===== PERSISTÊNCIA DE UR-WILLING (2007) ===== //DAVIS, Bret W. Heidegger and the will: on the way to Gelassenheit. Evanston, Ill: Northwestern Univ. Press, 2007.// * Na época da subjetividade, a vontade aparece como essência da existência, mas no término dessa época a vontade revela-se como (des)afinação fundamental da incorporação extática e deixa entrever uma afinação mais originária, uma ek-sistência mais radical que rompe o domínio da subjetividade voluntariosa e se abre ao que se retrai à apreensão, permitindo que mortais participem não-voluntariamente do deixar-ser dos entes. * Vontade como essência aparente da existência na subjetividade. * Incorporação extática como (des)afinação fundamental. * Ek-sistência como ruptura do domínio da vontade. * Presença-em-retração do ser como campo do não-querer. * O deixar-ser dos entes exige um duplo comportamento, reunindo o desprendimento diante das coisas e a abertura ao mistério, no qual a abertura ao ocultamento do ser possibilita um engajamento solto com as coisas que já não as considera apenas tecnologicamente. * Releasement toward things e openness for the mystery como pertencentes em conjunto. * Ocultamento do ser entendido como mistério. * Sicheinlassen auf como engajamento liberado. * Superação do olhar meramente tecnológico. * Esses dois comportamentos, embora se sustentem mutuamente, ocorrem também em tensão essencial, pois o envolvimento com entes presentes depende da abertura ao conceder-em-retração do ser e, ao mesmo tempo, tende a esquecer o evento originário de presenciar/ausentar, obscurecendo a responsabilidade de participar ek-staticamente do evento do ser. * Engajamento com entes como condição da abertura ao ser. * Tendência do engajamento a produzir esquecimento do originário. * Resposta-abilidade como participação no evento do ser. * Obscurecimento do presenciar/ausentar pelo envolvimento íntimo. * Em “A essência da verdade”, a ambivalência desse duplo comportamento é articulada pela coimplicação de ek-sistência e in-sistência, segundo a qual o Dasein, ao mesmo tempo que se projeta para a clareira, prende-se ao que os entes oferecem e assim já se encontra na errância. * Ek-sistência como ultrapassagem das determinações presentes dos entes. * In-sistência como apego ao que é oferecido pelos entes. * Errância como condição permanente do homem. * Coimplicação entre abertura e apego. * A liberdade da ek-sistência é sempre complementada e contrariada pela in-sistência que se fixa nos entes e volta as costas à abertura que os deixa aparecer, esquecendo inclusive que a in-sistência só ocorre porque já há ek-sistência. * Fixação nos entes como contramovimento. * Esquecimento da prioridade da ek-sistência. * Clareira como condição do aparecer dos entes. * Complementaridade tensa entre liberdade e fixação. * A relação entre os movimentos não é apenas conflitual, pois a ek-sistência já envolve essencialmente uma viragem para longe do mistério e uma tendência ao encobrimento ao revelar entes de modo determinado, de modo que a ek-sistência já se efetua voltando-se para a in-sistência e a liberdade deve ser concebida a partir da ek-sistência in-sistente. * Viragem para longe do mistério como traço intrínseco. * Revelação determinante como fonte de encobrimento. * Ek-sistir como já voltar-se para in-sistir. * Liberdade fundada na ek-sistência in-sistente. * O deixar-ser como liberdade não constitui estado permanente, ocorrendo apenas de tempos em tempos como vislumbre do mistério a partir da errância, pois o ser só se revela em retração e a abertura resoluta ao mistério já caminha para a errância, já que deixar-ser revela entes em determinado comportamento e por isso mesmo encobre o todo dos entes. * Vislumbre do mistério como interrupção do trato cotidiano. * Retração como modo da revelação do ser. * Entschlossenheit zum Geheimnis como caminho para a errância. * Deixar-ser como revelar e simultaneamente encobrir. * Ek-sistência e in-sistência são tão entrelaçadas quanto revelar e encobrir, verdade e errância, de modo que humanos no outro começo não superariam esse jogo ambivalente, mas o reconheceriam e nele participariam atentamente, pois o problema moderno não é o encobrimento ou a errância, mas o fato de o encobrimento fundamental ter caído no esquecimento e a ineradicabilidade da contraessência já não ser reconhecida. * Reconhecimento do entrelaçamento como tarefa. * Esquecimento do encobrimento como problema histórico. * Contraessência da verdade como ineradicável. * Crítica à vontade de verdade absoluta como desvelamento ilimitado. * A tarefa não consiste em erradicar a in-sistência, mas em reconhecê-la como contraessência da liberdade e aprender a viver no perpétuo ir e vir que condiciona a finitude, cultivando a possibilidade de não se deixar desorientar ao experimentar a própria errância sem confundir o mistério do Da-sein. * In-sistência como contraessência e não como falha eliminável. * Perpétuo ir e vir como condição finita. * Experiência da errância como via de sobriedade. * Não se deixar desviar como disciplina de atenção. * A distinção entre errância como contraessência necessária e o “deixar-se conduzir ao erro” torna-se decisiva quando o esquecimento do encobrimento abandona o homem à auto-instituição de padrões e fins, de modo que a tomada do sujeito como medida exclusiva de todos os entes produz uma “esquecidão desmedida” que persiste em assegurar-se pelo disponível e encontra apoio inadvertido no comportamento pelo qual o Dasein ao mesmo tempo ek-siste e in-siste. * Homem como instaurador autônomo de valores e padrões. * Sujeito como Maß exclusivo como fonte de desmedida. * Vermessene Vergessenheit como persistência no disponível. * Apoio inadvertido da in-sistência na autossustentação. * O envolvimento in-sistente com entes e o encobrimento do mistério pertencem ao ocorrer da verdade como liberdade de deixar-ser, mas a persistência desmedida corresponde a uma in-sistência que já não ek-siste propriamente e culmina numa incorporação extática malformada, numa Aneignung voluntariosa que integra entes numa ordem de mundo posta pela subjetividade. * In-sistência ordinária como condição do engajamento concreto. * Persistência desmedida como deformação do par ek-sistir/in-sistir. * Ecstatic-incorporation como malformação. * Aneignung voluntariosa como ordenação subjetiva do mundo. * A interrogação sobre se a tendência à persistência poderia ser finalmente superada conduz à ideia de que o outro começo exigiria não apenas afinação ao jogo ek-sistência/in-sistência, mas também reconhecimento vigilante de uma força tentadora de retorno à subjetividade voluntariosa, identificada como impulso persistente designado por ur-willing. * Tentação de recaída como perigo permanente. * Vigilância como condição do não-querer. * Persistência como deriva para a subjetividade voluntariosa. * Ur-willing como nome do impulso à persistência. * Em “O fragmento de Anaximandro”, ao pensar o entre do ainda-não e do já-não, a presença é compreendida como junção (Fuge) enunciada por dike como ordem enlaçante, e adikia aparece como traço fundamental dos entes na medida em que o persistir voluntarioso extrai-se de sua estada transitória, endurece e visa apenas continuidade e subsistência. * Entre do not-yet e do no-longer como estrutura do “demorar”. * Presenciar como junção (Fuge). * Dike traduzida como ordem que enlaça e ordena. * Adikia como desordem fundamental vinculada ao Beharren. * A descrição do persistir como pose voluntariosa que ignora o restante do presente sugere uma raiz pré-metafísica de ur-willing, na qual o demorar rebelde insiste em pura continuidade, deixando entrever que a disposição a permanecer pode pavimentar o caminho para formas de subjetividade conquistadora e para a redução de outros entes a meios de preservação e aumento de poder. * Bestehen e Beharren como insistência no perdurar. * Despreocupação com o outro como sinal de desordem. * Mediação possível entre persistência originária e vontade de conquista. * Redução de entes a meios como preparação para o poder. * A leitura de Hannah Arendt identifica nesse texto uma “ânsia de persistir” e um “apego a si” como figura do querer destrutivo, mas a equiparação entre Eigensinn e instinto natural de autopreservação torna-se problemática quando a autopreservação não excede a medida do demorar próprio e a desmedida emerge sobretudo onde se ultrapassa essa medida, como em guerras de conquista ou consumo tecnológico de recursos. * Arendt: craving to persist e cling to themselves. * Crítica à redução do querer ao instinto natural. * Diferença entre autopreservação ordinária e excesso. * Exemplos de excesso: conquista e consumo tecnológico. * A distinção heideggeriana entre usar a terra e receber sua bênção descreve que a tecnologia devoradora força a terra além de suas possibilidades, enquanto um comportamento de reserva (Verhaltenheit) re-afina os humanos à lei discreta da terra e ao cuidado do mistério do ser, preservando a inviolabilidade do possível. * Lei discreta da terra como preservação do emergir e perecer. * Tecnologia como consumo e exaustão do artificial. * Diferença entre usar e poupar (schonen). * Recepção e habitação como guarda do mistério. * A leitura de Anaximandro implica que a disjunção da Fuge não começa apenas com o querer tecnológico extremo, pois a junção do ser já é perturbada por uma tendência a persistência voluntariosa, havendo continuidade e descontinuidade entre ur-willing e as formas metafísicas e tecnológicas da vontade, de modo que o outro começo dependeria de uma consciência vigilante dessa persistência ineradicável e não da presunção de consonância plena. * Perturbação originária como anterior ao tecnológico. * Continuidade e descontinuidade entre ur-willing e “a vontade” epocal. * Crítica à ideia de harmonia sem dissonância. * Vigilância como condição de inauguração do outro começo. * A ressalva quanto ao antropomorfismo na leitura heideggeriana torna necessária uma distinção decisiva entre o ur-willing humano e qualquer persistência atribuível a animais ou coisas, pois a capacidade de rebelião desmedida e de queda abaixo do animal delimita o humano pela possibilidade do mal, reconhecida na interpretação de Schelling. * Ta onta em geral e foco predominante em hoi anthropoi. * Ur-willing humano como capacidade disruptiva específica. * Possibilidade do mal como traço humano. * Queda abaixo do animal como marca do humano. * A abertura do problema do mal levanta a questão de uma discórdia originária no próprio ser e exige avaliar se a atribuição do mal a uma negatividade do ser justificaria o mal como errância ontologicamente necessária, bem como se tal deslocamento enfraqueceria a responsabilidade de retomar, sempre de novo, o caminho para a não-vontade. * Mal como questão de strife no coração do ser. * Risco de justificar o mal como necessidade ontológica. * Responsabilidade humana como questão ineliminável. * Não-vontade como tarefa reiterada. {{tag>"Bret Davis" vontade ek-sistência}}