntos, o poder-ser. * O termo possibilidade assume dois sentidos: existencial, exprimindo o poder-ser do ser-aí, entendido como saber-lidar prático e, mais filosoficamente, como condição de possibilidade e potência fundante inscrita nas estruturas do ser-aí; e ôntico, indicando o suscetível de ser realizado, categoria modal aplicável também às coisas simplesmente presentes como ainda-não-real e nunca necessário. * Define-se o ser-aí como ser-possível entregue a si mesmo, possibilidade lançada, possibilidade de ser livre para o poder-ser mais próprio, encontrando-se sempre já na situação do poder-ser, capaz de realizar as possibilidades que se lhe apresentam, sendo sempre mais que simples presença, sempre já além de si, no modo do ainda-não, podendo assim dizer a si mesmo: torna-te o que és! * A compreensão é o ser existencial do poder-ser próprio do ser-aí, dando-se através dela tanto a abertura do ser-no-mundo quanto a do ser do ser-aí, delineando-se-lhe sempre já aquele complexo de estruturas de possível satisfação próprias da mundidade do mundo, e sendo o ser-aí capaz de relacionar-se consigo mesmo, de tendencialmente saber quem é, ainda que, para ativar tal relação autenticamente, deva contrastar a autointerpretação cotidiana e nivelante do impessoal. * O ser-adiante-de-si próprio do poder-ser é chamado projeto ([[lx>termos:e:entwurf|Entwurf]]), modo em que se atua a compreensão, encontrando-se o ser-aí, em seu compreender, sempre já lançado além de si mesmo, destinado à relação possível com os demais entes e consigo, configurando-se propriamente como projeto lançado (geworfener Entwurf). * Introduz-se no [[obra:etem:et32|§ 32]] o conceito de interpretação ([[lx>termos:a:auslegen|Auslegen]]), exercício do compreender pelo qual este, compreendendo, se apropria do compreendido, o que só ocorre supondo-se algo já compreendido que orienta a compreensão, apreendendo-se o fenômeno como ([[lx>termos:a:als|als]]) algo. * A interpretação articula-se segundo a estrutura do como, distinguindo-se três modalidades concretas do rimando nela implícito: a posse prévia, a predisponibilidade que guia a consideração; a perspectiva prévia, a visão preliminar que permite apreender o interpretado de determinado modo; e a concepção prévia, a conceitualidade antecipada que permite elaboração mais ou menos adequada do apreendido, não se dando jamais visão pura e imediata das coisas. * Discute-se ainda o problema do sentido e o da circularidade do procedimento interpretativo, sendo sentido aquilo em relação a que algo resulta compreensível como algo, aquilo em que se mantém a compreensibilidade de algo, e não constituindo a necessária assunção preliminar da estrutura do como um círculo vicioso, mas antes revelando que o próprio ser-aí, enquanto aberto ao ser, possui estrutura circular. * O [[obra:etem:et33|§ 33]] dedica-se à relação entre interpretação e asserção ([[lx>termos:a:aussage|Aussage]]), reconduzida esta ao ato de interpretar como modo derivado, distinguindo-se três significados de asserção: manifestação (o logos como [[lx>termos:a:apophansis|apophansis]], que faz o ente mostrar-se por si mesmo naquilo que é), predicação (determinação do sujeito pelo predicado) e comunicação, enunciação (compartilhamento expresso do que se mostra), definindo-se assim o asserir como manifestação que determina e comunica, modificação derivada do interpretar avisado, consistindo a derivação na substituição do como hermenêutico originário pelo como apofântico, que achata a pluralidade dos modos de ver sobre a única dimensão da simples presença, transformando-se o próprio ser, como cópula, em mera função de ligação entre sujeito e predicado, anunciando-se assim o projeto específico de uma lógica formal. **O discurso e a linguagem** * 3.5.4. Cooriginário à disposição afetiva e à compreensão é o discurso ([[lx>termos:r:rede|Rede]]), articulação da compreensibilidade, modo pelo qual a totalidade de remissões do ser-no-mundo, já sempre compreendida pelo ser-aí, resulta expressa e comunicável, não havendo jamais compreensibilidade não articulada. * A linguagem, diferentemente do que ocorrerá na reflexão posterior aos anos trinta, funda-se sobre o discurso, sendo sua concretização exterior, determinando-se sucessão precisa de estruturas: discurso, articulação expressiva da compreensibilidade; linguagem, expressão exterior do discurso; e língua concretamente falada, examinável, fragmentando-se sua conexão originária, como série de palavras-coisa simplesmente presentes. * Analisados os momentos constitutivos do discurso — aquilo de que se fala, o que é dito enquanto tal, o comunicar e tornar conhecido — e os caracteres do exprimir-se e do comunicar (Mitteilung, compartilhamento da disposição afetiva e da compreensão próprias do ser-com outros), examinam-se o escutar e o silêncio como modalidades do discorrer. * Propõe-se, ao final do parágrafo, leitura original da definição aristotélica do homem como [[lx>termos:z:zoon-logon-echon|zoon logon echon]], animal que possui o logos, correspondendo logos ao que se chamou Rede, discurso, significando apresentar o homem como ente que tem o logos orientar-se implicitamente para concepção do ser-aí como ente aberto a compreensibilidade já sempre articulada, orientação encoberta tanto pela tradução latina [[lx>termos:a:animal-rationale|animal rationale]] quanto pela própria interpretação grega do logos, considerado apenas na perspectiva da asserção, cabendo à doutrina hermenêutica da linguagem libertar a gramática de tal lógica e questioná-la em sua fundação na ontologia da simples presença. **As modalidades de abertura do ser-aí cotidiano. O constitutivo decair do ser-aí** * 3.5.5. Recuperando o vínculo com a vida cotidiana para confirmar os resultados alcançados, evidenciam-se, na esfera pública do impessoal, modalidades inautênticas de abertura: a tagarelice ([[lx>termos:g:gerede|Gerede]]), modalidade cotidiana do discorrer ([[obra:etem:et35|§ 35]]); a curiosidade (Neugier), possibilidade inautêntica da visão ([[obra:etem:et36|§ 36]]); e a equivocidade ([[lx>termos:z:zweideutigkeit|Zweideutigkeit]]), modo decaído da interpretação (§ 37), páginas que combinam a investigação da experiência comum com referências filosóficas a Aristóteles e Agostinho e que serviram de modelo a investigações existencialistas posteriores. * Sem abandonar atitude não valorativa, busca-se ainda captar o motivo dessa situação cotidiana: a intrínseca tendência do ser-aí à fuga, à decadência, ao rebaixamento, tema do [[obra:etem:et38|§ 38]], já anunciado nas lições de 1921-22 sob o nome de ruína ([[lx>termos:r:ruinanz|Ruinanz]]), denominado em Ser e Tempo [[lx>termos:v:verfallen|Verfallen]], decair. * O decair é o modo de ser cotidiano do ser-aí, o fato de este se encontrar perdido no mundo, extraviado na publicidade ([[lx>termos:ö:offentlichkeit|Öffentlichkeit]]) do impessoal, indicando mais um movimento que um estado — movimento pelo qual o ser-aí se afasta não de situação originária e paradisíaca, mas de si mesmo, daquele que propriamente é —, individuando-se seus caracteres essenciais: a tentação, o aquietamento, a alienação e o aprisionamento. * O decair manifesta estrutura ontológica essencial do ser-aí, caracterizando seu modo de ser antes de tudo e na maioria das vezes, representando sobretudo a tentativa de encobrir as próprias potencialidades, achatando o poder-ser sobre o ser fixado do impessoal, exigindo-se contramovimento pelo qual o ser-aí se determina autenticamente como poder-ser e se assume em seu poder-ser mais próprio, tarefa dos dois primeiros capítulos da segunda seção, restando, para completar a primeira seção, captar em sua inteireza, no íntimo vínculo entre os caracteres já emersos, o ser do ser-aí, tema do capítulo sexto. {{tag>Fabris SZ ser-em}}