===== AMOR (2010) ===== //CRITCHLEY, Simon; CEDERSTROM, Carl. How to Stop Living and Start Worrying: Conversations with Carl Cederstrom. Cambridge: Polity Press, 2010.// ** Amor e morte ** * Se filosofar é aprender a morrer, então a existência humana é definida pela finitude como limite em relação ao qual a vida é vivida — e a história da filosofia não teria tratado de muito mais do que essa questão, sendo a filosofia uma arte de morrer bem (ars moriendi) de Sócrates a Heidegger; mas essa obsessão com a morte deve suscitar suspeita, pois Hannah Arendt, em A Vida do Espírito, critica os filósofos — os filósofos homens — por sua persistente obsessão com a morte à exclusão da questão do nascimento, propondo em seu lugar a natalidade e o amor — sendo que sua tese de doutorado versou precisamente sobre a questão do amor em Agostinho. * A filosofia começa com o amor num sentido não erótico: como philia, amizade, orientação da alma em direção ao verdadeiro sem posse do verdadeiro — em contraposição à pretensão sofística ao saber em troca de pagamento; e essa amizade era habitualmente entre homens, habitualmente entre um homem mais velho e um mais jovem. ** Marguerite Porete e os sete estágios da aniquilação da alma ** * O Cântico dos Cânticos — que estranhamente encontra seu caminho para dentro da Bíblia — é um poema erótico de amor aparentemente escrito para celebrações nupciais e costurado de diferentes fragmentos, cantado em vozes distintas (masculina e feminina) com uma experiência verdadeiramente carnal do amor erótico: "seus seios são como dois gamos, seus lombos são o marfim mais liso, sua vulva uma cratera arredondada — que nunca lhe falte vigor!"; filósofas como Luce Irigaray sustentaram que no Cântico dos Cânticos encontra-se a possibilidade de uma ética da diferença sexual, com uma voz feminina ativa falando a uma voz masculina ativa. * O discurso da mística medieval começa com interpretações do Cântico dos Cânticos — em Bernardo de Claraval, Meister Eckhart e outros —, onde o amor carnal de um homem por sua esposa e de uma esposa por seu marido transforma-se em amor mais espiritual: a expressão do amor de Deus por Israel no judaísmo e do amor de Cristo por sua Igreja no cristianismo; isso levou ao fascínio pelas místicas femininas, e em particular por Marguerite Porete, uma Beguina queimada na fogueira em 1310 em Paris — mulher de família nobre ou burguesa que propagava uma doutrina do amor refinado (fine amor) e que se recusou a retratar as ideias de seu livro O Espelho das Almas Simples e Aniquiladas e Daquelas que Permanecem no Anseio e no Desejo do Amor — o título mais belo da literatura mística. * O livro de Porete descreve os sete estágios da aniquilação da alma: o primeiro, seguir os Dez Mandamentos; o segundo, seguir as doutrinas básicas do cristianismo; o terceiro e mais dramático, cinzelar e golpear a si mesmo para abrir um espaço grande o suficiente para o amor entrar — o amor como esvaziamento masoquista do eu, tentativa de aniquilar o si mesmo; o quarto, uma experiência de deleite embriagado, intoxicação pelo divino; o quinto, uma experiência de derelição e distância de Deus; o sexto — o mais interessante —, o estágio em que a alma aniquilada é substituída pela autorreflexão infinita do divino, Deus entrando no espaço onde a alma esteve; o sétimo, o que acontece após a morte, a união com Deus na vida eterna. * Porete foi queimada na fogueira porque o que descreve é a aniquilação da alma como condição de possibilidade para a união com o divino sem a mediação da Igreja e de suas restrições morais — uma comunhão sem pecado com o divino alcançável apenas pelo cultivo do amor na alma, o que constituía heresia; e a ligação com a psicanálise é que, onde Freud escreve Wo Es war, soll Ich werden ("onde o isso estava, lá o eu deve ser"), Porete descreve o inverso: onde a alma estava, lá Deus deve ser. ** Jouissance, mística feminina e o excesso do amor ** * No Seminário XX de Lacan, ao tentar descrever o gozo feminino (jouissance) e sua relação com o amor, Lacan tropeça na mística medieval das Beguinas e afirma: "Essas jaculações místicas não são tagarelice ociosa nem verbiagem vazia"; e responde a Norman Cohn — que no livro A Busca do Milênio identifica a heresia do livre espírito e o anarquismo místico como heresias animadoras da Idade Média, mas suspeita que o discurso místico é verniz para licença sexual — dizendo: "Reduzir a mística ao negócio de foder é perder completamente o ponto." * Lacan — pensando em Hadewijch de Antuérpia e Teresa de Ávila, cuja estátua em êxtase de Bernini figura na capa do Seminário XX — afirma: "Acredito no gozo da mulher na medida em que é um a mais (en plus)"; as místicas femininas estão no caminho de uma experiência do en plus, uma experiência de transgressão que excede a ordem do conhecimento — e essa verdade não é verdade proposicional nem empírica, mas uma espécie de experiência extática de verdade; Lacan ainda observa, pensando em Kierkegaard: "há homens tão bons quanto as mulheres, a saber, aqueles que percebem que deve haver um gozo além — esses são os que chamamos de místicos." * O amor é o que a poeta Anne Carson chamou de um ato de absoluta ousadia espiritual: o amor ousa o eu a deixar-se para trás, a entrar numa espécie de pobreza, a engajar-se com sua própria aniquilação; é um ato de ousadia onde se está disposto a entrar num empobrecimento do eu para abrir o que se pode chamar de uma dimensão imortal da subjetividade — e a única prova de imortalidade é um ato de ousadia que tenta se estender além de si mesmo aniquilando-se, projetar-se sobre algo que excede os próprios poderes de projeção. * Lacan diz que amar é dar o que não se tem a alguém que não quer; e Oscar Wilde, em De Profundis, fala do amor como "a capacidade de receber aquilo sobre o qual não se tem poder" — o problema do filósofo sendo precisamente o risco de tentar reduzir tudo ao que está em seu poder, sendo o amor o ato sobre o qual não se tem poder. ** Anarquismo místico: Landauer e a aniquilação de si ** * A mística medieval pode ser ligada a modelos de anarquismo numa conexão com o que Norman Cohn chama de anarquismo místico — a possibilidade de uma comunhão sem pecado com os outros, em que a aniquilação do eu num ato de amor poderia ser a base de uma experiência comunitária, ideia para a qual a história do pensamento herético e do pensamento utópico radical constantemente retornam. * Gustav Landauer — pensador anarquista alemão pouco conhecido, grande influência sobre o jovem Benjamin, sobre Buber e Scholem — escreve em 1901 Pensamentos Anárquicos sobre o Anarquismo, no contexto da política do assassinato ligada ao anarquismo da época (William McKinley foi assassinado por alguém que se declarou anarquista por ter ouvido um discurso público de Emma Goldman; o rei Umberto I da Itália fora assassinado por um suposto anarquista no ano anterior); Landauer responde que o anarquismo não tem absolutamente nada a ver com a política do assassinato e desenvolve o argumento de que a única violência que o anarquista deve perpetrar é a morte de si mesmo — matar-se a si mesmo para que uma relação transformada com os outros se torne possível, num ato que chama de colonização interior. ** Pecado, lei e o sujeito dividido em Paulo ** * Paulo, em Romanos VII, afirma que sem a lei não se conheceria o pecado — "se não fosse pela lei, eu não teria conhecido o pecado" —, e que a lei e o pecado têm uma relação dialética masoquista da qual não há saída: "Não entendo minhas próprias ações — não faço o bem que quero, mas o mal que não quero é o que faço"; e exclama: "Homem miserável que sou, quem me livrará deste corpo de morte?" — expressão da natureza essencialmente dividida da subjetividade. * A única coisa que pode romper a relação masoquista entre lei e pecado é um ato de fé sustentado pelo amor — "Sem o amor sou um bronze que soa ou um címbalo que tine", diz Paulo; o amor é um ato de absoluta ousadia e risco espiritual que se abre a uma dimensão transgressive da subjetividade, e o sujeito do amor é o sujeito dividido que tenta fazer algo mais do que habitar a divisão. * Em Badiou, o Um torna-se Dois pelo ato de amor, que constitui um evento; e em relação a Paulo, se a fé é o momento em que o sujeito emerge da dialética fatal entre lei e pecado, o amor é o trabalho do sujeito sobre si mesmo que deve sustentar a atividade da fé — sendo o amor não um ato do ego mas um compromisso de abertura a receber o que não está no próprio poder. ** Amor, bem-estar e a sociedade contemporânea ** * Vivemos em sociedades em que o bem-estar tornou-se o único fim legítimo para a vida humana — uma ideia muito individualista de bem-estar não ligada a um projeto coletivo, mas a uma experiência pessoal de contentamento cultivada por práticas como yoga, trabalho com a criança interior, terapia de casal e regressão a vidas passadas; é contra essa cultura da autenticidade e do bem-estar que se pretende opor da maneira mais vigorosa possível. * O amor não é, como diz Hegel, uma relação de dependência entre seres independentes — algo como um contrato; e a ideia de que se busca no amor a outra metade do próprio ser que tornaria o eu completo, como no discurso de Aristófanes no Banquete de Platão (onde os seres humanos eram originalmente criaturas duplas despedaçadas que buscam reunir-se), é ludicra e ilustra uma das confusões evidentes da sociedade contemporânea: a confusão entre sexo e amor. * Como Sócrates diz no Banquete: o amor é uma experiência de transcendência no sentido de ir além — essa dimensão excessiva da subjetividade que tenta ultrapassar-se a si mesma (en plus), produzindo não bem-estar ou sentimento oceânico, mas uma constante sensação de fracasso e uma experiência dolorosa de não ser à altura da demanda que o amor faz. * O amor é como um relógio de corda que para se deixado no pulso por menos de uma hora — o verso "Sim, disse sim, vou dizer Sim" de Molly Bloom em Ulisses gravado na traseira de um relógio Bulova vintage presenteado pela esposa de Critchley; o amor exige o ato cotidiano de dar corda a si mesmo, de sacudir-se vigorosamente para que o mecanismo funcione por mais algumas horas; o contentamento é uma estrutura egoísta e obsessiva na qual se recai, e o amor é o contramovimento, a agitação do sujeito que o força de volta à atividade do comprometimento. ** Possessão, alienação e masoquismo ** * Amar é ser possuído sem possuir — dá-se a si mesmo num ato de amor sem receber de volta em igual medida, sem garantia; o amor não é contrato mas tentativa de esvaziar-se em relação a um outro que nos possui sem que o possuamos; ou, em outro registro: o amor é um ato de alienação — aliena-se o eu de si mesmo em relação ao estranho que se ama. * O masoquismo é um contrato consigo mesmo para odiar a si mesmo ou para existir nessa dialética de lei e pecado; o amor seria o que tenta romper esse contrato — não uma relação contratual entre duas partes, mas uma parte entregando-se a algo que tentará exceder a lógica do masoquismo, embora se recaia sempre; há um masoquismo essencial na estrutura da subjetividade, de autossatisfação e autoaversão, e o amor é o que tenta romper com ele — algo que precisa ser enrolado todo dia, sem fim, e que exige uma experiência constante de fé. ** Sexo, pornografia e mística feminina ** * No ensaio A Tendência Universal à Depreciação na Esfera do Amor, Freud descreve a divisão da sexualidade masculina entre sexo e amor: o homem pode amar a esposa mas experimentar impotência sexual com ela, enquanto com a prostituta experimenta potência dramática — a sexualidade masculina alcançando potência apenas em relação ao objeto depreciado, que deixa de ser pessoa para tornar-se coisa; essa é a lógica da pornografia, gratificação sexual em relação ao objeto depreciado, e o paradoxo é que a potência do amor consiste numa impotência essencial, pois se o amor é dar o que não se tem ou receber o que não está no próprio poder, o amado é aquilo que excede a potência e a potencialidade do amante. * A fantasia — melhor, a ilusão — da sexualidade masculina é a sexualidade como enumeração repetitiva, o complexo de Don Juan: em Don Giovanni de Mozart, Don Juan enumera suas conquistas em diferentes países, culminando em 1003 na Espanha; a sexualidade masculina reduzida a uma lista repetitiva que é sempre a mesma e em que cada vez é necessária alguma ilusão de novidade. * A diferença entre mística masculina e feminina ilustra a diferença entre amor e sexo: o místico masculino busca uma união contemplativa com o divino por meio de operações linguísticas complexas como a teologia negativa — o que se encontra no Livro X da Ética a Nicômaco de Aristóteles, em Platão ou em Plotino, onde a alma é a pérola presa na concha do corpo e a suprema bem-aventurança é a vida teórica (bios theoretikos); a mística feminina tem uma relação muito mais corporal com o sagrado — Juliana de Norwich, a maior mística inglesa, experimenta suas visões (shewings) como uma relação física direta com Cristo, sentindo o sangue das feridas de Cristo escorrendo por suas mãos, uma sublimação do prazer sexual direto numa relação corporal; a psicanálise, com sua questão da histeria — a histérica que quer o amor e é impossível porque o amor é impossível — é em muitos aspectos a tentativa de lidar com essa questão. {{tag>Critchley}}