====== Sinais de Alarme ====== //BOSS, Medard. Angústia, culpa e libertação. Tr. Barbara Spanoudis. São Paulo: Duas Cidades, 1977.// **SINAIS DE ALARME NA PSICOLOGIA E PSICOTERAPIA** 1. O 8º Congresso Internacional de Psicoterapia não será prejudicado se, no final, suas realizações forem submetidas a uma crítica fundamental, certamente construtiva, mas tão rigorosa quanto possível. 2. O título sob o qual o Congresso foi organizado, inaugurado e realizado é a posição da psicoterapia em relação às antropologias, procurando-se saber do relacionamento da psicoterapia com as antropologias atualmente válidas, pois a palavra antropologia é somente a tradução grega da ciência que versa sobre o homem. 3. Os relatores do Congresso já apresentaram um grande e importante trabalho só pelo fato de as contribuições terem sido elaboradas com toda a nitidez desejável e com fatores extraordinariamente numerosos, todos eles devendo ser levados em consideração se a posição da psicoterapia quer ser determinada adequadamente. 4. Verificou-se que a psicoterapia em si não é uma ciência do homem, portanto não é uma antropologia, constatando-se isso antes de tudo como algo que deve estar sempre diante dos olhos, pois como diz o nome terapia, psicoterapia é antes um tratar dos homens, um tratar de semelhantes doentes por meio de intervenções psíquicas da parte de um terapeuta que sabe lidar com instrumentos psíquicos. 5. Mas como tratamento, todo tipo de psicoterapia é sustentado e acompanhado pela respectiva concepção da natureza do homem que determinado psicoterapeuta adotou, e com essa concepção fundamental sempre pré-científica os que são sérios entre os psicoterapeutas dão grande valor em não ficar no aproximado e vagamente intuitivo, mas de encaminhá-la a fundo, de diferenciá-la, de articulá-la linguisticamente e desdobrá-la cientificamente, ou seja, rigorosamente adequada ao assunto. 6. Por isso a psicoterapia científica pode ser definida como a aplicação de uma ciência sobre o homem no tratamento de doentes, não importando se cada psicoterapeuta sabe ou não claramente que seu agir psicoterápico é conduzido por conceitos científico-antropológicos, pois isso não modifica em nada o fato de que todo tipo de psicoterapia baseada cientificamente recebe suas instruções e suas metas de uma antropologia qualquer, existindo sempre esse relacionamento básico entre psicoterapia e ciências do homem. 7. Com esse posicionamento de todo tipo de psicoterapia em relação às ciências do homem é evidente que há pelo menos tantas psicoterapias quanto antropologias científicas, e o número resultante dos métodos psicoterápicos ainda é multiplicado pelo fato de que de cada ciência pode derivar uma série de formas especiais de psicoterapia. 8. Partindo-se de cada ciência do homem pode-se desenvolver um tipo especial de psicoterapia individual, na qual um psicoterapeuta trabalha sempre com um analisando só, mas essa mesma ciência do homem também pode motivar o desenvolvimento de um tipo especial de psicoterapia de grupo pequeno ou de uma determinada psicoterapia de grupos grandes, do cuidado psicoterápico de todo o pessoal de uma empresa industrial ou de uma psicoterapia específica na área de cidades e regiões, métodos estes últimos que costumam ser chamados psico-higiene social ou psiquiatria preventiva social. 9. Já não se pode dar mais conta da infinidade dos atuais métodos de psicoterapia, mas mesmo assim todos eles pertencem, junto com as ciências do homem que as fundamentam e conduzem, a um único conceito básico pré-científico e filosófico sobre o homem e o seu mundo. 10. Essa ideia básica da natureza do homem da qual descendem todas as atuais antropologias, tanto quanto todos os métodos psicoterápicos que delas foram derivados, já é revelada pelos títulos psicoterapia, psicopatologia e psicologia, pois essas ciências e esses métodos de tratamento não poderiam ser assim chamados se não acreditassem desde logo, pré-cientificamente e axiomaticamente, na existência de uma psiquê, pressupondo despreocupadamente que a natureza do homem é formada por uma psiquê junto com um corpo, de modo que traduzido do grego psicologia, psicopatologia e psicoterapia quer dizer estudo da psiquê sadia e doente e de como curá-la. 11. A palavra psiquê é de procedência grego-antiga, mas seu significado original não é de modo algum reconhecível no atual conceito de psiquê, pois por exemplo Aristóteles entende por psiquê uma determinada maneira de existir, ou seja, aquele modo-de-ser que distingue os seres vivos, mas depois a idade média e mais ainda os tempos modernos fizeram desse significado grego-antigo do psíquico uma coisa substancial que se encontra em algum lugar no espaço. 12. No início dos tempos modernos Descartes chamou essa coisa de Res cogitans, o espírito humano, e imediatamente elevou essa sua Res cogitans à categoria do único sub-jectum, mas sub-jectum quer dizer aquilo no qual algo se baseia, que está aí como fundamento de todo o restante, e desde Descartes o espírito humano se tornou de tal forma a base de todas as outras realidades do mundo que ele é capaz de lançá-las para si como seus objetos, e a partir daí também é ele que decide por si qual deve ser o conceito desses outros objetos a ser elaborado no espírito humano. 13. No decorrer do tempo a Res cogitans de Descartes foi também assimilada pela psicologia que estava surgindo, mais ou menos como um aparelho psíquico no sentido da metapsicologia de Freud, a seguir foi introduzida na medicina à maneira dos psicólogos antropologistas modernos na forma de um sujeito, e finalmente recebeu o nome de uma pessoa ou personalidade ou de uma enteléquia, mas isso não tem importância decisiva no presente contexto. 14. Essencial é o fato de que, apesar de todos os diversos nomes, todas as psicologias, psicopatologias e psicoterapias imaginam essas coisas como sendo uma formação psíquica do tipo de uma cápsula, fechada e existente por si, e o conceito adicional de um inconsciente no sentido de uma repartição especial da psiquê não altera em nada o caráter fundamental do conceito da psiquê até então vigente na forma concreta de uma cápsula. 15. Tampouco isso é alterado por mais um conceito adicional, o de órgãos sensoriais como janelas abertas do consciente para os estímulos exteriores, pois continua a ideia fundamental de imagens e objetos do mundo exterior sendo projetados para dentro dessa formação-psiquê tipo cápsula, dos quais então seriam formadas percepções psíquicas internas, e além dessas imagens conceituais as ciências psíquicas modernas ainda supõem outro material psíquico no interior do sujeito humano, especialmente o que chamam de emoções, instintos e processos libidinosos. 16. Mas parece que hoje está na hora de nos lembrarmos de uma confissão decisiva de Freud, pois o próprio Freud chamou de ficção o seu conceito de aparelho psíquico, e pura ficção, isto é, pura invenção dos psicólogos e antropólogos atuais, são também todas as coisas que o corriqueiro psicologismo inclui no material intrapsíquico, pois ninguém pôde até agora descobrir nos fenômenos concretos do existir humano o mínimo indício da efetiva presença de imagens conceituais do mundo externo ou da existência real de emoções intrapsíquicas e de formas libidinosas. 17. Por isso os psicólogos cientistas têm que ter diante dos olhos constante e honestamente o fato de todos os seus conceitos básicos serem na realidade meras e imaginadas suposições, supostas por Freud e ainda hoje supostas por aqueles que constantemente creem numa metapsicologia de acordo com o propósito básico de toda a teoria de Freud, propósito que ele próprio resumiu dizendo que diante das aspirações supostas os fenômenos observados têm que ficar em segundo plano na compreensão. 18. Todavia Freud não diz por que eles têm que ficar em segundo plano, e ele também não o sabe, pois de maneira alguma o próprio objeto de pesquisa da psicologia, a natureza dos fenômenos do existir humano, exige um tal ficar atrás de meras suposições psicológicas, e pelo contrário os fenômenos imediatamente dados e diretamente perceptíveis do existir humano têm que retroceder unicamente em favor da teoria preconcebida à qual Freud se submetia. 19. Foi esse o único método de pensar acessível a Freud, o da forma de conceitos científicos-naturais, método que o obrigou ao ataque contra os fenômenos concretamente perceptíveis do homem, pois sem essa manipulação mental ele não teria conseguido comprimir todos os fenômenos da existência humana dentro de um nexo causal contínuo assim como exigem as ciências naturais ao examinar todas as coisas realmente existentes, confirmando-se mais uma vez como continua válida também para o século XX aquela afirmação de Nietzsche de que o século XIX não trouxe a vitória da ciência mas a vitória do método sobre a ciência. 20. No entanto o homem estaria mal se ele realmente fosse constituído segundo os conceitos das psicologias modernas, pois ele seria pobre se de fato tivesse que partir primeiramente de estímulos de percepção intrapsíquicos, de imagens conceituais intrapsíquicas e de emoções existentes intrapsiquicamente, e assim ninguém realmente chegaria jamais a suspeitar que existe algo como um mundo externo. 21. Pois para poder perceber algo como sendo do mundo externo o homem já tem que estar constantemente além de uma cápsula-psiquê, cápsula-pessoa ou cápsula-sujeito, ele tem que estar lá fora, nesse mundo externo, junto de suas realidades, e cabe perguntar como se poderia pegar e captar, perceber e entender, isto é, apreender e compreender algo perto do qual não nos colocamos como seres que de antemão vêm e compreendem. 22. Substituir o conceito-psiquê pela imagem de um sujeito ou de uma pessoa não ajuda, porque esses conceitos antropológicos modernos são como que apanhados de passagem na história da filosofia, e em nenhuma das psicologias antropológicas essas coisas são expressamente examinadas e esclarecidas com respeito a sua natureza fundamental. 23. Mas não é somente nesse sentido que todas as psicologias, sociologias e psicopatologias atuais são fictícias e abstratas, pois muito mais grave é o fato, de consequências práticas especialmente em seu emprego nas psicoterapias, de elas não poderem negar sua origem na filosofia subjetivista de Descartes, e por isso é indispensável ao atual psicoterapeuta, caso ele queira saber o que faz, que reflita pelo menos um pouco sobre o que aprontou a seu tempo esse matemático-filósofo com o nosso mundo e também com o mundo dos posteriores psicoterapeutas. 24. Com Descartes começou uma revolução espiritual sem igual, surgindo especialmente uma determinação toda nova da verdade, pois desde aquele tempo verdade e realidade é somente aquilo que pode ser determinado com certeza, que pode ser medido e calculado com exatidão, e nesse tipo novo de verdade e realidade se fundamenta toda a ciência natural atual. 25. Mas já para o seu fundador, para Descartes, não se tratava somente do reconhecimento de uma verdade nova por causa dela mesma, pois Descartes prometia que quem aprendesse seu novo método de pensar, o de assegurar-se pela medida e pelo cálculo, se tornaria maitre et possesseur de la nature. 26. Isso também é de importância decisiva para todas as psicoterapias modernas orientadas pelo conceito básico do homem de Descartes, pois necessariamente elas correm o perigo constante de servir para um aumento do poder do sujeito humano em relação a todos os objetos do mundo externo, inclusive de seus semelhantes, e as atuais psicoterapias correm esse perigo por serem também elas, como todas as ciências naturais que tentam obter o domínio sobre a natureza inanimada, filhas dessa mentalidade extremamente possessiva e subjetivista da filosofia cartesiana. 27. Por outro lado é provável que essa mesma mentalidade cartesiana, que se expandiu desde então sobre todo o globo terrestre como o espírito da técnica moderna e científico-natural, seja a própria fonte dos distúrbios essenciais dentro da moderna sociedade industrial, pois já foi dito dessa mentalidade cartesiana tecnocrática que ela ofusca e reduz a visão do homem àquilo que em nós e no nosso mundo é mensurável, calculável e pode ser dominado. 28. Não é de se admirar que o relacionamento com o mundo de tal forma empobrecido, e que domina os membros da sociedade industrial moderna, venha a ser vivido justamente pelos jovens criativos como uma prisão insuportável, e na estreiteza de tal visão encontra-se com probabilidade quase certa o próprio motivo para o aparecimento de dois fenômenos importantíssimos, pois dela provém tanto a forma típica de neurose do tédio e do absurdo de hoje em dia como também a inquietação social e as tendências anarquistas destrutivas da juventude não qualificada como doente, a qual se revolta contra o establishment. 29. Trata-se de uma incrível intensidade de forças revolucionárias pela qual a juventude é tomada, e elas estão a ponto, como se assistiu com toda a nitidez em Milão, de derrubar até o habitual establishment de um Congresso Internacional, e só os que não enxergam lamentam isso e desejam que voltem os bons e velhos tempos anteriores a esse Congresso de Milão. 30. Mas cabe perguntar como é que uma psicoterapia pode eliminar distúrbios no sentido das neuroses individuais ou distúrbios no relacionamento co-humano no ambiente de comunidades humanas se essa terapia é baseada pela mesma atitude patogênica que também levou a esses distúrbios, pois uma tal tentativa não seria igual ao empreendimento de eliminar o diabo com belzebu. 31. Por isso psicoterapias que realmente curam somente serão possíveis sob uma condição: todos esses métodos de tratamento não devem mais admitir serem conduzidos por antropologias que no fundo descendem do subjetivismo despótico do conceito cartesiano do homem e de seu mundo, sendo óbvio que todos os métodos psicoterápicos atuais precisam de uma nova orientação no relacionamento com o mundo que é incomparavelmente mais rico, livre e humano do que a atitude técnica dominante para com o mundo de hoje em dia. 32. Como filosofia da sociedade nova e salutar propõe-se há bastante tempo o marxismo-leninismo, mas parece que também ele não é um caminho para a libertação, pois cabe perguntar como então a mesma inquietação e rebelião que anda nos países capitalistas do ocidente pôde tomar a juventude das democracias populares do oriente. 33. A ciência marxista do homem não pode salvar nada pelo simples fato de ela no fundo não constituir nada de novo, pois ao contrário ela é um subjetivismo cartesiano levado ao extremo, e aqui subjectum é a sociedade toda, a humanidade inteira, mas esse subjectum marxista moderno e ampliado ainda possui as mesmas características possessivas e despóticas como a Res cogitans de Descartes, o espírito humano, e assim como o sujeito-humano singular cartesiano também o sujeito-coletivo do marxismo determina por si o significado dos objetos por ele conceituados e determina a forma como estes serão explorados em vista do máximo aumento possível de poder desse sujeito-coletivo. 34. Portanto, se não se quer que a inquietação e rebelião da juventude acabe em pura destruição das estruturas sociais atuais, e se se quer que também a psicoterapia e a psico-higiene constituam intervenções realmente salutares tanto no indivíduo como em grupos humanos pequenos, médios ou grandes, parece que só há uma solução: que todas as ciências humanas, a psicologia e a psicopatologia, a sociologia, a ciência política e a futurologia se libertem das amarras do subjetivismo da filosofia de Descartes e do espírito possessivo da tecnocracia moderna dela proveniente. 35. Pois só então, quando elas se desenvolverem partindo de um relacionamento com o mundo totalmente diferente, livre e humano, elas serão capazes de ajudar a superar a alienação-em-si-mesmo dos homens da atual sociedade industrial, mas enquanto os psicólogos e os sociólogos não conseguirem um relacionamento basicamente livre frente ao espírito tecnocrata e despótico eles sempre andarão em círculos, e parece que esse Congresso é um exemplo impressionante justamente disso, pois cabe perguntar se ninguém reparou que no fundo só se falou do potente e do impotente e de transposições de poder, no melhor dos casos de diminuição de poder. 36. Todo o Congresso parecia estar possuído pela ideia de que entre os homens haveria apenas uma possibilidade de relacionamento, ou seja, relacionamento entre os vitoriosos num êxtase de poder destrutivo e os vencidos desamparados. 37. O Congresso esteve quase cego diante da riqueza de relacionamentos co-humanos completamente diversos, por exemplo diante de relacionamentos de amor, nos quais também devia ser incluído o relacionamento não repressivo, não destrutivo, mas estimulante e solícito, ou seja, de uma autoridade verdadeira diante de um semelhante que está amadurecendo e que precisa de proteção. 38. Pois parece que esse Congresso ainda não se aprofundou com suficiente radicalidade em seu espírito revolucionário, sendo provável que se tenha criticado por demais apenas negativamente e não se tenha caracterizado positiva, suficiente e concretamente o novo essencial. 39. Se essa impressão for certa, então esse Congresso é a melhor e extraordinariamente importante prova de que, para enxergar outros relacionamentos sociais além dos repressivos e para poder envolver-se num procedimento co-humano criativo, é preciso uma libertação ainda muito mais completa do relacionamento com o mundo subjetivista, cartesiano, técnico, capitalista e marxista. 40. No entanto esse enxergar totalmente diverso e salvador não pode ser simplesmente adquirido através de livros e não pode também derivar-se de deduções lógicas de conceitos anteriores, pois só se chega a essa compreensão nova e salutar através de um salto, e o pensar, sentir e enxergar dos homens tem que saltar do subjetivismo e psicologismo abstrato e possessivo das anteriores ciências do homem para o solo concreto no qual já se existe permanentemente sem o saber. 41. O filósofo Martin Heidegger mostrou esse salto-mental decisivo para os homens ocidentais e orientais de hoje em dia, e segui-lo nesse salto vai exigir tanta coragem e esforço quanto foram necessários a Descartes, Galileu e Newton para, no fim da idade média, proporcionar a ascensão do tempo moderno. 42. Heidegger tentou ilustrar a natureza e o caráter específico desse salto indispensável com o exemplo, entre outros, da macieira em flor, escrevendo que ali a árvore floresce, que nós estamos diante de uma árvore em flor e a árvore está diante de nós, e qualquer um pode dizer isso, mas Heidegger examina mais profundamente esse simples fato e continua que nós nos colocamos diante de uma árvore, em frente dela, e a árvore se apresenta a nós. 43. Em contraste com tal afirmação o homem atual geralmente pensa que visualiza uma árvore, mas Heidegger continua fiel ao fenômeno imediato e constata que nós nos colocamos defronte a uma árvore, em frente dela, e portanto ele deixa a árvore estar-no-mundo, lá fora, onde ela originalmente se mostrou, não a devorando imediatamente e possessivamente numa visualização de um sujeito-humano, e a árvore não é logo degradada à condição de imagem conceitual intrapsíquica de um homem. 44. Então, no salto para um novo relacionamento com o mundo que Heidegger já mostrou, o que se passa é nada menos do que o desaparecimento radical do nós com o sujeito que visualiza e simultaneamente da árvore como objeto meramente visualizado, pois do subjetivismo presunçoso e possessivo de Descartes, no qual uma macieira em flor somente existe graças à visualização de um sujeito-humano, Heidegger saltou para o modo de enxergar fenomenológico mais humilde. 45. Só que esse modo de ver pode deixar intactas as coisas do nosso mundo como coisas que elas são e onde elas estão, e nele é a árvore em flor que se apresenta a nós como aquilo que ela é de acordo com os próprios significados que a constituem, e ela mesma nos comunica esses significados, e nós homens apenas nos colocamos em frente da árvore em flor, mas com isso nós nos pomos à disposição dela como o seu local de aparecimento, como a abertura do mundo que ampara e guarda seu aparecimento. 46. Nós homens podemos ser utilizados para um tal serviço à árvore por sermos de acordo com a nossa natureza intrínseca uma abertura para o mundo que é constituída por uma solicitabilidade estirada na amplidão do mundo, um poder perceber dos fatos que vêm ao nosso encontro, e algo só pode tornar-se presente e com isso ser quando pode fazer isso para dentro de um âmbito de claridade. 47. Por outro lado o modo de ver subjetivista e tecnológico somente permite uma visão ofuscada e reduzida da árvore em flor, uma visão daquilo que nela é mensurável e calculável, conseguindo registrar com exatidão apenas suas medidas, seu volume, sua composição físico-química, suas cadeias de informações cromossômicas acessíveis graças à cibernética, seu preço de venda e assim por diante. 48. Todavia, se o espectador entrou com toda sua essência no novo relacionamento com o mundo fenomenológico, não mais subjetivista-possessivo mas sereno e que permite ser, então a mesma árvore pode mostrar-se com significados muito mais ricos e abundantes, e agora o homem a encontra como algo que por exemplo aponta com suas raízes para a terra e com as folhas de seus galhos erguidos para a luz do céu, e sua possibilidade de desabrochar e de crescer por si só faz sentir algo divino, e na árvore seus frutos podem por si servir de alimento para os homens, tornando-se evidente na nova visão fenomenológica como uma única coisa, por exemplo uma árvore, pode ser experimentada de modo totalmente diferente. 49. O que vale para o exemplo da árvore também é válido para todos os outros fatos do nosso mundo, inclusive para nossos semelhantes e para nós próprios. 50. Esse ver e reconhecer infinitamente mais rico, como é possível num relacionamento fenomenológico com o mundo, tem evidentemente as maiores consequências também e especialmente para todas as ciências do homem e para todos os métodos de tratamento da psicoterapia, pois cientificamente rompe-se na luz de um relacionamento com o mundo fenomenológico de uma vez por todas o conceito de uma psiquê tipo cápsula, o qual de antemão entrava o acesso a todas as compreensões adequadas ao homem, e na perspectiva dessas compreensões um tal conceito básico psicológico do homem nem chega a surgir. 51. Pois ao modo de ver fenomenológico o existir do homem se apresenta desde logo, no sentido mais amplo da palavra, como um ek-stare, o que em outras palavras quer dizer que a essência que tudo sustenta do estar-aí humano pode agora ser vista como sendo o suportar não coisificado de um estar estirado na amplidão do mundo, um estar aberto no sentido de um poder-perceber a presença dos fatos do nosso mundo e de ser capaz de corresponder a seus significados especiais. 52. Se com o nosso pensar e o nosso ver conseguimos saltar do ângulo visual subjetivista, possessivo e tecnológico para um modo de ver fenomenológico, então também no âmbito da psicoterapia se torna possível um progredir autêntico e salutar da práxis psicoanalítica recomendada por Freud, e pode-se dizer progredir porque essa nova terapia fenomenologicamente orientada coloca em seu centro os mesmos fenômenos do existir humano que foram descobertos por Freud e que ele declarou serem os fundamentos de sua prática, só que esses fenômenos assumem na visão da ciência fenomenológica do homem significados totalmente diferentes e uma interpretação que faz justiça ao homem. 53. Por exemplo, seus títulos até então chamados de instinto, libido, transferência, repressão no inconsciente, projeção e introjeção psíquica, processos oníricos latentes e manifestos, Ego, Id e Superego surgem como distorções e deteriorações do sentido das coisas de fato existentes, e a distorção é devida à teoria da metapsicologia psicanalítica secundária que mecaniza e coisifica. 54. A correção fenomenológica das interpretações teóricas até então incorretas tem como consequência que o novo método de tratamento deverá sempre afastar-se das antigas técnicas psicanalíticas onde se torna evidente que a superestrutura secundária da metapsicologia psicanalítica distorce a prática, levando-a a abandonar suas próprias regras básicas. 55. Se a prática psicoterápica se orientar num relacionamento fenomenológico com o mundo, então ela pode recuperar sua própria natureza e essência, e sua essência consiste no fato de ela mesma ser livre e de permitir aos homens tornarem-se livres dentro dela, pois como psicoterapeutas queremos no fundo libertar todos os nossos pacientes para si mesmos, mas para poder fazer isso teremos antes que saber a que nos referimos quando dizemos mesmos. 56. Por isso entendemos o existir do homem, mas este consiste em nada mais nada menos do que o conjunto de nossas possibilidades inatas de nos relacionarmos com as coisas e os semelhantes que encontramos em nosso mundo, e por isso com a libertação psicoterápica queremos levar nossos pacientes apenas a aceitar suas possibilidades de vida como próprias e a dispor delas livremente e com responsabilidade, o que quer dizer também que queremos que eles criem coragem de levar a termo suas possibilidades de relacionamento co-humanos e sociais de acordo com sua consciência intrínseca e não como uma pseudoconsciência imposta por qualquer um. 57. Essa psicoterapia que realmente liberta pressupõe que o psicoterapeuta seja verdadeiramente livre, e a meu ver ele tem que ser tão livre e ao mesmo tempo tão modesto que ele possa sem dor e sem ressentimento deixar que um analisando se desenvolva por exemplo num sentido político ou sociológico progressista-revolucionário mesmo que ele, o psicoterapeuta, tenha uma mentalidade conservadora, e ele tem apenas que ser capaz de ver se essa tarefa e esse modo de viver progressista correspondem ao existir maduro do seu analisando. 58. Nisso ele tem que se certificar antes de mais nada de que a rebelião de seu analisando contra o establishment não é mais uma luta imatura contra bodes-expiatórios, pois neste caso a revolta contra as estruturas sociais tradicionais seria somente uma fuga ao trabalho, à tarefa muito mais árdua e muito mais difícil de tornar-se antes de tudo um homem realmente livre e criativo. 59. Por outro lado um psicoterapeuta, ainda que seja um cidadão dos mais progressistas, não deve impedir nenhum analisando no decorrer de uma psicoterapia de se tornar socialmente mais conservador do que antes, e neste caso tem que ficar claro em primeiro lugar e acima de qualquer dúvida que o analisando é de acordo com sua própria e autêntica essência um guarda e preservador do já sucedido. 60. O terapeuta experiente dispõe de vários critérios que lhe permitem distinguir quais são as tendências autênticas do analisando num determinado caso e quais são as meras tentativas de fuga de si mesmo. 61. Se um psicoterapeuta socialmente progressista quisesse fazer de cada analisando seu também um revolucionário social, ele arbitrariamente assumiria um direito de determinar e um poder sobre o outro que seriam tão pecaminosos quanto as pretensões de quaisquer ditadores sociais, políticos, morais ou religiosos. 62. Acho que todos os psicoterapeutas socialmente engajados deveriam ter isso constantemente diante dos olhos, entretanto não se pode negar que eles têm razão quando dizem que não há saúde nem doença fora da estrutura de relacionamento co-humanos, pois pela própria natureza do homem não pode haver fenômeno existencial que não seja social. 63. A partir da essência de toda psicoterapia autêntica já mencionada, a que liberta, torna-se evidente como é leviana a crítica insistente segundo a qual a psicoterapia seria apenas um instrumento do establishment vigente, e não pode ser negado que procedimentos psicoterápicos também podem servir para abusos, mas cabe perguntar o que é que não pode servir para abusos. 64. Todavia, se o proceder psicoterápico visa sempre e unicamente a libertação do paciente para o seu próprio e intrínseco existir, torna-se claro que não existe a psicoterapia, pois o método nunca deve dominar o paciente e pelo contrário ele tem que se orientar pelo paciente, e se por exemplo um psicanalista escandinavo quisesse lege artis, com associações livres feitas num divã, psicanalisar um rapaz hindu neurótico ou um caboclo brasileiro, com certeza ele não conseguiria curar nem um nem outro e sem dúvida os deixaria ainda muito mais doentes. 65. Também em seus campos mais amplos, que podem ser chamados de higiene mental social ou de psiquiatria social preventiva, os esforços psicoterápicos têm que se dirigir pelas mesmas metas adequadas ao homem, e com isso uma tarefa cada vez mais importante se aproxima dos psicoterapeutas, pois quanto mais a moderna sociedade industrial progride tanto mais produtivas tornar-se-ão suas máquinas e tanto menos horas e dias terão que trabalhar profissionalmente as grandes massas de empregados. 66. Em relação a seu trabalho profissional eles disporão cada vez de mais tempo livre, e poderão ter mais tempo livre do que as horas que são obrigados a estar no emprego, e por isso daqui a pouco a tarefa decisiva da psicoterapia como psico-higiene social provavelmente será a de proporcionar ao maior número possível de homens durante o seu tempo livre a possibilidade de poder se libertar da concepção reduzida e tecnológica do mundo à qual eles são forçados por seu trabalho profissional. 67. Eles terão que chegar a um relacionamento de tal forma livre em relação ao espírito tecnocrata que no seu tempo de lazer eles possam se envolver num relacionamento fenomenológico com o mundo totalmente diferente e muito mais rico, e não apenas para o divertimento deles, pois para nós homens atuais isso é uma necessidade vital absoluta, sendo pelo menos tão importante como a purificação do ar e da água. 68. Pois só assim os homens da sociedade industrial poderão encontrar uma compensação salutar para o relacionamento técnico com o mundo, e não se trata porém de conseguir afastar completamente os homens do nosso tempo do relacionamento técnico com o mundo, pois justamente a fenomenologia revela que também esse relacionamento tecnocrata com o mundo não é um mero e arbitrário artifício dos homens mas um destino na história do homem. 69. Enquanto destino, o espírito da tecnocracia tem todo o direito de solicitar-nos, a nós homens atuais, como seus realizadores, e por isso aqueles que apenas se revoltam contra essas solicitações da tecnocracia ou que tentam de qualquer forma desviar-se dela no fundo sempre fogem também de si mesmos, e por outro lado um envolvimento decisivo com a fenomenologia cria um relacionamento mais livre com o destino da tecnocracia e permite ver que ela é apenas um relacionamento com o mundo entre muitos outros possíveis. 70. Assim não somos mais obrigados a entender a tecnocracia como sendo o absoluto, o melhor, o definitivo, a verdade pura e simples, mas reconhecemos então que a tecnocracia, hoje ainda dominante, deve solicitar os homens em proporção moderada e decerto não definitivamente. {{tag>Daseinsanalyse Boss psicanálise psicologia}}