===== Erscheinung ===== (BCDU) No entanto, tanto para Husserl quanto para Kant, Phänomen e Erscheinung não são claramente diferenciados. Heidegger, por outro lado, insiste precisamente nessa distinção quando tenta esclarecer o sentido da palavra fenomenologia com base em seus dois componentes, phainomenon e logos [λόγος], primeiro em suas palestras de 1925, dedicadas aos “Prolegomenos à história do conceito de tempo” [GA20], e depois na introdução de seu tratado de 1927, Ser e Tempo ( Sein und Zeit ). Voltando ao significado primitivo da palavra grega phainomenon, Heidegger define Phänomen como “aquilo que se mostra em si mesmo”, “o manifesto” ( das Offenbare ), e vê na aparência ( Schein ) uma modificação privativa de Phänomen pela qual uma coisa se mostra precisamente como não é: > //Somente quando o significado de algo é tal que faz uma pretensão de se mostrar — isto é, de ser um fenômeno (Phänomen) — é que pode se mostrar como algo que não é; somente então pode “apenas parecer tal e tal” (nur so Aussehen Wie). (Heidegger, Ser e Tempo, § 7, 51)// Heidegger insiste no fato de que o termo Phänomen, assim como Schein, não tem nada a ver com o termo Erscheinung, que, segundo ele afirma em suas palestras de 1925, causou mais estragos e confusão do que qualquer outro (Prolegomena zur Geschichte des Zeitbegriffs, GA20:112). Erscheinen tem, com efeito, como o próprio Kant enfatizou, o sentido de uma indicação de uma coisa por outra, que precisamente não aparece. Erscheinen (aparecer) é, portanto, paradoxalmente, um “não-mostrar-se”, o que implica que “fenômenos (Phänomene) nunca são aparências (Erscheinungen)”, e que, portanto, não se pode explicar o primeiro termo por meio do segundo, pois, ao contrário, Erscheinung, na medida em que é uma indicação de algo que não se mostra por meio de algo que se mostra, pressupõe a noção de Phänomen (Sein und Zeit, 52). É, portanto, de extrema importância para Heidegger não colocar Schein e Erscheinung no mesmo nível: o primeiro, como uma modificação privativa de Phänomen, inclui a dimensão do manifesto, enquanto o segundo, como todas as indicações, representações, sintomas e símbolos, já pressupõe em si mesmo a dimensão da autoexibição de algo, ou seja, o Phänomen: “ Apesar do fato de que ‘aparecer’ (Erscheinen) nunca é uma manifestação de si mesmo (Sichzeigen) no sentido de ‘fenômeno’ (Phänomen), o aparecer só é possível em razão da manifestação de si mesmo de algo” (Sein und Zeit, 53). Às vezes, porém, sem levar em conta a diferença de significado dos dois termos, Phänomen é definido como o Erscheinung de algo que não se revela, o que leva, por um lado, a uma oposição entre o reino da aparência e o do ser em si mesmo e, por outro, na medida em que tendemos a dar prioridade ontológica à “coisa em si”, a desvalorizar o Erscheinung como “blosse Erscheinung” — mera aparência —, que é identificada com Schein, ilusão. Como Heidegger enfatiza em suas palestras de 1925, “A confusão é então levada ao extremo. Mas a epistemologia e a metafísica tradicionais vivem dessa confusão” (Prolegomena, 114; História do Conceito de Tempo, 83).