====== Retórica do topos, retórica do kairos ====== //CASSIN, Barbara (ed.). Dictionary of Untranslatables. A Philosophical Lexicon. Princeton: Princeton University Press, 2014// Retórica, ou rhêtorikê [ῥητοϱιϰή <τέχνη>], é um termo que apareceu pela primeira vez no Gorgias de Platão. Ela só aparece para ser desacreditada como arte, technê, e reduzida ao status paradoxal de alogon pragma [ἄλογον πϱᾶγμα] (uma coisa privada de logos [λόγος] ou, se preferir, uma “prática sem razão”; 465a). É, portanto, a eloquência de Gorgias e dos sofistas (o seu sucesso oratório e o seu ensino) que é excluída do discurso filosófico e da racionalidade. Uma boa retórica ainda precisa ser inventada: a retórica filosófica de Fedro, ou seja, a “dialética”, “a arte de dividir e reunir” (266b), cujo objetivo não é persuadir, mas elevar a alma (isso é o que foi chamado de “psicagogia”; 261b). A elaboração subsequente da retórica em Platão, assim como em Aristóteles, consistiu em desvalorizar, e até mesmo proibir, um certo tipo de retórica em favor de outro tipo. Privada da arte e da razão, essa retórica lida com o tempo e a fala (uma retórica da improvisação, schedioi logoi [σχέδιοι λόγοι], ou “apressada”, fala ex tempore; uma retórica do kairos [ϰαιϱός], ou do “momento oportuno”, capaz de explorar os paradoxos da fala com esses kataballontes [ϰαταϐαλλόντες] inventados por Protágoras, ou argumentos catastróficos que são invertidos assim que são pronunciados). Essa retórica é valorizada como autêntica e verdadeiramente técnica; ela se concentra no que é dito e traz o tempo de volta ao espaço que está sendo dominado. Descrito pelos filósofos, o discurso era um organismo difundido e finamente articulado, e era preciso ser capaz de “dividi-lo” respeitando seu plano geral (cf. Platão, Fedro, 265b). Era composto por uma hierarquia de sun [σύν], “com”, que ia da sintaxe predicativa aos silogismos, e se conformava às normas de hama [ἅμα], ou “ao mesmo tempo”, conforme prescrito pelo princípio da não contradição. Assim, privilegiava a estabilidade do significado em detrimento dos efeitos disruptivos do significante, da homonímia, dos trocadilhos (todo o organon, o aparato metafísico e lógico de Aristóteles, desde a Metafísica Γ até as Refutações Sofísticas); descrevia “períodos” (literalmente, “voltas completas” que podiam ser compreendidas com um único olhar; Retórica, 3.9.1409b1) e usava figuras de linguagem visuais (“metáfora”, que transmite, e “metonímia”, que toma a parte pelo todo) em detrimento das auditivas (aquelas aliterações que pretendem ser poéticas; 3.1.404a24–29). A importância atribuída ao topos [τόπος], ou “lugar”, era obviamente uma parte essencial desse sistema. É fácil perceber como o poder do lugar poderia despertar a imaginação dos comentadores, e eles propuseram toda uma série de metáforas ricas relacionadas ao espaço para definir esse termo: molde, matriz, costura ou veia, círculo, esfera, região, poço, arsenal, reservatório, assento, armazém, tesouro, sem esquecer o “compartimento” de Ross (Brunschwig, prefácio a Tópicos). Com o topos, a retórica filosófica espacializou a temporalidade da fala e conseguiu transformar até mesmo a invenção em uma espécie de tesauro.