====== Existência em Heidegger ====== //STEIN, Ernildo. Pensar e errar: um ajuste com Heidegger. Ijuí: Editora Unijuí, 2015.// **Os conceitos de existência em Heidegger** 1. Desde Ryle, autor da primeira resenha de Ser e tempo em 1929, até autores contemporâneos, encontram-se diversas reações contra o método fenomenológico-hermenêutico de Heidegger e contra sua terminologia filosófica, por vezes ambígua, obscura ou mesmo misteriosa. * Tugendhat qualifica o modo de proceder heideggeriano como evocativo, cabendo ao leitor a tarefa de evocar, por meio de palavras, as relações essenciais que o autor tem em vista com determinado conceito. * Sendo isso insuficiente para a compreensão dos conceitos filosóficos, exige-se perguntar continuamente se o que Heidegger evoca pode ser traduzido a uma comunicação intersubjetivamente controlável, de modo que somente conceitos passíveis dessa tradução poderiam ser avaliados e trazidos ao debate filosófico. * A contundência dessa crítica e a insistência de determinados autores em rejeitar o método fenomenológico não podem ser deixadas de lado, sendo levá-las a sério condição para uma resposta satisfatória sobre a plausibilidade do método e dos conceitos heideggerianos. 2. O conceito de existência parece incorrer na mesma imprecisão, formulando-se a hipótese de trabalho de que se podem encontrar nada menos que três conceitos de existência em Ser e tempo: existência como o todo do ser do [[lx>termos:d:dasein|Dasein]], existência como um dos momentos constitutivos do cuidado ao lado da faticidade e da decaída, e existência como [[lx>termos:e:ex-sistenz|ex-sistência]], na qual se destaca o caráter transcendente do Dasein. * Aventa-se ainda a hipótese, apenas minimamente demonstrada, de que essa multiplicidade de conceitos não precisa necessariamente ser considerada imprecisão, caso se esteja aberto às peculiaridades do método fenomenológico-hermenêutico. 3. A expressão fenomenológico-hermenêutico designa a posição filosófica e o método de Heidegger, entendendo-se por fenomenológico o modo de acesso ao e de determinação do ser dos entes, mediante o processo de formalização que abandona a investigação sobre entes e suas propriedades para voltar-se às condições de seu aparecimento qualificado. * A expressão hermenêutico indica o ponto de partida dessa Filosofia, a interpretação que o Dasein realiza de si mesmo, explicitada a partir da analítica existencial. 4. A pressuposição fundamental da posição fenomenológico-hermenêutica é a compreensão do ser ([[lx>termos:s:seinsverstandnis|Seinsverständnis]]): só nos relacionamos com o ente que nós mesmos somos e com os demais entes ao compreendermos nosso próprio ser e o ser dos entes que nos vêm ao encontro no mundo. * Segundo Tugendhat, essa é a virada especificamente transcendental de Heidegger, que o distingue da ontologia tradicional objetivista, cuja característica foi investigar o ser como objeto isolado e suprassensível. * Ao questionar o sentido do ser em geral que unificaria os diferentes modos de ser, a Filosofia hermenêutica busca primeiro entender como é possível essa compreensão, partindo o método fenomenológico da necessidade de explicitar qual ente, por seu próprio modo de ser, compreende o ser dos entes e de que maneira realiza essa compreensão. * Surge assim o problema da existência como elemento de diferenciação ontológica: apesar de todo ente ser, somente os seres humanos existem, isto é, somente eles são enquanto compreendem seu próprio ser e o ser de outros entes, não se podendo dizer que uma caneta ou uma zebra existam, dado que seu modo de ser difere do modo de ser do Dasein. 5. Nas primeiras páginas de Ser e tempo, o filósofo designa terminologicamente como Dasein o ente que somos em cada caso nós mesmos e que possui, entre outras, a possibilidade de ser do perguntar, sendo o Dasein o único ente no qual irrompe a compreensão do ser, fundamento de sua condição de ser humano, inovação que rompe com as concepções tradicionais do [[f>l:logos|lógos]], da razão ou da autoconsciência como especificidade humana. 6. No parágrafo 28, o Da do Dasein é explicado como abertura essencial pela qual esse ente é aí e como estar-sendo-aí do mundo para si mesmo, constituindo-se essa abertura pelos existenciais sentimento de situação ([[lx>termos:b:befindlichkeit|Befindlichkeit]]), compreensão ([[lx>termos:v:verstehen|Verstehen]]) e discurso ([[lx>termos:r:rede|Rede]]), desenvolvidos na analítica existencial. * Com o conceito de abertura, indica-se o aspecto prático da compreensão do ser: o lugar originário do desvelamento do ser dos entes é o modo de ser no mundo do Dasein, isto é, a autocompreensão enquanto tem-que-ser e a compreensão do ser dos entes no lidar cotidiano. * Esse caráter prático nada tem a ver com noção ética à maneira de Kierkegaard, ligando-se antes, segundo Stein, à tradição ontológico-transcendental ou, na interpretação de Franco Volpi, a uma ontologização dos conceitos éticos de Aristóteles. 7. No parágrafo 44, após explicitar o modo de ser do Dasein como ser-no-mundo, Heidegger mostra a tese da cooriginariedade entre Dasein e ser a partir do novo conceito de verdade, afirmando que o ser da verdade está em conexão originária com o Dasein, pois é somente porque este está constituído pela abertura, isto é, pelo compreender, que o ser pode chegar a ser compreendido, sendo ser e verdade coorigínarios. * Essa passagem explora a inovação heideggeriana de uma posição filosófica não mais atrelada à relação sujeito-objeto, cujo ser nunca fora suficientemente explicitado pela tradição, pois antes de dizermos eu ou refletirmos sobre nós mesmos como sujeito já sempre nos autocompreendemos praticamente no mundo. * Essa concepção de verdade, ligada ao modo de ser do Dasein, situa-se, segundo Stein, no âmbito de produção da significância ([[lx>termos:b:bedeutsamkeit|Bedeutsamkeit]]), dimensão na qual emerge a possibilidade do conhecimento e do proferimento de sentenças. 8. O problema subjacente ao conceito de Dasein é designar o ente que compreende o ser e mostrar a dimensão originária do conhecimento, configurando novo modo de pensar a relação entre sujeito e mundo, afirmando Heidegger em obra posterior que a compreensão do mundo enquanto compreensão do Dasein é compreensão de si mesmo, não sendo eu e mundo dois entes como sujeito e objeto, mas condições fundamentais do próprio Dasein na unidade do ser-no-mundo. 9. Antes de esclarecer o conceito de existência, expõem-se as principais propostas situadas ao redor de Ser e tempo, geralmente vistas sob o mesmo pano de fundo do chamado existencialismo, com o objetivo de possibilitar, em seguida, o esclarecimento das peculiaridades do conceito heideggeriano em contraste com os demais. **Kierkegaard, Jaspers e Sartre e a questão da existência** 10. Mesmo com grandes discrepâncias entre os filósofos englobados sob o título de existencialistas, há motivo para trazê-los a denominador comum, pois em todos o problema de entender como o ser humano é e se diferencia dos demais entes foi desenvolvido a partir do conceito de existência, concordando todos em que somente o ser humano existe. * Assim, as perguntas tradicionais "se X existe?" e "o que é um X?" são substituídas pela pergunta "como o ser humano existe?", contraintuitiva em relação à linguagem ordinária por restringir o conceito de existência apenas ao ser humano. 11. Esse como foi expresso pela primeira vez, ligado ao conceito de existência, por Kierkegaard, para quem a questão principal não é saber com o que um indivíduo se relaciona, preocupação objetiva, mas como ele existe, isto é, como se relaciona consigo mesmo. * Esse modo de questionamento situa-se entre os âmbitos filosófico e teológico, sendo o fio condutor do Pós-escrito conclusivo não científico às migalhas filosóficas a tentativa de responder à pergunta "como eu me torno cristão?", vinculando-se a descrição do relacionar-se de si consigo mesmo ao modo de relacionamento do indivíduo com o Cristianismo. 12. Segundo Kierkegaard, o indivíduo pode formular questão objetiva buscando a verdade do Cristianismo, cujo problema intrínseco é a impossibilidade de alcançar, pelo discurso das Ciências ou da Filosofia especulativa, a compreensão do que significa tornar-se cristão na primeira pessoa, tornando-se essa relação incongruente e cômica ao transformar o indivíduo em observador externo de si mesmo, preso a um pensamento especulativo impessoal, desinteressado e sem fim. 13. Por outro lado, o indivíduo pode formular questão subjetiva, cujo interesse reside na compreensão de sua própria situação existencial e numa relação singular com o Cristianismo, significando a pergunta pelo que é ser cristão questionar-se a si mesmo e compreender-se na existência, pressupondo a doutrina cristã, que quer fazer o indivíduo eternamente feliz, seu interesse infinito pela própria felicidade. * Por isso Kierkegaard restringe o conhecimento e o uso de conceitos à explicitação da existência, afirmando que todo conhecimento essencial pertence à existência, sendo o conhecimento ético e ético-religioso, cujo conteúdo é o interesse infinito e apaixonado pela própria existência, o único conhecimento essencial. 14. Nessa linha interpretativa, o Pós-escrito procura descrever, pelo conceito de existência, como é possível a um indivíduo singular tornar-se cristão, restando por avaliar como esse conceito, situado entre os âmbitos filosófico e teológico, poderia ser comparado às propostas do debate filosófico contemporâneo sem compromissos teológicos, bem como o problema da alegada insuficiente desvinculação de Kierkegaard em relação ao Idealismo alemão, questões que não serão aqui abordadas. 15. No cenário filosófico alemão, Karl Jaspers desenvolveu Filosofia da existência sistemática a partir das inovações de Nietzsche, Kierkegaard e Heidegger, e da reelaboração de conceitos de filósofos tradicionais como Kant e Hegel. * Sua obra Filosofia, de 1932, distingue três etapas da investigação filosófica, orientação do mundo, esclarecimento da existência e transcendência, cada uma desenvolvendo modo de relacionamento do sujeito consigo mesmo e com os objetos do mundo. * O conceito de Dasein, ligado à etapa de orientação de mundo, dá conta do modo de relação reflexiva a partir do esquema [[lx>termos:s:sujeito-objeto|sujeito-objeto]], no qual o sujeito toma a si mesmo como objeto, denominado consciência em geral, modo de existir empiricamente no mundo a partir de como os objetos se dão para o sujeito. 16. O conceito de [[lx>termos:e:existenz|Existenz]] constitui o ponto de convergência da Filosofia de Jaspers: na etapa de esclarecimento da existência, o sujeito torna-se possível existência, situando-se seu modo de relacionamento no próprio círculo do ser formado pelo ser-objeto e o ser-eu, referindo-se o conceito de existência a um modo de relacionamento de si consigo mesmo, e não com um objeto, no qual ocorre o movimento de transcendência, indicando atitude livre do eu como possível existência. * A empreitada sistemática de Jaspers não é de todo clara quanto à metodologia e à explicação conceitual, introduzindo conceitos metafóricos, como cifra e combate fraternal, e psicológicos, como desespero, tolerância e tranquilidade, sem explicações precisas de seus significados, restando ao leitor estabelecer critérios claros para compreender sua posição filosófica. 17. Fora do cenário alemão, encontra-se na França o maior expoente do existencialismo, Jean-Paul Sartre, cujo conceito de existência recebe influência inusitada de Descartes, sendo o principal objetivo de O ser e o nada, segundo autointerpretação do próprio autor, a descrição da estrutura e das raízes da consciência. 18. Sartre introduz o par conceitual consciência posicional e consciência pré-reflexiva: o primeiro, fruto da noção husserliana de intencionalidade, expressa que toda consciência é sempre consciência de alguma coisa, transcendendo-se em direção a um ser que ela mesma não é. * A consciência pré-reflexiva, ou não posicional, explica a condição necessária e suficiente para haver consciência posicional ou reflexiva, a relação de si consigo mesmo que não expressa conhecimento de algo, mudando o filósofo a expressão consciência de si para consciência (de) si a fim de mostrar seu nível fundante. * Ao conceito sartriano de consciência subjaz assim o problema da descrição das condições de possibilidade do conhecimento, situado em nível ontológico como o ser primordial ao qual todas as demais aparições aparecem. 19. A estreita ligação entre os conceitos de existência e consciência evidencia-se em passagens de O ser e o nada, segundo as quais toda existência consciente existe como consciência de existir, sendo a consciência o fundamento de seu ser-consciência ou existência, encontrando-se numa leitura não criteriosa dessa obra multiplicidade de significados aplicados ao conceito de existência, referentes a objetos, sentimentos, o nada, o Para-si, o ser-consciência ou os valores. 20. Para sanar essa ambiguidade, propõe-se como critério semântico a diferença entre os dois tipos de ser da ontologia sartriana, o Em-si e o Para-si: o Em-si é o que é, pura positividade ou plenitude de si mesmo, sem negação, remetendo seu si apenas a si mesmo, ao passo que o Para-si significa ser o que não é e não ser o que é, transcendente ou nadificador de si mesmo, já não idêntico a si (Em-si), mas transcendendo-se ao encontro nunca possível de sua identidade ou projeto. 21. O motivo pelo qual Sartre utiliza o conceito de Para-si é a necessidade de explicitar o ser da consciência como ontologicamente diferente do ser do fenômeno, servindo o Para-si de explicação do si do conceito de consciência (de) si, entendido também como estrutura ontológica da realidade humana, ao lado do Para-o-outro, expressando sua vinculação original com o mundo e os objetos, com sua faticidade e possibilidade. * Nesse contexto, o conceito de existência é recorrente de modo mais ou menos ambíguo, tendo por significado delimitado o modo de ser da realidade humana como consciência (de) si e consciência de algo, ou seja, a realidade humana ek-siste, é Para-si temporalmente como consciência (de) si. 22. Conclui-se, de modo inesperado, que, estabelecidos critérios claros para os conceitos de Para-si e consciência (de) si, o conceito de existência cumpriria a mesma função destes, agregando o mesmo conjunto conceitual de transcendência, projeto, liberdade, faticidade e temporalidade, não sendo, contudo, dispensável em Sartre dada a relação explicativa estabelecida entre ambos ao longo da obra. **Três conceitos de existência em Ser e tempo** **Existência como o todo do ser do Dasein** 23. Heidegger formula pela primeira vez, no parágrafo [[obra:etem:et4|4]] de Ser e tempo, o conceito de existência como o ser mesmo com relação ao qual o Dasein pode se relacionar desta ou daquela maneira e com o qual sempre se relaciona de alguma maneira determinada. * A temática desse primeiro conceito segue a inovação kierkegaardiana do relacionamento de si consigo mesmo: relacionar-se com sua própria existência significa que o Dasein tem-que-ser, isto é, tem que decidir sua própria existência, já sempre cada-vez-minha ([[lx>termos:j:jemeinigkeit|Jemeinigkeit]]) e entregue a si mesmo. * Como essa autocompreensão se dá em modo prático de ser no mundo, no qual o Dasein se absorve na ocupação com os entes, ela adquire caráter cotidiano que torna a existência própria indiferente para si mesma, fenômeno conhecido como decaída ([[lx>termos:v:verfallenheit|Verfallenheit]]). 24. Heidegger afirma que o Dasein é, para si mesmo, onticamente o mais próximo, ontologicamente o mais distante e, no entanto, [[lx>termos:v:vo-ontologish|pré-ontologicamente]] não estranho, distinção tríplice interpretável a partir dos modos de compreensão da existência. * A compreensão existentiva ocorre quando nos serve de guia para escolher nossas possibilidades, próprias ou impróprias, sendo tão somente ao Dasein determinado decidir sua existência tomando-a entre as mãos ou deixando-a perder-se, constituindo a compreensão ôntica, empírica ou concreta, do Dasein. * A compreensão existencial realiza-se com fins de questionamento teórico acerca da estrutura ontológica da existência, recebendo por isso a investigação do ser do Dasein a expressão analítica existencial, por se tratar de descrição ontológica das estruturas constitutivas desse ente, os existenciais, podendo-se ainda supor um modo de compreensão pré-existencial correspondente à compreensão pré-ontológica que cada Dasein tem de seu próprio ser. 25. A primeira seção de Ser e tempo, a analítica existencial preparatória, toma como fio condutor a existência do Dasein, considerada o ser desse ente, ganhando essa interpretação consistência pela tese repetida ao longo do tratado de que a existência é a essência ou a substância do homem, o modo de ser específico do Dasein. 26. Após a descrição do sentimento de situação fundamental, a angústia ([[lx>termos:a:angst|Angst]]), Heidegger reivindica um conceito capaz de unificar todos os existenciais do Dasein descritos na analítica existencial, posto serem cooriginários essas determinações de ser, empregando a palavra cuidado ([[lx>termos:s:sorge|Sorge]]), remontada à fábula de Higino, para designar a estrutura unitário-apriorística subjacente a todos os modos de ser do Dasein. **Existência, uma dimensão estrutural do cuidado** 27. Com a descoberta do cuidado como o ser do Dasein, o conceito de existência precisa de nova conceitualização, explicitada no parágrafo 45 sobre a situação hermenêutica, no qual Heidegger avalia os resultados de sua análise preparatória: encontrada a constituição fundamental do ente temático, o ser-no-mundo, cujas estruturas essenciais centram-se na abertura, revelou-se a totalidade desse todo estrutural como cuidado, contendo-se nele o ser do Dasein. * O termo existência, que guiara formalmente essa análise como essência do Dasein, significa agora que o Dasein é, enquanto poder-ser que compreende, aquilo que, em tal ser, está em jogo como seu próprio ser, sendo o ente que é dessa maneira, em cada caso, eu mesmo, proporcionando a elaboração do fenômeno do cuidado mirada ao interior da constituição concreta da existência, isto é, sua conexão cooriginária com a facticidade e a decaída. 28. Para entender essa passagem, é necessário expor a estrutura do cuidado, apresentável pela fórmula existencial "antecipar-se-a-si-mesmo-já-em(-um-mundo)-em-meio-de(os entes que comparecem dentro do mundo)". * Compreendendo seu próprio ser, o Dasein projeta-se em possibilidades próprias ou impróprias, confrontando-se com a possibilidade de ser seu poder-ser mais próprio, antecipando-se assim a si mesmo. * Tais projetos são sempre já lançados ([[lx>termos:g:geworfen|geworfen]]), manifestando-se pelo sentimento de situação o já sempre estar em um mundo desse ente, e, ao ocultar a angústia compreendendo seu poder-ser próprio como indiferente a si mesmo, o Dasein absorve-se junto aos entes disponíveis no mundo, compreendendo assim a fórmula concreta do cuidado, respectivamente, existência, faticidade e decaída. 29. A necessidade dessa revisão conceitual explica-se pelo fato de Heidegger estabelecer, em seu paradigma filosófico, identidade entre método (fenomenologia hermenêutica) e objeto (o Dasein), tendo este o mesmo modo de ser daquele, de modo que, devido ao caráter antecipativo da compreensão, a analítica existencial, sendo modo possível de interpretação, requer em determinadas etapas revisão dos pressupostos de sua interpretação teórica para garantir a unidade originária do ser do ente tematizado. 30. Compreende-se assim a modificação do conceito de existência: a princípio compreendida como conceito formal que guia a interpretação do ser do Dasein, após as etapas da analítica existencial, com a explicitação da estrutura do Dasein como ser-no-mundo, o cuidado é designado o ser desse ente, compreendendo-se que o Dasein não apenas se relaciona consigo mesmo pela compreensão, mas também por cooriginária conexão com o sentimento de situação, a faticidade, e o discurso, a decaída. * Obtém-se assim conceito concreto de existência vinculado a existenciais específicos, como ter-que-ser, cada-vez-meu, compreensão, interpretação, projeto, sentido, visão e pré-compreensão, confirmando essa interpretação anotação do próprio Heidegger em seu exemplar pessoal, ao início do parágrafo 64, de que existência significa, primeiro, todo o ser do Dasein e, segundo, somente o compreender. **Existência como ex-sistência** 31. No parágrafo [[obra:etem:et65|65]], Heidegger anuncia a investigação da temporalidade como sentido do ser do Dasein, já proposta no parágrafo [[obra:etem:et5|5]], afirmando que, sendo o cuidado o projeto que guiou a analítica existencial até então, há ainda um horizonte de projeção dessa e de toda compreensão de ser não explicitado, designando a temporalidade essa unidade originária e horizontal do cuidado que possibilita os modos de ser do Dasein, exigindo, por ser originária, repetição da analítica existencial baseada em interpretação temporal para desvelar o modo de temporalização de cada momento estrutural do cuidado. 32. De modo paralelo ao cuidado, a temporalidade possui estrutura tríplice de êxtases, futuro, ter-sido e presente, não sendo, tal como o cuidado, um ente, mas temporalizando-se, correspondendo a cada modo de ser do Dasein um modo específico de organização dessas êxtases temporais. * Se entendida existência como conceito que engloba apenas os existenciais relativos à compreensão, sua temporalização realiza-se primariamente no futuro, pois existir significa o autocompreender-se projetante no qual se é, a cada vez, como se pode ser. 33. No parágrafo [[obra:etem:et69|69]]c encontra-se modo diferente de expressar a palavra existência, mediante sua hifenização em ex-sistência, inovação que não deve ser interpretada como mero recurso estilístico, pretendendo antes explorar outro problema de Ser e tempo, o da transcendência de mundo. * Ao final desse parágrafo, Heidegger pergunta o que faz ontologicamente possível que o ente possa comparecer dentro do mundo e, assim, ser objetivado, respondendo que, havendo cooriginariedade entre Dasein e mundo, e sendo a possibilidade do primeiro o sentido de seu ser, só há mundo, só há possibilidade de objetivação dos entes, devido à temporalização da temporalidade, sendo o mundo o horizonte extático-temporal que, aberto desde sempre, possibilita a compreensão do ente intramundano e do próprio Dasein. 34. Ao apontar para o caráter transcendente do mundo, aproveita-se a nuance do prefixo ex para conferir à palavra existência novo significado: o mundo ex-siste, é aquilo dentro do qual o Dasein se compreende, designando ex-sistência a relação que o Dasein tem com seu mundo. * Como a compreensão da existência é compreensão de mundo, e vice-versa, conforme afirmado no parágrafo [[obra:etem:et32|32]], a relação com o mundo, em último caso, é também relação consigo mesmo, significando ex-sistir, portanto, também o todo do ser do Dasein, agora sob o enfoque da transcendência de mundo. **Avaliação** 35. Percorrido esse caminho ao longo de Ser e tempo, pergunta-se se é possível utilizar o conceito de existência de modo inequívoco, tendo ficado evidente que essa palavra contém diferentes conceitos e significados. * Pode-se interpretar esse estado de coisas como ambiguidade sistemática, na qual o conceito de existência, ao ser utilizado com significado específico, parece implicar também os demais ou, ao menos, pressupor sua compreensão, sem que isso ofereça implicações teóricas negativas, podendo essa ambiguidade ser facilmente desfeita. * Como todos os conceitos de existência estão sistematicamente conectados entre si por se referirem ao conceito de Dasein, e como a explicação de seus significados obedece a coerência interna dentro de Ser e tempo, basta especificar a qual etapa da analítica existencial se refere cada uso do termo, podendo-se diferenciar tais conceitos por numerais, existência1, existência2 e existência3. 36. Essa conclusão mostra, contra as críticas de Tugendhat e outros, a possibilidade de estabelecer critérios semânticos para o conceito heideggeriano de existência e, nesse sentido, uma controlabilidade de seu significado que respeita as peculiaridades do método fenomenológico-hermenêutico, não significando isso, contudo, que o trabalho se encerre aqui, pois tal resultado só adquiriria solidez plena se integrado coerentemente ao paradigma heideggeriano e se os conceitos adotados para explicá-lo possuíssem, também eles, critérios intersubjetivos. 37. A partir das propostas de Kierkegaard, Jaspers e Sartre, chega-se a conclusões que esclarecem as diferenças da concepção heideggeriana, havendo, em primeiro lugar, diferença entre Sartre e os demais autores analisados: enquanto Kierkegaard, Jaspers e Heidegger descrevem a existência como relacionar-se de si consigo mesmo prático, Sartre a descreve como modo de consciência de si consigo mesmo, autoconsciência pré-reflexiva. * Corrobora essa tese a ênfase das descrições fenomenológicas de ambos: situando Heidegger o relacionar-se de si consigo mesmo no nível prático, encontram-se em Ser e tempo longas descrições da ocupação do Dasein com utensílios e da compreensão do mundo circundante, enquanto Sartre, situando-se no âmbito da consciência (de) si, explora minuciosamente as relações intersubjetivas, como a má-fé, o desejo, o Para-outro e a psicanálise existencial, sendo exemplar de Heidegger o martelar com o martelo e o de Sartre a má-fé de uma mulher em seu primeiro encontro. 38. Em segundo lugar, a explicitação do conceito de existência em Sartre sem a necessidade do conceito de relacionamento de si consigo mesmo mostra como Heidegger foi influenciado por Kierkegaard, introdutor dessa temática, diferenciando-se, contudo, do filósofo dinamarquês ao situar-se em nível ontológico-transcendental e ao agregar ao conceito de existência novos temas voltados à descrição dos diversos modos de ser no mundo do ser humano, como o lidar com utensílios, o investigar científico e o solicitar-se com outros. 39. Em terceiro lugar, o modo específico de perguntar pela existência a partir do como, formulado pela primeira vez por Kierkegaard, somente com Heidegger e Sartre ganhou conceitualização metodológica específica a partir da influência direta do como fenomenológico husserliano, adquirindo com esses autores nível ontológico ao tornar-se sinônimo da pergunta pelo modo de ser de determinadas entidades. 40. Em quarto lugar, todas as tentativas de elaboração do conceito de existência levam em conta a necessidade de estabelecer novo conceito de ser humano no âmbito filosófico, encontrando-se em Kierkegaard insight de diferenciação do ser humano em relação aos demais entes: se somente o ser humano relaciona-se consigo mesmo, somente a ele é designado existir, compreendendo-se assim sua afirmação de que Deus não pensa, mas cria, e Deus não existe, mas é eterno. * Esse critério diferenciador situa-se não mais na racionalidade, mas no modo de relacionamento de si consigo mesmo, inovação seguida com afinco posteriormente, exigindo-se em todas as propostas dimensão prévia à racionalidade, ao cogito, ao sujeito, à razão ou ao discurso, até culminar, com a Filosofia pós-moderna, no anúncio da morte do sujeito. 41. Em quinto e último lugar, com a inovação do conceito de existência e do modo de existir do ser humano, campo de diversos temas da Filosofia tradicional, e de temas que ela simplesmente pressupôs como óbvios, passou a ser explicitado de modo peculiar, como os estados afetivos, a ocupação com utensílios e a investigação científica, o modo de compreensão autêntica e inautêntica da própria existência, a relação com o próprio corpo e com o corpo dos outros, a relação existencial entre futuro, passado e presente, a fuga de si mesmo e a escolha de existir, a condição de ser livre, entre outros. * Tais conceitos procuram evitar, em termos heideggerianos, a desintegração do fenômeno originário do ser-no-mundo, tendo sido necessário para tanto elaborar todo um novo esquema conceitual que partiu da rejeição a qualquer investigação teórica preconcebida, científica ou lógica, atitude também devedora de Husserl, sendo essa dimensão inovadora sobretudo por ter sido integrada à elaboração das condições de possibilidade do conhecimento, e não a um nível meramente empírico ou intuitivo de descrição. 42. Dentro de contexto filosófico mais amplo, o conceito heideggeriano de existência vincula-se diretamente à proposta de reformulação da pergunta pelo ser como pergunta temática fundamental da investigação filosófica, parecendo ter havido mútua influência entre a necessidade de estabelecer nova ontologia e um novo conceito de existência fora dos padrões da Filosofia tradicional. * Essa preocupação já se encontra no jovem Heidegger, em texto sobre a psicologia das visões de mundo de Karl Jaspers, no qual existência é apresentada como determinação de algo que, embora sua caracterização regional se exponha como digressão equívoca frente ao sentido de existência, pode ser concebida como modo determinado do ser, sentido do eu sou que não pode ser possuído genuinamente em opinião teórica, mas apenas ao se realizar o sou num modo de ser do ser do eu, significando, em indicação formal, o ser do si-mesmo assim compreendido, existência. 43. Nessa ótica, a amplitude da investigação do conceito de existência revela-se maior do que inicialmente exposto, sendo necessário, para compreendê-lo de maneira precisa e plausível dentro da posição filosófica heideggeriana, entender ainda sua crítica à metafísica tradicional, sua nova concepção de ontologia e do conceito de ser, a relação estabelecida entre ser e seus diferentes significados, o novo conceito de linguagem e o lugar da lógica na fenomenologia hermenêutica, e o conceito de temporalidade e historicidade, tópicos de caráter programático destinados a dar solidez a esse conceito heideggeriano no debate contemporâneo. {{tag>"Ernildo Stein" existência}}