====== Ereignis ====== //CAPOBIANCO, Richard. Engaging Heidegger. Toronto: University of Toronto press, 2010.// 1. desde a publicação de Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis) em 1989 (GA65), instaurou-se nos estudos heideggerianos a tendência de superestimar a significação da noção de [[lx>termos:e:ereignis|Ereignis]], quando, apesar de Heidegger considerar a chegada a esse nome um evento importante em seu pensamento, não há evidência textual suficiente ou convincente para sustentar que ele jamais o tenha considerado matéria mais fundamental do que o Ser (das [[lx>termos:s:sein|Sein]]) pensado de modo originário, e que, ao contrário, permaneceu claro e enfático até o fim da vida quanto ao caráter definidor de sua trajetória de pensamento, nomeado ao longo dos anos como Ser-Enquanto (das [[lx>termos:s:seyn|Seyn]]), Ser mesmo (das [[lx>termos:s:sein-selbst|Sein selbst]]), Ser como tal (das [[lx>termos:s:sein-als-solches|Sein als solches]]) e Ser como Ser (das [[lx>termos:s:sein-als-sein|Sein als Sein]]), de modo que o exame cuidadoso das palavras heideggerianas revela ser o Ereignis (apenas) outro nome para o Ser mesmo. **I. A Palavra** 2. a tradução do termo das Ereignis para o inglês permanece em debate há décadas, entre opções como "e-vent", "event", "appropriation", "appropriating event" e a cunhagem "enowning", preferida pelos tradutores de Beiträge, propondo-se, como solução razoável, deixar a palavra não traduzida, tal como ocorre com Angst e Dasein, ainda que, diferentemente destes, não haja consenso quanto ao que Ereignis sugere, permanecendo o texto voltado, adiante, à apresentação da evidência textual de como Heidegger relacionou Ereignis ao Ser. **II. Panorama** 3. a palavra Ereignis aparece já no curso de 1919 e em passagens esparsas da obra dos anos 1920, mas, por testemunho do próprio Heidegger, foi elaborada sobretudo entre 1936-38 nas meditações inéditas conhecidas como Beiträge, prosseguindo entre 1938-44 em diversas reflexões não publicadas em vida, cuja recente edição na Gesamtausgabe tende a distorcer a discussão acadêmica sobre o desenvolvimento de seu pensamento. * nesses mesmos anos de elaboração privada do Ereignis, Heidegger compôs também comentários importantes sobre Aristóteles e Platão, além dos cursos sobre Parmênides e sobre Hölderlin, que tratam primordialmente da questão do sentido originário e unificador do Ser, quase sem menção ao Ereignis. 4. entre 1944 e 1956, Heidegger não relegou a [[lx>termos:s:seinsfrage|Seinsfrage]] em favor da tematização do Ereignis, ao contrário, concentrou-se mais intensamente no sentido originário do Ser numa série de reflexões e cursos importantes, embora entre aproximadamente 1957 e 1962 tenha trazido o termo Ereignis a plena visibilidade pública, tematizando-o com mais frequência e falando menos do Ser, sem, contudo, negligenciar de todo a questão do Ser, como o demonstra a conferência "A Tese de Kant sobre o Ser" (1961). 5. contesta-se a leitura de comentadores que, apoiados sobretudo na conferência "Tempo e Ser" de 1962, sustentam que Heidegger teria subordinado o tema do Ser à noção de Ereignis desde o início dos anos 1960 até sua morte em 1976, uma vez que a questão do sentido do Ser constituiu o tópico central de seus Quatro Seminários com colegas franceses entre 1966 e 1973, nos quais poucas referências a Ereignis aparecem, o mesmo valendo para sua correspondência pública da última década de vida, incluindo carta pública que insiste, pouco antes de sua morte, ser a questão do Ser a única questão que jamais moveu seu pensamento. 6. depreende-se que Heidegger sempre considerou das Ereignis apenas outro nome — renovado e metafisicamente não contaminado — para o Ser (eon) tal como vislumbrado e nomeado por Parmênides e Heráclito na aurora do pensamento ocidental, preocupando-se, do início ao fim, em iluminar o Ser em sentido originário e fundamental, nomeado ao longo do caminho como Ser-Enquanto, Ser mesmo, Ser como tal, Ser como Ser, mas também com outros nomes ressonantes como Ereignis e [[lx>termos:l:lichtung|Lichtung]] que trazem à vista a mesma matéria de pensamento, formulando-se: Ser e Ereignis, o Mesmo (das [[lx>termos:s:selbe|Selbe]]), ainda que não necessariamente idênticos (das [[lx>termos:g:gleiche|Gleiche]]) em todos os aspectos num sentido lógico-formal. **III. Os Primeiros Escritos sobre o Ereignis: 1936-1944** **A. Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis), GA65 (1936-8)** 7. o manuscrito Beiträge, que recebeu tanta atenção nos últimos anos, lê-se como obra privada em elaboração, retrabalhando temas anteriores numa linguagem filosófica ousadamente nova e experimental (e por vezes estranha) que apresenta com destaque a palavra Ereignis, contendo lampejos de brilhantismo ao lado de passagens densas, crípticas e metáforas mal sucedidas. 8. a tradução inglesa de Emad e Maly, conquanto realização admirável diante da dificuldade da linguagem e sintaxe do manuscrito, frequentemente agrava as dificuldades do texto, sobretudo ao verter [[lx>termos:w:wesen|Wesen]]/[[lx>termos:w:wesung|Wesung]] — especialmente na fórmula Wesen/Wesung des Seyns — como "essential sway" e "essential swaying", afastando-se demasiadamente do sentido do termo Wesen tal como Heidegger o retoma em sua ênfase no sentido verbal originário, que melhor se traduziria como "presenciar" (anwesen), preferível a "essencing", "emerging" (que traduz propriamente [[lx>termos:a:aufgehen|Aufgehen]]), "unfolding" (melhor reservado para [[lx>termos:e:entfaltung|Entfaltung]]) e a formas adjetivadas como "essential happening", que introduzem a implicação indesejada de um acontecer, desdobrar ou oscilar não essencial do Ser-Enquanto. 9. a preocupação central reside em como Heidegger relacionou Ereignis a Beyng (das Seyn), constatando-se ao longo do manuscrito que, sempre que os dois termos são tratados conjuntamente, um elucida o outro e, mais significativamente, ambos são simplesmente ligados pela cópula "é", fartamente exemplificado nas numerosas citações em que o Ser-Enquanto presencia como o Ereignis, ou é diretamente identificado a ele. **B. Besinnung, GA66 (1938-9)** 10. no volume Besinnung, datado de 1938-9 e publicado em 1997, Heidegger prossegue os temas de Beiträge e sua compreensão do pensamento histórico-do-ser (das seynsgeschichtliche Denken), referindo-se repetidamente ao Ser-Enquanto como Ereignis e simplesmente identificando os dois termos em diversas passagens. **C. 'Die Überwindung der Metaphysik', GA67 (1938-9) e 'Die Geschichte des Seyns', GA69 (1938-40)** 11. no volume 67 da Gesamtausgabe, que reúne "A Superação da Metafísica", Heidegger refere-se ao "eco do Ser-Enquanto como Ereignis" e afirma explicitamente que Ereignis é o Ser-Enquanto (Ereignis ist das Seyn). 12. nos dois manuscritos reunidos no volume 69 — "A História do Ser-Enquanto" (1938-40) e "Koinon: Da História do Ser-Enquanto" (1939-40) —, encontram-se diversos epigramas reveladores que identificam repetidamente o Ereignis ao Ser-Enquanto e à verdade, culminando na pergunta "mas como 'é' o Ser-Enquanto? O Ereignis". **D. Über den Anfang, GA70 (1941)** 13. o manuscrito Über den Anfang, de 1941, publicado recentemente na Gesamtausgabe, antecipa dois volumes ainda por vir sobre o mesmo conjunto de temas, retomando as noções de "primeiro início" (der [[lx>termos:e:erste-anfang|erste Anfang]]) e "outro início" (der [[lx>termos:a:andere-anfang|andere Anfang]]) propostas em Beiträge, nomeando o pensamento grego mais antigo do Ser (como physis e aletheia) como o início primeiro, e o pensamento do Ser-Enquanto como Ereignis — emergente para o Dasein na atualidade — como o outro início, havendo, contudo, apenas um único início a ser pensado, isto é, uma única matéria fundamental de pensamento. 14. para nomear esse início unificador, Heidegger recorre à palavra arcaica die Anfängnis, que se traduz como "o Originar", identificando-a ao Ereignis e, por sua vez, o Ereignis ao Ser-Enquanto, de modo que o Ereignis "é" o Originar do início "é" o Ser-Enquanto. * a terminação -nis da palavra [[lx>termos:a:anfangnis|Anfängnis]], semelhante à de Ereignis, sugere a impessoalidade pura do originar temporal, afastando decisivamente qualquer sentido onto-teológico de agência divina ou de origem subjetiva que a palavra [[lx>termos:a:anfang|Anfang]] ainda poderia sugerir, reforçando a hipótese de que Heidegger recuperou esse termo arcaico já tendo em mente a palavra Ereignis. **IV. Os Escritos Tardios sobre o Ereignis, 1957-1962** 15. nos últimos anos da década de 1950 e início da de 1960, o tratamento heideggeriano do Ereignis torna-se mais sereno, maduro e ameno, abandonando a retórica extravagante e o tom quase apocalíptico dos escritos vinculados a Beiträge, passando a caracterizá-lo como a "mais suave das leis" que permite o recolhimento de cada ente naquilo que propriamente é — caracterização notavelmente semelhante à antiga descrição heideggeriana do Ser como Logos primordial —, ainda que nos escritos tardios ele seja menos cuidadoso em distinguir consistentemente entre a matéria fundamental do pensamento (das Seyn / das Seyn selbst) e o das Sein como die [[lx>termos:s:seiendheit|Seiendheit]], entidade, preocupação própria da metafísica, deixando frequentemente ao leitor a tarefa de discernir, pelo contexto, a qual sentido se refere. **A. 'Der Weg zur Sprache' / 'O Caminho para a Linguagem' (1959 GA12)** 16. na conferência "O Princípio de Identidade" (1957), Heidegger já discorrera longamente sobre o Ereignis, mas é na conferência "O Caminho para a Linguagem", pronunciada em Munique e Berlim em janeiro de 1959, que a questão da relação entre Ereignis e Ser se coloca de modo mais agudo, sendo a difundida tradução inglesa de Peter Hertz, na coletânea On the Way to Language, tão fundamentalmente imprecisa neste ponto específico que terá contribuído para grave incompreensão da posição heideggeriana. 17. na Seção III dessa conferência, Heidegger caracteriza o Ereignis como irredutível — nada mais fundamental a que pudesse ser reconduzido ou por meio de que pudesse ser explicado —, afirmando que o próprio das Sein necessita do Ereignis para alcançar, como presença, o que lhe é próprio, sendo decisivo notar que o termo das Sein aparece entre aspas nessa passagem, sinal de que Heidegger não se refere ao Ser mesmo, mas ao "ser" tal como longamente compreendido pela metafísica, isto é, à entidade (die Seiendheit). * a tradução de Hertz distorce essa passagem ao omitir as aspas reveladoras e ao verter das Sein como "Being itself" ("o Ser mesmo"), invertendo por completo o sentido da afirmação heideggeriana. 18. em nota de rodapé subsequente, Heidegger esclarece que o pensamento deve desabituar-se da opinião de que aqui se pensaria "o ser" como Ereignis, pois o Ereignis é essencialmente outro, mais rico do que qualquer determinação metafísica possível do ser, podendo, todavia, o Ser ser pensado, quanto à sua proveniência essencial ([[lx>termos:w:wesensherkunft|Wesensherkunft]]), a partir do Ereignis — evidenciando-se, mais uma vez, que "das Sein" entre aspas equivale simplesmente à entidade metafísica (die Seiendheit), distinção também obscurecida na tradução de Hertz pela omissão da palavra "metafísica". 19. na sentença seguinte dessa mesma nota, Heidegger libera a palavra das Sein das aspas limitadoras, liberando-a para seu sentido originário e fundamental: pensar o Ser de modo não metafísico é pensá-lo quanto à sua proveniência do presenciar (Wesensherkunft), eco de sua caracterização anterior (1941) do Ser-Enquanto como o Originar (die Anfängnis), concluindo-se que Ser e Ereignis podem, então, ser pensados conjuntamente: Ser/Ereignis origina (dá, concede, deixa, permite) os entes em sua entidade — Ser e Ereignis: o Mesmo. **B. 'Zeit und Sein' / 'Tempo e Ser' (1962)** 20. proferida em 31 de janeiro de 1962 na Universidade de Freiburg, seguida de seis sessões de seminário em Todtnauberg no mesmo ano, cujos protocolos foram redigidos por Alfred Guzzoni e revisados por Heidegger, a conferência "Tempo e Ser" tenta esboçar o que teria sido a terceira seção nunca escrita da primeira parte de Ser e Tempo, reconhecendo o próprio Heidegger tratar-se apenas de uma série de indicações, não constituindo, do ponto de vista atual, reflexão filosófica plenamente satisfatória, dados os termos principais não esclarecidos e a linguagem particularmente críptica. 21. destaca-se, para os fins da investigação, a afirmação de que "o único propósito desta conferência é trazer à vista o Ser mesmo [das Sein selbst] como Ereignis", conclusão que seria decisiva não fosse o próprio Heidegger adverti-la de modo insuficientemente esclarecido, advertindo que o "como" nessa afirmação é particularmente "traiçoeiro", pois o hábito metafísico de pensamento construiria reflexivamente o que se segue ao "como" como mero "modo" do ser, o que subordinaria indevidamente o Ereignis ao ser como "conceito principal" — o que certamente não é seu sentido. 22. a raiz da dificuldade reside no uso incerto da palavra das Sein: nas passagens em que se afirma que o Ereignis "dá" ou concede das Sein (Es gibt Sein), Heidegger parece referir-se ao ser como entidade (die Seiendheit), mas, diferentemente de "O Caminho para a Linguagem", não emprega aqui aspas que sinalizem essa limitação de sentido, gerando incerteza; por outro lado, jamais se encontra em toda a obra heideggeriana — precoce, intermediária ou tardia — a afirmação de que o Ereignis dá ou concede o Ser mesmo (Es gibt Sein selbst), de modo que, esclarecida a terminologia, pode-se afirmar: Ereignis como Es gibt dá (concede, permite, habilita) a entidade; mas Ereignis e Ser mesmo: o Mesmo. 23. essa leitura reforça-se pelo protocolo do quarto seminário sobre o texto da conferência, realizado meses depois em Todtnauberg, no qual se aborda a aparente contradição destacada, respondendo-se — presumivelmente pelo próprio Heidegger — que o nome "o Ser mesmo" sempre teve significação especial em seu pensamento, citando-se a "Carta sobre o Humanismo" (1947), na qual, embora a palavra Ereignis não seja mencionada, o termo "'o Ser mesmo'" já nomeia o Ereignis. 24. observa-se, no protocolo, ser precisamente questão de ver que das Sein, ao vir à vista como Ereignis, desaparece como das Sein, formulação críptica que se esclarece ao afirmar-se: é precisamente questão de ver que, se é possível trazer à vista o Ser mesmo como Ereignis, então não há contradição em também afirmar que o ser enquanto entidade metafísica recua em visibilidade e importância para o pensamento. 25. tal leitura encontra apoio em resposta escrita de Heidegger a pergunta de Joan Stambaugh, no verão de 1970, sobre se "o Ser mesmo deveria ser pensado como a Apropriação [Ereignis]", respondendo Heidegger que "o Ser mesmo" significa que a Apropriação (Ereignis) já não pode mais ser pensada como "Ser" em termos de presença, não nomeando "Apropriação" outra maneira ou época do "Ser", de modo que pensar "o Ser mesmo" significa, ao mesmo tempo, que todo pensamento metafísico sobre a entidade deve recuar. * glosa-se essa resposta assim: o Ser mesmo significa Ereignis; o Ser mesmo e o Ereignis não podem ser pensados em termos de entidade; o Ereignis não nomeia outra forma histórica de entidade; pensar o Ser mesmo significa que todo pensamento metafísico sobre a entidade deve recuar em importância. 26. conclui-se que a conferência "Tempo e Ser" não revela ruptura radical no pensamento heideggeriano, mas apenas reformulação radical da matéria fundamental do pensamento em termos de Ereignis como [[lx>termos:e:es-gibt|Es gibt]], sendo a tarefa do pensamento, por essa nova linguagem, colocar à vista o que o pensamento metafísico simplesmente não pôde: o puro apropriar, doar e deixar do que aparece — tarefa que, como o próprio Heidegger observa ao final da conferência, não é mais do que "pensar o Ser sem consideração à metafísica". **Conclusão: Traduzindo Ereignis** 27. formula-se tacticamente o resultado alcançado: Ser mesmo (das Sein selbst): Ereignis: o Mesmo (das Selbe), dizendo-se, sucinta e elegantemente, que o Ser mesmo caracteriza o Ereignis e o Ereignis caracteriza o Ser mesmo, sendo o Mesmo na medida em que ambos nomeiam a matéria fundamental do pensamento — o aparecer temporal-espacial, finito e negativado dos entes em sua entidade, tal como manifesto significativamente pelo Dasein na linguagem —, ainda que, na medida em que cada nome possa enfatizar aspecto particular da Sache des Denkens, não seja necessário afirmar sua identidade em todos os aspectos (das [[lx>termos:g:gleiche|Gleiche]]). 28. quanto à tradução de Ereignis no sentido fundamental de que Heidegger tantas vezes tratou, impõe-se reconhecer que a tradução própria é — o Ser mesmo, tendo Heidegger meditado uma vida inteira sobre o que foi primeiramente nomeado no Ocidente por Parmênides e Heráclito como eon, o Ser, permitindo-lhe, na atenção prestada, vir de novo, renovado, no nome Ereignis, de modo que, retida essa compreensão, qualquer das opções ponderadas de tradução oferecidas ao longo dos anos pelos comentadores e tradutores há de servir. {{tag>Capobianco Sein Ereignis Lichtung}}