====== 22 Eu e outro ====== //HEISIG, James W. Filósofos de la nada: Un ensayo sobre la Escuela de Kioto. Barcelona: Herder, 2002// 1. Na teoria da intuição ativa o corpo foi ponto de contato entre eu e mundo, mas o problema dos outros eus ficou de lado, e a noção de corpo não bastava para captar o fato de existirem outros centros de consciência cuja interação revela mais conhecimento do próprio eu, questão que a lógica do lugar ajudou a recolocar na filosofia geral de Nishida. 2. O autodespertar, como consciência da identidade verdadeira da pessoa, não pode estabelecer-se em simples oposição a outras pessoas, o que reintroduziria pela porta dos fundos a dicotomia sujeito/objeto, devendo haver um sentido da autoidentidade em que eu e outro deixem de ser simplesmente dois, encontrado na identidade-na-oposição e no lugar último do nada absoluto. 3. "Que é este nosso eu? Que é o mundo real em que esse eu nasce, age e morre?", pergunta mais profunda que a da relação entre eu e mundo na intuição ativa, pois indaga a identidade ou o lugar dos próprios elementos dessa relação, cujo fundamento comum já não é a realidade mediada pelo corpo, mas a realidade como lugar do nada absoluto. 4. A questão é tratada em Eu e tu (1932), continuação do ensaio "O amor de si, o amor do outro e a dialética", com abordagem extremamente abstrata, não refletindo sobre o encontro interpessoal e suas implicações, mas localizando-o na lógica do lugar, sem deixar ideia ou conceito novo e sendo reabsorvida na categoria geral do amor religioso, pois a ideia do amor como manifestação do nada absoluto entre pessoas surge e desaparece quase sem deixar rastro, sendo difícil ver a relação eu/tu como questão central, embora novas edições e traduções mostrem que o livro conserva interesse, ainda que desenvolva ideias anteriores sem avançar outras. 5. Só um eu radicalmente negado pode encontrar o mundo como é, e, se eu e mundo pertencem ao universal do "ser" como polos subjetivo e objetivo, todo encontro com fenômenos, inclusive com outros sujeitos, reforça o eu, de modo que só um universal do nada, que restitua a dicotomia à unidade, permite um encontro verdadeiramente desperto com o mundo, com três consequências principais para o encontro entre eu e outro. 6. Primeiro, sendo o nada o lugar último e abrangente da realidade, toda qualidade do ser ligada a acontecimentos, processos, indivíduos ou categorias de pensamento que pretenda apontar algo "último" deve ser resituada num horizonte mais amplo que a mostre secundária ou derivada, e, sendo a estrutura última do nada, tal como se apresenta à consciência, uma "autoidentidade de contraditórios absolutos", toda relação baseada num "estar com" ou "encontro" que atenue a alteridade absoluta será considerada ancorada numa ficção mental de "unidade no ser". 7. Entender a realidade como nada absoluto supõe que nenhuma relação escapa à dialética do vir a ser e deixar de ser, sendo toda continuidade relativa a uma descontinuidade radical, e dizer que "cada indivíduo só é indivíduo em oposição a outro indivíduo" não é declaração metafísica da existência como coexistência nem opção por um personalismo que veja no encontro interpessoal o protótipo da realidade, excluído porque a realização plena do eu passa por sua transformação em não eu, mas afirmação de que o ser de um indivíduo exige que ele não seja outro e se defina em termos desse outro, e a atmosfera que envolve essa interação de ser e não ser, afirmação e negação, nascimento e morte, deve ser caracterizada não como soma das partes ou mínimo denominador comum, mas como nada. 8. Segundo, o lugar do nada absoluta é algo muito diferente de um fundamento comum em que os indivíduos se encontrariam e elevariam mutuamente a qualidade de suas vidas, não por desinteresse, mas porque a preocupação principal é introduzir o processo de autodespertar, conquista culminante de um mundo em mudança incessante, para desafiar a primazia do intelecto que raciocina sobre o mundo, sendo o lugar de sujeitos que tratam objetos um círculo pequeno e artificial dentro do lugar mais amplo da experiência imediata, sem distinção entre sujeito e objeto. 9. Por último, a história do encontro interpessoal é purgada do sentido habitual de "desenvolvimento" de uma relação e abstraída na consciência de um agora eterno que interrompe a história de modo a-histórico, introduzindo Nishida a história no encontro como passagem de uma consciência noemática, voltada aos objetos ou ao seu avanço ao longo de um contínuo temporal, a uma consciência noética, voltada à consciência como atividade da realidade que se determina fora desse contínuo, e a ideia de inverter a determinação do tempo por um agora eterno que atua sobre o presente a partir do futuro, em confronto deliberado com Bergson e Hegel, domina Eu e tu desde as primeiras linhas. 10. "Pensar a realidade como autodeterminante não quer dizer pensar em termos de uma continuidade em que um ponto progrediria para o seguinte e lhe daria origem, mas de uma continuidade descontínua, uma continuidade que a cada momento deixaria de existir, uma vida através da morte. Pensar assim não significa conceber o nada como algo no fundo que teria como objeto de sua obra determinar os últimos limites do ser, mas como algo que transcende e envolve inteiramente esse tipo de determinação — um nada que se determina a si mesma ao envolver o ser, com o resultado de que o ser se torna visível." 11. A estratégia não surpreende, pois Nishida acaba sempre penetrando, através de algum acontecimento do mundo histórico, no círculo final sem circunferência, lugar do nada absoluto em que todo contato da consciência com a realidade, toda tentativa de exprimir racionalmente sua estrutura última e todo encontro, entre eu e outro ou entre eu e coisas inanimadas, são negados e depois recuperados numa afirmação consciente do mundo fenomênico como é. 12. Na lógica do lugar não pode haver nada absoluto na própria relação interpessoal, pois eu e outro se relacionam sempre como contraditórios absolutos, "absolutamente independentes e absolutamente ligados", único modo de a autonegação do eu cumprir-se radicalmente e abrir-se a uma realidade além do personalismo, devendo o absoluto localizar-se noutro lugar, sem que a contrariedade entre eu e outro se reduza a paradoxo lógico dos limites do conhecimento ou à transcendência de um dos partícipes, pois a estrutura da realidade não segue o modelo do diálogo entre pessoas nem o nada se reduz a qualidade partilhada, e o agora eterno que atravessa o tempo no encontro de um eu e um tu nunca se torna um Tu eterno. 13. Desde as primeiras páginas de Eu e tu, a atividade definitiva da individualidade é a autorreflexão, o diálogo entre eu e eu, lugar do encontro entre eu e outro, cujo fruto é o significado, que não é inerente às coisas por existirem, fato objetivo a ser reconhecido pelo sujeito, mas atividade da própria realidade, devendo a unidade da consciência que organiza constelações de significado a partir do fluxo dos acontecimentos ser particularização de um universal que não distingue entre o que exprime e o que é expresso, o universal do nada. 14. "Cada elemento que entra nessa constelação de significado é uma expressão da consciência individual. O significado verdadeiro da unidade consciente consiste em que quem exprime e o expresso são o mesmo. O eu está em diálogo com o eu no interior da mente... O eu de ontem e o eu de hoje existem no mundo da expressão, tal como eu e tu... Todo indivíduo deve, de um modo ou de outro, ser concebido como determinação de um universal... e, do mesmo modo, o indivíduo deve determinar o universal.... O significado do individual e do universal deve consistir numa determinação dialética entre ambos — não um universal do ser que determina o indivíduo, mas um universal do nada, em que a determinação ocorre sem determinante." 15. Nessa prosa densa entrevê-se a estrutura do argumento, confirmando-se repetidamente a impressão de que a relação eu/tu é apenas função secundária e derivada da autorreflexão no campo do nada absoluto, e o encontro com um tu é apenas algo que acontece ao eu em seu caminho rumo à própria negação no despertar ao nada. 16. "O que pensamos como transcendente ao eu sempre nos confronta de três modos: (1) como coisa, (2) como tu, ou (3) como eu transcendente... O autodespertar pessoal que vê um outro absoluto dentro do eu inclui essas três confrontações." 17. Falar do eu que se contempla significa que o eu vê um outro absoluto, mas esse outro não é afinal um tu, e sim o próprio eu reconhecido através do encontro com o tu, sendo o que une vidente e visto, o que determina sem determinante, o universal do nada, em que toda personalidade e todo encontro interpessoal são abolidos. {{tag>"Escola de Kyoto" Heisig Nishida eu outro}}