====== Lógica do lugar ====== //La logica del luogo e la visione religiosa del mondo. Introdução e tradução de Tiziano Tosolini// 1. A lógica do lugar e a visão religiosa do mundo, que aqui se traduziu do original japonês, é um feliz exemplo daquela interação que levou Nishida a saborear em profundidade a riqueza da tradição ocidental e a dialogar com ela a partir de suas próprias intuições de pensamento. * Esta obra de Nishida, escrita pouco antes de sua morte, pode também ser considerada seu testamento filosófico e religioso, pois numa carta ao amigo Hisamatsu Shin'ichi, Nishida anotava como neste ensaio ele havia ido à busca das raízes religiosas e espirituais da vida, havia tentado analisar alguns pontos fundamentais do budismo e delineado sua unicidade diante do cristianismo. * Ele afirmava também, consciente de sua idade avançada, como estava assiduamente trabalhando sobre este texto comparando as circunstâncias em que se encontrava a escrever àquelas de Hegel quando compôs sua Fenomenologia do espírito enquanto lá fora se ouviam ecoar os tiros de canhão napoleônicos. 2. A urgência de redigir este texto, de recapitular os traços essenciais de sua longa atividade filosófica, aparece imediatamente tanto pelo estilo quanto pelo conteúdo que modela a obra. * Quanto ao primeiro aspecto, o avançar argumentativo de Nishida não procede ao longo de um discurso linear sobre o qual pouco a pouco o pensamento se desenrola alcançando sua conclusão, mas é antes composto de sobreposições, repetições, interrupções e digressões que se entrelaçam continuamente. * Não que Nishida não tivesse bem clara a ideia portante que queria transmitir, mas era como se esta ideia lhe evaporasse continuamente da pena revelando-se insuficientemente fundada, ou ainda como se todas as suas sutis implicações não tivessem sido exploradas em suas infinitas facetas. * O procedimento em espiral, em que se revisita um mesmo conceito de ângulos diversos expandindo gradualmente a visual, é certamente um traço característico da escrita oriental. * No entanto Nishida imprime sobre esta técnica um próprio humor filosófico: tão logo parece ter alcançado um ponto de apoio teorético sobre o qual depois poder fazer avançar a discussão, ele, em passos sucessivos, demonstra a incurável inconsistência lógica deste seu provisório resultado, encaminhando-se assim a pesquisar um fundamento ainda mais sólido. * O escopo deste seu procedimento, que parece constantemente desmoronar o que com fadiga se havia temporariamente alcançado, reside no querer demonstrar como o fundamento próprio da filosofia deve ser pesquisado no interior daquele nada absoluto no qual cada contradição não é absolvida ou removida mas interage com o próprio contrário. * A dialética objetiva (que vê o mundo como um dado oferecido à intencionalidade do sujeito) e aquela hegeliana (em que os opostos se absolvem numa síntese superior) são consideradas inadequadas para explicar a complexidade do real. * Mas como sair do leito destas dialéticas para chegar a desenredar um conceito inexprimível como o de nada absoluto? * Segundo Nishida, não resta outra via senão falar a língua da filosofia ocidental e ao mesmo tempo notar como ela chega aos limiares de um fundamento ainda mais profundo e amplo no qual ela mesma está incluída e todavia permanece incapaz de articular. 3. Estas últimas observações sobre o estilo de Nishida refletem-se também sobre o conteúdo de sua última obra, um conteúdo que para ser compreendido deve ter em mente o inteiro desenvolvimento de sua filosofia. * Cada livro de Nishida, com efeito, não é tanto uma criação separada das outras, uma obra autônoma, mas cada novo texto seu iniciava retomando as perguntas ou o resultado provisório com que o precedente terminava. * Suas ideias, assim como se viu para seu estilo, nunca eram definitivas: ao contrário, elas pesquisavam com fadiga uma argumentação diversa, uma fundação sempre melhor que chegasse a articular um discurso em si nunca definitivamente concluído. * Tentar nos acercarmos de A lógica do lugar e a visão religiosa do mundo significa então ter de repercorrer, ainda que brevemente, os conceitos fundamentais que Nishida desenvolveu ao longo dos anos, compreender o retroscena terminológico que ele pressupõe e do qual inicia para se ampliar ainda para novas e todavia antigas metas. * É por esta razão que a presente tradução é precedida por uma breve biografia sobre Nishida e por um sucinto resumo sobre alguns conceitos fundamentais de sua filosofia. * Ela gostaria de servir de guia ao leitor para que o escrito possa ser acolhido não como um incompreensível emaranhado de conceitos, mas como um texto sobre o qual meditar, interrogar-se e interagir. * Só assim as palavras de Nishida, seu espírito inquisitivo e religioso, poderão ressoar em todos aqueles que se deixam deslumbrar pela maravilha de um pensamento que teve como seu único e verdadeiro limite não tanto o de uma cultura ou tradição filosófica, mas o mais universal e humano da razão e da fé. {{tag>Nishida "Escola de Kyoto" lugar religião}}