====== dynamis, energeia, entelecheia ====== //CASSIN, Barbara (ed.). Dictionary of Untranslatables. A Philosophical Lexicon. Princeton: Princeton University Press, 2014// * A análise conjunta de dynamis, energeia e entelecheia constitui um eixo conceitual fundamental da física e da metafísica aristotélicas. * Embora frequentemente traduzidas de modo homogêneo como “força”, essas noções designam modos de ser radicalmente distintos. * A distinção entre potência e ato estrutura tanto a compreensão do movimento quanto a determinação dos sentidos do ser. * O problema do movimento torna-se, assim, inseparável de uma ontologia diferencial. * dynamis designa primeiramente uma capacidade ou poder, físico, moral ou político. * Desde Homero, o termo refere-se à força efetiva de homens e deuses. * Ele pode designar o valor de uma palavra, a potência de um número ou a força armada. * Nesse primeiro sentido, dynamis remete a uma eficácia real e operante. * dynamis significa também potência no sentido estrito de um “ainda-não”. * Trata-se de uma virtualidade que não está ainda em ato. * A potência é aquilo que pode vir a ser sem ainda sê-lo. * Ela não é ausência, mas possibilidade determinada. * Esse segundo sentido de dynamis introduz a dimensão da possibilitas. * A potência se opõe ao impossível, adynaton. * Ela envolve uma estrutura lógica além de física. * dynamis articula, assim, ontologia e lógica. * Energeia não designa simplesmente a potência em ação. * Derivada de ergon, obra ou trabalho, ela indica o exercício efetivo de uma capacidade. * Energeia é a atuação de uma forma enquanto forma. * Ela é presença efetiva, não mera atualização pontual. * Entelecheia introduz a referência explícita ao telos. * O termo designa a realização plena de uma coisa em seu fim. * Entelecheia indica a posse do fim em ato. * Ela nomeia a perfeição alcançada da essência. * A relação entre energeia e entelecheia não é de identidade simples. * Energeia enfatiza o operar. * Entelecheia enfatiza a perfeição alcançada. * Ambas convergem na noção de realização, mas sob aspectos distintos. * A física aristotélica se define como ciência teórica do movimento. * A physis é caracterizada pela posse interna de um princípio de movimento e repouso. * Os entes naturais são aqueles que se movem por si mesmos. * O movimento não é acidental, mas essencial à natureza. * O movimento aristotélico não se reduz à locomoção. * A mudança de lugar é apenas uma espécie de kinesis. * Kinesis designa toda metabole, toda passagem de algo a algo. * O gênero do movimento é nomeado a partir de sua espécie mais manifesta. * A metabole compreende quatro tipos fundamentais de mudança. * Gênese e corrupção, segundo a substância. * Alteração, segundo a qualidade. * Crescimento e diminuição, segundo a quantidade. * Deslocamento, segundo o lugar. * A definição geral do movimento introduz explicitamente dynamis e entelecheia. * O movimento é definido como a entelecheia do ente em potência enquanto tal. * Ele não é nem potência pura nem ato plenamente concluído. * Ele é o entre-dois ontológico. * O movimento não é anterior nem posterior à atualização. * Ele coincide com o processo mesmo de atualização. * Não é algo que ocorre antes do ato nem depois dele. * Ele é o tempo próprio da realização. * O exemplo da construção explicita essa estrutura. * Enquanto algo é edificável, ele está em potência. * Quando a edificação está em curso, há movimento. * Quando a casa está pronta, o movimento cessou. * O movimento é definido como energeia ateles. * Trata-se de uma atividade incompleta. * Ela não atingiu ainda seu fim. * Sua essência é o estar-em-realização. * O movimento pode também ser chamado entelecheia ateles. * Há realização, mas não perfeição plena. * O telos ainda não foi alcançado. * O repouso coincide com a realização completa. * Energeia e entelecheia convergem na ideia de realização progressiva. * A atividade é orientada pelo fim. * O fim é a medida da atividade. * O movimento tende ao repouso como sua verdade. * A distinção entre potência e ato constitui um sentido fundamental do ser. * O ser não se diz apenas como substância ou como verdadeiro. * Ele se diz também como potencial e como atual. * A ontologia aristotélica é intrinsecamente dinâmica. * A física aristotélica é, desde o início, metafísica. * O estudo do movimento envolve uma teoria do ser. * Não há separação entre física e ontologia. * O movimento é um modo do ser. * Deus é definido como ato puro. * Sua substância é apenas energeia. * Ele não possui potência. * Por isso, ele é imóvel. * O motor imóvel move sem ser movido. * Ele é princípio de movimento sem sofrer mudança. * Sua atividade é pensamento de pensamento. * Sua vida é perfeita e eterna. * No mundo sublunar, a potência adquire centralidade. * Os entes compostos são mistura de potência e ato. * A mudança é constitutiva de seu ser. * A realização nunca é absoluta. * A potência envolve também a noção de faculdade. * Ter uma potência é poder exercer uma atividade. * A faculdade subsiste mesmo quando não exercida. * A potência não se reduz ao ato atual. * Contudo, o ato é ontologicamente anterior à potência. * Não se passa da potência ao ato como do possível ao real. * O ato deve já estar presente como atrativo. * A potência é definida em referência ao ato. * Energeia é mais ousia do que dynamis. * O ato é mais plenamente ser. * A potência depende do ato para ser inteligível. * Essa prioridade é ontológica, não temporal. * A relação entre forma e matéria reproduz essa hierarquia. * A forma é ato em relação à matéria. * A matéria é potência em relação à forma. * O composto é unidade dinâmica dessas dimensões. * A terminologia aristotélica articula física, metafísica e lógica. * Ela estrutura o pensamento do movimento. * Ela informa a ética, a política e a arte. * O ser é pensado como realização orientada. * Embora fundada numa cosmologia superada, essa dinâmica conceitual permanece operante. * Ela se transforma e se reconfigura. * Ela atravessa a modernidade por meio de novas leituras. * A linguagem da potência e do ato continua a pensar o real.