====== O POSITUM DA TEOLOGIA (2001 §1 1B) ====== //CAPELLE, Philippe. Philosophie et théologie dans la pensée de Martin Heidegger. Nouv. éd. rev. et augm ed. Paris: les Éd. du Cerf, 2001.// * A teologia se distingue da filosofia por seu estatuto de ciência ôntica * A diferença entre teologia e filosofia não é relativa, mas absoluta, pois decorre da oposição entre ciência ôntica e reflexão ontológica * A filosofia se ocupa do ser enquanto ser, ao passo que a teologia trabalha sobre um ente determinado * Essa determinação ôntica define a especificidade disciplinar da teologia e o princípio de sua edificação * A noção de Positum como fundamento próprio da teologia * Toda ciência ôntica se estrutura a partir de um ente que lhe é próprio, seu Positum * A teologia se constrói integralmente a partir desse Positum e não a partir de princípios externos * A positividade da teologia não pode ser compreendida como simples dado empírico ou histórico * Rejeição do cristianismo histórico como Positum da teologia * O Positum da teologia não é o cristianismo enquanto acontecimento histórico-mundial * A teologia pertence ela mesma a esse acontecimento e não pode ser delimitada externamente pela história das religiões * O historiador das religiões não está em posição de fornecer os conteúdos próprios da teologia * Rejeição da consciência histórica do cristianismo como Positum * O Positum da teologia não é a consciência de si do cristianismo em sua manifestação na história universal * A teologia se inscreve antes naquilo que torna possível a existência mesma do cristianismo * O saber teológico não deriva simplesmente de um dado histórico-cultural já constituído * Necessidade de um outro lugar originário para a constituição do saber teológico * A constituição da teologia como saber exige um lugar mais conforme ao seu princípio de elaboração * Esse lugar deve ser anterior à objetivação histórica e cultural do cristianismo * Trata-se de um âmbito originário que fundamenta a possibilidade do cristianismo enquanto tal * Primeira definição positiva da teologia * A teologia é definida como saber conceitual * Esse saber concerne ao que faz do cristianismo um acontecimento originariamente histórico * Tal saber é denominado saber da cristandade, Christlichkeit * Distinção decisiva entre cristianismo e cristandade * O Positum da teologia não é o cristianismo, Christentum * O Positum é a cristandade, Christlichkeit * A cristandade fornece a forma primeira do saber teológico * Origem e uso do conceito de Christlichkeit * O termo Christlichkeit não é criado por Heidegger * Ele é encontrado já em Kierkegaard * O conceito constitui o núcleo da obra de Franz Overbeck sobre a cristandade da teologia moderna * A crítica de Overbeck como matriz conceitual * Overbeck estabelece uma antinomia entre os escritos evangélicos e pastorais do período apostólico e a teologia patrística * Os escritos apostólicos são determinados exclusivamente pela orientação cristológica das comunidades primitivas * A teologia patrística é considerada contaminada por categorias conceituais gregas e latinas * Segunda antinomia formulada por Overbeck * A escatologia do cristianismo primitivo é oposta ao cristianismo histórico * O cristianismo histórico é interpretado como sucessão de adaptações culturais empobrecidas * O conceito de Christlichkeit visa preservar o impulso originário da proclamação evangélica * Apropriação heideggeriana da Christlichkeit * Heidegger retoma essa esfera semântica como decisiva * A fé cristã deve ser compreendida como isenta de toda conceptualidade greco-romana * Essa exigência decorre do modo de ser próprio da fé * A fé como modo de existência do Dasein * A fé é definida como modo de existir do Dasein * Ela não resulta de uma analítica existencial prévia * Ela surge a partir do que se revela com base na possibilidade do Dasein * Consequências metodológicas dessa definição * A fé não pode ser deduzida de estruturas existenciais neutras * Ela se compreende a partir do conteúdo crido * A revelação funda o modo de existência crente * Retomada da crítica luterana aos fundamentos da teologia * Heidegger retoma a advertência de Lutero sobre os fundamentos da teologia * A crise dos fundamentos exige revisão dos conceitos fundamentais * A teologia se vê constrangida a repensar sua base conceitual * Crítica à dogmática tradicional * A dogmática repousa sobre fundamentos não originados da fé * Seu aparato conceitual recobre e deforma a problemática teológica * A teologia foi exercida como ciência do homem e de Deus, e não como ciência da fé * A usurpação antropológica na teologia * A teologia incorporou definições antropológicas herdadas da antiguidade * A definição do homem como animal racional foi assumida sem crítica * Isso gerou uma antropologia teológico-cristã inadequada * Rejeição das essências do homem * Heidegger recusa toda determinação essencial do homem * São rejeitadas tanto a definição aristotélica quanto a teológica * As dualidades corpo-alma, pecado-graça e natural-sobrenatural não respeitam a unidade humana * Centralidade da facticidade * A questão da pertença do homem à natureza não é eliminada * Ela deve ser pensada a partir da facticidade originária * A facticidade designa o ser-factual do Dasein enquanto totalidade concreta * O Dasein não funda uma nova antropologia * O conceito de Dasein não visa instaurar uma nova antropologia filosófica * A antropologia é caracterizada como domínio conceitualmente confuso * O Dasein indica antes um modo de relação a si e ao ser * O Dasein como abertura ao ser * O Dasein se distingue por ter seu próprio ser em jogo * Essa estrutura implica abertura e compreensão do ser * O mundo é compreendido como conjunto de possibilidades * A revelação cristã como conteúdo da fé * O que é dado a crer é o Cristo * O Cristo é identificado como o Deus Crucificado * Esse ente é primariamente revelado apenas à fé * A centralidade da Cruz * A revelação cristã é cristológica * A divindade do Cristo é revelada na Cruz * A teologia deve tornar-se integralmente cristologia e estaurologia * A teologia como teologia da Cruz * A teologia é chamada a realizar-se como teologia da Cruz * A revelação não é transmissível como saber histórico * Ela só pode ser conhecida a partir da fé * Contemporaneidade entre fé e revelação * A comunicação da revelação implica participação no evento revelador * O crente torna-se participante do que é revelado * Essa participação possui uma dupla estrutura ativa e passiva * A fé como renascimento * A fé é definida como renascimento existencial * O renascimento é modo histórico de existir do Dasein crente * Ele se inaugura com o evento da revelação * Exposição radical do existente à revelação * A fé transcende todo condicionamento humano * Ela não é saber teórico, mas modo de existir * A fé só se compreende enquanto fé * A fé como evento * A fé não apenas acolhe o evento de salvação * Ela é o próprio evento * O crente torna-se evento da revelação no presente * Definição final da fé * Crer é existir na inteligência crente da história revelada * Essa existência se cumpre com o Crucificado * Somente na fé a teologia pode exercer legitimamente sua cientificidade {{tag>Capelle teologia}}