====== Angústia ====== //BOSS, Medard. Angústia, culpa e libertação. Tr. Barbara Spanoudis. São Paulo: Duas Cidades, 1977.// **ANGÚSTIA VITAL, SENTIMENTO DE CULPA E A LIBERTAÇÃO PSICOTERÁPICA** **INTRODUÇÃO** 1. As discussões sobre angústia vital, sentimentos de culpa e libertação psicoterápica constituem versão um pouco ampliada de conferência proferida durante o V Congresso Internacional de Psicoterapia na Universidade de Viena, fruto de convite da direção do Congresso, que manifestou o desejo de que todas as contribuições principais se submetessem igualmente ao tema geral do evento e estivessem de acordo com o interesse comum do enorme grupo de participantes orientados das mais diversas formas e oriundos de todo o mundo. 2. Fora escolhido como tema principal de todo o Congresso, e portanto também como conteúdo da conferência, a questão do relacionamento entre a psicoterapia e a medicina clínica, levando em conta a importância rapidamente crescente que deve ser concedida à psicoterapia em campos cada vez mais amplos da medicina clínica geral, pois ainda há poucas décadas o campo de ação da psicoterapia se limitava a um pequeno círculo de alguns poucos distúrbios nervosos, e hoje ela está em vias de estender simultaneamente sua influência em duas direções, alcançando direito de opinião cada vez maior no campo das grandes doenças mentais e clamando direitos a uma série cada vez maior de sofrimentos físicos para os quais eram unicamente competentes até então métodos de pesquisa e tratamento puramente somáticos. 3. Esse acontecimento da extensão surpreendente da psicoterapia é suficientemente importante como fenômeno médico e obrigará a aprender a ver com maior nitidez a inseparabilidade fundamental dos fenômenos físicos e psíquicos da existência humana nos dias de saúde e nos de doença, e a refletir com mais cuidado sobre a condição da essência e sobre a natureza desse poder-existir integrado. 4. O que acontece com a psicoterapia é possivelmente só uma parte de um fenômeno pertencente a um contexto ainda mais significativo e maior, talvez apenas um dos muitos testemunhos da transformação decisiva em toda a situação espiritual da época histórica, e o avançar de uma única terapêutica da alma nas esferas aparentemente tão opostas do espiritual e do físico pode significar que está iminente uma superação da secular divisão cartesiana do mundo que marca todo o tempo moderno num distrito de objetos de dimensão física, mensuráveis e perceptíveis pelos sentidos, e uma esfera radicalmente diferente de entes espirituais, imateriais, inextendidos e imensuráveis, sendo possível que isso seja apenas um ensaio parcial de uma ciência análogo ao empreendimento da física quando esta pretende reunir matéria e energia numa só equação. 5. A tendência a uma maior unidade dentro da medicina tem dado antes um resultado paradoxal, pois uns foram seduzidos a ver a unidade da existência humana como sendo primariamente material e outros a proclamá-la como originariamente espiritual, e a decisão não será fácil, pois nem da matéria, nem do físico, nem do espírito ou da energia alguém saberia dizer o que seriam no fundo todas essas coisas, sendo possível que esse caráter do indescritível comum a matéria, corpo, energia e espírito seja um aceno que possa levar adiante na compreensão da existência e do mundo. 6. Se o tema principal do Congresso aponta diretamente para a unidade fundamental da existência humana e de seu mundo, a contribuição só podia corresponder-lhe ao levar a discussão fenômenos não menos profundos, pois quase nenhum par de fenômenos humanos é tão significativo como angústia e culpa, que são da máxima importância prática no campo total da formação e do tratamento da doença, de modo que ninguém que se ocupa seriamente com seres humanos pode negar-lhes atenção constante e incansável, razão pela qual o título da conferência recebeu a formulação angústia vital, sentimentos de culpa e a libertação psicoterápica. **ANGÚSTIA E CULPA COMO FATORES DOMINANTES DA VIDA DO SER HUMANO** 1. Angústia e culpa são fatores dominantes na vida dos seres humanos, e muitos afirmam que são ainda mais poderosos e abismais que fome e amor, sendo considerados em diversos lugares e de acordo com velhos provérbios como aquilo que apreende o mundo no íntimo, e costuma-se dizer que se de antemão o medo não houvesse impelido as primeiras formas de vida a se porem a salvo através de reações de fuga, e se as inibições culposas não houvessem freado a agressividade dos animais para com os de sua própria espécie, a vida teria se autodestruído e seria extinta muito antes de ter conseguido coroar sua obra, a criação do ser humano. 2. Outros objetam alegando que mesmo em muitos mamíferos superiores o abrigo afetuoso do ninho materno e as brincadeiras travessas e desinibidas dos filhotes precedem os sentimentos de medo e de culpa, mas deixando de lado a história da evolução, como não a presenciamos nunca chegaremos além de hipóteses frequentemente modificadas sobre a mesma, e onde o domínio da angústia e da culpa é imediato e palpável, revelando-se onipresente, é no âmbito dos psiquicamente doentes, pois quase todos os que procuram o psiquiatra estão sendo intimamente corroídos, declarada ou veladamente, pela angústia e pela culpa. 3. No decorrer das últimas décadas verificou-se uma transformação curiosa e ao mesmo tempo significativa na manifestação dos sentimentos de angústia e de culpa nos pacientes, pois no fim do século passado o psicoterapeuta encontrava os fenômenos de angústia e de culpa principalmente nos sinais ruidosos e obstinados das chamadas histerias, observando-se então nas mulheres os gestos histéricos defensivos nos inúmeros ataques grandiosos de paralisia e convulsões, e a angústia dos homens ainda se manifestava na Primeira Guerra Mundial nos gestos histéricos intensos dos chamados tremedores de guerra, com os quais se poderiam formar batalhões inteiros. 4. A angústia dos seres humanos também se manifestava abundantemente naqueles quadros patológicos notáveis que a ciência chama de fobias, e os manuais falam de agorafobia, o medo de pensar em estar sozinho num grande espaço aberto, de claustrofobia, o medo de permanecer em espaços fechados, de aimo, miso, querauro, nicto e fobofobia, ou seja, o medo dos objetos pontiagudos, de todo contágio, do raio, da noite e até o medo do medo, e Sigmund Freud já observou a respeito dessa plêiade de sofrimentos angustiosos especificados em nomes gregos ostentativos que eles soam como a enumeração das dez pragas do Egito, só que o número deles as ultrapassa de muito. 5. A culpabilidade dos seres humanos chamou a atenção dos médicos primeiramente através dos sentimentos de culpa nas neuroses obsessivas e especialmente nas autoacusações incessantemente declaradas nas indisposições depressivas e nas melancolias, de modo que alguém pode até recear tornar-se culpado pelo fim do mundo se não disser imediatamente noventa e nove vezes noventa e nove vezes Jesus seja louvado, e apesar de compreender intelectualmente o absurdo dessa penitência é impotente diante da obsessão de seu sentimento de culpa, enquanto outro passa dias e noites durante meses e anos somente com o lamento desesperado de ser culpado pela destruição iminente e total de sua família pelo fato de há vinte anos ter beijado clandestinamente a empregada dos pais. 6. Diante disso poder-se-ia dizer que são besteiras, puras loucuras pertinentes às casas de saúde e que nada dizem aos sãos, e que quando muito as pessoas acometidas por tais ideias angustiosas e culposas merecem compaixão, mas cabe perguntar se elas merecem só isso e se não merecem muito mais atenção, e se não seria possível que justamente tais exageros e discrepâncias fornecessem esclarecimentos importantíssimos sobre a natureza e o significado da angústia e da culpabilidade humanas caso houvesse disposição para escutá-los da maneira correta. 7. É preciso apressar-se a escutar, pois as vozes dos infelizes que clamam no deserto estão ficando cada vez mais fracas e incompreensíveis, as gesticulações descomedidas das grandes histerias estão hoje praticamente extintas, até mesmo a Segunda Guerra Mundial quase não viu mais os tremores histéricos, e há tempos os sentimentos de angústia e culpa dos pacientes se recolheram em proporção cada vez maior para o esconderijo do interior do corpo e daí somente falam na linguagem estranha dos chamados distúrbios funcionais cardíacos, gástricos, intestinais e de outras neuroses orgânicas. 8. Hoje, todavia, angústia e culpa ameaçam se esconder mais e mais sob a fachada fria e lisa de um tédio vazio e por trás da muralha gélida de sentimentos desolados de completa insensatez da vida, e o número crescente daqueles doentes que só sabem se queixar da insensatez vazia e tediosa de suas existências não deixa mais dúvida em nenhum médico psiquiatra de que o quadro patológico que poderia ser chamado neurose do tédio ou neurose do vazio é a forma de neurose do futuro imediato, abrangendo um tédio que necessita encobrir angústias e sentimentos de culpa particularmente sinistros. 9. Todo tédio comum inclui aquilo que exprime a própria palavra, um sofrer do tempo vagaroso, uma secreta saudade de estar abrigado num lugar familiar tão almejado quanto inacessível, ou por uma pessoa querida e distante, mas no grande e profundo tédio das atuais neuroses do vazio esconde-se uma tal saudade que, se não fosse repelida e reprimida com extrema força, deixaria eclodir o reconhecimento da perda de todo e qualquer enraizamento, cujas consequências implicariam numa extrema angústia e num profundo sentimento de culpa por se ter perdido em tal abismo extremo, e por isso o tédio que reina na existência dos atuais neuróticos frequentemente encobre seu próprio sentido utilizando-se do ruído dominante das atividades ininterruptas, diurnas e noturnas, ou do embotamento das mais diversas drogas e tranquilizantes. 10. Quanto à origem, nas pessoas psiquicamente doentes do tempo presente, desse recente congelamento e estarrecimento que encobre profundamente a angústia e a culpa, dificilmente se errará se for associado à prepotência atual da tecnologia, pois é ela também que leva a compreender e a considerar o ser humano como sendo apenas uma rodinha no aparelho de uma gigantesca organização social, mas rodinhas de máquinas não gesticulam nem de modo normal nem histérico e muito menos podem dialogar abertamente, e mesmo quando agregadas coletivamente para formar o conjunto de uma máquina funcional elas só se acionam mecanicamente, sem parar de girar em torno do próprio eixo fixo. **AS EXPLICAÇÕES PSICOLÓGICAS COMO CURTO-CIRCUITOS DO PENSAMENTO** 1. Cabe perguntar se os psicoterapeutas não estão totalmente impotentes diante do atual espírito violentador da tecnocracia desde que este se apoderou dos pacientes, e talvez só estejam totalmente impotentes enquanto continuam a permitir que esse espírito também aprisione seus próprios pensamentos e ações médicas, e para ver em que medida isso realmente acontece basta correr os olhos nos conceitos fundamentais das psicologias, psicopatologias e psicoterapias vigentes hoje em dia, pois todas elas, justa e especialmente onde e quando se opõem à doutrina psicanalítica, continuam basicamente comprometidas com aquele pensamento técnico de Freud que ele soube formular já em 1916 com insuperável precisão ao resumir que não se quer apenas descrever e classificar os fenômenos, mas compreendê-los como sinais de um intercâmbio de energia na alma, como expressão de tendências que visam uma meta e que ou colaboram ou agem umas contra as outras, empenhando-se por uma concepção dinâmica dos fenômenos psíquicos diante da qual os fenômenos observados têm que ficar em segundo plano na compreensão. 2. Mesmo quando psicologias posteriores substituem a psiquê de Freud pela ideia de uma alma, sujeito ou pessoa, elas raramente rompem as dimensões de seu pensar tecnológico que objetiva o ser humano, e somente velam o caráter básico inalterado desse pensamento psicológico através de maior embaçamento e obscurecimento das noções básicas. 3. O método de trabalho psicológico de Freud pressupõe aquela opinião acerca do ser humano que acredita que também os seus chamados fenômenos psíquicos fazem parte de uma espécie de objeto, de um aparelho psíquico, e por isso só precisariam ser encontrados os nexos causais psicodinâmicos nele reinantes das coisas psíquicas entre si para então poder eliminar as causas dos efeitos psíquicos e tornar a máquina novamente eficiente, e consequentemente sua psicologia quer entender os sentimentos de angústia e de culpa exclusivamente como defeitos de uma psiquê ou de um aparelho psíquico que impedem o funcionamento sem atrito das estruturas e organizações sociais, e por isso eles têm que ser eliminados quanto antes e com todos os meios disponíveis. 4. A esse único fim da eliminação dos distúrbios funcionais servem também todas as outras teorias psicológicas ainda vigentes hoje em dia, nas quais se tenta analisar mentalmente os sentimentos de angústia e de culpa como um composto químico, tratando-se sempre de atribuir sua formação a uma causa simples, e encontrando-a e eliminando-a devem também desaparecer todos os produtos da angústia e da culpa dela provenientes, e para que esse empreendimento teórico dê resultado a psicologia utiliza a mesma operação mental que deu frutos valiosos na ciência da chamada natureza inorgânica. 5. Também a psicologia vê a ordem meramente cronológica dos fenômenos como sendo uma cadeia causal, isto é, ela ainda os reinterpreta a priori como uma sequência de acontecimentos nos quais sempre o fenômeno anterior causaria e produziria o posterior, e de acordo com esse conceito básico certos psicólogos tomam também, por exemplo, a angústia de parto, por ser a primeira angústia na vida humana, como a causa primária das angústias posteriores, em primeiro lugar da chamada angústia dos oito meses dos lactentes perante estranhos, depois do medo dos objetos com os quais tiveram experiências desagradáveis, também do medo dos pais que repreendem, dos professores, das autoridades, do destino e finalmente, como exemplo, a causa até do medo de Deus. 6. Como por outro lado os pais incutem na criança os primeiros sentimentos de culpa através de ordens e proibições, constata-se também nesses produtos de adestramento levados de fora à criança a causa dos posteriores sentimentos de culpa que provêm da própria consciência, e com isso, dizem os psicólogos, as imagens dos pais repreensivos são projetadas cada vez mais para fora ao mesmo tempo que seus mandamentos e suas proibições são introjetados no próprio interior, na consciência ou no chamado super-ego, e seria então por isso que o ser humano se sente culposo e pecaminoso diante do seu professor, das autoridades e finalmente diante de Deus. 7. Alguns psicólogos remontam a cadeia causadora da culpa muito aquém dos próprios pais, até um suposto parricídio tribal histórico ocorrido na mais remota antiguidade, e devido a tais acontecimentos prévios o recém-nascido já traria consigo ao mundo, na psiquê, complexos preparados hereditariamente ou estruturas arquetípicas como causas primordiais dos sentimentos de angústia e culpa, mas essas hipóteses extremas e fantásticas não modificam em nada o caráter e a finalidade das teorias psicológicas, antes deixam transparecer com maior nitidez o quanto a psicologia se importa em encontrar até mesmo a primeiríssima e suposta causa própria da angústia e da culpa humanas para poder desmantelar psicoterapicamente seu efeito no chamado super-ego ou na consciência dos pacientes. 8. Mas o que se prestaria melhor para tal desmantelamento da angústia e da culpa do que justamente o conteúdo dessas hipóteses psicológicas, pois claramente elas provam aos sofredores o caráter meramente ilusório das ideias que os angustiam e dos escrúpulos que os censuram, desmascarando seu núcleo e sua causa como sendo um mero espantalho infantil precoce que se tornou infundado. 9. Entretanto, na prática psicoterápica essas teorias psicológicas não cumpriram de forma alguma as esperanças nelas depositadas, pois seu argumento principal do caráter ilusório dos sentimentos de angústia e de culpa fez tão pouco efeito que atualmente, ao contrário, cada vez mais psicoterapeutas abandonam suas hipóteses de angústia e de culpa como sendo ilusões, e de fato ninguém pode ainda realmente se tornar psicoterapicamente livre da angústia e da culpa baseado nas teorias psicológicas e da maneira como estas o prometiam, e particularmente ao método psicoterapêutico de desmantelamento da consciência resistem de modo tenaz os sentimentos escondidos de angústia e de culpa das atuais neuroses do vazio e do tédio. 10. E como poderia isso ser diferente, pois os psicoterapeutas que pensam de modo técnico-científico-cultural através das chamadas cadeias causais dinâmicas não sabem nada a respeito de sentido e meta, já que no mundo deles só existem conexões funcionais e causais de sentido independentes, calculáveis e preestabelecidas, e como é que daí eles poderiam remediar a tediosa insensatez da qual sofrem seus pacientes, quando muito podendo se consolar de sua impotência psicoterapêutica graças a novas hipóteses da causa, eventualmente procurando tal consolo na suposição de um instinto de morte excepcionalmente eficaz ou de um masoquismo moral primário congênito dele derivado. 11. Mas com uma tal proliferação de hipóteses eles fecharam ainda mais os seus olhos diante das perigosas armadilhas e dos curto-circuitos mentais inerentes às teorias de angústia e de culpa até agora vigentes, e por enquanto se deixam consolidar cada vez mais no insistente desviar de olhos do fato decisivo pela razão de que o princípio fundamental de suas teorias psicológicas já não se justifica por nada realmente palpável e demonstrável, pois por nenhum fato, seja ele qual for, pode-se provar que e por que um fenômeno biográfico, só por ser cronologicamente anterior, deva ser a causa efetiva e a própria realidade de tudo que o segue, como não seria permitido degradar todos os fenômenos que ocorrem posteriormente pelo mesmo motivo puramente cronológico a meros produtos secundários, a formações reativas ou sublimativas e a epifenômenos do anterior. 12. Só a regular sequência cronológica dos fenômenos constitui fatos observáveis e estabelecíveis, mas se projetamos nessa sequência cronológica qualquer relação derivativa então marcamos com isso todos os fenômenos posteriores como não sendo autênticos, sendo pois apenas derivações ou expressões dos anteriores, e dessa maneira abrimos mão de toda possibilidade de compreender as próprias coisas na sua realidade verdadeira e imediata, e indiscutivelmente tais teorias de causa e de expressão deixam também uma incerteza total acerca da natureza das causas, daquilo que se quer expressar e do que estas supõem estar por detrás dos fenômenos. 13. Todavia, no campo específico da angústia humana, é também pura especulação, sem nenhuma base perceptível, não se admitir como fenômenos genuínos e originais os temores do nada filosófico que aparecem bem tarde na vida humana, ou da perda do amor de Deus e com isso da vida eterna, não considerá-los da mesma forma como se consideram as angústias precoces da perda da integridade física, da perda do prestígio pessoal, dos bens materiais, ou ainda as angústias infantis mais precoces dos poderes instintivos e impulsivos, ou da perda do abrigo materno, ou até, caso isto exista, a primeiríssima angústia ao nascer. 14. A mesma objeção tem que ser levantada contra uma derivação causal de sentimentos de culpa que aparecem posteriormente aos anteriormente observados, pois também aqui inexiste base perceptível para tal procedimento. **TENTATIVA DE UMA NOVA REFLEXÃO** 1. Por tudo que se viu até agora fica claro o domínio quase que total, no campo da psicologia, psicopatologia e psicoterapia, da mentalidade dinâmica que objetiva o homem e que opera em cadeias de causa e efeito, e também não resta dúvida quanto a sua inerente inconsciência e falta de base, pois com a apressada elaboração de forças e causas que atuam por detrás dos fenômenos desde logo se perdem os próprios fenômenos de vista, e todas as explicações causais-genéticas psicodinâmicas degradam sempre o conjunto dado de fenômenos imediatos a algo meramente derivado, não autêntico, até irreal. 2. Por mais que as suposições racionais das psicologias ensinem uma manipulação hábil da psiquê humana, o dano que causa a desrealidade por ela provocada será necessariamente maior, num sentido essencial, do que seu possível proveito, e por isso para os psicoterapeutas nada se apresenta mais urgente do que desistir de uma vez por todas e com toda sinceridade de sempre decompor o ser humano com a ajuda de teorias psicológicas, tratando-se antes de recuperar o devido respeito diante da autenticidade e originalidade dada de cada fenômeno humano e de permitir que exista o que se manifesta como aquilo que ele mesmo revela. 3. Tampouco se pode continuar a incorrer no engano usual das atuais ciências naturais que quer fazer acreditar que as formas mais diferenciadas e mais ricas seriam constituídas de pré-formas ou parcelas mais simples a serem compreendidas através destas, pois ao contrário, partindo-se da coisa em si, é bem provável que os fenômenos do mundo cada vez mais desfraldados saibam dizer mais, e mais detalhada e distintamente, sobre sua essência do que os respectivos fenômenos ainda encobertos das crianças e dos animais. 4. Por isso também é preciso guardar-se de querer sempre explicar a priori os fenômenos de angústia e culpa humanos no pensar analítico com quaisquer causas meramente supostas por detrás deles, e antes interrogar os próprios fenômenos intactos de angústia e de culpa sobre o conteúdo que expõem imediatamente, e então se perceberá em primeiro lugar que toda angústia e toda culpa propõem duas questões fundamentais próprias de cuja resposta conveniente depende toda a compreensão de seu sentido, pois cada angústia humana tem um de que do qual ela tem medo e um pelo que pelo qual ela teme, e cada culpa tem um o que que ela deve e um credor ao qual ela está devendo. **A — DA ESSÊNCIA DA ANGÚSTIA** 1. O do que de cada angústia é sempre um ataque lesivo à possibilidade do estar-aí humano, e no fundo cada angústia teme a extinção deste, ou seja, a possibilidade de um dia não estar mais aqui, e o pelo que da angústia humana é por isso o próprio estar-aí na medida em que ela sempre se preocupa e zela só pela duração deste, e por isso as pessoas que mais temem a morte são sempre as mesmas que mais têm medo da vida, pois é sempre o viver da vida que desgasta e põe em perigo o estar-aí. 2. Com razão os zoopsicólogos e os pediatras dão grande valor à angústia da perda do abrigo familiar ou do cuidado materno, pois tanto para o animal, caso em que se pode falar dos tais significados antropomórficos, como para a criança, uma tal perda significa o maior perigo de vida possível, e dizem os zoólogos pesquisadores do comportamento que o animal experimenta o medo mais catastrófico quando se ameaça seriamente a segurança daquilo que ele julga ser seu ninho protetor. 3. Se os caçadores de coelho privam suas presas do abrigo de sua toca por meio de uma pequena fera, o furão, que eles introduzem à força no refúgio dos coelhos, a vida destes já está definitivamente aniquilada mesmo quando os coelhos assim expulsos não são abatidos mas aprisionados, pois por mais metodologicamente que sejam cuidados e alimentados em breve morrem de um Basedow de susto, de um dano irreparável da função tireoidiana provocado pelo medo sofrido, e se o abrigo e a segurança vital de um lactente humano não estão assegurados por ele estar rodeado de indiferença e até de rejeição em vez do amoroso cuidado maternal, também ele morre, pelo menos psíquica e afetivamente, já petrificado de medo quando mal começa a viver. 4. Todavia, por mais amparado que tenha sido o lactente, a criança brevemente terá que experimentar a angústia, ora em maior ora em menor medida, e esta é a chamada angústia interna instintiva, e mesmo uma criança de três ou quatro anos pode acordar sobressaltada noite após noite em virtude de nos seus sonhos ver aproximar-se sempre reiterada a mesma bola gigantesca e escura, acontecimento onírico que corresponde à aproximação turbulenta de todo o seu futuro humano, mas na sua fragilidade infantil ela ainda não se sente capacitada a aceitá-lo e carregá-lo, e por isso sonhando teme sua carga como uma monstruosidade esmagadora. 5. Nos pesadelos infantis com animais ferozes, assaltantes ou incêndios devastadores que de vez em quando perturbam as noites de praticamente todas as crianças, estas temem a destruição de sua situação humana regulada e conhecida no caos de forças compressivas, dominantes e incontroláveis de sua vitalidade natural, e não é difícil demonstrar também nas angústias doentias dos adultos, nas fobias patológicas, o mesmo medo da destruição da própria situação humana deles já conhecida. 6. Diante do aparecimento de uma cobra ou de um ratinho, desses seres que deslizam tenebrosamente e irrompem imprevisíveis da escuridão da terra, até diante da escuridão suspeita da noite, eles experimentam a possibilidade de poderes que os fazem temer a destruição de sua vida bem harmonizada, segura e convenientemente adaptada e de seu mundo estruturado, e além disso outros pacientes entram em sobressalto diante de facas, tesouras ou outros objetos pontudos, pois estes tornam óbvia a possibilidade de lesar e furar sua pele que os protege e ao mesmo tempo os molda, mas uma tal percepção é demais para pessoas cuja pele, num sentido humano mais amplo e figurado, de uma maneira ou de outra se tornou fina demais e já está rompendo. 7. Finalmente há pessoas que têm que fugir claustrofobicamente dos aposentos fechados de um teatro, pois vivências dessa forma de isolamento os fazem sentir de maneira insuportável a excessiva restrição e limitação de sua situação humana, e portanto essas chamadas angústias internas das crianças e dos adultos fóbicos também são sempre medos da destruição e do não-poder-mais-ser deles próprios. 8. O mesmo evidentemente é válido de maneira óbvia para as chamadas angústias reais, ou seja, as angústias nas quais uma criança começa a temer os objetos com os quais ela teve de fato experiências desagradáveis, pelas quais também os adultos têm medo de um leão solto ou de um inimigo humano mais forte, ou recentemente sobretudo da bomba atômica, só que no fundo a verdadeira e grande bomba atômica já estourou séculos atrás. 9. Fala-se daquela bomba atômica espiritual que começou a atomizar e pulverizar o mundo quando as ciências naturais analíticas declararam serem as coisas da terra e do céu um simples acúmulo de massas moleculares e de movimentos ondulatórios, e assim as destruíram como coisas que eram até então, e cabe perguntar se uma rosa vermelha continua sendo uma rosa vermelha se seu vermelho é tido no fundo como um mero feixe de ondas eletromagnéticas de frequência e amplitude mensuráveis, sendo que seu próprio vermelho é tido como uma ilusão do cérebro humano. 10. Não é de se admirar que logo no início desse apocalipse científico-mental e dessa realidade escavacada pela técnica surgisse uma crescente necessidade de segurança, e por isso foi também um dos primeiros pensadores científico-naturais, a saber, Leibnitz, quem concebeu a ideia do seguro de vida. 11. No entanto, que outra coisa, a não ser essa angústia maior e mais atual, poderia trazer à luz com maior clareza e insistência o fato de que ela é sempre medo da morte, medo pelo estar-aí e medo da destruição deste, pois de nada o ser humano tem tanta certeza como de que um dia ele tem que morrer, e portanto o ser humano terá durante toda a vida razão suficiente em temer pela sua vida e em ter medo de sua morte e do seu não-poder-mais-ser, e portanto a angústia é necessariamente inerente à vida como um dote do estar-aí do qual não é possível, nem psicoterapicamente, se livrar, e então cabe perguntar o que se passa com a culpabilidade humana. **B — DA ESSÊNCIA DA CULPABILIDADE** 1. De imediato os sentimentos de culpa não podem ser distinguidos tão facilmente do medo de castigos, pois durante muito tempo vê-se os filhos se tornarem conscientes de culpa apenas quando não cumprem uma ordem ou quando transgridem uma proibição e por isso com razão esperam um castigo, e no entanto também mais tarde a culpa e o medo do castigo ainda continuam intimamente ligados, e mesmo atrás da obediência que os seres humanos devem a seus deuses ou a seu deus continua o medo de castigos infernais. 2. Não só as igrejas cristãs ameaçam seus fiéis culposos com o diabo, pois já muito antes destas as antigas escritas hindus advertiam os carregados de culpa com quadros infernais que se assemelham até nos detalhes à organização do posterior inferno de Dante, e nem se fala das obrigações que os povos atuais devem aos seus governos e às suas ideologias, e cabe perguntar quanto medo de dano ou de aniquilação social ou até física está na raiz do agir correto e consciente de culpa. 3. A partir disso poderia parecer evidente o ponto de vista das psicologias naturalistas segundo o qual não existe a tal culpabilidade original, genuína e própria do ser humano, sendo todos os sentimentos de culpa incutidos de fora, e muitos que pensam assim creem poder fundamentar suas precipitadas teorias com dois argumentos importantes. 4. Primeiro, eles apontam a semelhança ou até a concordância entre as imagens divinas e as das autoridades que várias pessoas têm com a imagem do caráter dos próprios pais destas, até a própria língua falando, por exemplo, de um pai-estado e de uma mãe-igreja, e em segundo lugar, dizem eles, haveria indubitavelmente pessoas que conseguiriam resistir à imposição de sentimentos de culpa de fora, pessoas que gozam a vida plena e egoisticamente sem escrúpulos num estado original de não-culpa, e até a psiquiatria se viu na contingência de criar uma rubrica própria para estas pessoas e as classificou como casos de idiotia moral mais ou menos acentuada. 5. Na verdade esses argumentos e essas tentativas de derivação da culpabilidade humana não têm pé nem cabeça, pois já se mencionou que todas elas se baseiam na aplicação errônea daquela operação mental científico-naturalista que quer declarar como sendo o anterior a causa efetiva do posterior só pelo fato de ter surgido antes, e além disso, visto de perto, uma teoria que acredita poder transformar por meio de qualquer pressão exterior um fenômeno de angústia, partindo-se dele mesmo, num sentimento de culpa corresponde a pura magia, a não ser que realmente alguém soubesse dar uma resposta satisfatória à pergunta de como se poderia suceder uma tal transformação de angústia em culpa, pois uma crescente pressão externa de coisas sempre mais temíveis provocará apenas angústia e cada vez mais angústia. 6. Igualmente desgastado é o argumento que indica a concordância dos sentimentos de culpa de muitos dos chamados cidadãos adultos em relação às suas autoridades políticas, de muitos dos fiéis aparentemente maduros em relação aos seus sacerdotes, com os sentimentos de culpa das crianças em relação a seus pais, pois cabe perguntar se o fato de muitas rosas não crescerem além do estado de botão e morrerem como botões serve como argumento de que fundamentalmente, na realidade, todas as rosas inteiramente desabrochadas seriam somente botões deformados de rosas. 7. Por outro lado, cabe perguntar se um poder-se-sentir-culpado maduro diante do seu deus, ou do seu destino, ou do seu ser-humano, será inautêntico, derivado, deslocado e projetado só porque numa criança também pode acontecer um estar-culpado diante do pai, e se o fato de que os sistemas solares infinitamente grandes com os seus planetas se parecem tanto com as proporções infinitamente pequenas do átomo com o seu núcleo e os seus elétrons seria uma prova de que aqueles, os sistemas solares, são apenas ilusões do espírito humano, imagens dos átomos da matéria terrestre projetados na abóbada celeste. 8. Até o segundo argumento, que quer provar o caráter meramente secundário de todos os sentimentos de culpa humanos dando destaque ao surgimento da idiotia moral, se parece com a tentativa ridícula de querer entender a essência humana através de uma outra forma defeituosa, ou seja, a ainda mais divulgada idiotia mental. 9. Mesmo que as angústias apareçam biograficamente bem antes que os sentimentos de culpa, mesmo que as formas tardias dos fenômenos de culpa humanos se pareçam muito com as formas precoces dos mesmos, o próprio poder-se-sentir-culpado dos seres humanos permanece em cada fenômeno de culpa num estar-culpado autóctone de originalidade e essência próprias, e se não pertencesse à essência do ser humano o poder-ser-culpado como tal, como um traço básico próprio e totalmente original, jamais um pai poderia tornar consciente de culpa um filho obstinado, nem um sacerdote um fiel omisso, nem um chefe capitalista um empregado negligente, nem um comissário do povo um camarada que não cumpre o plano. 10. Por isso, ao contrário de todas as expectativas depositadas nas teorias naturalistas, nenhuma psicanálise conseguiu que um analisando se sentisse real e basicamente livre de culpa, e quando muito as psicoterapias conseguem uma alteração dos conteúdos concretos dos sentimentos de culpa dos pacientes, mas nunca um reconduzir do ser humano ao estadoístico, não existente na realidade, que não tivesse escrúpulos, e mesmo assim até Freud ainda considerava a mentalidade da criança e a de um assim imaginado selvagem como sendo o estado original, próprio e ainda intacto do ser humano. 11. Daí ter-se renunciado de uma vez por todas às tentativas desesperançadas da explicação da culpa, e nunca mais se atribuirão os sentimentos de culpa que aparecem mais tarde a sentimentos de culpa que se mostram biograficamente antes, e não se fará destes por sua vez produtos enigmáticos transformadores de angústia, e não se quererá remontar novamente até as mais precoces angústias de algo, por exemplo até às causas energético-libidinais, e só se fará justiça tanto à angústia como à culpabilidade humanas se deixarmos cada fenômeno de culpa concreto, seja ele como for, assim como ele se mostra de imediato, mas investigando com um cuidado ainda maior sua própria essência. 12. Nisto a própria língua alemã dá uma indicação, pois Schuld deriva da palavra do antigo alto-alemão Sculd, mas arcaicamente Sculd apenas significava aquilo que carece e falta, e realmente algo sempre e perpetuamente falta na vida do ser humano, pois a criança deve respeito e obediência ao pai, mais tarde o jovem deve ao professor o cumprimento das lições, o adulto deve ao estado moderno a ajuda para o aumento do potencial econômico dos meios de produção, o fiel está em falta com o cumprimento dos preceitos religiosos, o descrente deve ao destino o suportar de toda uma vida, e pelo menos quase todos os descrentes agem como se também para eles valesse a antiga parábola dos talentos enterrados, e parece então que até sua morte o ser humano não consegue chegar ao fim livre do estar-culpado, tal como parece acontecer com a angústia. 13. Angústia e culpa seriam então hipotecas igualmente pesadas, árduas e esmagadoras do estar-aí humano, cargas inevitáveis desde a infância que não podem ser liquidadas no decurso da vida. **O CAMINHO PARA A LIBERTAÇÃO** **A — DA SUPERAÇÃO DA ANGÚSTIA** 1. Se for assim, decerto todos os esforços psicoterápicos continuarão sendo para sempre empreendimentos vãos e desesperançados, mesmo que sejam promovidos muitos Congressos Internacionais em honra da psicoterapia, e apesar disso cabe perguntar se existem caminhos que conduzem à libertação. 2. Já se disse que toda a angústia é fundamentalmente medo da morte, do não-poder-mais-estar-aqui, e a morte, face à essencial limitação do ser humano, está inevitável e constantemente diante de nós, mas cabe perguntar como se explica haver mesmo assim pessoas sem angústia, pessoas que morrem sem angústia, realmente sem angústia, não se tratando daquelas que apenas escondem suas angústias por trás de barulhentas ações de valentia e agressão. 3. Por exemplo, vêem-se algumas crianças expirar a vida sem angústia, quietas e com um sorriso feliz, e cabe perguntar se elas não sabem o que a morte propriamente significa, se de fato se trata do seu próprio ocaso, e todavia também adultos, por exemplo aqueles que amam profundamente e que conhecem muito bem o significado da morte, sacrificam a vida alegremente, e quanto ser humano jovem e cheio de vida já tomou a seu cargo sem angústia a morte pelo amado ou pela amada. 4. Diz-se que também os heróis sacrificam a vida sem medo algum por amor à pátria ou a uma ideologia política ou a um futuro melhor para a humanidade, e para inúmeros santos a morte pela honra de seu deus foi pura alegria, e também parece pertencer à vida humana esse contrapoder à angústia que se manifesta nos fenômenos do amor, da confiança e do estar-abrigado, mas não a coragem, pois esta só está onde ainda domina a angústia e pode enfrentá-la, e onde não há angústia a ser superada não é precisa coragem, mas onde reinam o amor, o estar-abrigado e a confiança toda angústia pode desaparecer. 5. No entanto, cabe perguntar se não existiria também para os que amam e para os que confiam a certeza do ter-que-morrer-uma-vez, certeza daquela possibilidade que o angustioso teme tão terrivelmente como sendo o fim do seu poder-existir, e certamente o que ama sabe disso tão bem como o angustioso, mas o ser humano só pode temer mortalmente por aquilo que ele considera o seu estar-aí e o seu poder-ser. 6. E cabe perguntar se aquele que ama e que confia souber sentir outra coisa, e muito mais, em relação ao poder-ser-humano, e se ele souber experimentar as possibilidades do ser humano de forma diferente e mais rica do que o angustioso, o qual hoje mais do que nunca se aflige e teme pela sua vida, pelo poder-continuar do seu Eu, teme por sua subjetividade e por sua personalidade. 7. É possível que incontáveis seres humanos reajam em suas angústias mortais aproximadamente como se sua essência se assemelhasse à pele velha de uma cobra que está na época da muda, pois do ponto de vista da pele que se torna apertada demais, que se arrebenta e perece, o trocar de pele é realmente um acontecimento catastrófico que essa pele de cobra tomaria, e com razão, como sendo o ocaso definitivo, pudesse ela compreender toda a essência da cobra em si mesma, enquanto pelo contrário o processo de trocar a pele é para a cobra como tal e no seu todo o oposto de um morrer, é um criar espaço para seu crescer e amadurecer. 8. Sobre a essência da costumeira angústia humana os sonhos ensinam ainda mais, pois se cada psicoterapeuta só ficar atento para isto pode fazer quantas vezes quiser a experiência aparentemente paradoxal de seus analisandos sonhando angustiados com o próprio ter-que-morrer justamente quando se encontram no início de uma nova fase de cura e desdobramento, e como ilustração pode-se dar o esboço curto da sequência de sonhos de uma jovem mulher de 25 anos. 9. No início de sua psicoterapia, enquanto a paciente ainda era um ser neuroticamente atrofiado e humanamente atrasado, aparecia sempre em seus sonhos a mesma figura feminina, pois ela encontrava uma mulher envolvida em cinza-escuro e, julgando-se pelo aspecto externo, já de uma idade madura, aparentando grande vitalidade e forte autoconfiança, e a partir de uma certa fase de seu tratamento essa Deusa do Destino, como a sonhadora chamava a sua mulher do sonho, aparecia repetidamente como juiz e regularmente condenava a paciente à morte por causa de um crime grave mas desconhecido. 10. Durante muito tempo esses sonhos terminavam quando a sonhadora acordava em sobressalto, banhada em suor de angústia da morte, imediatamente antes de sua execução, mas durante a continuação do tratamento essa Deusa do Destino se tornava cada vez mais amável, descobria sua forma a olhos vistos e aparecia logo como mulher convidativa, madura e cheia de vida, que queria levar a sonhadora para viajar, e numa noite ela até apareceu à sonhadora medrosa como sua própria irmã gêmea, inexistente na vida acordada, a qual a ajudava a costurar o enxoval. 11. Daí por diante e através da mulher do sonho a paciente podia reconhecer e dar boas-vindas à possibilidade de seu próprio estar-maduro feminino, mas antes disso em seus sonhos ela só podia temer o ocaso necessário da sua antiga condição infantil, estreita e escondida, exigida pelo amadurecimento e desdobramento de sua existência, como sendo uma apavorante destruição total, e um grande e paciente trabalho psicoterápico teve que ser realizado até que a paciente pudesse reconhecer no ter-que-morrer do antigo sua libertação para um estar-aí amplo e são. 12. O motivo onírico do crime apontado pelo qual a sonhadora se sentiu culpada nas cenas de tribunal deve ser deixado de lado por enquanto, pois ainda não se está suficientemente preparado para sua compreensão. 13. Contudo, não mais se atribuirá a priori o morrer sem angústia de algumas crianças a uma noção demasiadamente limitada da essência da morte, e antes se começará a indagar se, ao contrário, essas crianças não seriam capazes de sentir essencialmente mais em comparação com aquilo que sente o adulto que morre angustiado, envolvido na sua subjetividade. 14. Do mesmo modo se poderia mostrar àqueles que amam despertos e adultos a essência do estar-aí humano na abertura de seu amor, e numa forma que abrange mais e mais sinceramente do que seria possível aos que estão envolvidos pelo angustioso cotidiano, pois cabe perguntar se a palavra alemã Angst não está ligada à latina angústia e à grega ancho, à estreiteza, ao apertado e estrangulado, e portanto parece que o próprio nome angústia indica que o estar-aí, quando está em consonância com a angústia, só pode ser visto como algo estrangulado. 15. De fato a angústia do ser humano atual costuma retroceder tanto sua autocompreensão e limitá-la de tal forma que ele compreende a si próprio apenas como uma gota d'água solitária, trêmula, suspensa no ar, mas o oceano do qual ele provém e ao qual ele pertence devido a sua essência este ele não pode nem suspeitar, e ao contrário, na condição do amor o estar-aí está aberto a uma experiência totalmente diferente, experiência que permite reconhecer aquilo que os seres humanos normalmente chamam de morrer como sendo o contrário do não-poder-mais-estar, como sendo um íntimo abrir-se e aprofundar-se no amado como um todo. 16. Por conseguinte a angústia cotidiana dos seres humanos pode ser anulada na experiência amorosa do pertencer imediato a um fundo inabalável e basilar, e pode até dar lugar a uma expectativa alegre, porque na experiência do amor o morrer da condição físico-psíquica da vida trivial e diária é entendido como sendo bem diferente de uma destruição, como sendo uma passagem para uma experiência mais rica e mais aberta. 17. Mas o angustioso que quer marcar e degradar essa experiência amorosa encarando-a como mera ilusão, um ideal metafísico, não deveria esquecer que ele não pode provar de forma alguma e por nenhum meio, menos ainda com teorias científico-psicológicas, a realidade supostamente maior e mais real de seu círculo de experiência estreitado pela angústia, e pior do que isso, um tal angustioso não faz justiça à própria angústia humana e ainda não sentiu nem de longe sua verdadeira mensagem. 18. Pois ele não seria angustioso dessa forma se não tivesse deixado atrofiar psicologisticamente sua própria angústia, se não pudesse vê-la exclusivamente da perspectiva reduzida de um subjetivismo moderno centrado na chamada personalidade humana, mas se alguém se mantém realmente aberto à essência total e não disfarçada da angústia é aí justamente que ela abre aos seres humanos aquela dimensão de liberdade na qual, e só então, se possibilita o desdobrar das experiências do amor e da confiança. 19. Pois a angústia, liberada da mesquinhez subjetivista, do mesmo modo que o amor, leva o estar-aí humano não só à possibilidade do maior e do mais rico, mas também imediatamente à possibilidade do totalmente diferente diante de tudo que antes de mais nada é e que como algo que é tem ainda assim seus limites restritivos, ou seja, ela ainda abre para a dimensão bem diversa do Não-Estar, do Nada, mas daquele grande nada que, ao contrário do vazio da nulidade meramente nihilista, abriga tudo dentro de si e de tal forma que ele tanto pode encobrir como também desvelar-nos e desvelar as coisas do mundo, e por isso a angústia vivida em sua mais profunda essência não só não contradiz o amor como sendo seu contrapoder, mas até o pressupõe e o possibilita. **B — DA SUPERAÇÃO DA CARGA DE CULPA** 1. Mas a culpabilidade ainda permanece, e cabe perguntar se também ela, como a angústia, pode ser superada, e o que é que ela propriamente deve em todos esses milenares sentimentos de culpa padronizados e patológicos, no sentimento de culpa da criança diante dos pais e dos professores, no dos adultos em seu relacionamento com o próximo, com o estado, com Deus, com o destino, com a vida, e quem é o credor específico dessas culpabilidades. 2. Como a culpa é aquilo que carece e falta, a essência da culpabilidade humana só pode ser entendida face à plenitude e realização da existência humana, e nesse sentido é preciso saber como andam as compreensões psicológicas e médicas da condição total da essência humana, e é provável que elas nunca tenham sido tão escassas como nos dias de hoje. 3. Os atuais filósofos, psicólogos e biólogos baseiam sempre suas determinações da essência humana a princípio em múltiplos conceitos e ideias completamente confusas, pois uns iniciam seu conhecimento do ser humano com a suposição de ser ele no fundo somente um organismo biológico e físico no qual está apenso um produto de secreção, um epifenômeno mais ou menos insignificante, a psiquê, outros declaram ser o ente humano um produto de adição de dois órgãos, corpo e alma, e outros ainda introduzem em sua ciência do ser humano o conceito básico e essencial de um Eu, de um sujeito, de uma pessoa, mas todos eles esquecem de esclarecer o que seriam no fundo essas coisas das quais fazem os conceitos básicos de suas doutrinas. 4. Em vão se procuram em seus escritos discussões satisfatórias sobre a condição básica e a natureza desses organismos, órgãos, Eus, sujeitos e pessoas, que fariam entender por que o ser humano com a ajuda deles só pode proceder da maneira como ele de fato faz e por que, entre outras coisas, ele eventualmente é capaz de se sentir culpado, e por isso, se para a compreensão da culpabilidade humana se quer criar bases realmente fundamentadas, não se pode dispensar o reinício de todo o pensar sobre o ser humano. 5. É preciso perguntar, por exemplo, como sou eu, de que espécie somos nós, para que possa acontecer tão simples como o fato de eu, logo ao entrar nesta sala, ter podido vê-los e entendê-los como meus ouvintes co-humanos e, do mesmo modo, os senhores terem podido me ver imediatamente como sendo o conferencista desta noite, e os senhores sabem que a tentativa de explicação mais primitiva, puramente biológica, opera baseada na afirmação de que a retina seria estimulada pelos raios de luz que emanam dos objetos do mundo externo, e então esses estímulos da retina seriam conduzidos para cima até o córtex, onde seriam transformados em imagens e pensamentos. 6. Mas com isso os biólogos ficam devendo justamente a resposta à questão decisiva de como se procede tal transformação de processos estimulantes físico-químicos nas células cerebrais em conteúdos espirituais significativos e numa compreensão dos fenômenos como aquilo que são, e se os senhores só aceitam aberta ou veladamente a possibilidade de um semelhante processo de evaporação, os chamados pesquisadores científico-naturais movem-se num mundo de imagens totalmente mágicas, e no entanto aí onde o ser humano é visto primariamente como um organismo psíquico-físico, um sujeito ou uma pessoa, continua inexplicada a questão decisiva de como e por que essas formações de natureza desconhecida conseguem, partindo delas mesmas, dar um passo até os objetos do mundo, compreendê-los e entendê-los. 7. Felizmente a experiência própria e imediata mostra que não é preciso transcender do ser humano do interior de uma psiquê, de um sujeito ou de uma pessoa, porque não existe tal interior, pois os senhores mesmos dizem o que aconteceu propriamente quando nos encontramos aqui há uma hora, e certamente os senhores não se descobriram como entes que estariam por enquanto encerrados em organismos físicos delimitados por uma pele, nem os senhores existiriam primariamente dentro de um Eu, de uma psiquê, de um sujeito ou de uma pessoa, recipientes psíquico-físicos dos quais tiveram que sair antes de chegar até mim com sua compreensão. 8. Tampouco eu me vivencio como algo contido dentro do meu corpo, de mim mesmo, pois antes de tudo, antes do início, já estivemos fora, presentes no espaço deste auditório, estirados na abertura deste âmbito do mundo aberto e aclarado a nós na compreensão do encontro comum, e antes de tudo nós já nos encontramos com as mesmas coisas que nos interessam aqui e agora, isto é, com a angústia vital, com os sentimentos de culpa e com a libertação psicoterápica. 9. Assim, pois, existimos sempre e fundamentalmente como seres humanos nesta ou naquela relação com uma coisa que encontramos, com uma planta, com um animal ou com o próximo, e somente a relação compreensiva na qual o que encontramos pode aparecer como aquilo que originalmente é, relação na qual a coisa pode revelar-se e mostrar-se nas suas conexões significativas, é que é perceptível, e por isso ainda hoje tudo que é perceptível é chamado de fenômeno, uma palavra que deriva do grego phainesthal e que significa nada mais do que aquilo-que-se-mostra. 10. Mas onde algo pode revelar-se, pode aparecer, pode mostrar-se e pode fazer-se compreender é preciso desde o início que haja uma luz, uma claridade, um âmbito de claridade dentro do qual pode acontecer um semelhante revelar, aparecer e poder-ser, e por isso a experiência mais original e concreta nos permite entender que a condição básica do ser humano é nem uma claridade da qual os fenômenos do mundo necessitam para poder aparecer e ser dentro dela, ou seja, de acordo com a percepção imediata o ser humano se mostra como aquele ser do qual o nosso mundo precisa como o âmbito de claridade necessário para poder aparecer e poder-ser. 11. Justamente esse deixar-se-necessitar, e nada mais, que o ser humano deve àquilo que é e que há de ser, é por isso que todos os sentimentos de culpa baseiam-se nesse ficar-a-dever, e ficar-a-dever que é, se os senhores quiserem, a culpabilidade existencial do ser humano, pois não há consequentemente nenhum fenômeno da consciência humana que não deva e não possa ser entendido no fundo como um chamado e uma advertência para cumprir a missão humana de guardião e pastor de tudo aquilo que tem que aparecer, que ser, e que quer se desdobrar na luz de uma determinada existência humana. 12. Por isso agora é fácil entender a culpa inexplicavelmente pesada nos sonhos da paciente, aquela pela qual ela tinha que se justificar reiteradamente diante da sua Deusa do Destino como juiz, pois naquele tempo, aquela mulher em sua atrofia e seu recolhimento neurótico de fato ficou devendo muitíssimo à realização de suas possibilidades vitais, e foi com isso que ela realmente cometeu o crime dos crimes em relação à sua vida, mas na medida em que se recuperava pouco a pouco no tratamento psicoterápico e o seu agir e não-agir desperto correspondia amplamente dentro de suas possibilidades às reivindicações de tudo que encontrava, as severas acusações oníricas cessaram pronta e definitivamente. 13. Decerto, diante de tal fundo, a culpabilidade humana não pode mais ser reduzida a sentimentos de culpa psicológicos meramente subjetivos ou até adestrados de fora que possam ser eliminados analiticamente, pois o ser humano é essencialmente culpado e assim permanece até sua morte, já que sua essência não se realiza antes dele ter levado a termo todas as possibilidades de exploração provenientes de seu futuro e antes dele ter deixado desabrochar os âmbitos do mundo que aparecem na luz de sua existência, mas o futuro do ser humano ele só o alcança completamente no momento da morte. 14. Contudo o ser humano pode também fechar-se diante das reivindicações daquilo que vem ao seu encontro, e justamente a possibilidade de corresponder ou de esquivar-se àquela reivindicação das coisas forma a característica básica da liberdade humana, mas se ele assume livremente seu estar-culpado diante das possibilidades vitais dadas a ele, se ele se decide nesse sentido a um ter-consciência e um deixar-se-usar adequado, então ele não mais experimenta o estar-culpado essencial da existência humana como uma carga e uma opressão de culpa, pois carga e opressão serão superadas pela vontade que deixa feliz de estar à disposição, sem reservas, de todos os fenômenos, como seu guardião, como seu âmbito aclarador de aparecer e desfraldar. 15. Ao estar-solicitado e ao estar-chamado por tudo aquilo que quer aparecer na luz de sua existência abre-se também ao ser humano o inesgotável sentido de sua própria existência, e é desse sentido que se determina por ele mesmo o procedimento moral do ser humano, sem ser preciso acrescentar ao seu agir valores éticos ulteriores e sem fundamentos. 16. Como antes se viu a angústia superar a si mesma e renunciar a sua estreiteza, assim também se vê o estar-culpado humano perder seu caráter opressivo de carência, e aqui como lá era preciso que a compreensão ultrapassasse um pouco o subjetivismo metafísico da atual psicologia. **A NOVA REFLEXÃO COMO FUNDAMENTO DAS POSSIBILIDADES DE LIBERTAÇÃO PSICOTERÁPICA** 1. As visões da essência de angústia e culpa humanas tratadas até agora podem se tornar os fundamentos básicos da libertação psicoterápica dos pacientes das amarras de seus sintomas psiconeuróticos, e acha-se até que nenhum psicoterapeuta, caso ele mereça ser assim chamado, pode dispensar totalmente tais noções. 2. Existem contudo médicos de renome e até filósofos que afirmam exatamente o contrário, advertindo os psicoterapeutas por se ocuparem com questões sobre a essência e sobre a existência dos seus pacientes, e esses filósofos dizem que os psicoterapeutas devem se limitar a reparar uma a uma as funções psíquicas assim como os médicos fazem com o corpo humano doente, mas cabe perguntar se pode haver maior absurdo e impossibilidade do que isto. 3. Pois cabe perguntar se o simples fato de levar até o paciente essa concepção, concepção que presume a existência de funções psíquicas isoladas e que podem ser tratadas psicoterapeuticamente em separado, já não implica num procedimento altamente filosófico, e ao mesmo tempo se não se trataria de uma intervenção muito radical na existência daquele que pede ajuda, só que tal intervenção filosófica existencial estaria baseada numa definição da essência que mutila o homem e que portanto jamais poderia dar resultado terapêutico. 4. Mas não são apenas certos filósofos insensatos que não querem que os psicoterapeutas se intrometam nos negócios deles, pois alguns teólogos acham que devem proibir uma participação nos pensamentos e nas ideias religiosas que aparecem no tratamento psicoterápico dos pacientes, entretanto eles não mostram nenhum caminho que permita cumprir sua proibição sem graves danos para os pacientes. 5. Se se instruem os pacientes a não dizer nada a respeito de suas experiências e preocupações religiosas, mas pelo contrário a levá-las unicamente ao padre, aí se fere a regra básica da psicoterapia, a da veracidade sem reservas diante do psicoterapeuta, e isso de uma forma que põe mais do que em dúvida qualquer êxito substancial de um tratamento psicoterápico, e além disso se imporá aos pacientes nada menos do que dividir-se entre os cuidados de uma cura d'alma e os de um psicoterapeuta, e por isso os padres têm que conceder que o assunto religioso venha também a ser discutido no tratamento psicoterápico onde e como ele queira se mostrar, sendo evidente que diante disso o psicoterapeuta deve proceder da mesma forma como diante dos outros fenômenos humanos que aparecem no tratamento, ou seja, tem que tratá-lo também com o devido respeito e conceder-lhe o espaço exigido no todo da existência do paciente. 6. Uma outra questão que toca a prática psicoterápica nos seus pormenores diz respeito à forma pela qual se pode levar os pacientes a participar das compreensões da sua natureza humana básica e assim superar toda a opressão da angústia e da culpa, e decerto nunca deve bastar um apelo intelectual à razão e ao raciocínio ou um evocar do tópico atual existência, pois isso significaria um retrocesso grave da psicoterapia à época pré-freudiana. 7. Pois não é a cabeça e o intelecto dos pacientes, mas seu coração que está trancado e estrangulado pela angústia, e por isso para eles todas as palavras, mesmo as mais sensatas, continuam palavras ao vento, e as provas mais comoventes da insensatez e até da nocividade desse procedimento psicoterápico intelectual que apela para a razão e para a responsabilidade podem talvez ser encontradas na Índia, a saber, na maneira pela qual alguns europeus que pretendem se libertar da prisão de suas neuroses ocidentais abraçam o estudo da filosofia hindu ou então querem alcançar sua salvação no Nirvana budista. 8. Neles o resultado nada mais é do que uma acrobacia intelectualista lastimável e quimérica, o contrário de toda libertação e salvação, pois eles não sabem que o caminho hindu para a salvação, para não levar à perdição, já pressupõe uma disposição mental totalmente diferente daquela que eles carregam para o oriente, e esses coitados lembram um construtor que quer salvar da ruína uma casa que está podre até os alicerces mediante uma renovação isolada do andar superior. 9. Como psicoterapeutas, é preciso abster-se sobretudo do agir presunçoso de levar da própria parte quaisquer máximas e dogmas aos pacientes, e é preciso contentar-se em remover do caminho aqui e ali uma pedrinha, um obstáculo, para que aquilo que já está aqui e que sempre formou a essência do paciente possa sair por si ao aberto de sua reserva até agora mantida. 10. Com isso a meta mais alta da psicoterapia é sempre a abertura dos pacientes para a capacidade de amar e confiar, a qual permite superar toda a opressão da angústia e da culpa como sendo meros mal-entendidos, e uma tal confiança pode bem ser considerada como o amor humano mais amadurecido, mas os doentes só chegam até ele através da mesma forma que se procede em geral o amadurecimento humano. 11. Via de regra isso acontece em primeiro lugar através da experiência física, concreta, de uma dedicação materna amorosa, suficiente e inabalável, e os pacientes não estariam doentes se não tivessem tido muita falta dessa experiência básica, só que essa carência que deixa doente não depende apenas de quanto amor, apoio e confirmação as mães tiveram condições de dar, depende também da necessidade altamente diversa de amor das crianças, e na psicoterapia trata-se de deixar que os pacientes recuperem inicialmente a experiência que lhes faltou, mas que no fundo é indispensável, da dedicação protetora e inabalável, do cuidado e amor na medida correspondente à essência singular dos pacientes. 12. É indiscutível que nenhum psicoterapeuta pode conseguir isto transformando-se numa espécie de matrona ou ainda querendo desempenhar o papel de mãe, mas há uma dedicação co-humana especial do psicoterapeuta para com seus analisandos que não existe a não ser na situação analítica, e esse específico Eros psicoterápico é diferente do amor dos pais para com os filhos, diferente do amor entre dois amigos, diferente do amor do sacerdote para com os seus fiéis, ainda mais diferente do amor tão variável entre os sexos, como também não se assemelha à indiferença pragmática da amabilidade convencional. 13. Certamente a particularidade do Eros psicoterápico ainda não foi descrita suficientemente do ponto de vista científico-fenomenológico nos compêndios de psicoterapia, e não pode também ser aprendida nos livros, pois quase sempre se chega a ele através da experiência imediata de uma análise didática, e todavia Freud já salientou em formulações insuperáveis os traços essenciais dessa forma particular do afeto co-humano da qual um psicanalista tem que ser capaz, escrevendo que uma psicoterapia terá o melhor êxito se ela se suceder como que sem querer, destituída de toda ambição egoísta, de toda cobiça de sucesso, seja ela de forma terapêutica, pedagógica ou científica. 14. O psicanalista não deveria também tirar quaisquer outros proveitos do relacionamento do paciente para com ele, mesmo se este lhe oferecer tais proveitos com a maior solicitude, senão toda a responsabilidade do fracasso do tratamento recairia sobre o analista, e disso se excluiria unicamente uma recompensa financeira adequada, a qual livraria o psicoterapeuta da preocupação com a sua vida cotidiana e com isso o deixaria realmente livre para a dedicação co-humana, verdadeira, equilibrada, imperturbável para com o paciente. 15. Em outras palavras, o verdadeiro Eros psicoterápico tem que se distinguir por sua abnegação, disciplina e respeito diante da própria essência do analisando, nunca praticada fora dali, e que não se deixa desconcertar na sua estabilidade e durabilidade por uma conduta amável, indiferente ou hostil do analisando, e o Eros psicoterápico tem ainda que superar por um grau a humildade cristã em abnegação e autossuperação, de modo que ele não possa intervir no interesse de um deus próprio e querer orientar a vida do analisando por este. 16. Só quando o psicoterapeuta é capaz disso a abertura do espaço co-humano permite que os pacientes adquiram a disposição de estender novamente seus tentáculos e se relacionar, em responsabilidade própria, em relacionamentos cada vez mais livres e amplos com o mundo, e também disso Freud já tinha conhecimentos muito exatos, e por isso exigiu literalmente do psicanalista praticante, aliás em contradição crassa com sua própria teoria estritamente determinista, que ele conceda ao seu paciente no relacionamento médico-paciente um campo livre no qual este possa reconhecer, experienciar e apropriar-se sem perigo de seus impulsos e de suas ambições até então enterradas e que possa reuni-las para um poder-ser autêntico. 17. Mas Freud adverte logo a seguir que nisto o médico tenha o cuidado de não substituir as distorções anteriores e reduções neuróticas humanas abolidas por seus preconceitos emocionais ou intelectuais, e só uma intenção pérfida pode interpretar essa regra básica da psicoterapia como sendo um convite para um viver desenfreado dos instintos, pois a realidade é que no campo livre da situação analítica, apoiado por dedicação genuína e amor abnegado ao próximo, efetua-se nos pacientes passo a passo como que por si mesmo um abrir-se do recolhimento infantil para possibilidades de amor cada vez mais maduras, contanto que a essência do paciente só esteja equipada com os respectivos potenciais de desdobramento. 18. Futuramente teremos que seguir a regra terapêutica básica de Freud ainda com mais fidelidade do que o próprio Freud pôde fazê-lo, preso que estava às teorias naturalistas, e seremos mais freudianos que Freud se, por exemplo, concedermos a mesma autenticidade, genuinidade e realidade às experiências religiosas ou espirituais dos pacientes que aparecem no tratamento como aos fenômenos da chamada esfera dos instintos, e teremos a cautela de não desclassificar estes em favor de um preconceito da teoria psicanalítica secundária a produtos de sublimação meramente derivados de uma libido instintiva. 19. Ao contrário, teremos decerto que considerar como blasfêmia não menos grave a eventualidade de os pacientes quererem condenar e negar sua condição física e sensual como sendo invenções impuras e diabólicas, pois com isso eles se intrometem nos negócios de Deus tanto quanto os ateístas o fazem ao eliminarem os fenômenos espiritual-religiosos, e até a Bíblia chama o corpo de templo do Espírito Santo proveniente de Deus. 20. Por isso temos que indagar em trabalho minucioso e paciente acerca de todas as restrições e distorções neuróticas, seja em que relacionamento de meio ambiente, co-humanos ou religiosos se mostrem essas barreiras, e então conseguiremos livrar muitos pacientes dos tormentos de seus sentimentos de culpa neuróticos, mas justamente nisto chegamos a conhecer de forma mais impressionante e verdadeira o estar-culpado básico do ser humano. 21. Um exemplo disso é que se pode ter imposto a um ser humano desde pequeno uma moral que impede e mutila sensivelmente sua essência entendida como um todo na sua realização, por lhe ter sido ensinado a encarar as possibilidades de relacionamento físico, animal e sensual de seu poder-existir como sendo fundamentalmente pecaminosas e que portanto devem ser reprimidas, e esse ser humano torna-se culpado de sonegar âmbitos do mundo muito essenciais, pois ele se fecha ao apelo de tantos fenômenos aos quais caberia no fundo o direito a um poder-aparecer na luz de sua existência. 22. Cada ser humano, a não ser que tenha predisposição defeituosa, experimenta essa sonegação na forma de sentimentos de culpa e remorsos alarmantes e penetrantes, que o intimam a um tornar-se melhor e a um tornar-se completo e urgem tanto mais quanto mais ele ficou para trás na realização de sua vida, mas um neurótico dessa forma mutilado só pode entender um tornar-se melhor como um obedecer cada vez mais rigoroso às ordens e proibições alheias a sua essência nele encravadas desde a primeira infância, e por isso ele se esforça em negar ainda mais radicalmente as possibilidades de ser mal interpretadas como sendo pecaminosas, e no entanto é justamente assim que ele aumenta sua culpa humana verdadeira e fica aquém da realização da sua missão de guardião. 23. Ao mesmo tempo ele procura a origem de sua culpabilidade em regiões de sua existência cada vez mais periféricas e secundárias e se distancia mais e mais da possibilidade verdadeira de amortização de culpa, e os senhores se lembrem do melancólico citado no início, o qual só pôde ver a causa de toda sua miséria num beijo de vinte anos atrás, mas que ficou cego a respeito do falhar central e atual de suas possibilidades de amor. 24. Assim os sentimentos de culpa distorcidos, inautênticos, impostos por mentalidades alheias, aumentam sempre mais o próprio estar-culpado de um ser humano neurótico, e quanto mais este aumenta tanto mais atormentadores se tornam seus sentimentos de culpa neuróticos, os quais por sua vez o arrastam a um proceder ainda mais culposo, formando um círculo vicioso que pode levar, o que não é raro, ao curto-circuito da loucura ou do suicídio, pois o futuro de um ser humano de tal forma preso fita-o com uma insensatez e um vazio cada vez mais medonhos. 25. Mas uma psicoterapia baseada em compreensões adequadas da condição humana básica tem amiúde recursos para romper esse círculo vicioso, e nela pode acontecer que os pacientes se libertem para seu verdadeiro e próprio estar-culpado e que experimentem isto realmente como um estar chamado, sem angústia, feliz e sensato, para o existir, como o âmbito de claridade do mundo, e todavia determinar em cada caso de que maneira se procede semelhante experiência salutar no tratamento psicoterápico não é assunto do psicoterapeuta. 26. Num paciente ela realiza-se por si só, a partir da própria essência dele, através de um novo abrir, de um encontro religioso, num outro ela toma igualmente natural a forma de um poder-pensar e compreender filosófico libertador, e num terceiro a de um contemplar meditativo de seu pertencer imediato à base de todo ser. {{tag>Daseinsanalyse Boss psicanálise psicologia}}